Visão e Líder

Um assunto já versado, mas como não resolvido, sinto dever regressar ao mesmo. A classe política. Portuguesa e Europeia.

Porque temos esta classe, esta gente? Porque tem a Europa gente tão fraca, mediana na política. Façamos uma regressão de vinte e poucos anos. A Europa tinha líderes, simpatizemos ou não com eles, tenham também sido alvo de suspeitas em casos nunca esclarecidos, como o foi Mitterrand, eram líderes e não chefes. Helmut Kohl estava no poder quando ingressei numa empresa alemã. Era natural  da mesma cidade, industrial, sede da minha empresa da altura. Esse tempo era de grandes sonhos políticos. Era tempo de sonhos e tínhamos o futuro pela frente. Tatcher era a dama inglesa que   dava uma luta terrível aos europeístas. Não é de juízos de valor que se trata, mas de carácter de líder, desempenho de líder, posições fortes e convictas com seguidores por todo o lado. Gente que tratava os assuntos com sentido de Estado.

Havia um projecto europeu e lembro-me bem, apesar de por cá termos esse enorme erro humano de nome Soares, mas por cá...que eu me lembre, podíamos ter tido um líder, que mataram num avião. Tínhamos Cunhal, é verdade, o homem que nos queria russos a todos e hoje estaríamos mais próximos do país de que nunca se fala, o de Enver Hoxha. Um país no centro da Europa de que nunca há notícia. Um pouco menos do que o país de Salazar. Mas não quero também falar de gente menor (para muitos Salazar foi um grande homem, independentemente de ditador. Para mim, era um ser inferior, um homem obscuro e sem visão, que inaugurou a austeridade e ninguém já se recorda...subiu impostos para fazer pagar os desvarios do Estado, favoreceu famílias, uma delas há pouco finalmente denunciada como centro de rede de influências. Mas ainda não o suficiente. Serão precisos muitos mais processos, muitos mais políticos acusados e isto não toca a Partidos, mas pode tocar a sociedades secretas (e ridículas...os aventalinhos e quejandos). Provavelmente nunca lá chegaremos, pois vivemos no mesmo Mundo em que nunca se soube quem assassinou Kennedy, ou Sá Carneiro.

Havia um projecto. E era europeu. Havia líderes e alguns até eram anti-democratas, como Soares por cá. Mas ainda os havia. Hoje temos um líder, que fala e manda sozinha...Merkel. E nada mais. E logo ela, com ideias erradas de como dirigir uma Economia e por um sistema Financeiro no seu lugar: ao serviço da economia e esta ao serviço da sociedade.

Repito isto à exaustão, mas parece que não sou o único. Precisamos de gente nova nos nossos Partidos, ou de novas organizações, mas acho que seria pior a segunda solução. Mas há mais que precisamos, em Portugal, que nos toca. Os dois maiores Partidos têm de se auto-clarificar perante os eleitores. O PS percebeu que o inventado "socialismo democrático" não vendia. Mudou subtilmente para um sucedâneo de social-democrata, mas não o sabe ser. Não há Partidos que necessitem mais de actos de reflexão e "contrição" do que os socialistas. Vieram de uma época em que se começava a negar o comunismo e as suas ditaduras e tentaram mostrar uma cara democrata, que até conseguiram, mas que internamente...quem sabe a história do nosso PS, conhece bem a postura totalitária e arrogante de Soares. Soares que se destacou do PCP por não poder fazer frente a um Cunhal bem mais preparado e intelectualmente superior, mas infelizmente ao serviço de uma sociedade anti-democrata. Era também um líder, mas nem todos os que são líderes são-no de forma humanamente aceitável. Nunca o comunismo esteve no Poder, sem ditadura. Era apenas para recordar umas almas distraídas. E ditadura, para mim: NUNCA. Esse é um dos meus limites. Mas há mais.

Há limites que há muito foram atingidos, ou ultrapassados. Esta incúria e irresponsabilidade política. Esta sucessão inesgotável de gente mediana ou pequenina. Onde está a Visão do Tempo dos grandes líderes europeus? Onde está a esperança europeia? Que tem feito esta Europa depois de Kohl?

