3.7.16

Parece normal

O dia começava com uma rotina e desenvolvia-se em outras tantas, muitas. Os dias enchem-se e preenchem-se de actos repetidos à exaustão, na persistência do suporte da subsistência. Mas os actos fora do comum, os feitos que se elevem acima de si mesma, existem guardados secretamente, silenciosamente, à espreita de uma oportunidade.


À espreita da oportunidade pode não significar uma passiva existência. Sair de casa para o trabalho, levando consigo um sorriso sempre único e genuíno e forte, é em si um acto de resistência e coragem perseverante. A maioria de nós desiste do sorriso, e desiste, com isso, do sonho bem preservado, fechado a sofrimento por anos de tanta rotina desgastante. O sonho, eram sonhos em catadupa. Era um novo local, uma nova vida, uma outra rotina que não fosse assassina. Sair e entrar, entrar e sair, de casa de todos os locais, sorriso sem correspondência certa com o sentimento profundo e asfixiante, com essa fome de libertação.

Um sorriso e uns olhos radiosos, podem esconder muita infelicidade e muita energia, e, pior, vontade própria, contidas e, volta e meia, explodidas em outros desgastantes hábitos.

Há tanta gente por aí que se esconde em caras fechadas, mas provavelmente muitas mais que se refugiam em sorrisos comprados a custo pela contínua necessidade de aceitação social e familiar. São em maioria mulheres, provavelmente. Mas nunca se saberá quantos homens persistem nesse enganador e aparente bem estar e bem parecer.

Conheci alguém assim. Conheço. E não era um alguém, mas a Pessoa, ela mesma, um caso especial em toda a vida que tenho vindo a ter. Não deixa de surpreender por energia silenciosa e persistente. Uma teimosia em ser feliz e fazer todos felizes à sua volta. Não foi preciso ser religiosa, nem crente ou cega por regras sociais, politicamente correctas. Uma mulher. A mulher.

Parece fácil, parece. Manter a doçura própria, inerente ao seu género, e a firmeza das suas convicções, com a persistência em cumprir os seus sonhos maiores. Quem vê mas de olhos bem alerta, percebe a energia jovem transbordante, percebe a firme vontade em viver, sempre intensamente. E contagiar vida à sua volta. O que nem sempre é aparente, pois as rotinas das nossas vidas amordaçam a vontade de sorrir. Mas o sorriso regressa sempre e as palavras ditas com a sinceridade que lhe conheço, confessam o mais profundo que lhe vai por dentro. É um doce cheio de pujança viva e vibrante. E tem a sua especial arte de conseguir lidar com tanta gente difícil, comigo à cabeça. Difícil e esgotante, por vezes. Mas ela não desiste assim.

Sempre adorei gente "normal", que de normal nada tem e nem disso se tem conta. Sempre me senti inclinado em descobrir um diamante em bruto que tivesse um brilho único e que, mesmo que a outros não fosse visível, para mim se tornasse a diferença que me fazia falta.

As rotinas matam a vontade. Asfixiam a energia que um dia se soube ter, a ambição de sermos maiores, nem que seja maior do que nós mesmos. E só o somos pelo que fazemos, não nos podendo ficar pelo que dizemos. E fazer, é em cada acto pequenino, em cada gesto delicado e quase imperceptível, mas de tremendo significado. É na perseverança da perseguição do sonho grande que se vê quem realmente parece normal, ser grande, muito grande. E grande, docemente, delicadamente, mas com firme determinação. Grande, legitimamente.

E agradeço o dia e o momento em que conheci uma pessoa assim. A cada momento das minhas rotinas, ela faz o meu próprio sonho renascer e manter-se vivo, para agora não ser vivido apenas em silenciosa solidão. Mas para ser moldado pela doce e firme vontade que lhe reconheço.

