A luz que é preciso ver




Ao fundo, aproximava-se uma nuvem que não era bem-vinda, porque vinha carregada de tudo o que não era esperado, nem desejado. Mas não se sabia. O dia começara havia pouco e num céu que queria ficar azul, havia esse anúncio que não se adivinhava. Normalmente, não dava qualquer importância a uma simples nuvem pressagiante, pois presságios, adivinhações ou determinismos não eram da minha esfera de preferências.

E o dia foi andando e não foi andando bem. Sempre recebia essa luz, pouco a pouco, uma e outra vez, e a queria receber e nem ela a conseguia ou sabia receber bem. Foi-se consumindo o dia, porque todos se têm de gastar. Uma fatalidade, por vezes abraçada, por vezes detestada. Num dia branco, sem ocorrência que se quisesse memorizar, querer-se-ia que continuasse branco, até que a negra noite o apagasse de vez.

Foi música e leitura, poucas. Foram pensamentos parvos e ansiedade e tudo continuava à espera de correr bem, antes que a dança acabasse, antes que se apagassem a luz e a sala fosse encerrada. A nuvem já era passado, e só restava mesmo era que o calendário se cumprisse, na certeza que a luz que tem dado vida e forma e muita esperança aos dias, sempre fizesse o fecho em festa, em bom brilho, o que sempre acontecia.

De cada vez, a luz. Não eram olhos, era a voz, e com ela tudo o que contava e conta. E de cada vez, o mau do dia se ia, embora não totalmente, mas sempre com a tal certeza. Há sempre dia seguinte e há mais luz em todos eles. E luz é sorriso, é energia vibrante, é irreverência, é jovialidade, é um afago e um carinho, momentos loucos e divinais, uma paixão que não se explica e apenas se tem de agradecer.

E sempre se termina com essa luz, nem que seja quando Morfeu clama por nós e nos promete muita claridade e a tua encantadora luz que esses olhos e sorriso e todo o teu ser me têm dado, sempre em realidade e sempre em promessa.



E és assim, toda a luz que se precisa ver, que preciso ter. Ela se espraia por campos finitos e prazeres infinitos, é luz de voz, de coisas ditas de coisas por dizer, sempre no teu melhor. É um luz quente, que me trazes, é um abraço morno e protector, é uma grande promessa de soprares nuvens que cá não devem estar. Fecho os olhos e vejo, claramente, porque esse brilho me chegou um dia e não mais sairá de mim e dos meus dias. Vou agarrar com toda a força toda a luz que conseguir reter. Um exercício fácil, porque ela vem até mim com amor. Abro os olhos e é noite e, no entanto, a tua luz está cá, se derramando por tudo à minha volta e acentuando tudo com as sombras projectadas, não com sombras de nuvens que não são bem vindas.

Ninguém vê essa luz. Eu sei que a preciso ver, eu. E ter. E reter.


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