Gabor Mate: Toxic Culture - How Materialistic Society Makes Us Ill

Gabor Mate, húngaro de origem, canadense, sobrevivente ao holocausto, enquanto criança.

Um pensador de inteligência penetrante e brilhante. Parece...até demais, mas vejam e oiçam muito bem. Pensem nos que conhecem, nas nossas sociedades, no que tem acontecido mesmo nas sociedades ditas mais evoluídas do mundo, onde nos inserimos na Europa. Num tempo em que sabemos que a inteligência humana atingiu um desenvolvimento, nunca antes conhecido?

Quando as relações, as pessoas elas mesmas, contam menos do que o materialismo nas nossas sociedades. Mas deixem-me recordar que, normalmente, associamos materialismo apenas a aquisição, ou busca nesse sentido, por objectos, gadgets, bens em si mesmos, muitas vezes sem serem mesmo necessários. Materialismo inclui tudo aquilo que nos faz pormos pessoas, condição social delas, ou profissional, acima e em primazia, aos sentimentos, às simples relações, ao cuidado com os que interagem connosco, ao acompanhamento dos nossos queridos, amigos ou familiares, parceiros, ou ...qualquer pessoa que tenha um dia feito sentido para nós.

Inclui mesmo a desistência de entender os outros, a abstenção de fazer um esforço mais, uma tentativa mais, como o faziam os nossos progenitores, para recuperar amizade, amor ou simples relação social com alguém. Generalizo, tanto quanto posso, pois isto, confio totalmente, tem atingido as nossas sociedades, tem-nas tornado doentes, e as razões são múltiplas, os factores também. Parte da nossa decadência cultural que não entendemos ao dia de hoje. Doenças que não entendemos. Depressões em todos os que conhecemos, e em crianças! Défice de atenção, agitação inexplicável nas escolas e nos nossos adolescentes. Doenças do foro psíquico e físico. Sabem ...quando dizemos uns aos outros, que as coisas más nos acontecem umas a seguir às outras? Que outra coisa podia suceder, num ambiente social doente? Ou há dúvida desta doença social? Há dúvida, ainda?


Há doenças, físicas, que nos surgem sem que tenhamos razões, causas, que nos façam entender a sua etiologia, o início de tudo. E surgem.

Claro que haverá sempre uma causa física, mas outras, normalmente associadas a uma genética ainda tão desconhecida, e...o ambiente social. Mas as razões ou causas físicas são comuns a muitos de nós, e uns contraem doenças, outros não. A depressão de uma sociedade, os problemas de relacionamento que hoje colocamos a cada um de nós. Quando outrora os nossos progenitores se prestavam a uma fiel relação, por motivos sociais, por incapacidade de sujeição a uma qualquer vergonha, no seu meio e relações, vivemos agora um tempo em que nos separamos pelas razões mínimas, que os nossos pais apelidariam de infantis. A evolução da nossa inteligência tornou-nos mais...impacientes, ou mesmo mais egoístas? É esta faceta de materialismo, de que uma ausência de vida interior e introspectiva mais rica e cultivada, um questionar do que vemos, fazemos e vemos em outros, um estudo, afinal, nas nossas e das vidas dos outros, numa óptica humanista que nos está a transformar em impacientes-desligados-egoístas? Talvez...

Mas talvez todos necessitemos de uns momentos de reflexão, começando por ouvir com toda a atenção, e mente aberta, este homem extraordinário. Ele fala-nos de casos, de dados científicos demonstrados, onde a associação de alguma predisposição biológica, genética, a um ambiente desfavorável, uma economia desumana e impiedosa, que nos destrói as vidas... a um stress individual e colectivo, nos conduz a doenças e a situações sociais com graves consequências: desemprego, alcoolismo, tóxico-dependência, ou apenas a perda de relações de amizade, desfasamentos no tempo e no espaço de possíveis relacionamentos, desintegração familiar, mal-entendidos disruptiveis, depressões que se tornam crónicas, obesidade, doenças crónicas, doenças cardiovasculares...

