Sonhar sonhos antigos

De Steinbeck, A Leste do Paraíso, com Beethoven e a sua fulgurante Quinta, ou a romântica Quarta, enchia-me a cabeça de coisas grandes, de sonhos impossíveis de não se realizarem.

Lá fora, os ramos mais finos da anoneira afagavam as janelas de vidros de pequenos rectângulos, por si mesmas um sinal do tempo da construção desse que era o "quarto novo", da casa onde vivi, pelo meu avô construída.

Vivia um tempo de onde não se podia prever o tempo de hoje. Um tempo onde todos os sonhos cabiam. Um curso, uma carreira, seguir o sonho dos grandes cientistas, das descobertas marcantes, ou dos escritores que dançavam pelos meus dias com as suas palavras ritmadas, a sua música poética, as descrições de paragens que contava conhecer. Steinbeck enchia-me o imaginário. Eram as suas descrições de pormenor, onde imaginava o aroma das ervas e montanhas da califórnia, ou me deixava entristecer com o insucesso e falência de Trask na sequência de uma greve de comboios que impedem a expedição de produtos agrícolas, alfaces, a saírem do Oeste rumo às grandes cidades. E a suas relações com os Hamilton, por várias gerações. A investigação sobre a passagem bíblica referente a Caim e Abel, efectuada por Lee, o cozinheiro chinês. que se fazia passar por um inculto sem diferenciação, sendo afinal um homem repleto de capacidades nunca dos seus patrões conhecidas. Livros que ainda hoje me permitem paralelos aos que se vive pelos nossos dias difíceis.



Era um tempo de muito sonho e de muita emoção. O sonho, ou os vários, foram-se transformando, se não esmorecendo. Algum, definhou e feneceu. As emoções, por vezes parecem mais exacerbadas, ao ouvir um Beethoven que me fora oferecido nos meus dezasseis pelo meu grupo de saudosos amigos. Uma antiga edição Deustche Grammophon, de Karajan e da sua Wiener Philharmoniker em vinil. Pérola absoluta para quem não valoriza outras jóias que as da inteligência e da cultura, obras não efémeras do génio humano.

No quintal, as sombras desta época do ano eram duras e quentes. Escondia-me no quarto mais tranquilo da casa, onde tantas vezes nem me sabiam encontrar e entrava nessas páginas se Hemingway, de Faulkner, de Caldwell, de dos Passos, ou de Steinbeck que guardei como uma das minhas maiores referências. Eram escritores de cenários imensos, mas também das primeiras lutas sociais no país onde o sonho ainda era parte dos dias deles e de todos nós. Onde o sonho também foi aniquilado pela mesma gente que hoje nos arruina o nosso.




A música, importada dos dois séculos anteriores, um Bach, um Beethoven, um Chopin que me fazia comover e depois rir de mim mesmo por o ter feito, não correspondia ao que ia devorando em páginas de profundas emoções e conhecimento social. Mas a emoção vivida essa sim, era a mesma e era fantástica e bela, nesses dias. Por essa altura, não formara ideia alguma dos meus dias de hoje, e de como os sonhos e as emoções se travestrariam no que hoje são.

Nesses dias, que hoje recordo ao acorde de qualquer das obras que há quarenta anos vou ouvindo, nunca podia imaginar o que hoje me seria possibilitado e, também, intensamente vivido. Mas é impressionante como antigos acordes, e memórias tão carinhosamente guardadas, me trazem emoções idênticas, que, por aqueles dias me pareciam pueris e exacerbadas.



Sento-me aqui, ouço e revivo, numa vivência em tudo indistinta, ou talvez ...revivida, quando emoções e sonhos se vão recuperando, outra e outra vez, com talvez igual força. Só não tenho as anoneiras da minha terra, do meu quintal, e a doce sombra que me inspiravam. Mas tenho pessoas com uma força que me levam em abraço a esses cálidos verões de tão queridas recordações.

Ninguém pode imaginar como estas composições, a par do rock dos meus dias jovens, e leituras que me foram formando, com as sensações hoje vividas, me tocam lá fundo, onde eu já nem me sabia existir. E voltam a exigir de mim o sonho, de que nesses tempos me alimentava e me fez, em grande parte, como sou.


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