28.4.08

Manuela Ferreira Leite


De repente o país político voltou as suas atenções para o PSD.

Claro que existem as manifestações de 'apoio e caridade' habituais da 'área socialista (que continuo sem saber o que é, visto não partilhar com a dicotomia classificativa direita-esquerda, que já vem de 1789...e parece-me que um mundo que mudou em tanta coisa não observou suficientemente que, nestas questões políticas esta arrumação das ideologias - ainda as há? - já não faz sentido).

Agora assiste-se ao pseudo-caos de um partido que tem andado com, não diria sem rumo, mas pouca orientação desde Cavaco Silva. Está o PSD a pagar os erros de Durão Barroso, demasiado ocupado em chegar ao poder e servir um tanto a sua vaidade pessoal, os desmandos de Santana Lopes, que ainda não decidiu crescer definitivamente, os papéis demasiado arrumadinhos de Marques Mendes, a quem sempre lhe faltou um genuíno rasgo de 'animal político' que 'agarrasse' o seu próprio partido e Portugal em geral e, por último o errático Luís Filipe Menezes, que às vezes dá a sensação de ainda estar a tentar perceber como se meteu em tal aventura.

Aparecem candidatos de todos os lados, uns verdadeiramente a acreditar em si e nas qualidades que julga ter para liderar o partido mais difícil de ser liderado em Portugal (por ser feito de gente livre que não se deixa a si mesma ‘encaixar’ em clubes políticos estilo ‘direita que nojo’ ou ‘esquerda que horror’. Gente normal, que trabalha sem depender completamente do Estado, coisa que foi apresentada como desvantagem por muita gente e até por Clara Ferreira Alves, que muito admiro. Gente que tenta pensar por si mesma, sem vestir uma camisola sem pestanejar. Gente livre, afinal).

Surgem candidatos com projecto mas que talvez não se tivessem preparado a tempo, como Pedro Passos Coelho, sempre uma hipótese de futuro. Ou Patinha Antão, sempre uma hipótese de passado, que pode ser experiência a aproveitar por outros, dada a sua inegável qualidade académica.

Depois a velha onda de nervosa insatisfação, personificada por Santana Lopes e Alberto João Jardim. Eternos jovens que teimam em deixar que a idade lhes chegue como a todos nós, e persistem numa tendência que já nem irreverente é, mas que mais parecem sempre fazer as coisas contra alguma coisa ou alguém. Neste caso contra Ferreira Leite.

Ferreira Leite sim, a única candidata que reúne as várias condições para um líder credível, intelectualmente superior, com características de liderança reconhecidas e que apenas tem contra si a idade. Mas será ela quem irá arrumar o partido e mesmo que mais não consiga, não será demérito seu, mas antes dos que lhe antecederam, entre eles Santana Lopes, que deixaram esta imagem de partido brincalhão, para não ser levado a sério.

Muito prazer e satisfação me daria pessoalmente ver Manuela Ferreira Leite como Primeira-ministra, por ser mulher, e por ser quem é. Competente, séria, organizada, pragmática e superiormente inteligente. Com ela pode-se esperar novas ideias e formas de estar na política que não a promíscua rede de influências e mistificações criadas pelo PS. Este sim, um partido de Estado, por que sem o Estado não sabe viver. O PSD é necessário à nossa vida política por ser exactamente o contrário do que diz Clara Ferreira Alves: é melhor do que o PS. Sempre deixou o país em melhor situação. E não a agoniar lentamente, com ricos e pobres cada vez mais distantes. Já fora assim no tempo de Soares e agravou-se com este incompetente Sócrates.

Se Manuela Ferreira Leite não vai a tempo de derrotar Sócrates, vai com certeza a tempo de reorganizar o PSD e, de uma vez, demonstrar a calamidade e o escândalo de uma governação socialista que pouco a pouco toma conta das nossas vidas, com leis, impostos e tráfico de influências.

Vai a tempo de recuperar o ideário do PSD que sempre lá esteve, mas foi desbaratado por líderes que nunca tiveram o mérito para tal.

Contra tudo o que se diz e ainda pode vir a dizer, Manuela Ferreira Leite demonstrará a sua superioridade, como político e como senhora na política.

Teve a coragem de avançar, contrariamente a outras personalidade de grande valor que no PSD nunca avançaram. Tem a visão e lucidez necessárias para provar que o PSD é efectivamente melhor e que se vai posicionar de novo e definitivamente para ocupar o lugar que merece na nossa democracia.



27.4.08

Partido com classe


O Instituto Nacional de Habitação despediu no mês de Abril quatro jovens com licenciatura que ali estavam há cerca de um ano, com contratos através de uma empresa de trabalho temporário. Logo de seguida o mesmo instituto contratou, provavelmente à mesma empresa, outros tantos jovens para desempenharem as mesmas funções. A hierarquia dessas jovens não tem qualificações, concretamente formação jurídica, mas o Estado prefere manter os seus quadros tal como estão, em lugar de fazer, ele mesmo, o que defende e apregoa para o sector privado. Tais jovens recebiam um vencimento de cerca de quinhentos e quarenta euros mensais, sendo que o Estado paga o dobro à empresa de trabalho temporário.

Este não é um caso isolado. São milhares de jovens licenciados pelo país fora em situação idêntica.  

Estes são os contratos que o governo de um Partido Socialista, um partido com classe, nas palavras de Clara Ferreira Alves, tem administrado, através de uma figura sinistra como Vitalino Canas. O mesmo Estado que vem agora pretender taxar as empresas que optem por prolongamentos de contratos a termo certo, foge a essa regar pela forma mais indigna, diria mesmo leviana e mercantil, através de uma falsa criação de empregos, mas sempre a cumprir a estatística, essa sim, uma obsessão de Sócrates.

Assim Sócrates pode continuar a mistificação dos números: não amenta o número de funcionários, porque estes jovens não são dos seus quadros, nem serão. E alimenta uma série de empresas de trabalho temporário, com as quais alguns membros do PS têm contrato, de chorudas remunerações.  Mas também não diminui a despesa com funcionários, coisa aliás pouco interessante, porque Teixeira dos Santos resolve o problema com os impostos, e até recebe aplausos. 

Em última instância, são os próprios familiares de tais jovens, e todos nós claro,  que contribuem com os seus impostos para manter esta indecorosa situação, mas com classe - porque para Clara Ferreira Alves, e muitos portugueses,  só não se tem classe quando se vem  a público denunciar as coisas com coragem e frontalidade. Fazer pela calada, secretamente é ter classe, ainda que se faça exactamente a mesma coisa. E até votarão no PS.

