30.12.14

Sócrates: um caso de polícia e muito mais

Muita gente se mobilizou pela internet, pelas opiniões em cafés e com amigos, à volta da prisão de Sócrates. Nada de surpreendente. O que surpreende, os mais desatentos, é o cortejo de figuras que o vão visitar ao calabouço (talvez o seu merecido lugar desde sempre).

Sócrates possui muita informação e segredo sobre muita gente, por ter facilitado, ajudado e patrocinado uma linha de corrupção que envolve muitos dos que agora o visitam. É preciso, é fundamental ir beijar a mão "al Padrino". Quanto a isto fico por aqui, já disse tudo. Aliás, estou tão cheio desta estupidez à volta de um criminoso, que me apetece decidir não mais escrever sobre o energúmeno. Mas não iria fazer essa vontade aos seus cegos e burros seguidores, lamento.

Sobre este caso e criatura, vejo dois grupos de pessoas. As que insistem utopicamente na sua impoluta pessoa, num grande político que, à maneira de Estaline, querem branquear, reescrevendo a história, e até pretendem condenar a própria Justiça, essa fim fonte de todos os males. A Justiça é agora fascista, pidesca, malvada e mentirosa. A Justiça, que antes Sócrates defendeu, quando manipulou o anterior Procurador Geral e o Presidente do Supremo, é uma ameaça à Democracia. Aos direitos humanos, veja-se bem. Quando ela pretende é precisamente defender os direitos humanos, consubstanciados no direito às mesmas oportunidades de carreira, de vida, que precisamente gente como Sócrates arrestou e limitou aos amigos dessa seita odiosa e conspiradora que é a Maçonaria. A Maçonaria e os seus simpatizantes próximos, os que não pertencendo a ela, andam em bando, como abutres, em alerta sobre os restos mortais que ela vai deixando.

Outro grupo é o dos que pensam como eu, e é bem maior e maioritário. De pessoa que têm a certeza da culpa de Sócrates, não apenas do que agora pode vir a ser acusado (ainda não foi), e já é investigado, mas também da casas da Covilhã, do aterro, do Monte Branco, da Face Oculta, do Freeport, da Universidade Moderna e da sua falsa licenciatura. Mas este grupo só o condenou social e politicamente. A condenação efectiva, a acontecer, é competência e trabalho da Justiça, que nada tem de pidesca e é, efectvamente, neste momento, a única oportunidade de se fazer em Portugal o que há muito é esperado: reformar o Regime, expurgando-o de vermes que o têm corroído por via da política e dos empresários corruptos (estes ainda em maior número).

O que me espanta, me arrepia até e provoca um estremecer do consciente, é o que andam a fazer tantas pessoas que desejam o mesmo que eu, esta purga fundamental na Democracia, que pode começar precisamente por este ser inferior de nome Sócrates, e continuar por tantos processos e indivíduos, alguns até arquivados de momento (mas ainda não totalmente isentos de alguma investigação como em breve saberemos...). Surpreende-me que pessoa inteligentes e íntegras se preocupem tanto com a justiça da Justiça, com segredos de justiça e outras menoridades, quando o valor maior da Verdade e Transparência pode ter agora encontrado a última oportunidade de representar a determinante reforma deste Regime, desta Democracia, corroída de tanta corrupção.

Pois por mim mantenho-me na mesma linha: não abro mão de uma só pessoa, suspeita e processo, atinja quem atingir! Sócrates pode representar um exemplo e um início de uma purga que a Democracia exige. Mas nada termina com ele. Claro que não. Mas se, de cada vez que ele vem à baila, se vão buscar outros processos, parece-me que o serviço que se faz é o de dar o jeito à corrupta Maçonaria e aos amigos de Sócrates e a ele mesmo. Os amigos que o têm visitado, e os que nem para isso têm coragem, mas que arriscam muito, quando ele começar a falar.

O que as pessoa não parecem ver é a absoluta necessidade da investigação mais profunda sobre a vida do estafermo. Sem obstáculos e sem este movimento asqueroso e conspirador dos maçons e seus comparsas. O que interessa à Democracia é prosseguir com este processo e chegar ao fim, eventualmente condenando Sócrates ou, se tal não acontecer, por erros processuais, como é costume num sistema judicial refém de regras e leis que o minam, fruto do grande trabalho efectuado durante dezenas de anos pelos amigos da corrupção, instalados na advogacia e nos legisladores, que pelo menos nos reste a sua condenação social e política definitiva. Menos do que isto é um perigo que uma Democracia que se pretende civilizada e europeia, não conseguirá suportar e ficará refém de movimentos perversos, conspiradores e corruptos, como os que já sabemos (em parte, apenas).

