Um novo Paradigma para a Democracia (I)

Inserido na União Europeia, mas sendo apenas beneficiário de fundos europeus, sem condição de país contribuinte, Portugal tem vindo a sofrer as consequências das decisões de países (e dos seus líderes) que não servem ao país. Nem já, tão pouco, à própria Europa. Decisões que não servem sequer ao Mundo Ocidental, que não se inserem nas novas tendências que começam a surgir, ou que se impõe que surjam. O mundo liderado por tecnologia, por produtos de consumo de grande tecnologia, começa a mudar num sentido de mais conceptualismo, onde tais produtos podem não perder a liderança no consumo, mas terão de se adaptar a consumidores que começam a mudar. A Europa está bem longe destas tendências. Portugal, não tem capacidade de contrapor nada a esta Europa germanizada. Liderada pela Finança, que criou crises a seu próprio proveito.

Todas as Economias, europeias, americana, japonesa, estão demasiado baseadas, centradas, num paradigma "errado" e anacrónico. As sociedades servem a Economia e a Finança. Toda a sociedade, em Portugal e pela Europa, se têm centrado no primado da Tecnologia, dos produtos de consumo tecnológico, com ciclos de vida curtos, com constante renovação, colocando as empresas que os produzem na vanguarda do poder económico. O resto da sociedade, desde a orientação dos programas escolares, a orientação profissional, a procura e oferta de emprego, é por este paradigma condicionado. Tudo parecia perfeito, na visão económica das políticas, não fora um factor que iria descompensar todo o sistema e expor as fragilidades, ou mesmo fazer evidenciar que, afinal, o que lidera o mundo são sempre as aspirações das pessoas, mesmo as que não têm qualquer poder ou voz, e não as grandes empresas, ainda que em conluio com o Estado. Nos Estados Unidos, o país de uma Microsoft que derrubou a Big Blue, IBM, ou da mais recente e meteórica ascensão Apple, e onde os grandes bancos de investimento (ou especulação...) lideraram as Finanças e a Economia, foi-se tornando evidente que o factor que iria, ou ainda irá, mudar tudo é a Desigualdade.

No processo das crises dos últimos anos, na sua origem, estiveram sempre os interesses de quem as criou: bancos que tinham muito a lucrar com o endividamento descontrolado dos países. Nos EUA e na Europa. Mesmo de países que quase nunca são notícia, como uma Noruega, Finlândia, Holanda. E claro, da poderosa Alemanha, a quem os europeus deram um poder nunca merecido, apenas pela visão do Paradigma económico. E este, com a Desigualdade, tem posto a descoberto a fragilidade maior de um sistema que não pode formar um grupo de países coesos, unidos num único sistema económico, com decisões comuns. Porque a forte, e ainda crescente desigualdade, tem desequilibrado as economias entre os mais ricos e mais pobres, como Portugal, muito para além do sustentável. Este processo está a fazer com que Portugal, o mesmo país que assistiu a avanços tecnológicos e científicos inéditos, onde a esperança de vida é das melhores do mundo, regresse aos poucos ao nível, social, do tempo de Salazar.

Se Portugal tivesse podido acompanhar a solicitação tecnológica que os produtos mais consumidos, ou mesmo líderes de tecnologia, que arrastam outros produtos e fazem nascer pequenas empresas que os alimentem, dir-me-ão, estaria bem noutra situação. Talvez. Mas nunca no espaço europeu se permitira isso a Portugal. Houve um tempo de sonho, de miragem, de um desenvolvimento económico e social repetidamente prometido, mas que nunca chegou. Chegaram grandes obras de construção civil, que deviam suportar uma economia pulsante, criativa e com forte crescimento, mas apenas serviram para deixar o país num endividamento insustentável. Ultrapassámos a Alemanha em quilómetros de auto-estrada por habitante. Mas a Alemanha podia e precisava, para precisamente sustentar a economia. Nós fizemos a casa pelo telhado, mas assim servimos interesses de empresas que sempre vivem e crescem com o Estado, e depois pagamos nós. Nós, os mesmos que gostamos de admirar as grandes empresas, as mesmas que nos sugam, sabendo que se internacionalizaram e são poderosas. Uns desgraçados a olhar para o Palácio que construímos, sem direito a entrar nele.