Um autêntico comércio de pessoas no mercado de trabalho, por um partido não com classe, mas apenas que se fecha bem mais do que um Partido Social Democrata, vivendo ainda nos dias de hoje, com a mesma atitude das sociedades secretas, como a Carbonária ou a Maçonaria. É desta ‘classe’ que temos: comércio de jovens, de quem pode nunca chegar a saber-se o verdadeiro valor e, com a constante alteração dos seus empregos, de contrato a contrato, numa pura lógica de sobrevivência, estes jovens licenciados como o dinheiro do próprio Estado, receberão a pior formação das suas vidas.

Mas com a classe de Vitalino Canas, qual negreiro do Século XXI, Sócrates resolve alguns problemas nos diversos serviços da Administração Pública e cumpre as estatísticas, para, com classe, continuar a mentir ao Parlamento e aos portugueses que o querem eleger novamente em 2009.

25.4.08

Abril: 1974, 2008


Tal como já aqui deixei um breve testemunho, vivi o 25 de Abril de 1974, de forma muito intensa, porque, nesse dias, se me revelaram dois mundos. O do meu país, que se libertava de um regime não só totalitário, policial, vigilante da vida do quotidiano e castrador de iniciativas e inteligências mais libertas, como também cultural, social e economicamente anacrónico. O outro mundo que se me revelou, foi o meu próprio interesse pelas coisas à minha volta, por um país ao qual pertencia, um mundo no qual vivia. Um interesse que não mais cessou.

Mas passados estes trinta e quatro anos, verifica-se a mesma onda de tomada de posse pelo '25 de Abril', por parte um Partido Comunista que, ortodoxamente, se recusa a viver o tempo que temos, o Século XXI. Passados estes anos, o PC sente-se proprietário do movimento que, afinal era constituído maioritariamente por militares não comunistas, se é que havia algum comunista no momento desse dia. E surgem-nos de novo as ditas ‘figuras’ do 25 de Abril. Zeca Afonso, de quem nunca apreciei música alguma, e não o passaria a fazer por opção política se fosse o caso, mas tão só por escolha artística, de estética ou mero gosto pessoal e nunca entendi a sua importância sobre o 25 de Abril. Porque uma coisa vos garanto, tal como vivi esse dia: Zeca Afonso, nada teve a ver com o 25 de Abril e, se vivesse, hoje seria mais um homem desinserido da realidade. Ora, por mim, um homem inteligente, activo e com as suas capacidades deve ter todos os seus dias como dias da sua vida. Não há, comigo, expressões do tipo ‘no meu tempo’. Os comunistas vivem um tempo com mais de sessenta anos. Criticam uma Igreja Católica por ser anacrónica e padecem do mesmo mal. Isso aconteceria com Zeca Afonso, tal como sucede actualmente com Otelo. Vivem da nostalgia do passado, mas de um passado nada glorioso.

Os capitães de Abril fizeram o 25 de Abril, como expressão do descontentamento nacional generalizado. Mas generalizado entre as elites. Nos meios intelectuais da sociedade portuguesa. O 25 de Abril não foi um movimento popular e só foi militar, por ter sido a única expressão possível e forma prática e eficiente de concretizar o movimento de oposição descontente ao regiam de parido único de Salazar e Caetano.
Mas, na realidade por detrás dos militares havia muito mais do que apenas um grupo de pessoas, de inegável valor (os militares envolvidos no golpe). Havia todo um conjunto de intelectuais e políticos (ou candidatos a tal, como Mário Soares, ou já com provas dadas, como Sá Carneiro e Cunhal). Os militares nunca teriam sido capazes por si mesmos de iniciar tal movimento, por desprovidos de qualquer intelectualidade ou ideário político. Mas tinham um grande mote que os movia: terminar a guerra no ultramar.

Hoje, após todos estes anos, o país evoluiu muito do ponto de vista económico e social, mas muitíssimo pouco se analisarmos isto na óptica da educação e da cultura. Um povo nunca é livre enquanto não é informado, ou minimamente culto. Não há caminho de libertação individual ou colectivo que chegue a algum lado, sem interesse pelo saber, pela informação e pelo, assim subsequente, espírito crítico informado. E neste aspecto muitíssimo pouco evoluímos. E responsabilidade, de que agora pouco nos serve lamentarmo-nos, vem de muito antes, pois temos mais de oitocentos e sessenta e cinco anos de história, já praticamente com estas fronteira. Estabilidade que não nos permitiu sermos outro povo, em termos culturais. Mas temos essa admiração por uma cultura sólida noutros povos e países, como o norueguês, finlandês ou francês…

Comemorar o 25 de Abril com a mesma histeria de há trinta e quatro anos, neste clima de iliteracia nacional generalizado, é ao contrário de um motivo de alegria, motivo de profunda tristeza e, quase diria, de uma pessimista resignação.
Temos sido anestesiados por uma incompetência associada a um discurso fluido mas de pobre qualidade de um Sócrates. Fomos desiludidos por líderes de um PSD rico de valores que não têm corajosamente assumido responsabilidade, deixando caminho aberto a outras incompetências a juntar-se à do Governo, quando gente como Durão Barroso, Santana Lopes ou Luís Filipe Menezes conseguem a desgraça que conseguiram, liderando um partido importante na nossa cena política. E agora procura apressadamente corrigir erros do passado recente, vindo talvez tarde para o país, mas a tempo para o próprio PSD. A irresponsabilidade á tal, que no tempo perdido não se prepararam para derrotar um Sócrates incompetente, narcisista, arrogante e medíocre, perfeitamente derrotável, com um líder forte e com ideias próprias. Um António Borges que sempre fica como promessa. Só duas vezes o PSD teve líderes de coragem que deram um passo em frente pensado no país em primeiro lugar: Sá Carneiro e Cavaco Silva. Mas o PS não teve nenhum. Agora, talvez o PSD volte a ter, mesmo que não queira ou não possa vir a ser Primeiro-ministro. E o PS continuará a não ter. Mas o povo não irá saber 'ler' isto...
Quem não é informado nunca é livre e quem não é livre não escolhe bem.

21.4.08

Nós e os 'outros'


A que outros me refiro? O primeiro pensamento de quem se dá ao trabalho de me ler, deve ser de que se trata de um texto de psicologia, ou quem sabe, de sociologia até. Mas não que nesses temas não sou versado, e em muitos outros claramente, também. Filosofia pragmática talvez? A filosofia prática dos descendentes de Dewey? Na realidade, acho que queria, tão só, elaborar numa provocação a algumas pessoas conhecidas, e fazer um pequeno jogo mental, através (preparem-se ou desistam, isto é capaz de ser um tanto extenso…).

Queria com este ‘outros’ abordar uma acepção diferente do vocábulo. Este ‘outros’ seria destinado aos não humanos. Animais e plantas…

Porquê? Que nos distingue desses ‘outros’? Dos animais e de outros seres vivos? Muita coisa, evidentemente, mas talvez não tão complicado como possa parecer à primeira vista, do ponto de vista teórico. Filosófico, se quiserem. Umas diferenças essenciais é a nossa infindável capacidade de complicação. A complicação é intrinsecamente humana.