Também um normal crepúsculo parece um fim, mas é, afinal o descanso de um dia apenas, que irá permitir que o seguinte surja, provavelmente mais pujante. E, assim, manter sonhos vivos. Num abraço. Num beijo quente, inesquecível.



24.5.16

Leituras recomendadas

Podemos passar tempos indefinidos a ler banalidades, ou histórias interessantes que apenas nos ocupam e dão prazer. Nunca nada de mal existe em continuarmos em hábitos de leitura ligeira, que nos tornam as horas mais agradáveis e até as companhias mais preenchidas, com a partilha de uma bela história, com a leitura de um bom livro, mesmo que apenas se trate de um romance, de mera ficção. Há livros que conseguem cativar-nos pela qualidade da escrita, como pela qualidade da construção do enredo.

Mas há outro tipo de leituras, que uma vez por outra fazem todo o sentido e nos ajudam no desenvolvimento pessoal, enriquecendo-nos com conhecimentos e ideia, tanto como com a qualidade da sua prosa.

Recentemente encalhei em alguns desses livros de que quero deixar testemunho, mesmo ainda a caminho de conclui a sua leitura.

Brendan Simms escreveu uma obra tão fascinante, como inteligente e importante. Uma leitura actual, que nos apela a uma reflexão que nem sempre conseguimos ter. Europa, a luta pela supremacia, de 1453 aos nossos dias, editado em Portugal pelas Edições 70, uma obra de 2013, publicada em português em 2015.



Simms fala-nos da História dos últimos quinhentos anos, dos Impérios, sua ascensão e queda e de como a Europa que "construiu o Ocidente" sempre lutou por um desenvolvimento e por uma paz que nunca atingiu cabalmente. De como ainda hoje persistem sinais de um passado agitado, baseado em fronteiras em constante mudança, e em busca de uma força que lidere um mundo, que actualmente parece ter perdido.

Timothy Snyder, em Terra negra, o holocausto como história e aviso, uma obra de 2015, publicada pela Bertrand em 2016, descreve-nos um Hitler menos conhecido e alerta-nos para perigos que imaginamos não serem mais possíveis. É um a obra perturbante, pela proximidade de algumas ideias com o mundo de hoje, mas sobretudo pelo entendimento sobre esse fenómeno que ocorreu num país desenvolvido, no seio de um dos povos já na altura, mais cultos do mundo. Um fenómeno que surgiu na sequência das desgraças que se abateram sobre a Alemanha derrotada e devastada pela Guerra mais sangrenta da História, a Primeira Guerra Mundial, com as consequências económicas conhecidas e mesmo com a complacente atitude dos Aliados perante a Grande Alemanha. Uma atitude que não se viu ou se vê com mais algum outro país no Mundo. E ainda assim, nessa Alemanha de há pouco mais de 70 anos, surgiu um novo fenómeno de violência nunca antes visto, de genocídio continuado e persistente sobre um povo tido como a causa de todos os males. Fenómeno que não surgiu isoladamente, mas que bebeu a violência no passado já vivido em outras paragens, contra os Judeus, como na Rússia dos Czares, na mesma Rússia, ou União Soviética, onde esse povo e religião sofreram perseguições, não tão organizadas, mas bem mais devastadoras do que a perpetrada por Hitler.

O Demónio da Depressão, de Andrew Solomon, uma obra que nada tem a ver com História, Cultura ou Política, obviamente, mas que muito actual é, sobre a doença que se tornou uma das mais importantes no Mundo e que vitima tanta gente, é outro livro que recomendo. Tanto pela qualidade muito elevada da sua escrita, como pela oportuna temática, esta obra é de imprescindível leitura e também nos alerta para o Mundo actual, e para os conhecimentos e erros do passado, como para a necessidade de vermos esta doença com novos olhos.

3.5.16

Os intocáveis

Este título é uma provocação. Ia a escrever qualquer coisa como "personalidades" ou "figuras sagradas", mas lembrei-me, a despropósito, mas mesmo a jeito de algum sarcasmo, de um filme sobre um grupo de gangsters em que ninguém tocava. Até um dia.