Burocratizou-se, desumanizou-se e abraçou dois monstros que não sabe ou se recusa a reconhecer e combater: Corrupção e Desigualdade. Andam de mãos dadas e custam fortunas a cada Estado Membro.

Em Portugal vivemos a transição mais marcante na política quando Cavaco arredou Soares do Poder. Foi um momento de esperança, lembro-me bem. Soares havia passado por dois resgates financeiros e não sabia tomas as rédeas de uma economia em deriva. Muitos se esquecem, mas de um só golpe, os portugueses perderam 25% dos salários...e na altura os protestos vieram apenas de Cunhal...Mas daí vêm sempre. Cavaco arrumou algumas contas, é certo, mas nada mais sabia fazer. Lembro-me também de ter referido ao meu pai, por essa altura: Cavaco não serve para nada mais do que Economia e Finanças e outra foi que..apoiar de novo Eanes, um militar, era um erro, um tempo de atraso, para uma sociedade que devia regressar a uma normalidade, civil.

Ao assunto: um líder tem de ter uma visão, mas que seja entendida e aceite tacitamente pelo seu povo. Como? Há informações sobre necessidades e aspirações, há sinais, há indícios e há sempre o sufrágio. Mas há também o lado dos nossos compromissos, não refiro os financeiros e internacionais, respeitáveis, claro. Mas há um interesse nacional superior: mudar, num processo de dezenas de anos, o que nunca foi feito em Portugal. O nosso povo tem de ganhar em informação e cultura, ou dele nunca surgirão lideres de qualidade para o futuro. E dele não surgirão intervenções mais frequentes, fundamentadas.

Mas não. Vivemos com quem, agora e provavelmente depois? Alguém conhece a visão de Seguro, de Passos, de Costa? Talvez Rio a tenha, não sabemos. Talvez Vitorino a tenha, também não sabemos. Como não sabemos se são lideres, os que carregam a visão consigo, a preparam a sufragam, escolhem quem a deve implementar, e a defendem como há trinta e há vinte anos se via por essa Europa e em Portugal. Tínhamos mesmo uma visão: queríamos estar mais próximos da Europa desenvolvida, até queríamos um povo mais informado e literato, mas não sabíamos como implementar, porque os líderes da altura, eles também, viveram demais sobre as cinzas da ditadura, mas nunca se prepararam para um futuro. E tinha de haver Futuro, mas eles não sabiam como devia ser. Ou como construí-lo. E seguiu-se o deslumbramento dos dinheirosa europeus, e pensavam chegar para tudo...

Construiu-se então um Estado gigante que tudo e todos albergava. Ao lado...a corrupção singrava. E pelo meio, a ponte, era estabelecida pelos grandes homens do país: banqueiros, grandes intelectuais da economia (temos visto...) e advogados ao serviço de um interesses menor, mas com elevadas compensações, por maus serviços ao Estado...

Como se vê um líder, como perceber quando vemos um? Quando existe a tal visão e a estratégia para a sua implementação, mas quando, também é seguido de forma natural, porque o que pensa, diz, ou escreve é respeitado por muitos, seguido por mais. Um chefe, que é o que temos, apenas manda. E por aí se fica. "Lá dentro" há mais palha do que num celeiro antigo e abandonado.

É disso que precisamos e até nem de ideias muito inovadoras, embora processos sim. As ideias, já muitos sabemos quais terão de ser.

Recuperar um tecido económico desmantelado por uma austeridade estúpida e desumana, que apenas serviu os mesmos interesses financeiros que a provocaram. Por a economia e as finanças ao serviço de uma Sociedade que necessita de mais apoio social, mais educação, mais cultura, mais identificação com a sua milenar história. O modelo tem de ser português, ainda que alguma inspiração noutro lado possa ser contributiva. Mas Portugal é o país que é pelo povo que tem, o seu clima a sua geografia e as suas potencialidades e limitações. Esse modelo nunca existiu. E por isso eu escrevia há dias a propósito de Reforma do Estado que de nada servirá, sem um Modelo por nós pensado, por um líder inteligente e forte defendido e implementado.