Tomemos o conceito de ‘palavra’ ou de ‘linguagem’. Não linguisticamente. No significado e na dificuldade que a ‘palavra’ nos traz. A linguagem surgiu para simplificar ou, digamos, facilitar a comunicação. Criar uma forma de comunicação com um conceito de universalidade. Mesmo que tal universalidade se restrinja a uma comunidade tribal, ou se alargue a toda uma civilização. Mas, de facto, logo após a sua ‘criação’ ou ‘invenção’, a evolução da raça humana e da linguagem só trouxeram complicação. Não à comunicação, mas ao pensamento.

Num dado âmbito, o que um dia é interpretado por uma pessoa, com a mesma ideia, desculpem-me, significado, tem para outra um significado distinto. O conteúdo, que enche o vocábulo. Se essa outra pessoa, o receptor, tiver conceitos distintos, se por exemplo for de cultura distinta, a sua interpretação pode ser bem diversa. Tomemos um exemplo de um bem conhecido acontecimento histórico. Colombo chegou à América, ou melhor à Hispaniola, hoje a ilha que se divide entre República Dominicana e Haiti, em 1492. Este mesmo facto lido por um árabe não consciente dos distintos calendários leva-o a supor que Colombo lá chegou numa data bem diferente da verdadeira, assumindo 1492 como verdadeira. Tal como a chegada de Colombo. Ou seja, o que é tido como verdadeiro, passa a ser falso. Então, daqui se concluir que a palavra, fulcro maior da comunicação entre humanos, que se quer universal, enquanto entendível por todos, já só vale não na forma, mas sim no significado. O significado é pois, a única coisa válida. E que dizer então das expressões “tem o mesmo significado” e “ tem o significado que se lhe queira dar” ou ainda “cuidado com as palavras, pois têm muito significado”. Aliás expressões frequentemente usadas sem critério ou rigor.

Os humanos distinguem-se por terem inventado a complicação. Não vale a pena lutar. Ela, a complicação existe e é a nossa essência maior. Divina. Tão divina como as divindades, que também fomos inventando, para assim ainda mais nos complicarmos a nós mesmos.

Outra enorme complicação: o Amor. Alguém já descobriu o que é? E se não descobriu, então sabe para que serve? Diz-se: Não interessa o que é, ou como se explica, sente-se. Ai sim? Então e o significado? Aqui já não se explica? Ma parece que há muitas certezas. Há quem distinga entre amor e paixão. O que me leva a supor que é porque se sabe o que os dois conceitos significam. Ou, no fundo, serão a mesma coisa. Em fases distintas e sucessivas? Mas, insisto, ainda hoje se disque e tenta entender o que é uma coisa e o que e outra. E isso, também me leva a supor que é porque, afinal, não se sabe. Mas usam-se os termos. E muito. Lá está mais uma complicação humana.
A complicação não existe no mundo animal. Irracional, claro (isto também nos levaria a uma longa discussão de conceitos). Tal como o amor. Porque o amor é uma invenção humana. E existe? Ou existe porque nós assim o queremos? O conceito, não o sentimento. E não me venham com a resposta de que são a mesma coisa. Ou então digam-me o que é, uma e outra. O conceito e o sentimento. O significado de cada vocábulo, e não o vocábulo em si. Existe, tal como queremos que exista Deus. Então amor e Deus (um qualquer, desde que exista - sabem que a simples utilização de existir pata Deus é um lapso ou limitação de linguagem? Não admira, já que a complicação é humana!) são questões de fé.

Que complicação tremenda! Mas quanto mais complicamos…mais nos afastamos da nossa essência que, entre outras coisas, é complicar. A nossa essência de humanos é complicar para simplificar. E não o contrário, como se podia supor. Depois queremos simplificar. E criamos padrões e regras. E vocábulos, como amor e deus.

Mas o que se sente existe? Ou é apenas criação, produto, da nossa mente? Uma tradução errada daquilo que observamos. Ou existe apenas o que se racionaliza? A mim acusam-me com alguma frequência, de ser muito emocional e pouco racional. Nem precisavam de estabelecer o conceito todo, já que ser muito emocional, para quem é useiro em tais análises, racionais, está bem de se ver, implicaria ser pouco racional. Uma coisa, numa escala percentual, limita a outra. Será? O que me querem dizer, e nem o sabem, é que se sou menos racional, sou menos humano. Ou seja mais animal. Mais besta, já se vê. Mas, afinal, pelo que atrás se viu, os animais não são emocionais, visto que tal implica uma interpretação subjectiva da realidade. E uma linguagem, física e mental, únicas do ser humano. Ou querem essas pessoas dizer-me que se sou mais emocional, portanto menos racional, serei menos inteligente (outro conceito que só nos trouxe problemas, dificuldades e…complicações), ou seja mais ‘burro’? Pouco analítico? Cuidado que mais analíticos do que os animais não há. Ou as plantas, mesmo. Previsibilidade. Padrões matemáticos estão presentes em toda a natureza, viva ou morta. Mas o ser humano afasta-se muito de tal enquadramento. Mas o poder emocional, ou capacidades e se quiser, é uma característica do ser humano e apenas do ser humano. Já a racionalidade, não. A emoção vem de se sentir. E claro que os animais também sentem, mas depois não são capazes de fazer a tradução em emoções, aspecto exclusivo do ser humano.

Chega-se ao subtil, mas de facto muito pouco inteligente, de dizer: “és pouco racional”. Como um quase insulto, quando na verdade, se trata e um elogio. Traduzo: és pouco animal, logo és muito humano! O que nos querem dizer, mas a linguagem não é trabalhada ao nível do significado é: controla as emoções com algum travão- a racionalidade. A parte animal. Mais segura, pelo lado das regras que se impõem na nossa vida quotidiana, social e até íntima. Ah! Bem diferente significado dos termos emoção e razão.

Foi a razão de Descartes que levou a quase tudo o que conhecemos feito pelo Homem. Descartes era inimigo da emoção, dessa faculdade de sentir e exprimir, após tradução elaborada no espaço físico entre os órgãos da emocionalidade, amígdala e outros, e o córtex cerebral, que nos distingue dos animais, e nos facilita a comunicação entre humanos. Nos permite exactamente entender os diversos significados, das diferentes linguagens, de todos nós. E permite, entendendo os outros, estes sim humanos, inserirmo-nos melhor, e comunicarmos melhor.

