Sobre um artigo de Eduardo Lourenço

Hoje estou numa de links. Mas seguir os melhores nunca foi má coisa.

Vale a pena a visita, a este texto, ao Pura Economia.

É feita uma reflexão concisa e incisiva sobre a já proverbial "depressão comum portuguesa", como base num excelente artigo de dos nossos pensadores e ensaístas mais prestigiados, Eduardo Lourenço.

Com a devida vénia e absoluta concordância (e a mesma dificuldade de muitos em ter como suas estas sensatas e muito positivistas ideias...)

Não se pode estar mais de acordo em como, de facto, no global, Portugal mudou imenso num espaço de dezenas de anos (se atendermos aos oito séculos de história que fazem de nós uma das mais antigas nações da Europa, e do Mundo...) e para melhor.

Podemos, individualmente, ou em determinados “círculos” ou grupos profissionais, não sentir muito melhor do que um desalento, face ao desenvolvimento continuado de parceiros europeus. Mas a FACE do país e as suas ESTRUTURAS mais essenciais, mudaram acentuadamente, em poucas décadas. Há crises que não são apenas portuguesas, como na Educação, na Cultura, na nossa atitude geral sobre novos fenómenos (ou velhos, com novas facetas), como o terrorismo, ou as modernas e recentes guerras, etc.

Mas há alguns outros primas pelos quais se pode reflectir sobre alguma nossa inadaptação, que tenho como temporária, à realidade moderna dos nossos tempos, globalizados: sempre se desenvolveu, social, cultural e economicamente, quem (os países) que dominaram uma, ou umas, tecnologias, importantes na época em que se inserem (em que surgiram). Assim foi com Portugal quando dominava a tecnologia associada à navegação (e cartografia, cosmologia, matemática...). Assim se passou com o Reino Unido, quando da Revolução Industrial. A tecnologia da guerra, se lhe podemos chamar isso, foi muito desenvolvida pelos Estados Unidos, muito depois, dando-lhe, assim uma supremacia política sobre os outros. Mas, nessa altura, como noutras épocas, muito mais pelo domínio da tecnologia ou conhecimentos em causa, do que pela natureza da mesma (neste caso, a ciência e, claro, industria associadas ao armamento e à guerra).
Hoje, são ainda os países anglo-saxónicos, mas tudo se vai alterando em favor de países da região asiática, precisamente, agora sofredora de uma catástrofe natural.

Não será, uma vez mais, sempre assim. Um dia outra zona do planeta, quero dizer outro ou outros países terão domínio sobre algum conhecimento ou tecnologia com elevada relevância para todos os outros: pode ser alguma tecnologia associada ao ambiente, por exemplo, ou outra. E tudo mudará “de mãos”, de novo.

E não é linear que Portugal, como outros, não consigam acompanhar, mesmo a ritmo distinto, os novos futuros líderes, ou seja o nosso país o próprio líder.

Há cerca de 30, 40 ou 50 anos, como estavam (social e economicamente...culturalmente já tenho mais dificuldade em referir) países como a Finlândia, Suécia, Suíça, Noruega?

Entre ânimo e desalento tudo isto avançará! E Portugal continuará a melhorar, apesar de alguns sobressaltos...


Comentários

Hipatia disse…
Com líderes vazios de conteúdo e uma população desmotivada, pode é não avançar tão rápido como seria desejável...
abf disse…
Pois...esse é que é o problema. O tempo!
Mudar, melhorar, sim, mas...
Pode ser tarde, para nós, há-de ser atempo de alguém, mas quando tudo isto muda...
J.A. disse…
Agradeço ao ocidental-acidental a referência ao 'pura economia'. Mostrar como o país melhorou não significa o mesmo que dizer que tudo está bem, mas é um discurso que "não cola", mesmo quando é apoiado por dados, evidências.

Por exemplo, diz-se, como Hepatia diz, que a população está desmotivada. Como é que sabemos isso?