Estes processos, demonstrativos de uma mudança fundamental na Justiça portuguesa, mas também europeia, pois em diversos países, parece finalmente haver uma clarividência quanto à absoluta necessidade de se salvarem regimes democráticos, antes que populistas e corruptos os estrangulem definitivamente, sem remissão, têm de continuar. Sócrates é apenas um, mas o mais representativo e mais necessário no momento. Mas a corrupção e as redes de tráfico de influências e o enriquecimento ilícito têm de ser combatidos, sem trégua alguma.

Estou certo da absoluta necessidade de denúncia da Maçonaria, do seu desmascarar, da perseguição judicial aos seus maiores mentores, que para si asseguraram modos de vida imerecidos, por via de amizades inimigas de uma Democracia transparente e justa para todos. É o que espero com este processo de Sócrates, muito mais do que a sua condenação, necessária mas não suficiente. O polvo conspirador é bem maior do que esse ser menor.

29.12.14

Reflexões sobre os povos e as suas inexplicáveis (faltas de) atitudes

Há algum tempo que me tem dado esta vertigem de reler e rebuscar na memória os acontecimentos que conduziram às duas Grandes Guerras Mundiais, na Europa originadas e desenvolvidas. Estes caminhos devem-me ter sido sugeridos pelo lado "peste" da minha mente vacilante- o Inconsciente (ou serve isto de pretexto, apenas).

Quando me interrogo sobre as razões que (não) assistem a um povo para não tomar uma atitude, organizar-se num dado momento, ou durante uma época relativamente longa...como aconteceu com Portugal durante os anos do Estado Novo (sempre me irritou este epíteto sobre época tão retrógrada), como aconteceu em Espanha, durante os anos de Franco, como aconteceu na Europa da Primeira Guerra, quando povos enlouqueceram, em nome de uma dita (ditosa) honra que diziam defender, como voltou a suceder na Segunda Guerra, em que um povo evidentemente de cultura superior a tantos outros europeus, se deixou convencer, subjugar e conduzir por um louco mentiroso, de inteligência direccionada, a seu serviço pessoal e do seu grupo de embriagados pelo racismo (mais pelo interesse financeiro e sede de poder).

Porque a memória do que li na minha adolescência me podia trair, fui de novo indagar. E de facto, confirma-se. Os alemães que hoje perversamente lideram uma Europa (derivante...talvez o não pretendessem ou lograssem se este fosse um espaço geográfico e político, económico e social forte, de países menos desiguais, mais parceiros, mais participativos num equilíbrio de forças distinto do actual), foram forjados na mesma cultura, língua e país que cegamente se verificou seguidista, por ...afinal tão poucos anos, mas tão violentos e consequentes, tão poucos, quanto a vontade com que logo após a entrada dos "Aliados" no seu país, os fez não apenas aceitar uma nova realidade, como negar a anterior, de semanas, ou poucos meses, como alguém que um dia ama e dias depois já não sente amar, ou vice-versa, a mesmíssima pessoa. Tanta fé e o seu contrário são difíceis de entender, e, talvez por isso, todos os outros povos antes seus indignados opositores os tenham, também com a celeridade de escassos anos, deixado de os julgar.

Impressionante, face mesmo a uma entrada violenta, dos libertadores Aliados, outra faceta rápida e intrigantemente apagada da história. Quando os Aliados entraram e ocuparam a Alemanha vencida e rendida, novos actos de violência se perpetraram, com a humilhação nova do povo que antes havia violentado a Europa. Talvez legítima, pela raiva. Indesculpável, pelos mesmos princípios, que diziam os libertadores defenderem.

Mas como foi este povo tão fácil e universalmente subjugado e controlado? Como ...Portugal em tantas épocas? E Itália? E Espanha.

Na Alemanha de Hitler, a mesma que hoje julga saber o que é melhor para si e para toda a Europa, tão cheia de certezas hoje, como outrora, logo traduzidas em profundas dúvidas, a resistência e oposição ao ditador foi frouxa, desorganizada e dispersa, nunca eficaz. Estranha-se, aos olhos de hoje, pelo menos. Mas por cá, o mesmo povo que abraçou o fim de um regime e o início do seu contrario, de uma Democracia, também se contradiz nos termos e nos actos. Também se estranha.

Não está na proximidade cultural a explicação, como se compreende, sem grande reflexão. Não está na diferença da mesma, eventualmente. Estará em algum implícito sociológico, ainda por se entender e explicar?

Um dia um povo se indigna, se manifesta e revolta e provoca uma reviravolta, tumultuosa ou não, na sua história. Noutro, aceita passiva e tacitamente, tudo o que nega no dia anterior. E o seu contrario também.

Factos e momentos diferentes, evidentemente. Mas talvez as atitudes estejam mais próximas, entre épocas distantes de setenta anos, e regiões, de mais de dois mil quilómetros, do que se poderia supor.

