Ler e pensar



Apesar de nos últimos anos o panorama da leitura em Portugal se ter vindo, gradual e lentamente a alterar, ainda somos um dos países onde se lê menos. Sejam um jornal uma revista ou apenas um livro por ano.

Muitas pessoas passam dia e dias, durante meses ou anos, sem ler absolutamente nada. Ou apenas lêem uma etiqueta de um produto comercial, ou um rótulo, uma receita médica, um menu de restaurante, um título de um jornal que não compram.

Uma língua está viva enquanto praticada e sujeita a uma evolução, mais ou menos lenta, pelos seus falantes. Mas uma língua tem a sua base fundamental na forma escrita.

Profissionalmente, muitos de nós fazemos muitas leituras, de cartas, de correio electrónico, de documentos de trabalho. São, porém, a maioria das vezes, escritos tais documentos, em linguagem limitada, senão hermética e característica da profissão em causa. São pois linguagens sem a riqueza suficiente, para servirem de genuíno exemplo do que eu chamo de leituras.

A leitura é uma base essencial da manutenção da boa forma de uma língua. Pela leitura aprendemos conteúdos e novas formas de escrita. Novos vocábulos, novos estilos. É pela leitura que enriquecemos a nossa cultura linguística e, assim, a nossa base pensante. Pela escrita, aferimos a nossa capacidade linguística, por outro lado.

No afã do dia-a-dia, deixamos para a época das férias o grosso das nossas leituras, para os que ainda assim lêem, porque entre casa e trabalho não temos ou tempo, ou não fazemos o esforço para mantermos vivo esse exercício essencial do enriquecimento do nosso universo linguístico. Não compramos um jornal, pois já sabemos que mal o iremos ler, ou não lhe pegaremos de todo. Esta prática de relegar para o período anual de férias as poucas leituras que faremos em cada ano, leva a que a própria escolha do que iremos ler, seja vítima de uma má selecção, ou de critérios de reduzida qualidade, por quanto o que pretendemos é relaxar, distrair e não ‘cansar a cabeça’. E, assim, nos iludimos com um prazer que não temos e uma capacidade que não exercitamos, de facto. Ficamos pelas leituras mais ligeiras que podemos encontrar, sem que um critério mais apurado nos permita, enriquecer a nossa cultura, quer de conteúdos, quer de formas linguísticas.

A língua e o seu exercício constante e exigente, com maior riqueza que nos permitem documentos profissionais, que se querem práticos e eficientes, de leitura e compreensão rápidas, é uma base verdadeiramente estruturante do nosso pensamento. Da nossa visão do mundo, até.

Quando aprendemos uma língua estrangeira, distinta em gramática e estrutura da nossa, temos a prova disto mesmo: a forma de pensar está estritamente ligada à língua. Um inglês, um alemão ou um chinês não pensam como nós. Em parte pelo meio e ambiente em que vivem, e por outras condicionantes culturais. Em parte pela estrutura linguística. Pensamos, cada um, na nossa própria língua, seja na materna, seja na língua que estamos no momento a praticar.


Não é totalmente indiferente ler e pensar: “um autocarro, numa auto-estrada, vinte pessoas sofreram um acidente”, como se diz por exemplo em alemão, ou “numa auto-estrada um autocarro com vinte pessoas sofreu um acidente”.

A forma como escrevemos, como lemos, condiciona a forma como vemos o nosso mundo, como pensamos e como, depois actuamos.

Sendo assim, se lemos menos, a nossa visão das coisas estará condicionada pela riqueza restrita do nosso conhecimento da língua. E, bem assim, a forma como comunicamos e agimos.

Às nuances de vocabulário, correspondem nuances de pensamento.

Ler é estruturante e enriquecedor. Não ler, é o contrário. A memória desgasta-se. A leitura recupera-a.

Ler é uma essência para a nossa estrutura mental e para a lubrificação da mente. Para que ela se encontre em constante boa forma.

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