A razão de Descartes e outros seguidores, levou à razão da Igreja Católica, a menos emocional das instituições religiosas. E leia-se atrás o que tal significa, de mais ou de menos humano. A mesma razão, fez desenvolver espíritos militaristas, monarcas absolutistas, déspotas, e a uma tremenda estupidez humana que ainda hoje persiste. Foi a fundação institucionalizada do animalismo humano. Levou a grande e insignificantes atitudes incompreensíveis: desde decisões políticas que custaram milhões de vidas a uma simples e má aplicada palavra, dita por um apaixonado a outro, na procura não do entendimento, humano, mas do desentendimento mais animal, por uma errónea superioridade de um sobre ou outro. Na desistência de umas pessoas pelas outras. Isto tanto se vê na decisão política como nas relações familiares ou, com mais frequência, nas relações sentimentais ou amorosas.

Hoje vemos ao que levou. Quinhentos anos de decadência contínua da cultura ocidental e uma paragem inacreditável no nosso desenvolvimento como espécie. A procura da crescente complicação, onde podia existir a beleza da simplicidade.

Penso, logo existo. Pois. É bem verdade. Mas este penso de Descartes devia ser sempre visto e praticado com bem mais emoção do que razão, sendo esta a reguladora da acção. Pelo lado superior e inteligente da Emoção, e não pela ‘irracionalidade’ da Razão!

Não contem comigo para este ‘Acordo psicolinguístico’. Essa ‘horizontalização’ formatada do pensamento. Eu tenho o meu. Tenham o vosso horizonte mental, à vossa imagem e forma de vida. Ou deixem-se levar nessa corrente mortificadora, da racionalidade, e da racionalização de tudo, numa vida sem cor e sem brilho, rumo a infelicidade tacitamente aceite, e absolutamente garantida.

Talvez também à procura do que os budistas, que muito respeito mas não sigo, dizem existir, para consolo das impossibilidades das nossas vidas: a reincarnação. Como solução para tudo o que não somos capazes de conseguir ou de lutar para conseguir.

Eu por mim já me contento, com esta vida, complicada como a faço, mas bela por a procurar viver bem, e bela porque sentida, mais do que racionalizada. E contentar não é resignação, é por escolha activa e assertiva do que se quer. E se luta sempre para conseguir.

Tu


Há dias em que me meto a ler, embrenho-me o mais que o meu esforço me permite. Mas passado algum tempo regressa a desconcentração. Volto então onde já estive, ao meu caderno de escrita. Por uns breves segundos olho o papel, as linhas vazias, e, sei que me sairá alguma coisa, um texto…mas não, não o texto que quero, não o que queria dizer-te.

E, afinal, posso escrever o que bem me apetecer, fazer jogos de palavras que joquem contigo. Porque, afinal, tu não sabes se é contigo que comunico. Sei que pensas que és o objecto dos meus textos, mas escrever, tem destes luxos, destes privilégios. Não sabes, não se sabe, para além de mim mesmo, se me dirijo a ti.

Claro que sempre me dirijo a ti. Ou sim? Mas a quem, de facto? A ti que mereces os meus textos, mesmo que, apenas, quando eles são algo de razoável? Ou … a ti que não queres saber de mim? Ou a ti que nem me lês?. Pois o meu refúgio é este. Escrevo e falo para um “tu” quem nem tu sabes se és tu, ou se até mesmo existes. O privilégio do escritor, mau como eu, ou bom, como tantos outros.

Não sei por vezes o que te diga, ou o que diga mais, do que já dito foi. Ou podia dizer uma dessas milhares de coisas que ficaram sempre em suspenso. Em aberto. Ou que já não serão ditas. Mas outras melhores podem sê-lo. Ou as que nunca chegaram a ser ditas, porque o “tu” podes ser bem outra pessoa, que não a que me lê. Podemos fazer de conta que “tu” já és do meu circulo real de amigos e não parte de um qualquer virtual pensamento meu. Ou és mesmo, ou já foste, e ainda és. Ou ainda serás.

Afinal, tudo o que queria era escrever-te, sem escrever nada. Porque nada tinha para te dizer. Não que não tenha, mas porque…

Escrever sem conteúdo pode significar o mesmo que escrever com profundos significados, pois, como se viu…tu leste…e pensaste…que queria ele dizer, que não disse…

No fundo, não disse mesmo nada. Mas todos ficámos a pensar. Eu, que nada escrevi, mas estive constantemente a pensar em ti. Mesmo que “tu” enquanto ser, não o sejas. Tu, que me leste até ao fim sempre de pensamento juntinho ao meu.

Pensar tem tantas vezes bem mais significado e valor do que falar, não tem? E pensar e ti, e tu em mim…mais do que valor, tem sentimento. Tudo o que é assim, entre dois entes, tem sentimento, seja lá o que isso quer dizer. Ou não. E isso, sim, vale por todas as palavras que te pudesse dizer.

Mas também posso ter escrito, apenas para não te dizer nada, porque não quero. Porque não tenho para te dizer, ou porque acho que não mereces ouvir, ler… OU eu não te mereço. Mas assim, estivemos os dois em comunicação. Não?

E também provei, parece-me, salvo a presunção...que não há mesmo pensamentos negativos. Ou seja, inexistentes. E muito menos sobre ti. Porque o “tu” tens de existir, ou não te havia escrito. Ou pensado em ti, para te vir escrever. Só que não sabes quem és. Quem és…este “tu” do meu não-texto. E eu, sei?

Mas tu, sabes de quem falo. Porque é de TI

16.4.08

Encosta-te a mim


Esperava-te com aquela mesma impaciência que me agitava, sempre que chegava antes de ti. Mas com a mesma certeza de que virias para o meu lado, desfrutar da beleza da nossa paisagem, tão plena de energia, como de luz e promessa. Enquanto não vinhas ia-me deleitando com tudo à minha volta. O sol que espalhava baixo e sereno, os raios quentes, redondos de veludo aconchegante. Como um mel amarelo de sonho e esperança. No verde das ervas em redor, a luz amarela atravessava a clorofila deixando uma imagem que percorreria séculos. Esse contraluz lindíssimo que me aquecia e apaziguava, enquanto me deixava ali ficar para ti. Um vento suave e doce agitava-nos carinhosamente e refrescava-nos, dando força para resistir ao que podia ser mais um dia quente. Ao ritmo dessa balada da brisa as ervas faziam a dança do costume, num abraço intemporal e reconfortante. Tudo perfeito para que tu chegasses.

E vieste! Abriste-te para mim em toda a tua cor, linda como sempre! Quando te vi, mal podia acreditar, mas eras tu. Ali mesmo ao meu lado. Olhámo-nos e ficámos em silêncio, deleitando-nos um com o outro. Não era preciso mais do que isto. Uma visão de ti, e tu outra de mim e sentíamos como se o tempo tivesse parado para nós. Éramos donos do tempo, da luz, do vento e da magia daquele momento. Num breve e doce olhar de nós, sorrindo com a melhor cor com que conseguíamos sorrir. Agora só teríamos de esperar que este vento meigo nos aproximasse, nos desse de nós aquilo que era a razão de ali estarmos. Um abraço. Um beijo. Um único beijo. E não eram precisos mais. Mais algum ainda podia tirar o sabor e valor daquele primeiro. Quando desabrochaste ao meu lado, só estava ali para esse abraço e o terno, quente e único beijo.
Tão especial e única és para mim que um breve contacto e um só abraço, coroado desse beijo quente, me chega para terminar a minha missão ali. Aqui.