22.12.14

2014+1

Juntaram-se uns algarismos. Formaram um número. E não sabiam o quanto de perverso continham. 2, 0, 1 e 4. Apenas por que eram parte de uma sequência. E as sequências não têm vontade própria, mas podem trazer muito de impróprio, inadequado.

2014 foi um ano terrível. Para mim. E para os meus. Os meus desgraçados conterrâneos, compatriotas, como já nem é uso chamar-se a um povo, mesmo a este povo antigo, com sulcos de dor e miséria na cara. Há quase um ano se elaboraram promessas, de nós para nós mesmos. E para os nossos mais queridos. O ano...trouxe tanta surpresa. Confesso que algumas foram boas. Por caminhos certos, por caminhos ínvios, e por caminhos inesperados, como tal, desconhecidos.

O meu tão saudoso pai, que sempre recordo com tristeza por estes malditos dias "de festa", sempre acreditava a cada ano, num recomeço melhor. Era um homem de esperança, tanta quanta a força moral e intelectual que o caracterizava. A cada batida da meia-noite, no nosso terraço no Funchal, olhando o ano que se resumia já apenas a um número, fugaz por segundos, iluminado e gigante, nas encostas da "montanha" esse lugar de um culto de minutos para os madeirenses, onde todos os anos, os do Funchal se voltam como islâmicos para Meca, e esperam que a mudança, e a esperança, lhes chegue com a alteração do último algarismo de um grupo de quatro. Nesse momento tão efémero, o meu pai olhava e dizia-nos, exultante, para olharmos todos..."olhem agora, o ano vai mudar" (por vezes fazíamos uma contagem mental, cada um a seu ritmo, dessincronizados).

O ano mudava, os abraços fortes e quentes do nosso pai e os beijos da nossa mãe, eram o presente que essa mudança trazia. Um sorriso e um "Bom ano", quente, aconchegante e uma muito fugidia sensação de crença, num ano "muito melhor" que se iniciava. E todos nos abraçamos, e desejávamos o tradicional e cego "Bom Ano". Um desejo sem conteúdo, que só saberíamos...um ano depois. Logo o fogo de artifício rebentava, fantástico, maravilhosa e único para nós. Momentos memoráveis que nunca se apagarão (eram os abraços fortes e sentidos que contava, o ano, a mudança não fazia ali nada), pese embora o apagão do fogo que dura mais trezentos e sessenta e cinco dias, descontados uns poucos dez minutos, ultrapasse em dimensão, mas não em sensação e memória. Esses momentos cá estão. E por estarem, vendo ainda o locar do nosso terraço, no centro do Funchal, telhados vizinhos à volta, voltando a cabeça nas várias direcções, ao ritmo a que surgia cada novo foguete, um mais lindo do que o anterior "olha aquele ali" e ..."aquele, aquele sim". Os barcos faziam soar os seus "apitos", e por detrás novo fogo surgia, o reflexo das suas luzes no mar. Dez minutos, pouco mais.

Dez minutos era o tempo que uma esperança se aguentava nas fracas pernas, até morrer. Mas a cada ano, não sabíamos nunca. Sempre acreditando. Acreditando até ao último instante, trezentos e sessenta e cinco dias depois.

Foi diferente 2014. Não houve fogo de artifício na baía do Funchal, porque há alguns anos que, para mim, não há. Mas ele volta, lá. E eu sei. Como voltam a esperança e as palavras do meu pai, um optimista jovial e que amava incondicionalmente a sua família, e por isso se resguardava de qualquer réstia de pessimismo e nos protegia. Mas ele deixou-nos demasiado cedo e levou boa parte da esperança com ele.

2014 foi dos piores anos dos meus cinquenta e tal. Quem me conhece, bem o sabe. Um ano maldito. Confesso o meu ódio a este ano, que quero se apague, nessa ilusão que me foi ensinada de que à volta da meia-noite de 31 de Dezembro, a esperança regressa.

Quero deixar esta esperança a todos os meus amigos, os que me lêem e os que não. Fica na mesma. Que nos sirva a todos, que vos sirva de muito. Que 2015, neste lago onde nos estamos a afundar, sem vislumbre de salvadores, ainda encontremos forças inéditas, inauditas e secretas, inteligentes mas seguras, confiantes e determinadas, para fazermos o que em novecentos anos nunca se fez. Que façamos deste espaço o nosso país, e não o deixemos nas mãos de quem não sabe o que dele fazer.

Um 2015 diferente e um excelente ano! Para todos (mesmo os que não merecem e cada um de nós sabe quem da sua parte não merece, e colectivamente todos parecemos saber). Todos, sem excepção, somos humanos e alguns, muitos até, andamos a sofrer com o que poucos nos têm feito. Ainda assim, como bem ensinado pelo meu grande e querido pai, democrata e humanista, com aquele sorriso enorme com que nos aquecia os piores dias...