Na cultura ocidental, ciência incluída, sempre houve um conjunto de "monstros" sagrados, inquestionáveis criaturas que parecerem sempre acima de qualquer falha, erro, ou lapso de inteligência. Foram tantos...Freud (logo este!), Kant, Voltaire, Descartes, Marx, Engels, a lista não terá fim. Nem tudo o que disseram e escreveram se configurou ser verdade, mas nem tudo teria de o ser. Mas ainda assim, muito do que deixaram na sua herança intelectual, está plena de disparates. Hoje, por elegância, bem mais do que por justiça em nome de ciência e cultura, desculpamo-los com a repetida ideia de que "à luz dos conhecimentos da época"...ou "com os meios de que dispunham na altura". Mas terá sido sempre assim?

Um dos grandes problema que tem uma "personalidade" é essa famigerada incapacidade de se questionar a si mesma, de pôr em causa o que teorizou, o que declarou ou escreveu. Normalmente, por evidência de insucessos que atingem a nossa vida comum, apenas pomos em causa políticos, religiosos e, claro, nos últimos anos (50? 100, 150?), os cientistas.

À Filosofia damos um bónus de simpatia e de estado de graça perpétuo, pela conformação que toma a sua natureza muito própria: a ausência quase total de ter de demonstrar seja o que for. O que nem é bem assim, e depende do ramo da Filosofia, mas é-o em geral.

À Arte, que para muito nem é conhecimento, mas as evidências do distanciamento dos nossos diários afazeres e rotinas de comuns, muito comuns (um erro, por opção, pois apenas existem..."comuns" e não há uns quantos, mais comuns do que outros, claro), mortais, damos o benefício da desnecessidade de que se explique, e do nosso parco entendimento dos seus autores e suas obras. E assim, fica a Arte numa espécie de pedestal de intocáveis tendências, correntes e movimentos, e seus obreiros. E fica muito bem, acho eu.

À Ciência, não desculpamos com tais facilidades, mas ainda assim atribuímos o contexto de uma época e dos meios disponíveis para tanto disparate, aos olhos dos conhecimentos actuais, sempre a esses olhos, que sempre mudam de ano para ano, de década para década, ad eternum.

Mas talvez nos devamos questionar sobre a genuína qualidade de alguns agentes de Ciência, por mim tantas vezes idolatrados, sem que o mérito lhes tivesse batido à porta. Mas provavelmente, tão só, por maior desconhecimento de todos os demais. "Em terra de cegos...".

Assiste-me uma dúvida, há muitos anos. Se pusermos esta possibilidade, mesmo que a destinemos às calendas, devemos então, provavelmente, pôr uma outra: a de que a Humanidade, a sua Ciência e Conhecimento podem ter sido negativamente condicionados por um vasto conjunto de caminhos errados, de erros diminutos ou colossais, mas que não permitiram, por condicionamento às palavras do "Mestre" em que matéria for, ou tiver sido e por abandono de outro ou outros caminhos, na procura de respostas.

Se tal acontece, e sabemo-lo bem, na Política, na Economia, nas opções religiosas (para quem não for ceguinho e quiser admitir qualquer coisa mais do que o conto que lhes foi impingido na infância), porque não admitir que a palavra de um Mestre qualquer, fez deixar de ser ouvido outras mentes, admissivelmente mais capazes e mais promissoras.

Dou um exemplo, hoje incontestado: De Rerum Natura, escrito umas centenas de anos do aceite nascimento de Cristo, por Lucrécio, se tivesse vindo à luz do dia bem mais cedo, e poderes retrógrados e esmagadores, o não tivessem tentado fazer esquecer, podia ter mudado em muito o curso do desenvolvimento humano. E, anos depois, a condenação de Epicuro, como perverso e condenável, por defender o Prazer como base da vida e como alimento da algeria e esperança, quantas vidas e quantas depressões de poderiam ter poupado. Pode parecer estranho, mas teriam sido centenas de milhões! Exactamente.