Depois, bem posso morrer. Já tudo se cumpriu, como previsto.

15.4.08

Ri de nós...?


Não sei que país este Governo vê ou quer fazer ver mas sei isto:

· Portugal é o país que apresenta o maior fosso entre ricos e pobres em toda a Europa, incluindo os países do Leste europeu mais novos na União. Este afastamento entre os mais ricos e os mais pobres aumentou todos os anos com este Governo. Os ricos têm vindo a ver a sua riqueza aumentar cerca de 16% em média por ano.
· A grande maioria dos novos muito ricos de Portugal é toda socialista, filiada. O Governo tem conseguido um controlo da economia privada, que até Salazar invejaria Somos o país mais afectado pela crise financeira internacional, tal como eu já havia dito (em Janeiro);
· Temos os salários com menos poder de compra da UE. Este ano todos os não-ricos voltaram a perder poder de compra e muitos vêm os seus aumentos devorados por uma inflação crescente; O Governo conseguiu controlar o défice público apenas à custa de impostos;
· O custo da alimentação tem vindo a subir e não parará tão cedo, fruto em parte de uma política energética errada, de que Sócrates tem sido um dos entusiastas (biodiesel e bioetanol são produtos não amigos do ambiente, com produções poluentes e custos ambientais insuportáveis, entre eles a grande ameaça à floresta amazónica. Em Portugal as grandes áreas agrícolas nas planícies estão já ameaçadas por esta política irresponsável do Sócrates);
· Os parques de painéis solares no Alentejo têm mais custos, financeiros e económicos do que benefícios. Em termos ambientais, eles afectam áreas importantes e os seus painéis terão de ser substituídos cada cinco anos. São a forma de energia alternativa menos produtiva de todas e financeiramente menos sustentada;
· Portugal é o país que mais recursos afecta a grandes obras públicas na UE;
· Portugal é o país que menos recursos afecta à investigação científica, apesar da propaganda oficial de ter sido dos que mais viu tais verbas crescer, em termos percentuais - mas a base era já a mais reduzida de todas;
· As maiores empresas portuguesas investem e ganham num mercado mono ou oligopolista, não dando boas perspectivas de redução de custos aos consumidores (telecomunicações, energia eléctrica, gás, transportes, serviços bancários). Somos o país mais corporativista de toda a UE- característica de países com ditaduras de direita.
· Somos o país com empresas familiares mais pobres e com menor taxa de crescimento do número e peso na economia das empresas de pequena ou média dimensão;
· Temos a classe média mais pobre e endividada da Europa;
· A maior taxa de desempregados licenciados é nossa; A maior fuga de recursos humanos de elevada formação também é um luxo português;
· A pior educação da Europa, com maior insucesso - que agora se procura estatisticamente mascarar e mesmo assim ainda não foi conseguido em três anos deste Governo com mais insucesso em áreas básicas. (matemática, língua materna e todas as matérias científicas, o que não deixa entrever boas perspectivas à futura capacidade de investigação que se pretende aumente e melhore);
· O povo ainda com maior número de analfabetos de toda a UE- o que explica em grande parte que com um insucesso em toda a linha de um Governos destes, ainda as sondagens lhe sejam favoráveis e a oposição não encontre pessoas de valor alternativo;
· O povo com maior índice de iliteracia, e o maior em grupos com formação superior;
· Os maiores problemas na área da justiça;
· De melhores perspectivas de crescimento económico, passou-se à pior de todas, ou seja, no início do ano previa-se crescer mais do que a média europeia, e agora prevê o FMI um crescimento abaixo da média da Europa. O que confirma a susceptibilidade da nossa economia e desmente o Ministro das Finanças, tal como eu disse no início de 2008.
Ajudem-me a encontrar factores positivos na actuação deste governo-polvo que tudo e todos pretende controlar e já subjuga grupos privados, como a Portugal Telecom, Grupo Espírito Santo, Impresa de Balsemão, Grupo Amorim, BCP, EDP, GALP, Mota-Engil, Teixeira Duarte, Lusomundo, etc. Sei que há um ou outro aspectos positivos, mas também seria difílcil fazer tudo mal. Mas a questão é: alguém sente esse ou esses aspectos positivos ou vê alguns futuro melhor?
Então para quê continuar a dizer que Sócrates é eficaz? Para o Partido dele, sem dúvida.
E o PSD também ri de nós ou de si mesmo, com tão hilariante líder? Mas já é mais para nos fazer chorar que vai libertando daquela cabecinha os seus dislates.Vamos mesmo no bom caminho...
Ou como se diz: estamos bem entregues, estamos…(então tomemos atitudes, responsáveis mas tomemos)

Muro


Onde éramos uma pedra de calçada, passámos a ser muro. Nós mesmo o muro. Não um que fizeram, ou nos levantaram no caminho que entretanto, descansadamente, seguíamos. Não. Também os há. Esses que se interpõem entre o melhor de nós e para nós, e o menos bom do nosso passado. Mas este muro somos nós mesmos. Ou somos parte dele. Vamos lá a ver. Deixemos estes plurais, mesmo que um muro, desses tradicionais fortes, de pedra, seja de várias de nós feito. Falemos como se deve. Eu sou parte desse mesmo muro, intransponível. Porque ele é feito de mim, e não é material. Sou a barreira de mim mesmo. Que não me permite avançar. Se fosse um desses normais, que alguém me tinha interposto…seria, como ali atrás se diz. Um que se poderia vencer. Ou na pior situação, ficar à espera. Esperar. Que esse tal tempo, de que todos falam, que tanto e tudo resolve, me viesse também, a mim, que sou igual a tantos e tantas, tirar este muro feio, este muro doloroso, da minha frente. E seguiria o meu caminho. Pois. Mas eu sou muro. Estão a ver o problema? E se sou o muro, sou o problema. Nem mais. E, assim, não me desfaço a mim mesmo. Aliás, por isso mesmo é que não me esfumo, ou desvaneço. Sou eu. E sou imaterial. Queria eu seguir caminho. Queria eu ir por onde havia traçado as minhas linhas de futuro, ou alguém, esse outro ente misterioso, a quem, no limite do seu inexplicável, alguns de nós chamam destino, traçou por mim. Predistinado. Ou pré-destino, que presumo ser o destino, antes do destino, ou antes dele mesmo. Enfim. Alguma coisa será, ou não teria tantos fiéis. Mas agora, não há destino. Nem passado. Porque estou aqui inanimado, nesta clausura deste muro meu. Feito por mim, não sei. Mas feito de mim. Se o fizeste, aguenta-te! Outra lei dos que não sabem o que é sentir-se muro, ou barreira de si mesmo. Não haverá caminho, se eu mesmo não me desintegrar. Ou não sou eu mesmo o meu muro? E se me desintegrar, como retomar o caminho? Ora, entendem-me.... Não há mais caminho! Ou há eu, ou há muro. Ou, dizem vocês, tu que dizes ser imaterial, materializas-te! Ah! Mas estes muros assim, mais duros são que a mais dura das matérias. Porque não existem. Mas estão cá.