Imaginemos um qualquer cidadão português, desde que acorda até que se deita e adormece de novo: ao longo do dia aborrece-se com uma série de coisas (o trânsito, a papelada, a falta de tempo, algumas notícias), alegra-se com outras coisas (uma piada ouvida de passagem, a visão de alguém desejado, um livro que está a ler, outras notícias). Trata-se de um ser complexo: ao longo do dia alternou várias vezes entre estados mais alegres e mais tristes. Podemos dizer que é um desmotivado? É difícil. Você mesmo/a, que está a ler isto: considera-se um/uma desmotivado/a? Dificilmente, não é?

Então se é difícil classificar uma só pessoa como "desmotivada", como é que é possível classificar uma população inteira? Onde é que está o "desmotivómetro?"

Um dia vem um jornal e diz: "os portugueses estão eufóricos". Noutro dia dia garantem: "agora estão deprimidos." Tratam-se de abstracções de jornalistas e de fautores de opinião. O pessoal ouve e repete acriticamente.

Este exercício que escrevi aqui já o tenho feito directamente a amigos meus: provo facilmente que eles não estão nada desmotivados, anulo-lhes o argumento em menos de nada.

E sabem como reagem? Mudam de conversa, não querem saber - o discurso não cola. E concluem: "as pessoas estão desmotivadas!" Pensam que são originais mas estão apenas a repetir o "discurso oficial" dos meios de comunicação.
abf disse…
Obrigado pelos seus comentários e a sua 'achega'.

Para mim, tudo o que diz é lógico, e facilmente assimilavel. E também nã entendo o alcance e o significado real de tais expressões " as pessoas estão desmotivadas"....mas alguns indicadores poder-se-ão retirar de atitudes, acontecimentos e, mais concretamente, de resultados: de políticos, de empresários, de resultados obtidos, ou antes pelo contrário- não obtdidos. Coisas de relativamente fácil alcance para um economista- que eu não sou, mas você é. Mas pior...e aqui, confesso não poder fazer ligação directa a estes nossos tempos, ditos de crise, ou conturbados, ou de insucesso: a pouca esperança e a elevada probabilidade de falhanço de novos empresários. De novos auto-empregadores. O que aconteceu a uma Alemanha, há 50 anos, dava imenso jeito agora, para Portugal...e não se vê alguma possibilidade- uma classe média capaz de criar novos negócios, novos produtos, novos empregos... e o sucesso, anos depois, dessa Alemanha mede-se por tal aspecto , muito mais do que pelo crescimento real de grandes empresas, quase nacionais ainda nesse tempo, hoje multinacionais.
Toda a massa crescente de licenciados, nem todos só por isso mais habilitados, que hoje engrossam as fileiras dos sem emprego, e refiro-me a licenciados com experiência, e ainda novos (nos 30 a 45 anos, ou pouco mais) não têm, não vêm ainda qualquer possibilidade de triunfo, individualmente, quer criando novas empresas, ou auto-empregos, ou menos ainda de voltarem a trabalhar, de novo, para as empresas que antes cá estavam... e se foram.

Isto é um indicador, acho eu, de um desalento, que não se poderá analisar em grupo, talvez (...) mas em segmentos, ou individualmente, snedo que a soma das partes...

Mas... terá de existir futuro, mais cedo ou não, para tais rpofissionais, ou então, seremos o país que terá emprego menos qualificado... (no futuro, já hoje ainda o somos, claro)
Ma não me interpretem mal: não comungo de desalentos, ou desânimos globais, sociais.
abf disse…
Ainda sobre o excelente comentário de J.A, do "Pura Economia": o discurso de desânimo não cola, e estou de acordo. Mas já reparou quantas coisas não 'colam' de são a realidade à frente dos olhos de toda a gente? Por exemplo, o discurso do despesismo socialista... dos governos Guterres... o discurso da necessidade de uma espécie (disse "espécie") de pacto de regime, e logo surgem partidos tipo PC, BE, etc a desmontar tudo o que foi feito... Código do Trabalho, ...

E noutras áreas...mesmo sem serem ditas as coisas..."os portugueses são os que menos lêem", os mais iletrados, etc...

São tantos os exemplos...