A adulação de alguém, pode ser um caminho muito perigoso...

28.4.16

Desaparecida

Um filme, que revi há alguns dias no fim de semana, de que tinha lido o livro "Em parte Incerta" de Gillian Flynn ("Gone Girl"), é um bom pretexto para uma sessão  de cinema a dois, se os dois apreciarem este género.  O livro é ainda mais interessante, mesmo não se tratando de uma obra de grande literatura, mas é uma história bem urdida.

A história é claramente policial, mas componentes psicológicas e sociais enriquecem-na e também a tornam em algo um tanto provocante, não chegando a polémico, mas mais por ser inquietante.

Um casal que se conheceu de forma original e que parece ter uma enorme cumplicidade, rapidamente vê o seu casamento envolvido em perturbações e começa a viver uma situação de rotinas diárias, dando lugar a uma traição pelo marido (Ben Affleck no filme, no papel de Nick Dune). Amy, a bela esposa, filha de um casal de escritores, que publicam desde a infância da filha livros juvenis com o nome dela, presenciou a traição do marido e decide vingar-se.

O que torna esta história cativante é não apenas o enredo divido em duas fases, a primeira lançando a dúvida sobre o marido como assassino, a segunda apresentando Amy a planear todo um esquema para incriminar o marido, como suspeito de um assassinato de que muitos o pretendem acusar, mas que não se verifica uma acusação viável, pela inexistência de um cadáver.

A tensão do final da história, ou mais concretamente a partir de metade, quando aparece Amy e percebemos ser ela que urde este plano maquievélico, cresce em volta da incompreensão sobre a resposta do marido, injustamente visto como criminoso, embora sem ter sido formalmente acusado.

A parte pouco explorada da relação conjugal deixa no entanto subjacente ao móbil do enredo que um casal pode facilmente entrar em desgaste assim que um se tenta sobrepor ao outro, ou o pretende moldar à sua visão do mundo e da vida. A história defende subtilmente, a capacidade intelectual superior de um face ao outro, e desse modo, as tensões aumentam entre os dois, que deixam de sentir a partilha como elemento essencial, assim como o respeito mútuo, e passam a viver em ambiente crispado mas um tanto tacitamente aceite. Até que Amy decide planear um apagamento do marido, e o faz com rigor e sem quaisquer escrúpulos.

Nick é o lado fraco da história a todo o tempo. E ninguém tece muita simpatia pelos fracos, com a excepção da sua irmã Go que se mantém firme a apoiá-lo. Esperava-se um desenlace distinto, com alguma capacidade de justiça imposta por Nick que finalmente percebeu o que lhe havia acontecido, mas verificou-se, de novo, que se resignou a uma subalternizarão perante Amy, ficando-nos assim um sabor um tanto amargo. Mas na vida real, não haverá muitas histórias assim, em que ganham os que menos merecem, ou mesmo os que deviam ser revelados como perversos ou criminosos?

O filme, como o livro, é, a meu ver, um pouco superficial na exploração das tensões conjugais, conducentes à situação gerada por Amy, mas trata-se de uma história cujo principal motivação é o lado policial e, nesse sentido, é bem sucedida e nos deixa presos quer ao livro, quer ao filme.



24.3.16

Clubes exclusivos

As duas revistas de actualidade de maior circulação em Portugal decidiram na mesma semana, o mesmo tema de capa: os clubes privados em Portugal. Os clubes dos “poderosos”. As frases introdutórias são sugestivas, tanto dos clubes, dos grupos ditos mais exclusivos dos nossos mais “influentes”, como das redacções editoriais das referidas publicações.

Em tais clubes, rezam (é mesmo coisa de culto, não sabemos é se meio, todo ou nada secreto) a “Visão” e a “Sábado” há salas exclusivas, onde se discutem e decidem negócios e, parece claro, mas não é, a sociedade.