...BOM ANO de 2015!

19.12.14

Os sentimentos que nos diferenciam

Li algumas passagens do novo livro de Sousa Tavares. Considero-o um homem inteligente, com uma escrita de qualidade, não diria irrepreensível (mas exceptuando o perfeccionista Mário Cláudio, ou a inteligência superior de Herberto Helder, quantos a têm?).


É uma obra que o autor pretendeu intimista, que confessadamente, e algo timidamente, o diz. É interessante, isto do intimismo de quem escreve, e se sente como escritor, o que Miguel Sousa Tavares também nos confidencia. É interessante e algo polémico, muitos leitores nunca o aceitam. E um escritor arrisca muito ao fazê-lo. Pode denunciar algo ou muito da sua idiossincrasia. Pode deixa-lo demasiado exposto. Mas um escritor é um artista, como ele também o diz, no que concordo.

Esse é, desde já, como declaração de intenção minha, um acto de coragem. Sousa Tavares tem muito de corajoso, com muita frequência nas suas opiniões políticas e logo, bem patente, também, na sua escrita. Arrisca. Foi acusado mais de uma vez de ter baseado alguns textos em trabalho de outros, nos seus romances. Mas foi ele que tomou a dianteira e os escreveu, e fê-lo pela sua própria pena, com o seu estilo.

Constitui-se um homem de sentimentos. Sociais. Íntimos. Um eterno caminheiro pela perfeição nas relações, pelos vistos. Um eterno peregrino, pelo amor e pelo conhecimento sobre o ser humano.

Esta postura de Sousa Tavares é, pela minha forma de ver, muito adequada aos dias de incerteza que vivemos. Trata-se de um autor respeitado e julgo que isso tem muito de responsabilidade para com estes tempos e com os seus leitores. Talvez isso o tenha inspirado. Ainda não li este livro dele, e nunca me predispus a ler este género de livros. Desta vez, sinto curiosidade.

Há em todos nós sentimentos. Que nos unem. E que nos separam. Dar nota deles, é mais um acto de coragem do que uma falta de decoro. Ninguém se expõe totalmente, nem um escritor.

Mas um escritor expõe-se sempre mais do que provavelmente pretende. Talvez quem leia aprenda essas outras formas de sentir, para além das formas de pensar. É uma forma de entrar em dois mundo, pela porta de um só. Um acto de coragem de quem escreve, que serve um acto de humildade de quem aprende com isso. Ou uma confessa fome de aprendizagem, desta vez de sentimentos distintos dos nossos. Sempre achei que todos vivemos em vários mundos em simultâneo. Uma enriquecimento em si mesmo.

O que nos diferencia até nos aproxima. E também nos permite vermos melhor algo de nós próprios, que de outra forma não seria evidente. Seria pouco honesto deixar passar a ideia que é boa esta diferenciação, esta diferença, quando se trata de procurar ou assimilar o que nos surge pela frente, algo mais do que um mero relacionamento, mas uma relação íntima e sentimental forte, afinal. Nesse caso há, com frequência, um afã de encontrar pontos comuns, e pesar e comparar. Comparar sentimentos é tão só inútil se não se tornar ridículo, pelo insucesso que se prevê. O que nos une é bom, mas o que nos diferencia pode tornar-se bem mais útil e não ser forçosamente um pretexto de afastamento. Falo de sentimentos, não de gostos (o jogo dos apaixonados) ou de prazeres (o que de facto aproxima pessoas).

Interessante e decepcionante. Como durante séculos a humanidade se dedicou ao exercício da racionalidade, para hoje pensar que é a emoção e o prazer (já defendida por Epicuro, antiga Grécia e condenado, ridicularizado por católicos) que conta. Podemos, sem grande erro, ligar, com os conhecimentos actuais, inferiores seguramente aos de amanhã, ligar a impulsividade, a emoção e até o sentimento (que já é mistura) ao Inconsciente (erradamente designado por Sub-consciente). E a racionalidade ao Consciente.

O problema é que o que está presente em mais de noventa por cento da nossa actividade mental é o Inconsciente, ou seja a tendência concreta, bem real, para a emoção e o impulso ganharem ao racionalismo (como Kant e Descartes se enganaram...). É por aqui que nos tramamos todos, e nos tratamos mal. Julgamos analisar umas atitudes pela Razão e assim estarmos certos, mas tomamos decisões pela Emoção e não estaremos mais ajustados ao que é bom para nós. E o seu contrário, também será verdade. No fundo, talvez passemos tempo demais a nos enganarmos. E, como todos sabemos bem, depois de nos perdermos (a muitos níveis, já não apenas o sentimental), damos o valor devido ao ser humano que nos era mais adequado. Disto, resta essa certeza, que é dura. E a outra que o "o tempo não pára". Afinal, a dada altura da vida, tudo devia ser já mais simples. Continuo a pensar que complicamos.