…não há mais caminho? Antes ser pedra da calçada, mesmo fora dela.




14.4.08

A mente desconhecida


A propósito de um livro de Howard Gardner, o famoso psicólogo de Harvard que dirige um dos mais dinâmicos grupos de estudo sobre a inteligência humana(Project Zero) e sobre psicologia educacional - um dos primeiros, Frames of Mind, The theory of multiples inteligences, mas que só agora estou a ler, onde é apresentada a sua teoria das múltiplas inteligências, sobre o qual ainda tenciono escrever algum texto mais, lembrei-me de vir aqui deixar algumas ideias sobre o conhecimento da mente, de hoje e de ontem. Sobre a nossa mente, humana, ou seja a nossa e o conhecimento da daqueles com quem nos relacionamos.

Temos todos quotidianamente a noção do nosso controlo sobre a nossa própria mente. E, se não temos a mesma ideia sobre a mente dos outros, pelo menos actuamos com frequência como se assim fosse. Nas análises, tantas vezes sumárias e injustas ou, pelo contrário, na aceitação com alguma ligeireza, de outras pessoas. Saliente-se a distância entre mente e actuação, entre pensar e agir e leve-se em conta a pressa que hoje, e sempre, a vida nos exige, retirando-nos em tempo para reflectir na mesma proporção em que nos oferece a superficialidade e o stress diário.

Considero extremamente aventureira a atitude de julgarmos outras pessoas. Todos padecemos do mesmo e eu não me excluo, mas com tal atitude pode nunca chegar-se a saber o mínimo sobre pessoas que surgem pelo caminho.

O conhecimento da nossa mente é um longo e difícil caminho que se iniciou, de forma pelo menos mais sistemática, ainda na época das cidades-estado da antiga Grécia, com alguns dos grandes nomes da Filosofia. Mas não se pense que este conhecimento tem avançado ao ritmo de outros conhecimentos humanos. Quer seja sobre a nossa mente em concreto, quer seja sobre comportamentos e limitações humanas, históricas muitas delas, temos bem presente o nosso grande e profundo desconhecimento da nossa própria mente, da nossa própria espécie.

Ainda hoje se utilizam em larga escala testes de QI, como sendo uma forma de avaliar capacidades mentais, ou intelectuais, quer a nível escolar, quer mesmo a nível profissional. Estes testes vêm do início do Século XX, mais precisamente de 1912, quando Stern propôs o termo Quociente de Inteligência, ou de 1905, quando Binet e Simon criaram a escala Binet-Simon que é no fundo a escala por trás dos testes de QI. Do início do século XX! Mas foi na parte final do Século XX e já no início deste século XXI que se deram os passos mais largos e seguros no estudo do nosso cérebro e das suas capacidades. Como é possível continuar-se falar de QI? Já se provou que a Inteligência não é um parâmetro intelectual em si mesmo. Que somos bem mais emocionais do que racionais, mas como Descartes nos criou a todos o complexo de que ser racional é bom e ser emocional é menos bom, ainda andamos nesta eterna idiotice do duelo racional versus emocional. Vejamos.

Se a nossa capacidade e tendência geral, intelectual é, como se provou (Goleman foi apenas um deles mas um excelente divulgador da Inteligência Emocional e, mais recentemente Social. Mas foi com Gardner que se começou a falar da importância das emoções) mais emocional do que racional, ou se fizermos um paralelo, o nosso estômago aceita comida mas é também um importante centro nervoso, mas a sua função primordial é digestiva, sem dúvida, porque continuamos a achar que ser mais racional, é ser mais sensato ou acertado ou, por extremo, mais inteligente, do que ser emocional?

Uma explicação simples: ser emocionalmente pouco controlado, leva à interpretação de que não estamos muito capacitados para tomarmos a decisão ou atitude mais adequada num dado momento. Mas ser racional, demasiado racional leva-nos a quê? Por mim, por extremo a razão de Descartes é a parte mais estúpida da nossa mente. Ser tão profundamente analítico é tão só, ignorar e reprimir o que de mais extraordinário temos como humanos: sentir, emocionar-se, viver! Com a razão temos o controlo emocional adequado, mas vivemos com a emoção, Nem se duvide.

Mas se assim é, porque insistimos tanto nesta dualidade razão - emoção? E porque não desistimos de análises de QI? Ou porque, historicamente continuamos a usar, mesmo os que muito avançados cultural e intelectualmente se supõem, análises como Direita versus Esquerda, esse conceito anacrónico que nos chegou de 1789, de França? Dizemos que já evoluímos muito como raça, como cultura. Ou culturas. Será mesmo assim?

Individualmente as nossas análises são, injustamente, com muita frequência, sumárias e incorrectas, porque não damos aos outros oportunidades de os virmos a conhecer. Porque nem a nós nos conhecemos e nem uma vida inteira nos chega para tal Somos injustos connosco mesmos e mais ainda com outros, com quem lidamos, ou poderíamos ter vindo a lidar…

Na urgência do conhecimento e relacionamento com os outros, e na necessidade de nos inserirmos e não deixarmos, por consequência, isolar, fazemos todos os mesmos erros. Rejeitamos, acertadamente. Aceitamos, acertadamente. Rejeitamos ou aceitamos, erradamente.

Se a isto tudo adicionarmos factores como tempo (momento certo, capacidade de o identificarmos…), condicionando as nossas escolhas, o nosso histórico e o dos outros, os sonhos, as perspectivas de vida. Desejos, ânsias…

Um imensa miscelânea que me leva a escrever duas coisas: Sim, a pressa pode não ser má conselheira. Não o tempo, não é forçosamente bom conselheiro.

A nossa capacidade de visão, as nossas condicionantes, os preconceitos, as expectativas é que são os nossos efectivos conselheiros. Entre outros mais, claro está.

O tempo é apenas o ar que preenche. Está para as ideias e interpretações, com o substrato onde crescem, para as plantas. É o parâmetro subjacente. E é a medida dos nossos erros ou acertos. Dá a dimensão. É a métrica. É, por isto mesmo, fundamental. Mas é apenas isso.

Mas não culpem ou elogiem o Tempo. Somos nós os actores de tudo isto.