É totalmente inútil pensar-se que algum dos conhecidos chefes de Partidos, ou os que se têm apresentado podem algum dia apresentar uma Visão para Portugal (nada de estilo "timoneiro"...) e muito menos preparar uma Reforma estável e profícua para este país. E não é de um líder que Portugal precisa, mas de vários, pois a Democracia madura não é saudável numa situação de unicidade, nem talvez de polaridade dupla (bipolaridade é outra coisa e parece às vezes afectar alguns dos conhecidos políticos). Já temos o problema da pobreza partidária, com demasiados Partidos da área socialista, mas não amigos da Democracia e um do lado conservador, que é isso mesmo, conservador, quando um Reforma não se faz senão com reformistas (desculpem-me a tentação mas não sou apreciador de conservadorismos e tradições "porque sim").

Quase apetece a provocação: candidatos? Quem se apresenta?

Mas as coisas não acontecem assim, na vida real. Nem a informação e cultura de um povo se transformam em tempo útil, nem surgem líderes apenas porque se verifica uma necessidade. Principalmente líderes com isenção, sem ligações a grandes interesses económicos, sejam no sector financeiro, nas empresas de energia, ou de construção, ou ainda outras actividades. Essas, as causadoras de todas as crises, que defendem em cartel os seus interesses, extraindo dinheiro onde ele nem existe (através de créditos e de preços artificiais muito acima da real necessidade das ditas empresas, e muito acima do efectivo poder de compra de consumidores), defendem-se com o conluio de políticos, eles próprios agindo em interesse pessoal. Há vozes que há muito o tentam denunciar, mas o problema esbarra num povo apático, tornado assim propositadamente, para que nem perceba o que lhe está a acontecer, nem saiba como procurar alternativas.

O maior crime da crise financeira mundial foi a destruição das classes médias nos diversos países. Isto não aconteceu em Portugal apenas. Nos EUA a devastação foi e continua, bem mais grave. Não aconteceu por acaso. A classe média é por tradição a mais informada numa sociedade, porque se dedica a esse estudo constante e procura manter-se informada. Mas a própria informação é condicionada, manipulada. É o caso do controlo da mesma, internacionalmente, por diversos grupos, desde as lojas maçónicas, a Partidos políticos com tráfico de influências por vastas actividades económicas ao famoso grupo Bilderberg. Ou seja, nem a classe que se esforça por ser a mais informada, hoje fragmentada e quase destruída, se pode julgar suficiente ciente do que se pode estar a passar.

Alguns ainda duvidam de que a crise que estamos a passar foi exactamente criada pelo sector financeiro. E so interesse do mesmo, foi extraído dinheiro aos mais pobres, protegendo os mais ricos, até nos aumentos verificados nas suas remunerações, em paralelo com a perda por parte dos colaboradores mais abaixo nas suas empresas (Bancos, empresas de energia, telecomunicações, e muitas outras. Criaram-se até novos sectores, ditos amigos do ambiente, com o propósito único de se expandirem as redes de tráfico de influências, sectores da reciclagem, dos combustíveis amigos do ambiente...e é disto que mais acuso o mais mentiroso e corrupto dos nossos políticos, Sócrates. Mas não foi o único, e os seus amigos estendem-se a Partidos julgados adversários).

Por isso um líder forte, isento, inteligente quanto baste para destruir por completo esta teia complexa e malfeitora, com coragem inquebrantável,  terá sempre muita dificuldade em surgir. Será, porventura, a maior necessidade que temos, e uma quase utopia. E o risco que corre, roça mesmo a ameaça de morte. Não nos iludamos, mesmo antigos chefes de Partidos, como Soares e Cavaco são parte interessada neste sistema de interesses combinados e secretos e altamente perigosos. Um líder foi assassinado em Portugal há trinta e quatro anos, tinha uma visão, era inteligente e sensato, queria um país justo onde os pobres fossem apoiados, era exigente consigo e com os outros e tinha coragem para se bater com todos os que impedissem o seu caminho. Não podia continuar...

Mas a necessidade é superlativa. Com tudo e todos os que conhecemos, nada mesmo mudará.

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