29.4.10

No país dos pategos?


Não sei se me cansei da política, mas parece que a política se cansou de mim. Vou, por isso, esperar que dentro de semanas, enfim, se tivermos paciência ainda para eles, meses, José Sócrates Pinto de Sousa e Pedro Passos Coelho, resolvam 'aquele' problema que já tem centenas de anos e ainda julgam que é 'de agora'.

O problema é estrutural, dizem. É de organização, também se diz. É devido à crise da Justiça, da Educação, ou ...da 'raça'?

Salazar, esse milagreiro para alguns, ainda, foi a criatura mais sinistra, estúpida e estupidificante dos últimos cem anos. E nisso, bem que levava a palma a muitos que o antecederam e sucederam, até hoje. Hoje, temos um corredor...que a qualquer custo lhe quer ganhar em estupidez: Sócrates. E veremos se lhe ganha em teimosia, arrogância e persistência na mediocridade.

Palavras fortes e pouco elegantes...oh! Pois...e não estamos fartos de provincianos e provincianismos ridículos, umas vezes a favor de um anacronismo católico embrutecedor, outras a favor de um pseudo progressismo morto e enterrado há mais de vinte ou mesmo trinta anos.

O problema português foi e é sempre o mesmo: um povo que não quer pensar! Não quer saber. Não tem interesse em nada e coisa nenhuma. O resto...viria por acréscimo e processo natural.

Nos anos que antecederam a Guerra de 1939-45, países como a Suécia, a Noruega, a Finlândia e a própria Suíça não sabiam se um dia teriam futuro. Economicamente viável. Havia fome nesses países. Passaram por recessões e por humilhações infligidas pelo nacionalismo e imperialismo Alemão. Mas nunca deixaram de acreditar numa coisa muito fundamental, uma pedra basilar de um povo que acredita em sim, mesmo que desconfie dos que administram o seu país: Educação, informação, conhecimento, cultura!

E nós? Nós acreditamos no nacional populismo. Temos uma das melhores cozinhas da Europa e do Mundo ( e é bem verdade), temos o melhor clima ( e não é verdade, pois o clima mediterrânico concentra a época das chuvas na altura do ano em que as plantas estão em dormência, um contra-ciclo que não favorece nem agricultura nem vegetação natural, apenas tendo como vantagem o número de horas de sol), a melhora agricultura (esta uma imensa falácia, pois temos no geral solos muito pouco adequados à produção agrícola, mas quem não diz que os nossos produtos são sempre os melhores?), aliás uma agricultura sempre miserável e pouco evoluída (ainda hoje ha cursos de engenharia agrícola onde não existe uma só 'cadeira' de marketing... por exemplo e onde nem há animais nas referidas escolas), que no tempo de D. Carlos (que uns ridículos ilustres, pretendem 'refabricar' a sua imagem e idolatrar o Monarca que era melhor como artista e investigador oceânico, do que como governante, e que se esqueceu do seu país, que via como um 'quintal' privado por onde se passeava, ao sabor do pitoresco que Ramalho Ortigão e Eça de Queirós consideravam como sinónimo de pobreza e miséria...um povo que no início do Século XX ainda vivia em grande parte de agricultura de subsistência...triste e decadente...) era uma excepção europeia pelo atraso económico, social e ..Cultural!

Estamos a falar do país mais antigo da Europa! Que nunca amou o seu povo e cujo povo, esse, nunca soube o que era amar o seu país! Porque maltrata o seu espaço comum, social, natural, e, de novo, cultural.

Estamos a falar de um país que tem uma das maiores zonas económicas exclusivas de oceano rico e produtivo, que é o terceiro em consumo de peixe a nível mundial e que o tem de comprar ao seu vizinho que, não consumindo quase peixe, à escala internacional, tem a segunda frota pesqueira do mundo! E de um país que permitiu o abate de embarcações de pesca, cedendo a uma Europa em posição de força, para se encontrar na dependência de outro.

De um país que tem de comprar mais de três quartas partes da sua energia, mas que recusa   a discussão e estudo da hipótese do nuclear, porque umas mentes brilhantes, que incluem o custo de desmantelamento das centrais nucleares, dizem ser mais cara essa fonte de energia, mas que não o fazem em relação a nenhuma outra forma de produção energética nem industrial...E que deliberadamente omitem o custo mais elevado da produção energética dita limpa (e que não o é...) mas que já se começou a pagar uns belos anos antes, na factura de cada um de nós, antes dessas mesmas fontes 'não poluentes' (omitem o aspecto que é produzir e poluir painéis solares por exemplo...) começarem a produzir. Mas ...interessante, se alguém pretender fazer micro-geração de energia no seu terreno ou negócio, a monopolista, ou oligopolista EDP não compra ou impõe regras e dificuldades...

De um país enganado todos os dias, desde a hora a que se levanta, até à hora em que se 'pasta' no sofá a ver novelas (umas quantas? quinze???) pelos seus governantes, socialistas, onde ainda diz ir votar mais...

Salazar, um homem provinciano e sem visão, retrógrado e anacrónico, embrutecido por uma religião obscura com um passado criminoso e cruel, que a bem do medo de lhes faltar um 'deus' para adorar e a quem atribuir sucessos e vicissitudes...levou o país ao mais profundo das suas cavernas sociais e culturais.

Sócrates, leva e levará ainda, enquanto o permitirem, o país a uma situação de miséria próxima da da Primeira República...e a níveis de corrupção que até a espanhóis vencerá (recordo que Espanha é o país do mundo com mais autarcas em investigação por processos de corrupção, rede de influências e abuso de poder...mas ao menos irão julga-los, coisa que por cá, nunca acontecerá, pois haverá sempre um amigo para mandar destruir provas e um Presidente mais preocupado com os seus princípios, algo provincianos também, do que com o país em si mesmo).

Este país é único e só pode ser...virtual! Porque foi feito de gente brava e lutadora que baixou os braços e se deixou aculturar...e manipular.

Um país que acabou de comemorar uma Liberdade que, efectivamente, não tem! (quem é livre é culto e pensa por si)

Se este fosse um país de gente livre ou capaz de o vir a ser, de gente interessada e participativa, o '25 de Abril' nunca teria sido um Golpe de militares, mas de civis. Do Povo!

24.4.10

O mesmo sonho...


Mais uma. Ali estava ele, de novo.
Olhava à volta, tentava ver bem os detalhes,
As caras, todas as caras, mais as femininas.
Escrutinando bem, os sinais que lhe surgissem.
Mas não a podia identificar assim...

Mais uma estação de Metro. Apenas.

Mais gente, mais pessoas, que nem entravam na sua história,
Mas qualquer uma podia dela ser parte.
Afinal basta um passo, feito sorriso, achava ele.
Um passo só, e duas pessoas passam a ser parte uma da outra.
Olhava, a estudar os sinais nas faces,
Onde julgava um dia poder voltara vê-la.
Volta a ver quem nunca vira?
Só tinha uma imagem dentro de si.
Galgava as catacumbas da sua memória,
À procura de restos dessa imagem de outrora.
Um tempo que não fora muito antes deste.
De onde lhe vinha essa imagem?
Chega o comboio, do Metro, e entra.
Novamente a estudar sinais e caras.
À procura, sempre à procura.
Nenhum sinal lhe era dirigido.
De repente, de um recanto dessa sua memória,
Que todos os dias tentava exercitar,
Surge-lhe bem fresca, a imagem. A imagem dela...

Abre os olhos, o sol a bater-lhe na cara.
Nesse Seu banco de jardim.

Ao seu lado passava uma criança, pela mão da sua avó,
Olhou-o com ar assustado, com mão no nariz,
‘Avóoo!, este senhor dorme sempre aqui no jardim?’

Teria de adiar a memória e terminar o sonho, na noite seguinte, no mesmo banco, naquele jardim...

A nossa profunda Ignorância


24 de Abril de 1990: O Telescópio Espacial Hubble foi lançado no Espaço, pela Space Shuttle Discovery.

O Homem anda há séculos, desde que sabe, já na Antiguidade Clássica, com os Gregos (hoje uma sombra da civilização que já foram, como tantas outras: Árabes, Chineses, Portugueses, não digo espanhóis que, verdadeiramente nunca foram nada mais do que exterminadores do mundo dos outros...sempre que se perde o domínio de um conhecimento ou tecnologia de importância universal, perde-se a hegemonia e a relevância histórica e respeito internacional. Mas lembro que tudo é relativo na História: Portugal esteve em Malaca, Malásia mais anos do que os EUA têm de existência...por exemplo), a tentar conhecer-se a si e aos outros. A tentar conhecer o Universo e a percebe a sua verdadeira dimensão. A tentar descobrir se estamos sós ou acompanhados, muito acompanhados, neste Universo imenso e fantástico, mas assustador.