13.4.08

Momento




Há momentos para que as coisas, certas, nos aconteçam. Por limitação ou mania, esta é uma das minhas ideias mais frequentes. Defendo, ou acredito, mas não me perguntem se o confirmo ou não a cada instante, que para que se tenham as atitudes e tomem as decisões adequada há sempre um momento, passado o qual, já as condições ou factores mais favoráveis, podem ir passando ou já ter passado. Considero a minha própria experiência pessoal, sentimental, talvez na maioria das situações, mas profissional em muitas outras. Por vezes, muitas até, não me refiro às minhas próprias decisões. Mas às de outros. O que hoje nos parece, a mim ou a outros, demasiado cedo, amanhã pode vir a mostrar-se tarde de mais. É uma decisão sobre uma relação sentimental ou íntima. É sobre uma amizade, o nosso empenhamento nela, ou o estarmos disponíveis para um amigo, ou irmos ter com alguém no momento certo. É aquela decisão sobre um assunto profissional. E isto afecta todos, seja em que plano for. E afecta os decisores empresariais, tal como os da administração do Estado. Não há certezas antes. Nem somos detentores inexpugnáveis ou intemporais da verdade. Ninguém o é. E eu considero-me, pessoalmente, menos absoluto do que muitos outros que me rodeiam. Por vezes, no entanto, sou levado a pensar que devo lutar quanto posso pela decisão de outros, no momento adequado. E engano-me, ou podem outros enganar-se e estar eu correcto. Mas se não há certezas antes, há confirmações depois. E essas, vêm da pior maneira, com toda a violência que nos traz o desencanto e a tristeza. Por vezes são necessários anos, para se confirmar que o tal momento passou e há muito. E o desalento ainda é maior. Assim se transforma uma possível felicidade num oceano de frustração. Irreversível. O conformismo ou adiamento também traz, ou ainda mais, muita infelicidade ou irrealização. Deixar correr o tempo, como tantas vezes se pensa e diz. De uma forma ou de outra se comprova que o destino, ou o nosso caminho e fim pré-programados, enquanto tal, não existem. Eu já terei tomado muitas decisões erradas das quais nem mesmo hoje me apercebo. Se essas implicarem pessoas e sentimentos, dos quais nos afastamos definitivamente, por má escolha nossa ou por falta de espírito de luta, vulgo coragem, então alguém sente o desconsolo e passa pelo desgosto. E nós nem nos daremos disso conta. As relações humanas, sentimentais ou profissionais, surgiram antes da descoberta do fogo e podem incinerar mais rápido uma felicidade, do que a energia fulminante libertada pela matéria na forma de calor em reacção rápida. Ninguém sabe e eu acreditem, muito menos. Mas sei, ou por enquanto, convenço-me que sei, que há sempre o tal momento. O momento certo é a chama boa. Deixá-lo passar é apagar o fogo que não consome, mas pode libertar e nos transformar a vida numa coisa que vale bem mais a pena.
Olhar a paisagem com a serenidade na medida adequada, mas a consciência bem ponderada, do que há a fazer. Olha um oceano fantástico, de toda a vida que ainda nos falta e saber o passo certo que devemos dar a seguir. O momento mágico é um Blue Moment, inspiração de uma bela paisagem que nos enche a vista. Uma inspiração de que temos de ficar gratos, a nós, a outros ou a essa paisagem que ali nos deixaram para nos tocar bem fundo.
Talvez o momento, a cada instante, esteja a passar. Talvez nem se tenha ainda aproximado. Ou já o perdemos irreversivelmente. Porque momento é tempo.Mas muitas e muitas vezes, penso ou pensamos ter esse momento chegado, e também aí, nos equivocamos. Esperar pelo destino não um remédio em si mesmo. Deixar o tempo fluir, pode também não o ser.

Saber identificar momentos é a grande sabedoria, que a vida teima em nos ensinar.

9.4.08

O que há na nossa tela?


Pintar. Voltar à tela dos nossos registos e das horas absortas do mundo à volta. Voltar a esse pequeno mundo de imagens só nossas feito egoísmo pela melhor das intenções. De uma tela vazia, como o que temos dentro de nós, iniciarmos um novo trajecto pela mesma. Um caminho mentalmente percorrido dezenas, centenas de vezes. Os traços alongam-se, alargam-se, combinam-se, afastam-se e juntam-se. De novo. E voltam a divergir. Como os nossos próprios neurónios. Como os caminhos dos impulsos eléctricos neles percorridos. Os traços das nossas experiências. As imagens entretanto criadas. Passar à tela uma certa experiência. Uma vivência, mas que se quer alegre. Positiva. Lá, não se pretende nada de menos feliz. Nenhuma cor negativa. Só existem cores positivas. Tal como pensamentos que só os há, positivos. Não existem os negativos. Mas a negação dos de sinal mais. Não se conte ver uma não-tela. Ou uma não pessoa. Uma saber de uma não-experiência ou momento. Mas apenas da ausência delas. Ou passaram antes, ou hão-de surgir. Só positivo. Entendam-me. Falo das coisas como elas são. E não de como não são. O “não são”…não existe. Mas a sua negação, talvez. Nas sinapses há encontros. Há trânsito. Há cruzamentos. E assim, também, haverá na tela. Pessoas, momentos, emoções, sensações, ideias…Tudo pode ir para aquela tela. Duram quanto duram, ou têm de durar. Vivem quanto vivem. Depois, esfumaçam-se, ou passam à tela. As emoções e as memórias. Depois esfumaçam-se. Têm de dar lugar a outras. Mesmo nessa caixa de tremendos gigas… Ou ficam lá, mas não eternamente. Hão-de ser levadas por nós, connosco, para outra intemporalidade. Mas há outra ainda. A intemporalidade da tela. É rebuscada, não é real. Mas passa a existir, positivamente, enquanto tal. Preencherá espaço em branco e há-de confundir outros mortais. E rir-se deles. Se se rir, melhor. É o riso da tela e de quem a pintou, intemporal. Apagam-se as memórias, levadas com quem as teve. Mas não nessa tela, já não branca, de todo. Memórias de vivências. De pessoas, mas só das encantadoras. Não se querem lá as outras. Lembrem-se: sempre positivo. Não existem as não-memórias. Na tela há o fim de uma tristeza qualquer. E o início de uma impressão de eufórica beleza e da alegria incontida. Alguém nos marcou e só pode ser para bem. Positivo! Passam-se os traços a cores. E a formas. As sinapses misturam-se. Confundem-se e depois clarificam-se. No momento de maior abstracção os olhos enchem-se de dor e de muita felicidade vivida. Secam por si mesmos e continuam-se com os traços e introduz-se a cor. A tela vai perdendo o branco e o vazio é invadido. Essas sinapses estéticas, onde se calcula a imaterialização de uma pessoa, que nos foi a mais, e depois outra mais, gravam-se na tela. Por si mesmas. Silenciosa e instintiva que é a mão do pintor, inebriado. Nada o pode parar. O mundo pode, ele não. A tela é o registo urgente, imparável, irreversível e demolidor do melhor que lhe quer dar. Para sempre ali ficar. Juntam-se outras emoções, misturam-se umas e outras e dissimula-se tudo. Estetiza-se. As memórias e as ideias ficam só desvendadas a quem sabe. A ele e à razão dos impulsos nas suas sinapses. Mais cores e luzes. Formas que ganham forma. Esses cruzamentos dos tráfegos das nossas mais belas ou horríveis emoções e dos engarrafamentos perturbadores das nossas memórias, passa ele à tela. Vão-se construindo momentos. Efemeridades. Perdurações. Sonhos e esperanças. Ninguém sabe que é feito delas, mas tudo vai à tela. A receita manda misturar. Há dois grandes processamentos. Das passagens da vida para as células cerebrais. Um processamento micro industrial. Perfeito. Sem erros. Outro, imperfeito, com falhas e subterfúgios vários. Na passagem à tela. A vida é a matéria-prima. A nossa e a dos outros. A tela é o seu registo e o pintor, o escravo das duas.

