A vida pela metade

A Vida pela Metade. É o título de um livro, de Anabela Mimoso, que nunca li, nem faço a mínima ideia de que versa. Mas este título sempre me sugeriu muitas situações e experiências que tenho observado.

Chegar a "metade da vida", algures pelos quarentas, ou mais de metade, pelos cinquentas, e sentir claramente que não se teve a vida...que se queria. Vi, vivi e confirmei com muitos amigos meus. Talvez consiga afirmar que alguns, antes mesmo do "meio da vida", a tenham tido quase toda, assim num concentrado, diria, quase exótico, de sucesso, felicidade, tranquilidade e esperança no futuro. Mas quando me meto a pensar, a escrutinar a memória, a passar em revisão grande parte dos meus amigos e familiares, chego a conclusão oposta.



Frustração profissional, insucesso, frustrações sentimentais, e restam afinal, alguns bons e fundamentais amigos. Ainda bem, que esse "resto" não se revela algo na margem da nossa vida, mas acaba por ser o que nos acompanha até aos dias finais. E, durante todo este trajecto, sabe a pouco. Queremos empolgar-nos com um grande amor, e ele surge, e ele se vai. Queremos um sucesso profissional e reconhecimento, pelo que somos e fizemos, e continuamos a fazer e...nunca surge, ou é mais efémero que os assuntos do amor.

Julgamos encontrar um emprego, uma carreira, um lugar no mundo tortuoso e, bem...pois... impiedoso do trabalho, que nos puxa para baixo e nos tira o lustre dos nossos primeiros momentos, quando um elogio nos atirava aos píncaros, longe estarão esses dias, e um dia nos vemos a descartar a carreira, para nos deixarmos levar numa rotina que nos pague despesas, e não se torne um fardo pesado demais. E todos, ou muitos, sentem esse fardo que levamos, mesmo ao nosso lado. O que só nos prejudica, mas já pouco nos importa.

Queremos deixar uma marca do que fomos e tentámos ser, algo de que se orgulhem amigos e, sobretudo filhos e alguém mais, e não temos mestria ou tempo para a preparar. Deixamos sempre marcas em alguém, certamente.

Julgamos encontrar a pessoa certa, que pode tardar dezenas de anos, numa vida de outras poucas dezenas mais, e ...o caminho terá afinal de ser outro. Julgamos ter sido encontrados, e ...o mesmo sentido e resultado, ou algo ainda mais difícil de se carregar.

Meia vida, ou meia vida e pouco mais, não nos chega para cumprir um sonho, e logo aí pode estar o fim, após a curva da metade nos ter desencantado.

Olhamos à volta, olhamos para o lado, ali estão os nossos tesouros e legados mais valiosos, se outros seres não se lhes ombreiam em importância, e tememos pelo que pode ainda vir a ser pior do que nos foi a nós.

Olhamos para trás e vemos pais com dificuldades, que não tomavam anti-depressivos, que riam e se riam deles mesmos, que tiveram sonhos que nós não conseguimos cumprir, que talvez não tivessem procurado sequer o trabalho perfeito, o amor perfeito, os amigos perfeitos ou a saúde perfeita, mas que com tudo assim mesmo imperfeito, tiverem mais momentos mais felizes do que nós, seus descendentes. E...não se entende.

Um dia disseram-me que o nosso mal era procurarmos algo demasiado bom, algo muito melhor do que nós, ou mesmo algo apenas...demasiado encantador e satisfatório, e não nos limitarmos a aceitar, ainda que procurando, ou procurar numa bitola mais baixa.

Acho que o fiz, ou tentei fazer, e me frustrei na mesma. Um deste dias assaltou-me a ideia pouco reconfortante que uma coisa não aprendi dos meus pais: ser menos exigente, comigo talvez, de certeza com os outros. Mas não me acho, também, exigente com os outros e vivi alguns anos em ambiente e pessoas, que me confirmam essa tão baixa exigência que me pareceu a dada altura, ter desaprendido a viver, e de mim querer ser e estar melhor, cuidar melhor. E, quando me deixei encantar e ofuscar pelo que achava já arredado de mim para sempre, escorregou-se-me pelos dedos, em tempo mais célere do que a minha compreensão conseguiu intrusar.

Uma vida pela metade pode ser levada até ao fim dela, mas como só espero baixar braços no tempo em que o tempo desistir de mim, há algo perto de metade, mesmo que um tanto menos, que espero encher com muito mais...do que a metade em falta. Ainda muito em falta.

Vim até aqui tentando construir um controlo da minha metade vivida, sempre com alguém a contribuir, sempre com certezas de o resto nunca se revelar pior. Vim até aqui com o que de melhor fui tentando fazer, sabendo que não me queria comparar, excepto com o meu momento anterior, em que sabia menos, era menos conhecedor, era menos perspicaz, era menos inteligente, amava menos, era menos feliz e era menos realizado. Os dias por vezes, contradizem-me, arrogantes que são em tomar o controlo que queria meu, e em me deixar com muito menos certezas, ou mesmo uma grande dúvida.

Acreditar foi a melhor forma de generosidade que encontrei para com todos os que vim lidando. Confiar, seguiu-se-lhe. Contribuir, um desígnio. Partilhar foi um prazer. E há um tempo em que com todo o optimismo de que me gabo de ter, estas seguranças tremelicaram e fizeram vacilar.

Mas sei que a vida pela metade ainda tem de estar por vir. Mesmo tendo visto parte, dessa melhor parte. Só pode, pois o Plano era esse. O meu e o dos que assim aqui me deixaram. O plano era que as metades da vida não são iguais e não valem o mesmo, mas que temos todos de usar do nosso melhor para fazer do nosso resto de tempo, a parte significativa. Temos mesmo é de saber ler sinais, quando nos são apresentados e é tão nebuloso e desfocada essa indicação que nos surge. O meu lema tem sido o de que uma oportunidade só nos chega uma vez. E não sabemos bem qual delas, das diversas, era a escolhida e perfeita para nós.

Por isso nos enganamos, e por isso nada nos consegue ensinar a ver. Nada, nem ninguém. Mas há sinais, com frequência, e eu estou certo de ter visto alguns, ontem, hoje e amanhã outros poderão explodir diante mim. Devia ter estudado um outro curso, devia ter conhecido outras pessoas, outras mulheres, devia ter sabido fazer as coisas de outra forma, com tanta coisa e tanta gente. E provavelmente me foram dados fortes sinais e eu estaria a olhar para o lado. Esse movimento do pescoço que nos pode estragar toda uma vida. Ou, um olhar a fixar o que está errado, ou o que está mesmo certo, mas só nos pensamos ter visto.

Ficar com a vida pela metade sem a cumprir toda é que não pode mesmo ser. Nenhum livro nos ensina isso, ninguém nos indica isso, nenhum sinal pode ser tão pernicioso e maldoso que nos impeça de ver.

Não se pode mesmo.


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