Há século que andamos a tentar saber mais do Universo. E há décadas que insistimos, mas talvez não o suficiente, na procura de condições e formas de vida fora do nosso planeta.

É certo, absolutamente certo e rigorosamente científico, que não podemos estar sózinhos num Universo onde existem, sabemos, vemos, nomeamos, milhões e milhões de estrelas que, tal como a nossa, só podem ter massas e planetas em óbita. E que nesses planetas ainda e talvez sempre desconhecidos, só pode haver vida em algum lado. Mas ainda não conseguimos saber. E provavelmente nenhum dos humanos hoje vivo, chegará a esse conhecimento. Muitas coisas o impedem, desde já a tecnologia, que nos parece muito avançada mas, que se sabe, ainda muito rudimentar.

Andamos há cerca de dois séculos, a tentar conhecer melhor o cérebro humano. Digo dois séculos que é mais ou menos o tempo da Psicologia como ciência ou conhecimento autónomo. E as outras ciências da mente, neurologia, neurociências em geral, termo que, provavelmente ainda evoluirá, ainda são mais recentes.

É certo que em pouco mais dois milénios (e em dez milénios, o ser humano ele mesmo com evoluções sociais e técnicas, como a produção de alimentos, a sedentarização, que permitiu a estabilização de agrupamentos grande de pessoas, evitando entre outras coisas guerras e contágios de doenças entre tribos...) a ciência médica fez com que a esperança de vida média de um humano passasse de vinte e cinco anos, para cerca de setenta e cinco anos. Um aumento de trezentos por cento.

Mas é impressionante como ainda hoje sabemos tão pouco disto tudo e tão pouco de nós mesmos. Pouco...

...da nossa mente, antes de mais.
...do nosso próprio mundo e dos seus equilíbrios e desequilíbrios naturais.
...do nosso mundo natural! Há extensas zonas geográficas ainda tão mal conhecidas, do ponto de vista biológico e até sociológico!
...das nossas relações com os outros (já pensaram quão pouco se sabe cada um de nós, do sexo oposto?)
...do ponto de vista sociológico, ainda não se encontrou um sistema social e político justo, eficaz, menos efémero, mais estável e mais compensador!


Muito se evoluiu e é tão impressionante a nossa imensa ignorância.

E queremos nós ter sucesso nas relações humanas...com gente, tão próxima, mas tão distante de nós!

23.4.10

A Psicologia do Tempo IV: Uma perspectiva profissional


Houve épocas em que a 'medida' do tempo era efectuada pela perspectiva dos acontecimentos, eventos. Quando a medida do tempo não dispunha do rigor dos dias de hoje, com relógios, e preocupação de pontualidade...

...nessas épocas, antes do século XVIII, e mais recuadamente ainda, o tempo era medido pelos acontecimentos diários e a sazonais: pelo nascer do sol, pela hora da refeição (que podia implicar passar-se um dia inteiro na busca de alimentos), a hora da oração, o pôr do sol, o cair da noite, o tempo da fogueira, da dança colectiva, da maternidade, da mudança de lua, as estações do ano, o de se produzir uma bilha de barro, ou fabricar uns sapatos, etc.

Mais tarde, o relógio trouxe outra perspectiva e outras necessidades. As horas do dia determinavam os acontecimentos. Se antes os estabelecimentos comerciais abriam de acordo com as horas de sol e fechavam ao crepúsculo, ou ainda assim quando os sues propietários entendiam, com o relógio, pessoal, da igreja, comunal ou ainda mais tarde, como os de instalações fabris e as suas sirenas, a forma como se via e aproveitava, ou consumia o tempo, mudou radicalmente.

Se antes um sapateiro, produzindo à mão os seus sapatos, ia-o elaborando ao seu ritmo e contava o número de unidades produzidas e não o tempo de as produzir, em época de industrialização o tempo de produção (cientificamente controlado pelo precursor a gestão 'científica', Taylor) era o que mais contava. Nesta época mais recente, já não se pagava a unidade produzida, mas o tempo do operário e da fábrica. A partir desta mudança surgiram as ideias de Karl Marx, que defendia que o tempo dos operários, a sua força (uma confusão entre tempo, força de trabalho e o que efectivamente se pagava...) nunca eram completamente compensados. O erro de Marx foi não entender a diferença entre o Tempo na perspectiva dos acontecimentos e o 'novo' tempo na perspectiva das suas unidades medidas.

Tomemos um exemplo moderno. Dois advogados trabalham hipoteticamente no mesmo processo ou em processos em 'tudo' idênticos. Um deles preocupa-se com o resultado a obter independentemente do tempo para os obter. O outro preocupa-se com os prazos, o tempo para obter resultados para o seu cliente. Nada nos diz que os resultados não sejam idênticos, equivalentes, ou mesmo perfeitamente iguais.

O que se preocupa com o resultado, leve a obte-lo, semanas ou meses, ou anos...vende resultado. Produto. Não vende tempo. 

O advogado que se preocupa com o tempo para a obtenção dos mesmos, vende tempo. Não vende propriamente resultado. Mas obtém-no na mesma, ou não seria pago pelo seu cliente. 

A diferença é gritante e é a diferença da Modernidade, custe-nos ou não entendê-la. Hoje, todos nós vendemos tempo. 
Mas por paradoxal que pareça, nem todos temos esta noção. 

Ora se vendemos tempo...porque pensamos tão pouco numa perspectiva da vida, do nosso tempo na vida...pelo Tempo?


A Psicologia do Tempo III: O nosso tempo


Uma reacção humana demora 250 milisegundos, um quarto de segundo. Ou seja, a luz que vemos, uma luz que se acenda, só a percebemos um quarto de segundo após ela ter sido acesa. Se for um som, a nossa reacção ainda será mais lenta. 

Mas esta nossa limitação, comparada à velocidade de resposta de um computador moderno actual (no futuro será ainda maior a diferença), uma diferença que é de 750 milhões (a favor do computador, pois), tem implicações mais interessantes: um sorriso que vemos na cara de alguém, foi expresso um quarto de segundo antes. Mas os nossos processos mentais internos não são todos tão lentos. O que implica que o nosso raciocínio perante um sorriso, ou uma cara fechada, não tem o mesmo tempo de reacção. Este desfasamento...tem implicações, mesmo de fracções de segundos, na nossa relação com os outros.

Este é um aspecto interessante do tempo e da nossa relação com ele. E da nossa perspectiva do tempo. Outro aspecto interessante é ...devida a esta resposta 'lenta' da nossa mente, um quarto de segundo é bem mais significativo do que podemos imaginar, uma parte do nosso pensamento vive no passado...exactamente. Ora imagine-se as implicações para quem ainda mais insiste em viver de passados, tendo que re-escrever essa memória, esse passado tantas e tantas vezes. Porque a mente funciona como que em camadas e umas, memórias, que a cada momento já as estamos a escrever, com a tal diferença de quarto de segundo nas nossas respostas mentais, a sobreporem-se umas às outras.

Viver em função do presente ou do futuro é bem diferente. É como puxar pelas nossas reacção a cada instante.

Uma observação curiosa: em épocas remotas, os homens e mulheres viviam sempre em função do presente. Porque as ameaças à sua vida eram constantes e reais. A ameaça de um tribo rival, a de um elemento da mesma tribo que cobiçava a sua companheira, ou a sua função de chefe da tribo, ou ameaças da natureza, cataclismos, doenças etc. Se encontrassem uma semente de trigo por exemplo, come-la-im em lugar de a semearem.

Milhares de anos mais tarde, já se misturavam as perspectiva do tempo. Já se preparavam as pessoas para se protegerem, de ameaças de povos rivais, construindo paliçadas, armando-se melhor, aperfeiçoando técnicas e tácticas de guerra. Semeando já algumas plantas e criando animais. Se encontrassem uma semente de trigo, podiam ou come-la nesse instante, ou optar por a semear. Dependia da fome e da ocasião e local (se estavam ou não num local com reservas alimentares).

Mais tarde ainda, as sociedades mais organizadas, digamos pela Idade Média (erradamente tida como uma época histórica cinzenta da criação e evolução humanas, história assim escrita por força da Igreja Católica, numa época em que o Vaticano cometeu as maiores atrocidades e crimes contra a humanidade, comparáveis a um Hitler, mas que hoje se escamoteia...e época que interessa denegrir porque as ideias e a força do Catolicismo ainda não eram seguros e universais...) já os Homens viam o Tempo na perspectiva mais actual, com o uso dos actuais calendários, com a perspectiva mais focada no futuro.