Qualquer ser normal entende que se discutam negócios em privado, em “exclusivo” ou “reservado”. Intrigante é, porém, entender onde andam esses negócios, num país que carece tanto deles e tanto eles escasseiam. Pelo menos para que a sociedade e o país (se incluirmos a administração do Estado na sociedade, coisa que ainda me dá que pensar…) vejam os chamados resultados, ou benefícios de negócios tão em grande secretismo discutidos. Mas talvez seja coisa que não se entenda, uma compra qualquer de acções quaisquer de um dado grupo, ou empresa. Ou será que andam sempre a surgir investimentos em negócios que irão tornar Portugal um país (re) emergente?

Imagino que a exclusividade envolva gente de muito saber, gabarito cultural e económico. Imagino mesmo o odor a fósforo de tanto pensante e pensador reunido em torno de umas quantas garrafas de Lagavulin ou The Macallan com 25 anos. Imagino a juventude e dinâmica intelectual de tais elites. Imagino mesmo que já devem ter gerado as ideias basilares das economias, das tecnologias e mesmo das ideologias do futuro.

E, assim, acho mesmo admirável que, em circunstâncias de pré-crise, financeira e social (mais uma) as nossas revistas revelem este iluminismo surpreendente e nos presenteiem com edições ao estilo da futilidade de uma Exame. Ou seja, a mesma passerelle de inutilidade que nos tem enriquecido (empobrecido) de ideias.

Talvez, se abrirmos um pouco os olhos, consigamos vislumbrar o resultado (numa sociedade tão culta e evoluída...e com um futuro tão promissor) de tão ilustres tertúlias, de tão exclusiva prole de filhos da Pátria, num país onde a quase generalidade e inovações são meras e pobres cópias do que nem lá fora se inventou. Só para recordar que…os programas de austeridade são uma cópia da “invenção” de Salazar e do seu programa de recuperação do país. Coisa que resulta em Economia fechada, com importações e exportações controladas, em mercado quase todo ele interno e anémico. Talvez ainda recordar que tão brilhantes inteligências não foram ainda capazes de gerar uma ideologia nova desde há mais de cem anos, ou sequer conseguir escapar da dicotomia anacrónica, de Direita e Esquerda, nascida em França em 1789.

Admiro muito as nossas elites, geradoras, quase só, de novos oligopólios, de empresas super fantásticas, capazes apenas de operar em mercado de poder negocial desequilibrado e injusto, como as nossas eléctricas, petrolíferas e algumas mais, nacionais ou internacionais.

Termino, questionando-me como somos um dos poucos países, ou o único onde um Partido Comunista ainda tem voz e surge na nossa comunicação social. Mas talvez essa seja também uma das estratégias desenhadas em exclusividade de clubes restritos, onde só os nobres pensantes conseguem ver o que ninguém mais quer ver: o poder de alguns face ao desprezo pelos muitos outros. Onde se inclui a Maçonaria, o Opus Dei, Bilderberg…


Gente de elite, evidentemente.

7.3.16

As prioridades das ideias no futuro

Segundo Anne--Marie Slaughter, no seu livro Uma Questão em aberto", no futuro os problemas entre Homens, Mulher, Profissões e Família ainda se colocarão. Sim provavelmente. A ideia base é a de que ainda há muito por "resolver" no tocante às profissões das mulheres, e na sua relação com marido ou companheiro, e com a família e a tradicional organização da vida familiar centrada na basilar figura feminina.

Acredito que sim, em muitas sociedades e em muitas regiões de um mesmo país.

Mas para mim este tema já começa a entrar pelo ridículo e perfeitamente fútil. Porque duvido serem esses os problemas sociais, e familiares, do futuro.

