Herança desbaratada?

Jared Diamond, um autor que sempre se destacou da multidão de escritores pouco inteligentes e normais "de mais", escreveu três obras fundamentais para o nosso entendimento da evolução das culturas do mundo, e o que daí podemos inferir.

"Armas, Germes e Aço" (que tenho de reler, confesso), "Colapso" e "O Mundo até Ontem". A primeira, discorre de forma muito profunda sobre a procura do entendimento quanto à evolução assimétrica do mundo, ocidental- europeu-e os outros. A segunda, sobre as razões do colapso de diversas sociedades, uma obra que ainda hoje me impressiona, mais pelo que ainda pode acontecer, do que pelo no passado sucedeu (o desaparecimento da civilização da Ilha de Páscoa, com a deflorestação, o risco social sempre iminente de uma Islândia, algumas zonas outrora prósperas dos Estados Unidos, hoje praticamente as mais pobre ...e, pergunto-me, se não estaremos a assistir a este nosso próprio colapso em Portugal e um pouco pela Europa, em certos países. Com sinais de extremismo político, mas sem que possam ser esperança alguma de futuro e, bem pelo contrário, uma verdadeira ameaça para o futuro próximo (extrema direita em França....). A terceira, sobre o que podemos aprender com as sociedades mais tradicionais, hoje até já bem "ocidentalizadas".

São três obras altamente recomendáveis, pelo originalidade, pela inteligência brilhante de Diamond e pela actualidade.

Se temos políticos incapazes, gestores apenas do dia-a-dia e da sua vida pessoal, sem visão e sem interesse genuíno nas desgraçadas, para sempre, vidas de tantos de nós. Se temos extremistas a crescerem em importância e popularidade. Se temos zonas de conflito latente, mesmo às portas da Europa. Se não conseguimos deslindar alternativas e se a alternativa única for uma revolução em larga escala, provavelmente porque apenas Portugal não muda nada... não estaremos em tempo de pensar se o nosso colapso não bateu já à porta?

Mas para tal, as razões, as origens possíveis de colapso social ou de um país inteiro, devem ser bem lidas e analisadas, partindo da obra de Diamond. Climas extremos, sectores da economia que já hoje perderam importância, zonas de conflito permanente e duradouro, fundamentalismos, zonas degradadas em termos ambientais, em larga escala e incapacidade de uma sociedade responder num contexto de competitividade acessível, quando todas as políticas lhe retiram essa eventual capacidade de resposta.

Conseguem intensificar alguma coisa que se nos aplique...?

Pois, a mim parece-me há muito que esta austeridade, que fez crescer injustiça social (Sábado, Passos Coelho dizia ter feito melhorar a justiça social...deve ter sido num qualquer quarteirão vizinho dele, pois ninguém deu por nada). O nível de impostos asfixiante, a falta de domínio tecnológico, um povo sem cultura para se poder regenerar em novos negócios e ideias, novas oportunidades, mesmo em ambiente altamente desfavorável a crédito a empresas, cobranças exageradas pelo Estado, custos de energia e outros a níveis também incomportáveis, transportes mais caros, devido a combustíveis muito massacrados pelos impostos, burocracia que nunca se alterou e nos libertou desse pesadelo, problemas gerais de liquidez na sociedade e na economia, com consequências no investimento e nos prazos de pagamento de bens e serviços, desigualdade demasiado acentuada entre a classe mais formada numa empresa e os gestores e patrões da mesma... serão estes factores de desenvolvimento, de recuperação económica, de criação de emprego, de crescimento da riqueza e ...de retrocesso no processo colapsante que nos ameaça?

Há uma herança histórica em todo o lado. Temo-la em Portugal quando há quinhentos anos nos aventurámos em mares nunca antes conhecidos. Tivémos recentemente uma coragem e uma solidariedade, internacionalmente reconhecidas, com o que por Timor conseguimos fazer. Com um país muito maior e mais poderoso do que o nosso, ganhámos quase todas as guerras, a Espanha. Nunca dizimámos civilizações como fizeram os nossos violentos vizinhos. Apesar de algumas atrocidades escamoteadas pela História. Fomos pioneiros na abolição da pena de morte e da escravatura. Somos praticamente mestres em humanismo e em contactos multi-cuturais. Mas parece que hoje, um povo outrora corajoso e decidido, se esqueceu da sua herança histórica, que corre nas veias e está impresso no nosso DNA.