E hoje, no geral, todos temos mais a perspectiva do tempo, visto pelo futuro. Por isso nos protegemos mais, nos cuidamos mais em termos de saúde. Por isso planificamos e fazemos projectos. Mas ainda assim nada destas perspectivas são puras e únicas. 

Pensamos todos num misto das várias perspectivas. Passado, presente e futuro.
Sendo, claramente, o balanço da mistura o que conta e a importância de uma perspectiva sobre as outras o que nos vai marcar e trazer mais ou menos sucesso, mais ou menos felicidade.

Viver mais em função do presente tem implicações muito diferentes do que viver mais em função do futuro. É, por exemplo, planificar menos, é, por exemplo, ser mais impaciente em esperar por acontecimentos que não dependem inteira ou totalmente de nós. Mas viver muito em função do futuro é, também, em parte, não fazer no momento o que se deve...

A ponderação ideal tem de ser encontrada por cada um, de acordo com os objectivos que pretende, de acordo com o que somos capazes.

21.4.10

A psicologia do Tempo II



"Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado".  George Orwell, 1984)
"Todas as nossas escolhas significativas, todas as decisões que tomamos, são determinadas pela nossa percepção do tempo. Esta é a mais influente força nas nossas vidas, ainda que raramente reflictamos sobre ela." Philip Zimbardo, Time Paradox.
Todos os dias tomamos dezenas de decisões que são depois parte da nossa memória, sobre o nosso passado (a que horas despertámos, o que vestimos, o que comemos, com quem estamos, onde vamos, com quem vamos, etc.). No seu todo, isto vais constituir o que nós fomos, o que somos e o que viremos a ser. 

Hoje foi um dia mais difícil para mim. Tive de o passar à espera da decisão, ou resposta de outras pessoas. Que não chegou. Ao final da tarde, tive um momento de genuína revolta, incompreensão e raiva. Nos últimos tempos, algumas das decisões sobre o que quero, tenho e posso fazer tem dependido de mais pessoas. Este controlo diminuído sobre o meu dia, os meus dias actuais e futuros, leva-me a repensar sobre a minha própria gestão do tempo. E antes disso, sobre a minha perspectiva do tempo. Não é coisa pouco, é o esforço de percepção e assimilação da minha atitude perante o tempo, que após processamento, irá constituir parte da minha personalidade e condicionar a forma como me relaciono com os outros. Interessa-me especialmente o futuro com as pessoas com quem quero, obviamente.

Hoje, como disse, não foi um dia fácil, particularmente ao final da tarde. Tive, pois, de fazer uma reflexão, não demorada, mas importante, sobre esta gestão das minhas emoções e sobre a perspectiva pessoal do tempo. Um pequeno passei a passo acelerado, uma breve leitura num café da zona, uma ou outra página de ideias e débitos de coisas conexas ou desconexas, numa menta que trabalha em várias áreas, assuntos e decisões, a todo o momento, e cá estou, quase recuperado. 

Pelo meio, um telefonema de alguém que precisava de apoio e lé tive eu, num dia de raiva, já explodida, concentrar-me no assunto em causa e dar o melhor de mim, colaborando como pude na ajudar que ele necessitava. Também isto, sem que tivesse sido esperado ou previsto, fez parte da gestão do meu tempo actual.

Como se vê o nosso tempo, se é que se pensa nisso?

Einstein dizia, ou foi-lhe atribuída a frase: se passarmos um ma hora na companhia de uma mulher bonita, parece.nos ter passado um minuto. Mas se passarmos um minuto em frente a uma lareira, parece-nos que passou uma hora. É isto a relatividade" dizia o génio da Física. 

Uma mente e uma pessoa orientada pelo futuro e para o futuro, prepara-se hoje. E tem mais hipótese de sucesso. Pensa na sua saúde, resguarda-se de acidentes e problemas psicológicos, programa o seu tempo e 'nunca está atrasada'. Essas pessoas têm melhor preparação, mas ironicamente são menos altruístas. E tinham melhores condições para o serem. 

Uma pessoa orientada, em relação ao tempo, pelo presente, tem menos hipótese de sucesso, vive com mais ansiedade, mas tem mais, paradoxalmente, atitudes altruístas. O seu sucesso, porém é mais incerto. 

Há ainda quem viva pelo passado. Se paute pelo passado, seja pelas coisas negativas, seja pelas positivas. Estas são as pessoas menos preparadas para suportar o presente que vivem e até o entenderem e o seu inconformismo condiciona-lhe a felicidade e a sensação de vida plena, bem vivida. Nem o futuro o vislumbra positivamente, e preferem designar o 'destino' ou 'deus' como responsáveis ou guardiões desse futuro.

Uma experiência de um famoso psicólogo comprova o que acabei de afirmar. Darley and Batson fizeram uma experiência com estudante universitários, dividindo-os em dois numerosos grupos. Eles tinham como tarefa preparar uma apresentação para ser realizada num qualquer edifício do seu Campus. A uns disseram, os coordenadores, que o tempo se esgotava e que teriam de se despachar pois a apresentação seria a qualquer momento. Individualmente. A outros, disseram o contrário, que teriam muito tempo ainda para a preparar. A caminho do local da apresentação encontravam alguém que se mostrava muito aflito com um forte ataque de tosse. 

O grupo que tinha tempo, supostamente, pois o tempo era exactamente igual para os dois grupos, passava pelo indivíduo aflito e parava para o ajudar. O outro grupo, em 99%, não parou e preocupou.se apenas com chegar a tempo da apresentação. 

O grupo que sentia urgência pensava pela perspectiva do presente. Não teve atitude altruísta. O outro, actuando pela perspectiva do futuro, teve essa atitude. Entre os dois, havia apenas a diferença da perspectiva que tinha do tempo, mas não do tempo real em si. A atitude altruísta, aqui, teve a ver apenas com a possibilidade de preparação que julgavam ser superior. 

Outras experiências demonstraram os ritmos distintos de vida da pessoas em várias cidades do mundo. Robert Levine mediu em todo o mundo, tempos e ritmos de andar na rua, de falar, de escrever etc. Na Europa Ocidental em geral e em cidades americanas como Nova Iorque, os ritmos são muito superiores. Na Cidade do México, o oposto. Comparando com as atitudes sociais das pessoas, o altruísmo surge mais associado aos locais onde os ritmos são mais lentos. E vice-versa.

Por aqui se prova que a nossa perspectiva do tempo, condiciona a forma como vivemos, como decidimos, e como nos condicionamos, a nós e a outros.

Hoje, condicionaram-me. Mas o meu esforço e a segurança da minha capacidade de gestão mental, ainda me permitiram aguentar e recuperar o controlo emocional, instantânea e fugazmente perdido. Mas nem sempre o conseguimos. Ajuda, uma forte certeza do caminho que queremos e uma boa perspectiva do que me é importante, agora e depois no futuro próximo. Saber bem o que se quer e pouco ou nada se deixar distrair com manobras de outras pessoas. Veremos amanhã...






A psicologia do Tempo




O tempo é visto por cada um de nós de forma diferente, de acordo com o seu referencial, a sua experiência passada, a sua perspectiva de vida futura.

Facilmente se demonstra que o Tempo é o bem mais valioso que todos temos. Não é tangível, não se pode guardar, não há investimento de tempo, como há de dinheiro, por exemplo. Mas, tal como com o dinheiro, há o custo de Oportunidade, expresso naquilo que se poderia, ou poderá, ter feito ou fazer, em lugar de outra coisa.

O Dinheiro pode ser, aceitavelmente, num dado momento ou período da vida um bem de valor difícil de substituir, mas o tempo...não é nunca substituível. Nunca.

Um milionário pode despender tempo, energias, recursos seus e outros, humanos, para aumentar e manter a sua fortuna, mas pode nunca a conseguir aproveitar. E...de que lhe serve? Será ele a pessoa com melhores condições de vida, se nem a vida na sua totalidade, ou mesmo parcialmente a aproveita? Fazem-se viagens, reuniões com amigos, reuniões sociais, risos, festas...e ao fim do dia, estamos de novo sozinhos. E mesmo quando estamos acompanhados, se não com quem efectivamente queríamos. Tudo porque...o tempo certo, o tempo adequado para aproveitar e decidir, para iniciar alguma coisa única, foi sendo deixado para trás.

A minha gestão do tempo não é a mais saudável. Hoje. Porque já vi tanta gente perder tempo, deixá-lo correr e ...de súbito, por doença sua, por morte de alguém muito querido, por alteração das condições de vida, tudo ou muito, se perdeu. Já vi acontecer bem à frente dos meus olhos, com familiares e amigos. Por isso sem escolher, sem reflectir fui sentindo uma urgência pelas coisas, que não é a mais saudável. Para mim, e não só.