Os problemas essenciais terão bem mais a ver com as relações interpessoais em casal, desse casal com a restante família e nas implicações com as profissões. Hoje o amor, outrora, mas nem sempre também, um alicerce de uma vida a dois, o amor hoje prende-se com aspectos muito práticos e com condicionantes da vida contemporânea, que nada têm a ver com o sentimento, e quase sempre põem o mesmo em risco ou o matam antes de se desenvolver.

O problema do futuro será mesmo o amor. Ele foi aniquilado com a globalização, mas já o tinha sido com o esforço dessa perversa instituição criadora de ódio camuflado e cerciador da liberdade de que o amor precisa para surgir e crescer. a igreja católica. Ele foi aniquilado ou muito debilitado, quando o desemprego surgiu e grande parte das pessoas se tornou materialista. O materialismo, uma criação socialista, que demagogicamente acusa a direita de viver com ele, mata mais relações sentimentais do que qualquer outra coisa.

É fácil hoje observar um amor quase planeado com fim à vista, deixando de o ser, para se tornar uma efeméride. Confunde-se amor com necessidade. Com necessidade em suprir carência, ou mitigar solidões. Confunde-se com uma amizade de grau superior. Depois ainda se confunde amor entre adultos, com amor entre adultos e filhos, ou sobrinhos, ou aquela ternura que é natural ter-se quando em presença de um bebé, ou uma criança. Confunde-se até, de forma supramente ofensiva, com o prazer que nos dá a companhia de um animal.

Por tantas destas confusões, nem sempre inconscientes, o amor é o caso do futuro, por nunca no passado se ter tentado resolver. Hoje, com as neurociências no estado em que se encontram e no que vão previsivelmente estar, o amor será eventualmente melhor entendido e revelado ao mundo, como nunca antes o foi.

O problema de futuro não tem quase nada a ver com conflitos de género, com conflitos de gerações, ou mesmo com conflitos intrasociais. Os conflictos de classe, que tanto prazer dá a comunistas continuar a alimentar e inventar se necessário for, são também problemas do passado. Como tantos problemas do passado, não estão totalmente resolvidos, obviamente. Há regiões no mundo onde os conflitos de género, ou de classes se põem nas preocupações diárias de muitos milhões. Mas a solução tendo chegado a um ou mais pontos do globo, chegará sempre um dia a todo o lado, e com uma celeridade nunca antes vista.

Os sentimentos humanos mais profundos, o amor em concreto, sim, serão o problema real do futuro e não apenas entre um casal, ou entre o casal e as famílias, onde a sua importância será semrpe maior, mas entre tudo o que implique um respeito pelo ser humano, nas ciências, na política e, sobretudo nas piores instituições do mundo: as religiosas e as para-religiosoas, como a perversa e criminosa maçonaria.

Mas o amor está presente em tantas mais coisas e assuntos científicos e políticos. Ele devia estar presente quando se decide pela prossecução de pesquisas controversas que se verificam serem nocivas à vida humana, e pelo prazer científico, ou pelo prazer egoísta de se publicar mais um inútil paper, se esquece o valor que uma vida pode ter, e tem-no sempre. O amor não existe quando arrogantemente se pôe qualquer pesquisa científica como algo superior e incompreensível à maioria de nós.

A política, dos últimos 30 a 40 anos, tornou-se uma montagem de interesses pessoais e o amor altruísta das causas de estadistas como Churchil, se esfumam em prol do interesse pessoal mesquinho, sórdido e mesmo criminoso.

Não há muito amor pela sociedade hoje. Nem mesmo em casais, onde um facilitismo leva a mais separações do que a uniões sólidas.