18.12.14

Porque falhou a Social-democracia no Sul?

 Numa Nação normal, ou numa Democracia saudável  e funcional, três intituições são basilares:

Estado
Primado do Direito (hoje muito questionado)
Responsabilização governamental

Os países do Sul da Europa, onde desde há quinhentos anos se assitiu à resistência católica pela luta pela libertação religiosa, por oposto ao que se passou no Norte, com a Reforma de Lutero, um princípio  tem-se mantido quase inalterado: o questionar o Poder, afrontá-lo e obrigá-lo a dar provas de mérito e de confiança.

Portugal não é o único país onde o terceiro ponto dos fundamentos mais básicos de uma Democracia europeia moderna não se verifica, ainda ao dia de hoje. Para alguns, os menos informados e menos intervenientes civicamente, ou para outros, os próprios interessados neste nebuloso e estrangulado Poder executivo, os políticos eles mesmos, por outro lado sequestrados por um certo poder económico, os actos eleitorais bastam ao exercício da responsabilização governamental.

Mas, ao invés do que é propalado, no Norte da Europa a tradição é exactamente a humildade na prestação de contas pelo poder executivo e Lesgislativo, perante todos os cidadãos, exerçam eles o direito de voto, em períodos demasiado espaçados para uma intervenção atempada e sensata na actividade governativa, ou não o exerçam sequer.

Este prestar de contas é um dos factores que tem impedido uma efectiva implantação da Social-democracia, o Regime político mais perseguido por maior número de países, pela Europa fora. Mas outros factores, menos evidentes, porventura, têm, a meu ver, sido responsáveis por este falhanço que hoje nos deixa numa situação delicada ao ponto de se questionar o Regime, como o conhecemos. 

Um sentido social e uma comunidade onde a serenidade de cada indivíduo não permite as tensões competitivas frequentes, as perniciosas e inúteis comparações, as conhecidas "invejas", perante aparentes, e até efémeros sucessos de outros.

A busca constante de excelência, mais do que a procura de um sucesso imediato, efémero, mas julgado eterno.

As tensões sociais anteriores, originadas pela profunda desigualdade, na remuneração e no acesso aos mesmos meios de evolução e ascensão social, bem patente nos paºises do Sul, desde há séculos, e cesrcente nos anos de crise, mas não exclusivo do Sul, embora no Norte onde a Social-democracia obteve sucesso, essa desigualdade seja a menos evidente, por comparação aos latinos, ao Sul. Talvez esta a razão e a causa fundamental, para que um Regime polºitico de cariz social não tenha conseguido singrar.

As personalidades políticas surgentes, neste Sul "mediocrizado", não t~em ideologia, visão, coerência, integridade e valires. São produtos de demasiados anos de uma deriva democrática, sem rumo, escrava de sociedades consumistas, numa busca de um bem-estar própriode países social e economicamente mais desenvolvidos. Este Sul onde impera o novo-riquismo e o enriquecimento  ilícito facilitado pela intencional desregulaçao das sociedades.

O sequestro político das direcções partidárias, por sua vez sequestradas por sectores económicos sem escrúpulos, que transformaram estas sociedades reféns dos seus interesses. As ideologias e a integridade são inimigas a abater por estes agentes económicos. 

As sociedades secretas, em permanente agitação conspirativa, que mantêm dossiers de todos os que se tentam movimentar na direcção da intervenção politica, eventualmente do Poder, e são, ao contrário dos seus membros, homens e mulheres livres. Estes grupos e sociedades Secretas, afastam todos e barram o caminho a todo o indivíduo capaz e livre. E não prestam contas a ninguém, e nunca se tem conhecimento do que por lá se discute, planeia e prepara.

A Social-democracia continua actual na sua concepção original, e nos seus pressupostos, de contruççao de sociades justas, e eququilibradas, com visão de desenvolvimento humano, soial e econºomico, pese embora as adptações aos dias de hoje.

Mas os factotes referidos são barreiras difíceis de vencer. Em Portugal, há quarenta anos que assim é. Já o era no tempo de Sá Carneiro, eliminado por ser uma barreira a todos os interesses que se opõem ainda hoje ao desenvolvimento soial e individual que permite uma Democracia social justa.