Mas a gestão que vejo em tanta gente é, com frequência, ainda pior. Mas vamos pensar então um pouco.

Há duas perspectivas grandes, gerais sobre a forma como vemos o nosso tempo (e lembro que a maior parte de nós nem pensa no Tempo, como o factor indubitavelmente mais importante e fundamental nas suas vidas!): ver o tempo pelos olhos do futuro, ou vê-lo pela perspectiva do presente. Segundo a primeira forma de vermos o tempo, estamos...sempre  a tempo e não atrasados (as coisas virão e acontecem se tiverem de acontecer, etc.). De acordo com a segunda, estamos sempre atrasados.

Cada um de nós pode ver as coisas de uma ou outra forma, ou perspectiva, ou num misto das duas, de acordo com as circunstâncias e os assuntos.

Mas quer por uma, quer pela outra perspectiva, a sensação de que o Tempo deve ser vivido e aproveitado, sem o desperdício que, tantas vezes, as nossas energias, ou as circunstâncias, da nossa vida ou de alguém, nos limitam ou impedem, é mais ou menos geral. Quando se pensa na vida, em termos de Tempo...

Pois há também quem insista e persista em viver pelo passado e ...eu diria que é imensa, imensa gente! Esta sim, as perspectiva errada, doentia, e o caminho certo para vidas mal vividas e desperdiçadas.

Irónico que, ou por razões culturais, ou questões de protecção e defesa pessoal, ou falta apenas de uma atitude corajosa e proactiva na vida, estas pessoas que vivem muito ancoradas no passado, sejam as que tentem mais dar ‘lições de vida aos outros’. Não tendo a mínima noção da sua atitude ridícula e estagnante, e tão pouco inteligente, como incompetente. Felizmente que as sociedades mudam cada vez mais e, queira-se ou não, mudarão sempre no bom sentido, no que a esta gestão e ‘urgência’ de viver diz respeito.

Dou por mim tantas e frequentes vezes a ler e ouvir citações, provérbios, ditados de avós e civilizações...

Dou por mim com esta tremenda inércia persistente num modo de vida que morre todos os dias, de gente que nem a noção tem de quão ultrapassadas estão...tão ‘fora de tempo’, a persistir num tempo passado, de ‘bons costumes’ e sei lá que disparates...

Porque a sensatez e o equilíbrio nas decisões e atitudes, nada têm que ver com provérbios, ideias feitas, frases de avós...são de todos os dias e de todos os tempos, mas a inércia na mudança e na evolução, não é sensatez, é estupidez! E pouquíssima inteligência...(sinónimo de....).

A gestão do tempo mais saudável está algures entre as duas perspectivas gerais, fazendo depender muito do momento e da importância do assunto em causa.

Mas viver...é todos os dias a cada momento. O tempo que passa...já não volta, pois !

20.4.10

A Catarse colectiva na Religião e o Amor...simples, humano, superior


Em todas as religiões, ao longo do tempo, foram-se criando, elaborando, sofisticando as cerimónias, os momentos de culto (termo ambíguo, perigoso, já que comum a outros tipos de crenças, algumas bem opostas às das religiões, como as de algumas 'seitas, mas na sua génese o Cristianismo era uma seita, apenas, que hoje alguns querem fazer esquecer...um seita conduzida por um homem que tinha ideias políticas e não religiosas, mas numa época em que a vida social e política se misturava com a das divindades, daí a confusão mais tarde gerada...enfim...) colectivo, os momentos de Catarse. Este, um termos que enerva e inquieta os actuais Católicos, principalmente, já que associado aos Cátaros, de França (Carcassonne)...

A razão de esses cerimoniais terem crescido em complexidade e até em fausto, que hoje já se põe mais em causa e até se simplifica, frito das críticas, perante um mundo moderno que não vive bem consigo mesmo...a razão é precisamente uma espécie de Catarse colectiva: um ambiente contagiante onde se canta em conjunto, onde se 'ora' em conjunto, sabendo-se bem o efeito que tal tem nas nossas próprias mentes. Quando se fala, interioriza-se, como sabemos.

Muitas vezes uma parte significativa do nosso pensamento vem de fora. Vem do que ouvimos e aprendemos com outros, do que vemos e do que Falamos. No exacto momento em que dizemos, expressamos, verbalizamos um ideia, interiorizamo-la e assimilamo-la como se já cá estivesse. É a nossa consciencialização das coisas, de fora para dentro, processo contrário ao que seria, talvez, mais natural. Mas é real, acontece. Acontece quando queremos convencer alguém de um ponto de vista, nem sequer bem pensado, reflectido ou ponderado. Acontece quando nos declaramos, sentimentalmente. E esse processo, por exemplo, de declararmos o nosso amor a alguém, também encerra o mesmo perigo: é genuíno o sentimento? Ou é também fruto de um processo mais exógeno, que depois nos cresce cá dentro? Embora, nesse caso, o processo, por ser mais incómodo, menos habitual, mais raro, e muito particular e especial, porque elaborado e declarado a uma só pessoa, sofra de um efeito de comparação e de verificação instantânea pela reacção do outro. Ou seja, pela forma como essa outra ou outro reage também conferimos a autenticidade do que acabámos de declarar... Daí o Amor ser um processo tão altruísta quanto muito egoísta...

Já na contagiante congregação religiosa, seja Cristã, Budista, ou Islâmica, o processo assemelha-se ou identifica-se mesmo, com o que sucede em movimentos políticos. Pode-se ventilar uma ideia, por escrito e isso não congrega as pessoas colectivamente para as fazer aderir à mesma. Se for, claro, ideia defendida e propalada por alguém socialmente mais impactante e visível pode ter mais efeito e resultados, mas nada comparável ao efeito de algumas palavras, tantas vezes ridículas, simplistas e direccionadas com um propósito específico, ditas numa manifestação política. Aí sim, a Catarse e o Contágio é bem forte. 

Costumo dizer que o momento em que as pessoas se tornam e evidenciam mais estúpidas e acéfalas é o do agrupamento, das multidões, das manifestações públicas, políticas e religiosas. Uma manifestação política ou uma cerimónia religiosa. O ritual...

Levantar-se, sentar-se, por-se de ar circunspecto (ridículo...como se um acto religioso tivesse de ser sério ou triste...enfim), o silêncio colectivo, tal como numa música, é orquestrado na perfeição, para conduzir as multidões...e as palavras repetidas por todos....(repitam comigo, digam comigo...etc). Tudo faz parte de uma organização que foi crescendo com o tempo, de uma orquestração inteligente, que tem dado frutos.

Mas na realidade, a grande prova de ser acreditar, está bem dentro de nós. (como me dizia uma pessoa inteligente há uns dias...). Na 'Fé' religiosa, como nas nossas outras convicções, sejam de cariz político ou sentimental. Como acreditar que se ama alguém, e até se ama à distância. Faz parte de uma reflexão difícil, sujeita a armadilhas, mas fundamental!

Na religião, as coisas e os processos não são assim tão diferentes dos nossos processos mentais sobre a política, as convicções filosóficas, a criação e defesa dos nossos princípios  individuais, e colectivos, as nossas convicções sentimentais. 

As religiões, ou organizações religiosas sempre pretenderam distanciar-se dos outros processos mentais e convicções: do amor humano, da amizade, das ideias em geral. 

Mas é o maior engano humano. A maior força e a mais difícil de controlar, pela nossa cabeça, é a do amor por outra pessoa, nada se lhe compara. Difícil ou impossível de assumir e assimilar por muita gente, mais ainda de verbalizar. Mas verbaliza-la é um acto de inteligência, de prova na sua convicção e não uma brincadeira ou fonte de gozo ou chacota, isso sim próprio de quem nunca teve essa coragem. Próprio de quem se julga diferente, mas não consegue assumir um dos sentimentos mais naturais e antigos desde que o cérebro humano se libertou do dos comuns animais. Um ritual religioso está muito próximo de um ritual animal, mas uma declaração de amor, está bem distante. 

Uma religião e uma fé, não são o mais elevado que um ser humano pode sentir e praticar, mas sim a humildade e inteligência do amor por alguém e...da sua expressão sexual! Isso sim requer e exige de nós o esquecimento de orgulhos, que a nossa inteligência tantas vezes impede.