Não há amor algum quando alguém rouba descaradamente outrem sem qualquer justificação, do que um roubo à imagem desses energúmenos sociais que constituem os referidos, constituídos pela pior escória social que podemos ter memória. Não há algum amor quando os interesses comezinhos e reles, de nível muito baixo, se sobrepõem a todos e a tudo. Sem um minuto de perda com escrúpulos. Há ódio e um ódio que até aos próprios usurpadores os convence de realidades mistificadas, totalmente inventadas. Como Sócrates o tem feito e como um dos seus mais intrépidos defensores me fez, pessoalmente. É um ódio que lhes ficará colado à pele e com que ele viverão

Este o problema do futuro, quando os problemas sociais e políticos tiverem uma espécie de preocupações sociais, e de novo se levantar a hipótese da regressão a tempos que já se julgam mortos,

24.1.16

Nenhum dia é suficiente para conter toda a luz



Quando se passa em frações de segundo, de um estado sem consciência, vindo de um outro em que o cérebro aproveitou o descanso físico para se reorganizar e nos confundiu com aqueles sonhos que parecem saídos de um filme de ficção científica, e nesse breve momento de alteração de estado, nos esforçamos por abrir os olhos à realidade, num natural exercício diário de regresso ao real...

...E o mesmo calor ausente ali está, a mesma luz de um sorriso que escasseia ali está, a mesma respiração amada e o odor dessa ausente mas sempre constante presença imaterial, ali está, num desejo para que o tempo voe e se regresse à doçura de uma realidade nem sempre possível.

Abro a janela para que entre a luz e não me dê alguma hipótese de regressar a um sono que me prende no que não quero, mas que me liberte ao pensamento que entender. E a este sentir por todos momentos em que esses olhos únicos me roubaram todas as palavras que consegui aprender. E, por opção fecho de novo os olhos, já com o quarto iluminado e sinto o que não é possível fisicamente sentir.

A paisagem é agora de curvas suaves e doces que se tem de percorrer, é de aroma inebriante e identificável sempre da mesma forma, associada a essas formas curvas que também emanam um calor que não é apenas físico, mas bem mais de paixão. De olhos fechados estendo o braço e quase sem a total proximidade tento imaginar-me a percorrer o mais encantador dos vales, e a mais maravilhosa saliência. Aproximo-me mais e aspiro o odor do fim de uma noite de sono pesado e encho-me todo desse perfume só assim existente, deixando-o entrar-me fundo e sorvendo a poção mágica que sempre me deixou ébrio e a pairar. Muito, muito ao de leve vou tentando sentir nos dedos a suavidade dessa tua paisagem corporal, abrindo um pouco os olhos como para conseguir ver o que ali ao lado não está, mas vejo mesmo a limpa e alva paisagem que ergue do chão e me deixa em falsa suspensão, pairando.

Há uma luz ímpar que emana de tal paisagem, branca mas doce e não ofuscante, que me chama constantemente para gáudio dos meus sentidos. Há um desejo que se lhe associa e que nem sempre se pode satisfazer e guardar novas memórias de tão bela panorâmica.

Há um som que subitamente surge dos lábios mais perfeitos que alguma vez se pode ter. O som de um novo dia mais que traz consigo promessas chegadas com a paragem do tempo como se quer.

O sorriso, mesmo numa ausência é imprescindível e inquietante. É pertubador e quer-se alimentar essa perturbação e essa insegurança do que se sente, não por incerteza, mas por desejo de novidade a cada momento que o teu corpo permite e impele.

Então os olhos se abrem para um dia mais, em que a luz que a tua pessoa dá, faz dispersar qualquer cinzento dia, qualquer pensamento carregado, qualquer tentativa de tempestade humana ou natural.

E Bom dia é o que se diz de sorriso espraiado e com todo o impulso que o sono ainda em fuga nos permite. Bom dia ao mais belo sorriso e ao mais doce olhar de sempre!

Era Bom dia e deixar-se, de novo levar, pelo peso do sono para mais tarde poder dizer uma outra vez Bom dia e com isso enganar o tempo, com essa sensação de duplicar um dia, num único amanhecer e dois despertares.

Porque não há despertar suficiente para essa bela luz. Nem dia que abarque uma tal matinal doçura.