A Desigualdade, ainda a acentuar-se, por via do crescente enriquecimento de uma franja diminuta da sociedade, a par com o empobrecimento gradual da maioria da mesma, é o factor que um dia mudará tudo. Desde já o Paradigma novo que precisamos e que se tornará evidente e urgente. É um caminho que, creio, se tornará irreversível, por força da necessidade, pois nenhum Estado consegue suportar o desaparecimento generalizado da classe média, com o empobrecimento sem reverso da mesma. E o caminho para a fome dos mais pobres, sem qualquer hipótese de reverterem a sua situação. Seremos demasiados a precisar de intervenção estatal, num país e numa Europa, sem condições para tal. Basta imaginar uma França tornar-se insustentável, e já esteve mais longe, ou uma Alemanha entrar em crise. Por sorte, a China está a desacelerar, mas alguns ajustamentos bastarão para que o país com mais população a nível mundial volte a marcar o ritmo de produção industrial e a marcar os preços dos produtos ocidentais que lá são produzidos. Basta algum ajustamento, na China, país com a maior desigualdade do mundo, para que a Alemanha trema. E nessa altura, se acontecer, Portugal entra mais profusamente na crise.

Triste é vermos o panaroma político português, de gente sem qualquer visão, sentados no paradigma que morre pouco a pouco, a repetirem diariamente coisas, já antes ditas por tantos outros, dos mesmos dois Partidos. Esta mediocridade também se tornará insustentável.

Se se esperava que a Crise Financeira e Económica ajudasse a destapar uma realidade escondida, e nos fizesse recordar onde está o Bom e o Mau, o Medíocre e o Excelente, até ao momento só fez acentuar tudo o que de mau já tínhamos. A Banca continua a ter a primazia nas notícias, os banqueiros a serem vistos como grandes gestores, detentores de um conhecimento transcendental, fruto de um poder que a política, interessada na partilha, lhes permitiu. A Crise, disse-o a uma pessoa conhecida há uns quatro anos, iria acentuar os problemas que conduziram a ela, nomeadamente o poder da Banca e dos seus gestores incompetentes. Incompetentes para servirem uma economia, e não delas se servirem, como deviam ser regulados para tal.

Para que um novo Paradigma possa surgir, há que fazer cortes fundamentais, corajosos, nesta tendência que tem sido suicida, e que, se ainda serve os países já muito industrializados, até um dia despertarem para a crescente desigualdade social e classista, que também os começa a atingir, não serve a Portugal que nunca se aproximou de um patamar de desenvolvimento económico que permitisse mascarar as grandes lacunas e desigualdades fracturantes.

Há que procurar na sociedade, ainda viva e algo pujante, novas ideias e novos elementos, pessoas com inteligência suficiente para saberem pensar "de novo", sem estarem presas a conceitos que morrem ou estão gastos, e com a coragem e capacidade de resistência necessárias a novas lutas, dentro e fora dos actuais Partidos. Precisamos de mentes que tenham Visão, espírito de Missão, sentido de Estado, humildade e queiram servir a Democracia, sem ligações perigosas a agentes económicos dominantes e que usem o Estado, como até agora. Gente que tenha um sentido social e uma compreensão do verdadeiro estado de miséria a que chegaram muitos portugueses. Não podemos dar-nos ao luxo de ter mentes liberais, sem noção da necessidade de intervenção estatal, mas também há alguma intervenção que provavelmente o Estado devia abrir mão, como a excessiva programação centralizada da Educação. Principalmente se continua esta orientação suicida para a tecnologia, sem olhar ao despertar desta Era Conceptual. Há tendência mundiais a que não nos podemos alhear.

Os líderes do futuro não se escolhem. Há que entender as novas necessidades, fazer sentir o nosso desgaste com todo o passado recente e os líderes nele envolvidos, e os novos surgirão de forma natural.

(a continuar)


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