Viver e sentir o pulsar da vida é o contrário do que tanta gente faz, ao entregar.se por medo, ou dúvida, a uma entidade que nunca saberá se existe. O ser humano, ou seres, que mais amamos está ali...tão perto e quantas vezes vivemos e deixamos o tempo correr, sem recuperação possível...e quando a vida termina, por vezes de forma súbita e brutal...afinal não fomos assim tão diferentes de animais sem sentimentos, e nunca fomos capazes de dizer o que sentíamos, ou de viver em conformidade com o que dissemos. Isso...teria sido mais inteligente e, sobretudo, mais proveitoso!

17.4.10

Mar Adentro

Schwäbisch Hall


Em 1993 estive na Alemanha, a estudar, privilégio que me foi oferecido pela empresa em que na altura trabalhava: Schwäbisch Hall.

Schwäbisch Hall a nordeste de Stuttgart, é uma cidade medieval lindíssima, banhada por um rio, com pontes fechadas em madeira, que foi poupada na Segunda Guerra Mundial. Diziam-me que era estranho ir aprender alemão numa região onde se fala Schwäbisch, Suábio, por todo o lado. Mas no Goethe Institut, com aulas matinais intensivas e estudo toda a tarde até quase ao jantar, o resultado foi surpreendente e muito compensador. Esse foi um tempo extremamente produtivo e vivido minuto a minuto com muita intensidade. Um tempo-esponja, em que se absorvia os conhecimentos com um prazer e vontade incomparáveis. Mas esse prazer pelo conhecimento, pela aprendizagem e pela evolução, acompanhando sempre o meu tempo, ainda hoje o mantenho bem activo.

Mas nessa cidade vivi também momentos de contradição. As saudades da minha única filha da altura, que tinha apenas meses, e ouvia os seus ruidinhos e risos ao telefone com o peito apertado e a lágrima quase a cair... A saudade de casa e dos amigos... a estranheza de um lugar novo e diferente, com uma língua que apenas havia começado a descodificar.

Isso tudo era vivido em contradição com os prazeres da cidade (ali mesmo na foto acima ficava uma varanda sobre o rio, onde costumava ir beber uma cerveja após estudar e antes do jantar sozinho ou não, mas geralmente só, pois os meus colegas não tinha o meu privilégio de despesas todas pagas...e onde com o sol a dar-me na cara, uma bela Warsteiner 'loirinha', e um pensamento a adivinhar o futuro me davam a certeza de um dia... eu vir a ser muito feliz...) e da avidez de conhecer novas gentes e formas de vida, de pensar e de comunicar. Uma nova mentalidade. Que era precisamente o que pretendia a empresa para a qual eu trabalhava. Tudo acontecia com muita rapidez e era extremamente rico, a cada momento e cada pessoa uma nova experiência e aprendizagem. Mas na Alemanha, o pragmatismo do dia a dia é bem outro. Não se perde tempo com nada. Essa foi a minha grande escola na vida que hoje, bem mais custos me dá, do que vantagens, visto viver onde vivo...

Fiquei alojado numa casa particular, uma bela vivenda. Um casal idoso, ele de oitenta e três anos nessa altura (nunca mais soube deles...já será falecido, pois) ela de menos vinte. Precisamente menos vinte. Um casal doce e amigo, muito informados e extremamente desafogados financeiramente. Não necessitavam de alugar quartos para viverem bem. Ele havia sido aviador quase toda a sua vida e nessa época era proprietário de uma empresa que fabricava máquinas para o sector da construção civil, gerida pelos seus filhos. Havia estado na Guerra da Crimeia, em Goa ainda portuguesa, onde tinha tido contactos com portugueses...aquele homem era uma enciclopédia viva e ao mesmo tempo uma humildade e humanismo exemplares. Era o avô que muitos querem ter.

Todos os dias de manhã tinha aulas, muito intensivas e exigentes. A tarde era inteirinha a estudar, a minha sede de saber e aprender!!! Ao fim da tarde descia a pé pelo bosque denso e fantástico até ao cento da cidade. Invariavelmente jantava sozinho. Por vezes convidava um colega, um deles ainda hoje um amigo, era conselheiro do Presidente da República da Lituânia. Arvydas é um bom amigo e gostaria de saber mais dele (as saudades desse e doutros amigos pelo mundo...). O seu alemão era na altura muito incipiente e eu ajudava-o a estudar, visto estar dois níveis à sua frente. A ele, custava-lhe ver os preços de tudo naquela terra, onde uma camisa custava o mesmo do que um fato feito por medida, no mesmo alfaiate do seu Presidente, dizia. Mas em geral eu jantava sozinho, livro debaixo do braço, hábito solitário que ainda hoje mantenho. Ia a gregos, italianos, alemães, bávaros, jusgoslavos a tudo o que a cidade pequena tinha para oferecer. Quando não jantava em casa, e depois ia passear chovesse ou não. Passear e pensar, um dos meus passatempos de eleição.

Herr Kopietz, da casa onde vivi, foi um prazer para os meus ouvidos, sedentos de novas experiências e histórias.
Nos meses em que lá vivi, como um príncipe, tendo o piso superior da vivenda por minha conta, com uma sala de estar imensa, com uma varanda em madeira, mas numa vivenda muito moderna, cheia de flores em floreiras, uma sala cheia de luz, luxuosamente mobilada, uma cozinha equipada, exclusiva para mim, enfim...nesses meses, todos os fins de semana havia visitas ao casal. Amigos e família traziam ali outras experiências mais e novas simpatias. À frente de um grande grupo de amigos eu era a curiosidade deles, uma autêntica comissão de inquérito queria saber tudo do meu país. No início, bem que me custava em alemão...

Desde esse tempo, quando me dizem que os alemães não são muito simpáticos ou são frios, ou até são pouco democráticos só me apetece contar da minha experiência, que contradiz todas essas ideias feitas e totalmente enganadoras.

Tendo felizmente já viajado um pouco por todo o mundo, sei bem que nunca conheci um povo tão informado, culto e interessado como o alemão. Se há povo de quem posso dizer ser democrata e participativo na vida comunitária, social e nacional, esse é sem dúvida o alemão.

Kopietz era um senhor de oitenta e três que levava dois livros para a sua mesa de jardim. Terminava um e logo iniciava outro. Tinha sempre um sorriso amável e os braços abertos. Tinha um problema cardíaco grave e cortava a relva do seu jardim. Na Alemanha, nunca vi, em vivendas muito ricas e de gente com elevada posição social, alguém deixar a manutenção do jardim para uma empresa. O tempo de convívio e prazer no jardim, onde a família repartia as tarefas, e entretanto brincava e convivia, deu-me a ideia muito sólida da diferença no prazer pela vida e pela afirmação da alegria e boa disposição que não consigo, com facilidade, identificar no meu próprio país.

Sempre vi mais flores e ruas limpas e arranjadas do que alguma vez em Portugal. E nem se tratando de cidades turísticas. Gostam de ter bom ambiente e respeitam-no, para si mesmos. E aos fins de tarde de Primavera, sempre que o clima o permite, pois naquela região as chivas concentram-se em Junho e Julho, todo o mundo está nos jardins e convivem e fazem festas de todo o tipo. Qualquer janela de bom tempo é para ser aproveitada.

Tanto se convive com festas populares, onde o folclore não é enjeitado por ninguém, mas por todos apreciado como coisa sua e tradição a manter (e eu com tradições, tacitamente aceites, enfim...), como se acorre a um espectáculo de música clássica, onde está toda a gente, novos e velhos.

O povo alemão vive cada momento o melhor que sabe e pode, e não vive de passados mais ou menos gloriosos mas tristes, porque já lá foram. Eu não gosto de viver a nostalgia de tempos passados, nem dos meus, mas há momentos que me fazem pensar e lembrar o melhor que, até hoje, a vida me deu.

E nós portugueses, como somos se na rua quase nem sorrisos vejo...?

Carlos Nuñez & The Chieftains Muiñeira de Chantada.



Ontem, já bem pela noite, estava eu numa estação de Metro em Lisboa e ouvia uma música, de entre tantas que aprecio e muito, de inspiração celta: música galega. Milladoiro, para ser mais concreto. Não tendo as melhores razões do mundo para estar a 'bailar', nem que seja com o sorriso na cara e o pé ao ritmo da música, dei por mim...precisamente quase a dançar.

As pessoas à minha volta olhavam-me, de mochila às costas, a bater a perna ao ritmo de uma música, cheia e rica, viva alegre e pujante, que faz as minhas delícias, mas talvez o meu ar não lhes parecesse muito condizente com o meu 'estilo'. Entrei no Metro e continuei, sorriso e a bater pezinho...

