Choque de Civilizações?

Li, por estes dias, mas tenho de confessar que não sei quem referiu, em todo o caso a expressão não é inovadora, que estes ataques em Paris, e mais os das Torres Gémeas, em 2001, e o de Londres, significam estarmos perante um choque de civilizações. 

Por outros lados, em texto de uma amiga no Facebook, li que os muçulmanos irão um dia “evoluir”, como já nós evoluímos (o exemplo era muito significativo, sobre o que o Papado outrora fez, cometeu, criminosamente, aos olhos de hoje. Não discordo nem de uma, nem de outra expressão/afirmação. Mas faço a mim mesmo algumas perguntas.

Concordo na análise da minha amiga, sobre o estado civilizacional das sociedades islâmicas. Como de outras. Se pensarmos no que pode levar um grupo de fanáticos loucos e criminosos, sanguinários, sem qualquer respeito pela vida humana, como se ainda vivêssemos no mundo de há cinco séculos, a armadilhar crianças de dez anos com bombas e as levar a se suicidarem… Crianças que nem infância conheceram, e que talvez tivessem sabido do mundo de magia e felicidade encantada que as crianças europeias tiveram e têm oportunidade de usufruir.

Escrevo sentado num sofá, uma caneca de chá ao meu lado, um bom cobertor de excelente lã de Monsaraz, um simples e, no entanto, tão especial, privilégio de europeu. Neste momento, alguns fanáticos da Jihad estarão a planear mais uns actos de extrema violência, outros a torturar ou a matar inocentes, que o que mais desejariam era estar no meu lugar. Um lugar que os meus antepassados conquistaram, também com sofrimento e sangue. Evoluímos, na Europa, no Ocidente, em geral. É verdade, mas também o pode ser a evidência de uma sociedade em decadência que necessitamos de recuperar, e isso irá custar mais uns tempos de desgosto, mas desta vez provavelmente aos que agora são os mais privilegiados neste Ocidente doente. Mas eles não o sabem, ainda, nem nós.

Uma das perguntas que me ocorre por estes dias, já nem é a que alguns sérios historiadores, e alguns pensadores terão feito, após as conquistas de terras a outros povos pelo mundo. Se é legítimo levarmos a nossa forma de vida a esses povos, mas antes, se serve de alguma coisa. E, no entanto, parece-me que precisamos uns e outros, de forçar esse salto no tempo, um salto, provavelmente e séculos.

Talvez antes, outra pergunta se imponha: O que agarrou a civilização árabe, ou mais em concreto o Islão, a um passado, vendo correr ao seu lado o progresso (que alguém gosta de glosar e negar, mas que se não pode ainda ser com ligeireza visto como absoluto, se pensarmos nos equipamentos, máquinas, gadgets, e apetrechos que hoje moldam e comandam o mundo económico e definem o estádio de desenvolvimento até social de vários países), cultural, social e, claro, é evidente das nossas religiões. E, no entanto, também, esta ideia de evolução religiosa é muito complexa e nem por sombras de ligeira análise. Pelo menos para quem não é religioso ou crente. O que manteve o Islão preso ao passado? Várias explicações podem avançar-se, mas eu arrisco duas, com o que pode acarretar de grosseiro o que penso sobre esta modernidade em várias velocidades, quando observamos o mundo.

Muitos estudo há sobre o avanço das sociedades e das nações, sendo os anglo-saxónicos os mais prolíficos nestas análises, como não surpreende. Nial Fergusson, em “Civilização", e em “Império”, Jared Diamond, em “O mundo até ontem” e “Armas, germes e Aço” e outras obras, Acemoglu e Robinson em “Porque falham as nações” e tantos outros, de onde não posso excluir o decano Jacques Barzun. As causas e origens da ascensão ou da decadência, de uma sociedade ou nação, são diversas. A descoberta e domínio de uma tecnologia, e a sua obsolescência. A desigualdade social gerada numa sociedade, pelo domínio em monopólio ou oligopólio de um forte e determinante bem económico, como a produção de petróleo, controlada nos países islâmicos (nem todos são produtores de petróleo, mas os que não são seguem as pisadas políticas e totalitárias dos outros, com a base religiosa como argumento). Há um padrão comum nos países onde persiste, ou até recrudesce o totalitarismo islâmico e nos que alimentam fundamentalismo religioso, e anti-ocidental: a miséria e escassa instrução e informação dos povos.

Confesso a minha ignorância para uma análise mais apropriada das sociedades islâmicas, que não conheço, com excepção de uma breve passagem em Marrocos, que não me habilita a estruturar melhor pensamento sobre este assunto. Mas a análise não depende apenas desse conhecimento. Depende da capacidade de um raciocínio que se afigure mais ou menos independente. De religiões e de atávicos complexos culturais. Mas noto-os em muitas pessoas que têm escrito sobre este assunto, relacionado aos crimes de Paris, como observo o esforço de independência de quem está cultural e intelectualmente ligado a uma religião que se diz hoje mais evoluída, o cristianismo, mesmo na forma do catolicismo, para mim uns bons anos atrás das igrejas cristãs do norte da Europa. 

Haverá mesmo um choque de civilizações? Ou mais propriamente um choque temporal, difícil de entender e muito menos de aceitar? E, se assim é, como se resolve? 

As medidas mais ou menos securitárias terão de ser tomadas, pois a urgência das mesmas e o cuidado com os povos potenciais vítimas assim o exige. Mas estou seguro de que não resolverão o problema. Uma civilização, hoje em dia, dificilmente pode mudar uma outra. Outrora, usaram-se as armas, os germes e o aço… hoje, que poderemos usar, se as armas não nos têm trazido onde queríamos e onde muitos desses povos bem oprimidos pelos ditadores e fanáticos do Islão, bem o desejariam.

Neste momento, pouco mais do que perguntas me restam sobre este assunto. Trata-se de um confronto no tempo, no espaço geográfico, agora com a dificuldade acrescida de os perpretadores dos crimes serem cidadãos europeus, como a mesma educação dos nossos filhos, vítimas potenciais. Trata-se de confronto de civilizações, provavelmente, também e de religiões, vertente nunca assumida por ninguém. Não irei discutir as razões teológicas, ou das instituições religiosas que suportam cada religião. Não por não me parecer estimulante, mas porque além de gerar polémica é totalmente futil. Será tema para um teólogo, ou um crente, provavelmente, mas eu seria suspeito nessa argumentação.

Desconfio que a mediocridade dos políticos europeus, que agem muito ao estilo bombeiro, não nos trará alterações, nem sequer reflexões, que teremos nós todos de ir fazendo e propondo. Esperemos pelas próximas semanas e meses, no entanto.

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