Instalaram-se na politica, numa primeira vaga, os antigos líeres, homens ligados a grupos conspirativos, como o Partido comunista e a Maçonaria.
Numa segunda vaga surgiram todos aqueles que perceberam a fragilidade de uma Democracia que não presta contas da sua Governação sos cidadãos, e que tudo fuciona com o alimento da relaçao pessoal, a construção das redes de influência, sempre na busca do sucesso imediato e não sustentado, e não com objectivos de remuneração social do desenvolvimento s+eventualnente açcançado. Mas antes nutrindo o gosto pela picardia mais baixa, sem conteúdo e sem visão. Sem moticvação para servir os outros, que nao a si mesmos.

A segunda vaga de políticos, todos ainda no activo, tem sido o lento funeral da social-democracia, outrora sonho e promessa de uma geração. Tem sido a ameaça maior da Democracia ela mesma, numa linha europeia do Norte, uma democracia que responsabiliza a governação.



9.12.14

Regime

Há momentos, há pessoas e há afirmações que me deixam perplexo. Leio, um pouco por aí, opiniões, umas citadas, outras em primeiro nome, de políticos sobre umas das discussões mais actuais a nível europeu. A discussao consubstancia-se numa necessidade, cada vez mais evidente e premente, e numa pergunta que vamos fazendo todos, pouco a pouco: o Regime que conhecemos e temos, serve hoje actualmente as populações, os cidadãos? 

Quando Rui Rio pareceu ter uma ideia da necessidade de alteração do regime actual, foi entendido, como questionar a Democracia. Li sobre as ideias de Rio, mas não o ouvi em lado algum (claro UE alguém ouviu, eu não) por em causa o actual Regime Democrático.

Hoje, li o que escreveu Rui Moreira, ainda em estado de graça, o actual Presidente da Câmara do Porto, que anda muito activo a distribuir disparates. Um dia destes estampa-se numa ideia qualquer, uma opinião absurda, como quem anda em excesso de velocidade, quilómetros a mais. Segundo Moreira andam a por a Democracia em causa, ao falar em mudança de Regime. Mas não é ele apenas que assim pensa. 

O  que me surpreende, deixa mesmo perplexo é a esta educação política dos actuais políticos. Eu sei...sei que devia estar já avisado de que neste tempo quem aparece na vida política, será, com grande probabilidade mais um medíocre. Mas no caso de Moreira, ele é outros, ocupar-se está faz-se em demonstrar o seu superior rigor, a sua quase infalibilidade opinativa e operacional. Até um dia acordarmos com mais uma surpresa. Mas o que interessa agora é esta discussão do Regime. 

Só por si, e contrariamente ao que muitos políticos dizem e gostariam, discutir o Regime é saudável. "Discuss" nessa língua com mais pergaminhos de Democracia do que a nossa é debater um assunto. E isso sempre foi saudável e expectável, uma essência da própria Democracia. Acho eu... Mas claro que os "instalados do regime" preferiam continuar assim, objecto de mordomias inaceitáveis e escolhas irresponsáveis. Podiam alguns, num inusitado esforço da inteligência, meter-se a pensar se eles mesmos não ficarão numa situação insustentável um dia destes, quando esta onda de alterações de Regime político varrer a Europa. Talvez Rio venha a demonstrar esta mesma inteligência, muito antes da inteligência (já duvidosa) de outros, muitos outros.

Repensar o Regime, pretender alterar de fundo, e profundamente, o actual Regime terá de significar por a Democracia em causa? Não! Um decisivo Não! Mas antes, defendê-lo e protegê-lo. Contra, precisamente, senhor Rui Moreira, populismos (já agora...dos quais o senhor não me parece nem distante, nem isento. Pareceu, sim. No início do seu mandato. Mas anda a dar tiros, sem conhecimentos de armas. A tal cultura política que falta a muita gente. Espero que não cultura democrática...).

O Regime precisa de profunda reforma, parece cada vez mais sustentável esta ideia. Não é por cá. É por toda a Europa.
 
As Democracias europeias tornaram-se reféns de Ricardos Salgados, e de uma Finança ainda muito mais poderosa do que o antigo "dono disto tudo". Tornaram-se hospedarias para oportunistas e corruptos, dentro dos regimes, do sistema político, e nas empresas. E, não nos iludamos, é só empresas que se alberga a mais poderosa e obscura corrupção. O ponto é que, como estamos, nem a corrupção pode ser investigada, combatida e estripada, os corruptos não aparecem um nunca são condenados. E a corrupção é o mais elevado custo de um Estado. Porque o dinheiro que por ela circula não é investido na Economia e não chega ao Estado. Só ele, seria suficiente para evitar qualquer resgate financeiro nos países onde este foi necessário.

Mas não é só o problema gigante e assustador da corrupção que ameaça estas Democracias europeias. É ainda um outro. A Desigualdade. Sim, a desigualdade, mesmo que muitos políticos (claro...) continuem a dizer que ela é natural. Será, pois. Mas nunca ao ponto de comprometer as possibilidades dos que são efectivamente capazes e funcionais, e se estrangule, assim, o desenvolvimento,humano primeiro, social, económico e tecnológico, depois.