Quem me via, devia pensar...mas este tipo que parece ter entre a idade da escola primária e a da batalha de Aljubarrota dá-se conta da figura que faz?
Escusado será dizer que apenas os portugueses, os que me olhavam faziam uma cara entre um sorriso parvo de espanto e uma ar quase condenatório. Um casal de chineses parecia querer partilhar a música comigo e pouco lhes deve ter faltado para me pedirem um dos auriculares do 'iPod' e ali mesmo entrarem 'no ritmo' comigo. Uma jovem espanhola que falava ao telemóvel, fazia-o e olhava-me sorrindo, seguramente piensando que al final los portugueses, algunos, no son tan tristes como se podría imaginar...
Um casal de alemães deve ter pensado que havia encontrado mais um latino louco que não sabe ainda como o seu país é triste e miserável, e não devia conseguia perceber porque alguém se punha a quase dançar com umas coisas enfiadas nos ouvidos...acho eu.

Mas se alguém tivesse ouvido a música que eu ouvia, já então, talvez, se pusesse mesmo a 'bailar'

Não encontrei a 'Farruquiña' ou as 'Lavandeira de San Paio' dos Milladoiro (que tenho a partir de Cd's comprados em tierras de Castilla Y Galícia per supuesto)para vos deixar aqui...mas se encontrarem algo parecido pela net...

Mas deixo-vos uma prenda para Sábado igualmente 'preciosa': Carlos Nuñez y Chieftains (Adoro Chieftains!!!)

Y a las calles a baillar!!!

Tempo, esse desconhecido


Uma confissão: sempre tive problemas com o tempo. Sempre sofri de alguma impaciência, de alguma inquietação, em relação a certos aspectos, objectivos ou acontecimentos desejados. Por outro lado, sou, sempre o fui também, extremamente paciente, com tudo o que considere o mais fundamental para mim. 

Esta dualidade, por vezes, confunde-me. Confesso mesmo que é o aspecto que mais incontrolável sinto ter na minha cabeça. Na realidade, nem mesmo em situações que me puxaram para momentos mais depressivos, senti, por poucos momentos que fosse, não conseguir controlar os acontecimentos. Não se controla tudo o que queremos, na vida. Nem se quer, muitas vezes. Mas a cabeça, sempre a controlei, e controlo. Mas o tempo...

...o tempo para acontecerem coisas quando as desejo, quando delas necessito, quando me sinto mais preparado para elas. O tempo que ainda não chegou, o momento certo, que sei que pode chegar, que quero que chegue e que sei irá vir...esse é mais difícil para gerir em termos mentais. 

Por outro lado, a sensação de tempo 'perdido', que a mim mesmo digo nunca ter existido e é uma tremenda mentira e, até, maldade, que faço a mim próprio. Há sempre tempo perdido, e há momentos (tempo também, pois) que tenho a sensação de ter sido já muito, demasiado. A sensação, essa ainda mais dura de aceitar, difícil de uma gestão emocional-racional, 'inteligente', de poder, talvez, ter podido aproveitar um tempo passado, de outra forma, noutras circunstâncias, com outra vida profissional, social, sentimental, com outro alguém. 

Só se aceita um tempo passado que, à luz de hoje, se considera já, sem sombra de alguma dúvida, menos bem, ou mal vivido, quando há a forte sensação e esperança de se ir ainda viver um novo tempo bem melhor e que se espera, compensador. Mas nunca se sabe, verdadeiramente, cientificamente. Sabe-se, eu por mim sei, que sempre luto, sem nunca desistir, por mim, por tempos melhores. 

Sobre o tempo, vivo assim entre uma impaciência pueril e imatura, e uma paciência que julgo por vezes, para além dos limites do razoável. Mas nunca espero mais do que um dado limite que a mim mesmo me imponho, e só dentro de mim o sei. Se bem que os meus limites, de espera, de paciência, são invariavelmente bem extensos, longos e também dolorosos, porque a minha luta por aspectos essenciais, numa termina. 

Esta gestão difícil entre o querer o que mais quero a acontecer já 'ontem' (e o que mais quero tantas e tantas vezes não está no meu controlo) e a ter alguma sabedoria para identificar a necessidade de usar uma espera quase sem limite de tempo, é exactamente o aspecto de gestão mental mais complexo e quase doloroso que vivo tantas vezes.

Pergunto-me por outro lado, porque vejo tantas pessoas a viver um tempo passado. Afinal...o tempo que passou já não é vivido. Só se vive o presente, como todos sabemos, e ele passa a cada momento. E é este pequenino significado de cada momento, como a água que passa num rio onde pomos o nosso dedo, e que não mais voltará, o maior trauma que o tempo nos trás. E é esse o imenso significado afinal, que de pequeno, precisamente, nada tem, que nos devia a todos, saber viver o Momento Actual. 

Mas não sabemos, poucos de nós sabemos, ou poucos conseguimos. Somos em grande parte um produto frustrado do tempo que vai passando... e o sorriso que mantemos tem afinal a ver com esse tal passado, que deixou de existir ou, bem melhor, com a confiança num futuro que queremos melhor, mas que exige a nossa luta, hoje, já!

Na verdade, menti-vos...sempre soube gerir o tempo. Tenho é pressa de o fazer acontecer quando sei, ou julgo saber, que ele é o Tempo que mais quero que chegue. 

Pode tratar-se de uma nova vida, profissional, social, o que seja. Pode ser um tempo de mais tranquilidade, que me traga mais sabedoria ou reflexão. Pode ser um, que me traga alguém que ainda hoje não conheço, ou não sei se conheço. Pode ser um conjunto complexo de todas as coisas...o tempo que virá só pode ser o melhor, sempre o melhor, porque, estava a tentar confundir-vos... houve que, lá está!, em tempos, aprender uma coisa essencial: verdadeiramente essencial. Mesmo que o tempo futuro não nos traga, não me traga aquilo que hoje mais desejo, o tempo passado, na prática a minha própria história, soube dar-me este sorriso de alguma sabedoria, que diz...já sabes bem o necessário e suficiente para deixar a lutar pelo melhor, ainda que tal exija de ti mais sabedoria ainda para...saber esperar, um pouco mais...

Interessante como o Tempo brinca connosco. Mas só quando não sabemos fazer uso dele. 

Viver é hoje! 

E o amanhã é também hoje que se prepara e começa a construir. Esta é uma sabedoria popular, milenar, que parece com frequência passar ao lado de tanta gente...

16.4.10

Re-Crise


Há alguns sinais, muito evidentes, de que a Crise mundial, que já se anunciava debelada, controlada, pode estar a regressar.

Em círculos privados sempre o disse: que a crise mundial, económico-financeira, que alguns pretenderam apenas financeira, não estava ultrapassada. Sempre o disse, pela evidência de sinais nas sociedades. Alguns espíritos mais bondosos e optimistas iam-me dizendo que não...que não só já se sentia recuperação, como nada ficaria como antes, uma vez passada esta fase, esta crise. 

É bom o optimismo. Eu sou sempre optimista por natureza, mas em assuntos de cariz económico e financeiro, não é o princípio e atitude pelo qual nos devemos pautar. O esforço de um investidor, de um gestor e de um político com responsabilidades em áreas económicas deve ser pelo máximo de realismo e verdade de que for capaz. Em Portugal, por exemplo, os políticos do PS têm feito um genuíno esforço...pela mentira eleitoralista. 

Resultado...este país que até empresta dinheiro a uma economia, também gerida por socialistas, com o mesmo princípio, de encher o olho ao eleitor e gastar o que não se tem, caminha não tão lentamente quanto se julga ou quer dar a entender (nem sei para quê, se tudo se tornará evidente, mais tarde ou mais cedo), para a mesma situação de falência do país, de colapso económico e total dependência das regras e orientações exteriores, de um FMI, e UE, de uma Grécia.

Agora, porém, a situação agrava-se com consequências ainda imprevisíveis, quando uma Suíça, que não passava por nenhuma crise financeira, desde a Segunda Guerra Mundial, e recorde-se a quem não leu a história, que a Suíça há cerca de sessenta anos passou por mais fome e incerteza do que Portugal nessa fase e hoje também! Nessa altura a Suécia também passava por imensas dificuldades...

Ora, esta crise regressa ou não, veremos ...mas no Estados Unidos onde se aplicaram as mesmas medidas keynesianas ridículas, de pedir emprestado dinheiro ao exterior para artificialmente financiar um relançamento económico (e financiar uma economia já financiada e credora), os sinais são mais desanimadores do que outra coisa. Contrair mais Dívida para financiar investimento, público, e aplicar medidas de apoio e salvamento a empresas, em si mesmo podia não ser grave...se um dia houvesse dinheiro para pagar. Mas não há. Não há nem haverá. Nem em Portugal (que estupidamente insiste num TGV que de nada serve a quem não sabe se no mês próximo pode pagar a renda de casa e ir ao supermercado, e isto não é apenas para portugueses, mas bem mais para espanhóis, que muito pior do que nós estão...) nem nos EUA, nem numa França ou num Reino Unido, para só falar de alguns. Já a Espanha...irá a pique com uma velocidade que quando chegar ao colapso nem sabe onde está. Meus amigos, a Espanha não tem, tal como Portugal, nenhum produto! a Espanha só tem ...pesca! E agricultura. o Resto é..um ploff! Cópias do que outras fazem e nem um produto que se possa dizer: é espanhol!