"Os pais dos nossos jovens podem estar a fazer o seu melhor...mas em condições impossíveis"! Diz Gabor Mate.

Há dados concretos sobre tudo isto. E como não entendermos a enorme diferença entre a nossa sociedade actual de abastança, em que sentimos tanta infelicidade, ou fugimos a pensar em felicidade, e a sociedade dos nossos pais e avós, que apesar de tanta dificuldade e escassez de meios e produtos, nos faz recordar o quão felizes conseguiram ser e ainda tiveram a capacidade de nos passarem esses mesmos sentimentos, e ainda o amor, de que vejo tanta gente fugir, recear uma espécie de conexão prolongada, um sentimento de ligação muito forte, que nos foi transmitido...mas que rejeitamos agora, nestas nossas sociedades?

Mate recorda o termo de Karl Marx, Alienação. E refere quatro tipos de alienação, afastamento, separação. Que mais ou menos sofrermos todos, de um tipo ou de outro.

Da Natureza, que temos tratado tão mal, e que nos fez inventar mais umas quantas profissões para apenas se verificarem inúteis, mas assim asseguramos mais uns quantos negócios, redes de influências, mais campos de actuação da corrupção, mais causas de stress social, por via directa e indirecta.

A alienação dos outros, nos relacionamentos que hoje são menos ligados, onde se perdeu muita confiança e nos podemos apoiar menos. Perdeu-se muita segurança nestas relações. Sociedades muito mais desligadas. Doentes, em si mesmas.

Alienação do trabalho, onde sentimos um desligamento crescente, uma falta de motivação, uma razão para nos dedicarmos, falta de sentido do que fazemos, por múltiplas razões que todos sabemos, que cada um de nós, reflectindo, entenderá bem porquê. E mais uma causa de stress, de desligamento e separação de casais e famílias e até amigos. Não?

Alienação de nós mesmos. Se nem nos entendemos a nós mesmos. Se nem reflectimos sobre nós, se perdemos crenças, se perdemos a fé em algo e em nós, se desconfiamos do que somos capazes, se nos desligamos do que somos e da procura do que seremos ainda capazes. Se perdemos o interesse em evoluir, não estaremos a deixar de acreditar em nós mesmos?

Agora, juntemos tudo. Os factores sociais, económicos e ambientais puros. Juntemos a pressa com que vivemos e queremos continuar. Juntemos a substituição que fazemos de factores emocionais e compensação de sentimentos...por produtos e por interesses materialistas.

Penso que vale muito a pena reflectir. Penso que muito do que temos vindo assistir nesta crescente mediocridade social e política, se poderá melhor compreender. Até disso e dessa preocupação nos auto-alienamos.

Penso que deixámos muito do nosso ancestral sentido social, na nossa matriz cultural e religiosa para trás, para abraçarmos uma sociedade sem projecto e sem sentido. SENTIDO. A procura de sentido na nossa vida, e na dos nossos mais queridos, mas a sabedoria que tantos nos tem faltado não nos deixa perceber um sentido...(sei do que falo e muito me faltou). Porque essa sabedoria, só nos chega, com um sentido que consigamos dar a nós, ao nosso meio, e aos nossos sentimentos. Que não podem ser deixados a voar, ao sabor de um vento desconhecido, esperando um dia que por um qualquer acaso nos encontremos numa curva de tempo.

Será que olhando um pouco para trás, não vislumbramos o que agora se põe em causa? Nos nossos próprios pais?

Será que, num breve exercício de memória, olhando à nossa volta, aos estonteantes e surpreendentes acontecimentos dos últimos meses e anos, não identificamos estes "movimentos", usando de alguma alienação, nas empresas, nas políticas, nos extremismos, nas crises sucessivas, na decadência cultural generalizada, nas doenças sociais, doenças do foro mental e físico?

Não se trata de uma teoria conspirativa, ou de um conceito pró-religioso ou místico. É um exercício de observação social, de introspecção individual e de procura de respostas a tanto de inexplicável que temos vivido. Acho...

Proponho um exercício individual: identificarmos as nossas alienações.




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