A ausência ou a resistência das reformas das democracias na Europa, pode sim, por em causa a continuidade delas mesmas. Na continuidade do que agora temos, surgirão perigosos populismos, talvez muitos Berlusconis, ou Marinhos Pintos. 

Os políticos no desejável e expectável futuro próximo, terão de ser mais comedidos, frugais,responsabilidadzados. E não como diz Rui Moreira, os eleitores também o devem ser. Isso sim, é Populismo. Mas seria necessário educação e cultura política, para o entender. Dificilmente seria entendido por quem foi eleito num clima de ressabiamento, precisamente anti político, logo populista.

Reformar este Regime salva-lo-á. O contrário, sentencia-lo-á. Nota final...há quem vá falando em Governo Mundial. George Orwell irá ter razão? 

4.12.14

Momentos emergentes

Os Estados vivem, ciclicamente, momentos de uma necessidade particular, em que devem congruir e colaborar diversos factores e forças especiais. A nossa mente tem momentos de especial lucidez, de uma força aparentemente inesgotável e uma energia contagiante. Assim, também, as sociedades, por via da conjunção de diversas mentes, de pessoas com a clarividência acima do normal, com a visão impossível a tantos outros. Momentos emergentes. Momentos de uma espécie de concentração transcendental, social, neste caso.

Assistimos a um momento especial, talvez único, esperemos que não irrepetível. A Justiça que tão adormecida (ou amordaçada) andou, encontrou forças desconhecidas e lançou-se em operações de enorme envergadura e grande perigo.

Há perigos tremendos associados a esta investigações, num país com muito poucas tradições de prestação de contas aos cidadãos, com muita poucas tradições de transparência na vida pública. Perigos de manipulação secreta, de obstrução da actividade de investigação criminal. Perigos de "golpe de estado" sobre a Justiça, por parte e alguns, ainda, poderosos. A Maçonaria, essa perversa seita nunca até hoje ao serviço da comunidade, mas antes ao dos interesses obscuros dos seus associados, ao ponto de cada vez mais, em dificuldades nacionais evidentes, ela mesma ser usada por gente sem escrúpulos, pode ser uma das maiores e mais reais ameaças à acção de uma Justiça que renasce das cinzas. Mas outros perigos existem e alguns deles provenientes do lado mais frouxo e fraco, descaracterizado, sem coluna vertebral, da sociedade. O lado dos que nada entendem e nem querem alguma coisa entender, mas sempre procuram essa estranha justificação do injustificável, como defender um suspeito de grande e muito ameaçadora corrupção, pelos intrincado meandros do mau senso, quando julgam defender o Direito dando voz a "justificáveis segredos de justiça" e a direito de defesa, mesmo pela artimanha, mais do que pela lícita actividade profissional de um advogado intelectualmente suspeito. Nada justifica mais uma acção de investigação sobre crimes de corrupção do que o Real interesse de Portugal.

Num momento emergente, devia surgir uma individualidade de mérito e carisma inquestionável, como em tempos as houve, durante a segunda guerra mundial e mesmo no pós guerra, quando os políticos eram do peso de um Churchill ou, mais tarde, de um Kohl.

Hoje, em Portugal, penso que esperaríamos um Presidente com tal envergadura. Mas começo a entender a dificuldade do nosso actual Presidente, que teve o meu apoio oficial na sua primeira candidatura, mas não na segunda. Talvez sinta a mesma espécie de compromisso com esta gente que nos tem governado em ambiente de tranquilidade para os corruptos, que António Costa sente.

Era de uma atitude emergente de clarificação sobre o que se está a passar, deixando clara a necessidade maior da actuação da Justiça, como a temos recentemente visto, e acalmando as hostes, as duvidosas e comprometidas hostes de apoio ao "suspeito de denore", sobre quem recaem mais de oitocentista suspeitas.

Mas já perdi a esperança de ver uma atitude de integridade e autoridade moral por parte do nosso Presidente. E ninguém mais dá um passo em frente.

Não há nevoeiro matinal e D. Sebastião não aparece.

1.12.14

Reciclagem

De tempos em tempos...faço uma quase involuntária reciclagem de pensamento. Uma revisão do que sucede, tem sucedido e do que tenho sido, feito e pensado. Dou de caras com a vida pessoal, tanto como com a vida fora de mim, da minha sociedade, do meu país. E desse quero (voltar a) dizer umas palavras, já antes escritas.