Em época normal um país como a Espanha aguenta-se, como o mercado interno e outros periféricos dependentes dele, como Portugal que consome muitos produtos espanhóis, como peixe que o país vizinho pesca a toda a força com a sua segunda maior frota mundial, e não consome, visto sermos nós os terceiros consumidores per capita a nível mundial e a Espanha muito, mas muito menos. 

Mas se um Finlândia é a Nokia, se uma Alemanha são BMW, Mercedes, Audi, indústria química e tantas coisas mais, produtos que identificam um país, e que lhe dão capacidade futura de recuperação, a Espanha e Portugal são...zero.

A crise ainda não passou e este governo só tem um caminho. Ir-se embora e deixar a gestão do país a quem sabe. Quanto mais tarde, mais despesismo e mais difícil se torna possível o milagre.

15.4.10

Shalom


Sentado na esplanada fresca dessa noite húmida, nos ouvidos a música que o havia levado ali, sem o saber...
Na mente o mesmo de há algum tempo, a imagem que guardava em si de quem muito queria, que guardava como o seu tesouro mais precioso, a imagem da pessoa que mais preciosa...

Tinha ido pelo labirinto de ruas e prédios, sem um ideia qualquer que não fosse tentar perceber a imagem que em si se criara e...porque a alimentava e apertava contra o mais íntimo e secreto que gostava de ter.

Pensava e voava até destinos de sonho, um cidade de canais de edifícios renacentistas que amava, um local onde o mundo inteiro se encontra e ...se perde em amores e loucuras e sai de lá cheio...da vontade de sempre voltar.
Pensava e sonhava com a sua companhia, essa imagem que sabia real e ...não sabia.
Via-se a derivar pelas ruas de Saint-Germans dés Prés, do Cartier Latin, onde se sentava a olha-la à sua frente, sorriso na cara, a ouvi-la as horas que lhe contava toda a sua vida e ria, e ria e toda ela era energia e o seu sorriso era a sua inteligência em toda a cara de felicidade.
Sonhava em novos rumos, novos destinos, dentre deles fora de cada um, não se cansava de pensar...

...e deu por si estava já sentado, nessa esplanada onde nem o nome sabia...
'um café' por favor e viu o nome que o cumprimentava ...
'Shalom'...e voou para mais um destino,
desta vez percorriam as ruas da cidade de Cristo e dos Judeus, onde nessas que são das mais antigas calçadas deste mundo, lhe dizia quanto ela lhe fora querida e desejada, desde o seu primeiro dia...


só lhe chegava em pensamento, nada em substância, quando o café lhe foi deixado 
à sua frente, já ele sabia que ali ela era apenas poesia,
mas que um desses dias percorreria o mundo que quisessem percorrer, dentro deles,
fora deles, mas assim que se levantou,
uma nova certeza lhe chegou...

...a de que todo o mundo que lhe dessem nada se compararia
ao mundo que dela, esperava, um dia lhe fosse oferecido,
ela mesma.

Abriu os olhos e ali estava, de pé do outro lado da rua e,
por entre uma lágrima e um sorriso tolo, 
via escrito no toldo em frente a si...

Shalom!

Religião: um caso pessoal


Ontem duas pessoas me deram, de sua própria voz, mais um reforço sobre o que penso e sobre a futilidade da Religião. E sobre a vacuidade da existência de deus. Ou seja, é pratica ou totalmente indiferente a existência de um ou mais deuses. Embora o receio, o pavor pelo desconhecido, até pelo futuro, pela doença, pela morte, pela sorte e pelo azar, leva tantos milhões, biliões de pessoas a se agarrarem à melhor ideia de Marketing da História da Humanidade: deus.

Mas não nego que a ideia de deus, e um pautar-se na vida por um conjunto de princípios e de regras, a procura, ou a passividade pelas respostas ao desconhecido, o acreditar num destino já escrito, possa fazer das pessoas, melhores pessoas. É seguirem um código, por vezes escrito, outra vezes não. E torna-as melhores. Em si mesma, a atitude é já positiva, mas não é prova de coisa nenhuma.

Uma das pessoas, uma excelente amiga de muitos anos, que  muito considero, dizia-me que acredita em deus, acredita e sente-se parte de uma religião, mas não se sente seguidista cega, nem agrilhoada à sua própria religião. Aceito e respeito a sua opinião e tenho como genuína a sua forma de pensar. As suas opiniões, são sempre a expressão da sua inteligência e ontem afrontei-a um tanto como o meu texto anterior. Não era a minha intenção. Quando referi a inteligência como alternativa ao pensamento passivo de aceitar-se a religião, qualquer, queria precisamente contrapor essa atitude com a que ela demonstrou ao falar comigo sobre o meu 'post'.

Outra das opiniões, expressas por escrito num outro local, era de alguém que tem a minha extrema consideração, afecto e simpatia, versava que a religião 'está dentro de nós' e que devemos ser genuínos e não fingirmos ser outra coisa, ser-se o que não somos, é uma espécie de pecado'. A frase não sendo bem esta, porque não a quis textualmente citar, penso que pretendia expressar esta ideia. Só por si, ter dito isto, denota, esta pessoa que me é querida e cuja inteligência admiro e respeito em grande substância, que pensa, de passagem ou não, sobre temas de sólida importância e acresce, assim, a minha admiração. Demonstra que coloca, com a sua forma de pensar, a pessoas no centro da sua atitude na vida, o que tem um imenso valor. E nem precisa de uma prática religiosa para tal.

A uma e a outra das referidas amigas, quero dizer que pela sua personalidade e pelo amor que denotam pelas pessoas, explícito nas suas opiniões, me traz mais amizade e admiração. E, também prova a pouca utilidade da prática religiosa, já que encerram em si mesmas os princípios superiores e louváveis pelos quais se pautam e vivem.

Aprecio as duas opiniões, ambas femininas, não sei se por os homens considerarem este um assunto inútil ou desinteressante.

Mas as opiniões expressas por estas duas pessoas sem se darem conta, julgo, confirmaram a minha própria opinião ontem (intencionalmente) mal explanada no texto anterior que publiquei.

Se a religião é mais um fenómeno ou um produto de uma ideia nossa, de um conceito nosso, melhor de nossa concepção...então ...deus existe? Fora de nós? Ora...é isso exactamente o cerne da questão. E as duas amigas, sem se conhecerem, disseram e confirmaram-se o que eu dizia.

Se a religião 'é um caso interior' e não estou a afirmar que sim ou não (mas inclino-me muito para o sim, é-o) e se, além disso, é susceptível de crítica, ou seja, de termos a nossa própria visão da religião que adoptámos e, ainda, nos sentimos livres em relação a ela, sendo qualquer religião, por definição filológica, um dogma, então...cada um terá a sua, mesmo sentido-se parte de uma, grande, mais ou menos universal. Tal como temos cada um, a nossa visão das pessoas, das suas opiniões, das suas atitudes, do mundo em geral.

Esta forma de pensar, que muitos de nós, e eu passei em tempos por ela, julgamos mais evoluída, moderna e menos exposta às críticas de cegueiras e fanatismos religiosos, o que não contexto que o seja, é, sem sombra de dúvidas também, historicamente comprovável, a forma de pensar que está na origem de qualquer religião. E prova, ipsis verbis, que a religião é uma criação interior e da nossa cabeça. E se a religião tem como base e centro o culto e a orientação por deus, e pelo que julgamos serem os princípios que ele quer para nós e pelos quais devemos viver, então...

...deus é ele', mesmo uma criação da nossa mente. E ficamos por aqui...de momento.

Desculpem-me, não quero afrontar ninguém.

Voltarei ao tema...

14.4.10

Ser religioso, ser Crente...ou ser inteligente...

Começo por declarar o meu maior respeito e consideração por todos os que, de uma ou outra forma, com mais ou menos prática, maior ou menos convicção, se sentem parte de uma religião, de uma crença, e pautam a sua vida por princípios inspirados ou decalcados de uma Religião.

