Carácter e processo de Decisão

."A tomada de decisão humana segue três processos básicos. Primeiro, percebemos a situação. Segundo, usamos o poder da razão para calcular se tomar esta ou aquela acção é do nosso interesse de longo prazo. Terceiro, usamos a força de vontade para executar a decisão" (in "O animal social" de David Brooks)

Nestes processos, sofremos a influência, como já se sabe, do Consciente e do Inconsciente. E a nossa experiência, o nosso meio, a cultura pessoal (refiro-me à herança cultural familiar e a "memes" culturais herdados de fora do meio familiar e também do seu interior), as necessidades do momento...e mais factores podem influenciar a decisão. Mas pode haver decisão e nunca haver execução de uma acção.

A percepção, o primeiro passo, não é um mero meio de interiorização. É um processo de raciocínio e que exige habilidade. Há pessoas que percebem, que têm mais habilidade, melhor do que outras, e desenvolveram com o tempo essa capacidade decisiva. As pessoas com bom carácter desenvolveram uma capacidade distinta das que o têm "mau", ou pior, perante a maioria das situações. Um exemplo clássico: alunos que entram na sala sem respeito pelo professor, aos gritos e sem a noção do momento de início de uma aula, menos ainda com a noção de deferência para o professor. Outros, porém, sabem dever essa deferência, e não entram numa sala em alvoroço, muito menos insultarão um professor, ou o desrespeitarão. Os dois tipos de carácter, podem ficar irritados, ou sentir-se contrariados, mas uns reagirão no momento, sem a noção do lugar e da pessoa a quem devem consideração, outros podem manifestar-se, mas apenas depois da aula. Que diferença leva a comportamentos tão distintos? O que os determina? O Inconsciente, que se formou com bases culturais distintas, comunicando com o Consciente e fazendo agir consoante uma ou outra forma. Começa, este processo, na percepção, inteligente, ou menos consciente.



Há milhões de inter-relações que formam o carácter. E a sociedade tem um papel determinante. Um carácter não se forma sozinho. Mais uma vez Aristóteles: "adquirimos as virtudes por primeiro as exercermos" e "só somos felizes na Polis".

Mas há que notar que nem todos empreendemos as acções, e muitos nem as decidem. Por mais estranho, muitos de nós temos a boa percepção de uma pessoa, ou de um acontecimento, de um lugar, ou circunstância. Mas ou nem tomamos uma decisão no sentido de uma acção, ou a tomamos, mas não executamos.

Confesso uma manir minha, uma espécie de processo mental, ou um processo preferencial: só devemos, ou só podemos (dar a nós mesmos o prémio de...) tomar boas decisões. Nunca devemos decidir, apenas com a ideia de que é melhor decidir, ainda que mal, do que nada decidir. Tivémos um político, recente, que infelizmente tinha esta mania, que me provocava alergias...era, segundo ele, sempre melhor decidir, ainda que mal. Absurdo!

Com isto, justifico que, embora eu prefira sempre actuar, assumir e ir em frente, e grande parte da minha experiência pessoal assim o confirma, e sofro consequências, mas ao menos sei que segui caminho, e não fiquei com a dúvida, nascida de uma insegurança que não aprecio e rejeito, de não saber o que sucederia, se tivesse tomado o caminho da acção.

Mas justifico, e legitimo, por mim, que muitas vezes não se deve decidir mesmo. O problema é mesmo saber quando. E como. E daí a enorme importância do primeiro passo: perceber e avaliar. Essencial.

Sugiro um pequeno exercício de reflexão: de onde nos vem a expressão "não tem carácter"? E há outras associadas...


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