Se Jared Diamond escrevesse uma obra sobre Portugal, penso que nem teria necessidade de ir à Nova Guiné, para entender como se anda para trás na evolução, quando por lá se avançou, em poucas dezenas de anos, o equivalente a centenas por cá na Europa.

Não estou certo de termos aprendido com culturas tradicionais por onde andámos. Todos os dias espero o anúncio de uma convulsão social, justificada por esta desigualdade crescente, por esta miséria persistente, que começou por ser intelectual e cultural e é agora de sobrevivência alimentar e económica. Não entendo discursos como o que ouvi do Presidente do PSD no encerramento da Universidade de Verão. Pintou um quadro que não está em alguma parede nem em algum museu. Ninguém o viu, nem verá.

O quadro de termos cumprido um programa...de "ajustamento". Pois. Um ajustamento para baixo, que nos trouxe às dificuldades e perda de futuro. Falou e quase se baralhou, pensamentos difíceis para aquela cabacinha, mas muito se sorria...de consumo interno, de exportações...e fiquei com a impressão de que ele, afinal, tinha também tirado o curso ao Domingo. Então o consumo interno não aumentou, mas...disse, não houve pelo menos, mais endividamento. É mesmo formado em gestão? E o endividamento não é um motor da economia? Só não o é, quando não há capacidade de o pagar...não? Mas ok. O consumo interno não é muito importante, e as exportações diminuem porque os outros países, maus e feios, mau feitio, não querem comprar, mas estão bem! É birra! Estão bem...até porque de tão bem estarem, souberam a receita ideal para nós, os que estamos mal: austeridade, sonegar dinheiro a quem não o tem, aumentando assim a desigualdade, deixando impendes os grandes financeiros, que nos trouxeram a esta crise.

Onde o Governo vê um bom programa de ajustamento, com o esforço dos portugueses, eu vejo um povo apático que o devia já ter corrido e ao lindo programa dele. Agora sim, diz ele. Já estamos diferentes, muito diferentes, o Estado está diferente, a Economia está diferente. Pois, está pior! Tudo mais pobre, tudo menos eficiente, tudo com menos futuro. Talvez concorde que na Saúde algo de bom se conseguiu. Mas na Educação? Onde vê ele isso? Rankings e avaliações internacionais, de quem anda anacronicamente ao inverso do futuro? Abram os olhos...o mundo de Jobs e Gates está a desaparecer...o mundo dos Mercedes e Audis também. O mundo será outro dentro em pouco, mais conceptual, mais humanista, depois do que aí ainda vem. O mundo será um mundo com mais ideias e menos tecnologias. Onde andam estes políticos a aprender, o mesmo mundo de sempre nunca muda para eles? Desde há setenta anos que estamos nisto, mas os próximos setenta, serão muito diferentes.

E falou Passos de economia, de sistema financeiro, dizendo que já não são estes que mandam na sociedade. Quase me engasguei e nem estava a comer...engasguei-me com uma ideia: Passos não chegou a terminar a puberdade política mas ria-se de um jovem social-democrata e até lhe deu o seu próprio exemplo.

Mas agora teremos Costa no PS, o costa da maçonaria moderna, nada ligada a interesses e tráfico de influências.

Vamos deixar-nos ficar a ouvir esta lenha-lenga? Pelos vistos...dentro de poucos anos, já estaremos de novo a sessenta anos de desenvolvimento dos países do centro da Europa. Por enquanto, não nos endividamos mais, segundo Passos, embora a dívida tenha crescido e sem controlo, e ele não sabe nem como, nem disso fala, mas estamos como dizia Salazar. Modestos mas orgulhosos. "Orgulhosamente pobres", acho eu.

E isto não é negarmos a nossa herança histórica? Onde andam os genes dos homens quinhentistas? deixaram-nos por terras de Goa, seguramente...

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Parece normal

Leituras recomendadas

Nenhum dia é suficiente para conter toda a luz