A declaração impõe-se porque pretendo evitar equívocos. Eu não sou religioso, nem crente em coisa alguma. Já o fui, recebi a educação religiosa, que me quiseram oferecer. E não há muitos anos eu praticava a minha religião, à minha maneira, mais ou menos diariamente, com algumas 'comunicações', orações, segundo os religiosos, com Deus. Um Deus que eu cria existir. Mas, lendo, pensando e conversando, de forma serena e pacífica, sem que qualquer convulsão se tivesse passado na minha vida, a este nível fui chegando ao que sou hoje sou: totalmente sem crenças, de espécie alguma. E, no exacto momento em que me dei conta desta minha segura forma de pensar, desta minha solidez filosófica, senti uma das maiores libertações da minha vida. E ainda hoje a sinto. Sinto que re-descobri a vida, a minha, a dos outros e o meu respeito, por mim e pelos demais, só aumentou. 

A religião, (agora sem os preconceitos da maiúscula, coisa estúpida e antiga, como se sentir que há que escrever deus com maiúscula, ou caso contrário, já se está em perjúrio...enfim...deixarei esta ignorante atitude para futuro texto) é a maior amarra e complexo de conservadorismo sem explicação que existe. Mas é seguramente a maior invenção do Homem. De cabecinhas estúpidas, mas é. 

A origem, as razões que levaram os homens (sem querer ser 'machista' atenção...) a inventar as religiões, não se conhecem. Mas as provas históricas também foram sempre sendo destruídas (agora compare-se com esta infantilidade do PGR e do Presidente do Supremo em destruir as provas que incriminam Sócrates...porque se não fosse assim...que havia a temer??? Ao pé do que se tem feito com as religiões, estes casos 'socratianos' até são infantis...). 

A discussão sobre a legitimidade de uma religião, cai assim, apenas, no plano filosófico. Por falta de provas históricas, entretanto destruídas, umas, e manipuladas, outras.

Não me choca que a maioria das pessoas tenham uma religião, nem tal facto legitima coisa alguma. Não existe, numa razão de cariz puramente conceptual e teórico, qualquer razão, por outro lado, para se afirmar que à maioria assista a Razão. E nem a Razão, como há dois séculos se defendia, é a mais elevada expressão da nossa Mente, mas sim a Mente no seu todo, com a Emoção a ganhar a forma de capacidade Superior, como todos sabemos, mas nos custa a admitir. Pela mesma estupidez e ignorância que ainda hoje se fala de uma ideia de 1789, como sendo actual e se encaixam as pessoas nos respectivos 'sectores' (realmente inexistentes) de 'direita e esquerda' um perfeito absurdo e ...desafio quem quer que seja a ler na cara das pessoas, amigos, família, amantes, conhecidos o seu esquerdismo e direitismo (e a sua prática de vida, que resolutamente, contradiz a 'área' ou sector, onde a toda à força se querem enquadrar e...encarneirar. Ah! Estupidez humana!). Pela mesma ordem de razão, ou de pensamento, para ser mais rigoroso, não há razão de fundo nem para se ser de uma 'coisa' ou de outra, seja lá qual a coisa for.

Expliquem-me o clubismo que cá estou sentadinho à espera de vos entender: o que leva uma pessoa a sentir-se de um clube e, além disso a detestar os outros..?

Ah! Mas a diferença é enorme, dir-me-ão, entre um clube, um partido e uma religião...
Desculpem-me a minha tremenda gargalhada...
Continuo a respeitar todos. Mas por favor, respeitem os que pensam como eu...

Voltarei ao tema, já que me deleito com leituras sobre ...religião. 

12.4.10

O checo - Capítulo 1

Saíam uns sons, arrumados, espalmados pelas cordas do seu violoncelo francês. Eram notas afinadas e não sons sem cor alguma. Um choro de música, que lhe saía sem controlo seu. Se se balançava ao ritmo da música de Dvorák, a que tanto gostava de dar vida, ouvia-se outro som, ruído. Rangido de madeira velha. Seca e velha, como ele já se ia sentindo, do desgosto. Tocava só, tão só como aquele choro de Dvorák. Os dois lamentavam-se e iam seguindo juntos. Agora, porém surgia uma outra coisa, um outro ruído. Quase se irritava, mas nem teve tempo, pois já a porta se abria, como se alguma vez se tivesse fechado de verdade. A sombra que, disforme se esticava naquele soalho antigo e gasto era inesperada, porque diminuta. Pelo menos assim lhe parecia, ou era do transe sempre que lhe induzia que interpretava.
Penetrando no silêncio súbito que se fez no seu quarto, uma linda menina de pele branca e cabelo dourado, provocou-lhe um quase calafrio. Não pelo que a rapariga podia representar, mas porque algo lhe recordava, e isso vinha de muito, muito distante. No tempo.
Num lapso insensível de recordação, uma imagem da sua Praga tão distante. Tão recuada no tempo. Seriam já quantos anos? E quem era essa menina, que tal reflexo indesejado lhe havia provocado?
"Desculpe, assustei-o? Incomodo?" Que nada disso. Era não sabia o quê. Talvez só do transe interrompido. "Entre. Entra!" Quase seco e brusco, do que, no mesmo instante, se arrependeu. Um professor de música tem sempre de ser mais condescendente com crianças. Firme mas sem impulsividade.
"Posso entrar, ou venho mais tarde? O senhor é o professor Miroslav, não é?" Sem resposta, dado ainda o relativo choque causado pela entrada súbita, ela prosseguiu. "Disseram-me lá em baixo, uma senhora, que o senhor estava aqui, no quarto andar."
"Sou, mas não recebo aqui ninguém...normalmente. Porque vens aqui, como te chamas" Agora queria perguntar tudo sem parar, procurando um ponto de apoio, nas palavras, continuava com a mesma estranha sensação. Já a tinha visto? "És minha aluna? Como sabias onde moro?" Quem te mandou aqui? Como te chamas"
" Aproxima-te, sem deixar a miúda dizer nada, ia continuando, aos impulsos, uma pergunta seguia outra. "Espera, parece que te vi já..." Mas a rapariga conseguiu dizer "s... Anabel, a minha mãe..." E foi interrompida. "Interrompeste a minha música, porque vens aqui? Aqui estou sempre só. Eu e essa velha louca, lá em baixo, no primeiro piso."
"Deixe-me explicar, por favor. A minha mãe, escreveu-me, ela está em França, toca numa orquestra em Lion. Ela mandou-me aqui, eu vivo com uma tia. Que não é minha tia. Ela, quero dizer a minha mãe, escreveu à tia, para eu vir aqui, ter aulas consigo"
"Tens quantos anos, Anabel, dizes tu que é o teu nome?"
"Onze anos, professor. Mas se quer, eu vou já..."
"Espera..." Onze anos. Tantos quantos a sua esquecida saída, fuga, aliás, do seu país...Anabel? Seria...? Impossível... Mas, de seguida, abandonou o absurdo pensamento.
Tremia de se lembrar. Anabel viu-o assim, e assustou-se. Estava doente? Que lhe estava a acontecer?
À próxima tentativa de pergunta...saiu a correr e desceu sem mais nada lhe dizer. Uma vez tinha visto um velhinho ser atropelado, e morrer em frente aos seus olhos...Tinha de sair dali.
O professor Miroslav estava suspenso. Seria...? Tudo, subitamente, parecia passar-lhe como um filme estranho, assustador. O ruído esmagador dos tanques russos, tiros, fumo, toda a gente a fugir, desordenadamente... Ele, perdido da sua família, só gritava pelo nome da sua mulher, grávida, sem poder fugir como os outros. Mas ele não conseguia chegar a casa... e teria de fugir também. Os russos não lhe perdoariam as conspirações, as reuniões clandestinas de intelectuais, do melhor que Praga tinha, naquele tempo. Anabel?
Não podia ser...

Anabel. Lá estava. Tudo numa enorme confusão. Que havia acontecido? "Caíu como se fosse de cartão..." Ouvia dizer "que aconteceu, perguntava ela" Miúda não devias estar aqui tão perto é perigoso, ainda pode cair o resto."
"Em Lisboa é assim, está tudo velho, a cair. Eles deixam tudo abandonado. E morre gente, dizia um homem de ar irritado, ali ao seu lado" Merda de políticos, repetia.
"Mas... ontem estiva lá dentro. Com o professor que lá vive, o senhor Miros...sabe onde ele está?"
"Oh! minha linda...tu conhecias o velho?" Aquela velhota ali diz que ele estava lá, quando o prédio caiu! Tu conheci...? Já ela tinha fugido...nem via bem o caminho, os olhos enchiam-se de lágrimas, a tia havia-lhe contado, do seu pai, de ser músico, de se chamar...