Logo depois de Guterres "dar à sola", o PS teve, continuou aliás a ter sondagens que lhe davam vitória eleitoral....é deste povo, ou ando a ler as fontes erradas??
Hipatia disse…
Caro J.A.

Permita a presunção de me achar melhor do que um carneiro qualquer a debitar patacoadas escritas pela classe jornalística. Não os tenho em grande conta, acredite. Pelo menos à grande maioria dos jornalistas que vão aparecendo. Permita-me ainda a presunção de achar que consigo pensar pela minha cabeça e debitar aquilo que sei, aquilo que vejo. Porque o meu caro não sabe com o que trabalho, ou como trabalho. Nem vê, como eu, os efeitos nefastos da desmotivação a que me referia. Porque mesmo que haja – e ainda bem – grandes ocasiões para sorrisos, há também um país real em banho maria.

Não, não me refugio em doutrina, em teorias macros ou micros ou sociológicas ou o que for. Nem sequer em discurso jornalístico. Falo do que vejo. Do que conheço. Do que atinge ou atingiu tantos que me são conhecidos. Tantos daqueles com quem trabalho diariamente. E não há mesmo motivos para sorrir, a maior parte dos dias. Ou então mais vale sorrir com qualquer coisa, para que a desgraça não nos apanhe.

Claro que se podiam debater várias teorias. Mas eu prefiro não debitar mesmo a conversa dos outros...

(desculpa ocupar aqui este teu espaço, ABF)
abf disse…
Be my guest. it's a pleasure...realy. Para quem quiser comentar.

Em cada ponto de vista plural há sempre algo a desvendar a outros.
exactamente disse…
Obrigado pelo link.
Quando estiver mais "liberto" virei cá espiolhar e participar.
J.A. disse…
Hipatia:

Não interprete os meus comentários como uma crítica pessoal. Se quizer considere-as mesmo como uma auto-crítica. As "interpretações" do país (em geral apoiadas numa espécie de psicanálise freudiana vulgarizada) são muito pervasivas e todos nós acabamos por as assumir e repetir.

Como economista custa-me de facto assistir a um radicalismo de análise que oculta os aspectos positivos da realidade. Um exemplo: a região de Setúbal sofreu uma profunda crise económica nos anos 80, mas recuperou de forma vigorosa; é certo que continua a haver uma elevada taxa de desemprego, mas isso é típico dos processos de modernização económica (é por isso que a Espanha tem uma taxa de desemprego sistematicamente superior à nossa). Os setubalenses deveriam estar orgulhosos da sua capacidade de trabalho e recuperação e apoiar-se nessa experiência para melhorar ainda mais. Porém, o discurso que ali vigora é o miserabilista (fome, miséria, desemprego...). As pessoas habituaram-se a este choradinho e gostam de se lamentar.

Se acreditássemos nestes discursos, o país teria vindo a piorar sempre desde 1974; ora as estatísticas provam o contrário.

Diz-se: a justiça está um caos, a saúde não funciona, etç.

É um exagero: eu saio à rua e não há grande probabilidade de ser assaltado ou morto; ocorrem crimes violentos mas, em geral, resultam na prisão dos autores. A esperança de vida tem vindo a aumentar: como é que isso seria possível com o sistema de saúde a piorar?

Noutro dia, aquando da prisão, na Venezuela, da tripulação de um jacto que estava para ser usado no tráfico de droga, tivemos um exemplo do que pode ser a arbitrariedade da justiça: as pessoas presas e a passarem noites ao ar livre acorrentadas num lado qualquer. Ao que dizem os jornais, o avião tem sido utilizado para viagens particulares dum militar qualquer. Isso não seria possível em Portugal, portanto a nossa justiça tem problemas mas não está num caos.

A capacidade de "choradinho" das pessoas não tem limites. Um dia ouvi a uma pessoa, inquilina de uma Câmara, queixar-se do estado em que estava a sua habitação, pois até a porta da rua estava desfeita, a cair de podre; pedi para me mostrar a porta: não era a porta da habitação mas sim do prédio, e a única coisa que estava estragada era o trinco.

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