Não somos um país de grandes ou escassos recursos. Somo um país (praticamente) sem recursos naturais. Mas vivemos um tempo em que os recursos que podiam fazer a diferença, não são os mesmos de outrora, são bem outros. Conta hoje um poder de negociação internacional político, e comercial, com base em produção energética, em petróleo, em capacidade industrial instalada. Não tanto os recursos mineiro de outra época, pois a dependência dos países é mais determinada por ter ou não petróleo e produção energética, mas também capacidade empresarial proveniente de negócios, à escala mundial, relativos a tecnologias e bens hoje preponderantes. Não temos nada disto. E quem tem? Terá a Suíça? Terá a Noruega? Não para a primeira, sim para a Noruega. Mas não é isso que hoje determina uma sociedade desenvolvida, onde o bem estar de todos, ou de uma esmagadora maioria é inquestionável. Como escreveu Fukuyama, o que hoje conta, e sempre contou, é a organização dos países, com fortes alicerces sociais. Com base popular sólida, participativa, informada e crítica. Exemplo de Fukuyama: Dinamarca.

A Dinamarca tem uma Democracia muito próxima do exemplar, e o ideal teórico que todos teremos em mente. Instituições políticas e sociais que funcionam, onde a corrupção não tem caminho, não singra. Gente política responsável e empenhada, que não está nessa forma de vida por interesse pessoal, para servirem um grupo e a si mesmos.

Que temos nós? Um exemplo gritante: Um ex-primeiro ministro corrupto até à país dos cabelos, ainda defendido por uns quantos cegos...diria, por uns palermas que sempre defenderão o grupo, contra todas as evidências. Lembro que também há, ao dia de hoje, os eternos estalinistas que dizem ser tudo mentira, sobre os crimes de Estaline, os maiores e mais atrozes de todos os tempos, provavelmente. Como não haver quem negue a evidência da culpabilidade de Sócrates? Como não defender um Barroso, um Cavaco, um Sampaio, um Soares, um Passos Coelho e, agora, um Costa?

Há quanto tempo esperam os portugueses por uma "aproximação" ao modelo de uma Dinamarca, de uma Finlândia, etc. Há quarenta anos? Ou há mais de cem? E a que distância estamos disso tudo? Mais próximos, como o mentiroso Soares foi dizendo e ainda insiste? Soares foi sempre um dos mais danosos e perigosos elementos da nossa (meia-) Democracia. E tanta gente se deixou levar por palavras, sempre desmentidas em actos (hoje ainda mais...será normal um ex-Presidente ir visitar e apresentar solidariedade um criminoso, um ser abjecto e inferior, como Sócrates? Acham as pessoas, mesmo, que um juiz pratica assim tantos erros, por uma qualquer cabala, que ninguém consegue explicar. Cabala para quê e porquê? Sócrates é assim tão importante, um salvador, um iluminado que todos temem e todos desejam a ponto de se elaborar uma cabala contra o verme?).

Quem foi e quem é Cavaco? E Durão Barroso? E Santana Lopes, Guterres, Sampaio, Sócrates e os agora (pseudo) líderes dos maiores Partidos? (Passos, Costa e Portas). Que pensam, que ideias boas e de valor têm? E que fizeram ou podem fazer?

Reciclagem do que penso...ou mais, talvez, do que vejo ainda pela nossa vida política. Que arrastará um dia, para fora desta vida social e empresarial, os tantos medíocres ou péssimos gestores que temos, também. E tanto que precisamos de outra gente. Que até já por cá está.

Portugal não precisa mais de Soares, Sócrates, Guterres, Sampaio, Cavaco, Costa, Passos Coelho. Não precisa e deve deixa-los fora do futuro que precisa ter. Quanto antes melhor.

Mas não é o que vejo. Ainda me revolto e aborreço e, sobretudo, preocupo. Quero ainda nesta vida, ver outro caminho e outro país. Onde a inteligência, a integridade, a personalidade marcante mas honesta, a capacidade de trabalho, façam sentido e tracem caminho, por cima do conhecimento pessoal, da influência de grupo, da conhecida e vergonhosa "cunha", que ainda é uso e abuso dos políticos de hoje, à descarada.

De quem depende esta reciclagem de personagens e um novo caminho? Deles, dos mesmos a quem não interessa mudar nada? Ou de nós, apáticos e mudos no seu próprio interesse? E como se faz? Pela escrita, pela net? Ou em todas as nossas atitudes e intervenções? Por exemplo, quem me diz porque razão gente inteligente e culta usa ainda o Acordo Ortográfico? Quantos berros necessitam ouvir para perceber que é um Acordo desnecessário, estúpido, mal feito, pernicioso para a língua e ilegal?

Não se podia começar por aí? E seguir para a exigência de uma luta mais intensa e determinante contra a corrupção? E para a substituição definitiva dos actuais actores políticos, sem populismo tipo Marinho e Pinto, ou outros, mas dentro das actuais organizações, com recuperação de ideias e projectos que ainda possam ter sentido, mas com a realidade actual bem presente?