A tela espera-se que perdure mais do que todos nós. E que conte a nossa história. Mas só nós a sabemos como foi.

Ali ficará o melhor de ti…
O que não for o melhor, fica de ti o que os meus olhos assim viram. E só viram de bom, pois assim o quiseram.
O que de ti não foi visto, ou vivido, ali se poderá inventar. E não há atrito que chegue, para perturbar as cores que, de ti, os meus olhos já não verão.

Acordo do desacordo


Nos últimos dias voltámos a assistir a uma (limitada, infelizmente) discussão (quase, pretensamente) nacional discussão sobre o Acordo Ortográfico. Pretende o Governo, o PS e o Ministro da Cultura, de quem alguém havia esperado muito de bom e eu, talvez já bem mais (tristemente, talvez) céptico sobre individualidades ligadas a um Partido conservador, obtuso, monárquico, fechado, arreigado a tradições pouco democráticas, narcisista, arrogante, totalitário (no sentido de abranger sobranceiramente as ideias e opções em lugar dos outros), plano (no sentido de básico, sem rugas ou irregularidades saudavelmente dissidentes internamente) sempre disse que este Ministro seria ainda pior do que a anterior.

Pretende-se, pois, que com este Acordo, a língua se tornará mais entendível, homogénea, plana (lá está…) regulamentada (a pior das ideias precisamente sobre uma língua como veículo base fundamental de uma cultura) e universal (idêntica a “plana” no pior sentido, esmagadora das importantes e enriquecedoras diferenças, devidas a diferenças e separações geograficamente explicadas), entre todos os países da nossa mais essencial expressão comunicativa.

Ora, pus-me a interrogação, subvertendo a moral socialista de aniquilar de vez com a maldita tendência de nos darmos á liberdade de pensarmos por nós mesmos, de para que serviria e a quem, este Acordo do desacordo.

E neste libertário contexto, da minha inteira e por enquanto lícita vontade de pensar por mim, surgiram-me as perguntas e ideias, menores já se vê, que passo e expor. Interessa a quem? Ao Brasil, claro, pela norma geral que pautou o mesmo, onde quase tudo se submete à forma escrita praticada naquele, obviamente respeitável e obviamente soberano país. Em particular às editoras brasileiras? Imagino que no Brasil se pense que sim. Mas sobre estas mesmas, que pensará um português interessado em livros, literatura, leituras e cultura? Logicamente, considera indiferente. Porquê? Porque, como pessoa interessada e informada, tanto lê a grafia portuguesa continental, como a não oficial dos arquipélagos portugueses, a do Brasil, a de Angola, Timor e de todos ou quase todos os outros países desta (quase) rica comunidade do nosso idioma.

Qual o problema então e, por consequência, necessidade que alguns (uma comissão minoritária de ditos ilustres linguistas, uma partido básico e de incultos, um conjunto imagina-se que representativo de editoras das Terras de Vera Cruz) vêm neste obtuso Acordo? Precisamente a dificuldade de um povo com ainda manifesto desinteresse cultural e pouca ginástica mental tem, em entender outras formas do mesmo idioma, que não a sua.

Façamos o filme do futuro próximo. O Acordo é ratificado, para o que já se usou da pouco democrática e muito arrogante estratégia de o poder ser através de apenas três países, num contexto de oito, e assim se abrem portas mais facilitadas à exportação editorial brasileira para Portugal e para outros países lusófonos (interessante chamar-se de lusófonos, num contexto de americanização da nossa língua e até me leva a pensar se a expressão Língua Portuguesa faria sentido aos mentores do Acordo, antes dele…Existia ou não como língua, com as ainda actuais diferenças? Então se existia e a ela correspondia um identidade cultural, razão aliás que levou à constituição da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa, PALOL…que se passou entretanto, para agora se sentir esta urgente necessidade de acordar, entre um grupo mínimo de ilustres, por cima de todo um povo que diariamente usa a língua, a retirada de uns ‘c’ e ‘p’ que, dizem não estão lá para nada. Mas se estão para nada, então também podem ficar…). Com esta exportação da muito poderosa actividade editorial do Brasil - menciono sempre apenas Brasil por ser evidentemente o mais interessado – dentro de pouco tempo muitos de nós, mais jovens e susceptíveis, estarão não apenas a escrever acto sem ‘c’, como a dizer “nós temos de i, vixe?” ou “Falou, cara!”, o que considero absolutamente lindo e esclarecedor para um país de língua portuguesa europeia, que se foi construindo pela riqueza cultural nutrida com séculos de expansão e assimilação de diferenças, agora submetido, ao seu oposto. Ao contrário da riqueza das diferenças: à uniformização imposta. Lindo!

Que se assimilem expressões africanas e brasileiras por efeitos de globalização ou degradantes efeitos televisivos, ainda entendo. Esse é um processo bem mais natural e equivalente, quase, á nossa muito portuguesa miscigenação cultural e humana.

Mas, estabelecer uma imposição de escrita e, pior, todo u conjunto de vocábulos brasileiros, por Decreto, a um povo que nem foi consultado, considero de facto (perdão de fato, quase que teríamos esta forma escrita mas ainda nos livrámos desta) uma afronta a todos nós.

Não temos de aceitar, e eu pessoalmente nunca aceitarei, estas novas regras de escrita, porque não assimilo a arrogância de uma minoritária comissão de linguistas nem a votação de uma assembleia, sobre a vontade de um país, ou seja de um Estado de Direito, que somos nós. Este sim seria motivo de um referendo.

O que aí vem com este Acordo imposto não são apenas uma mínimas regras de ortografia, mas um imenso conjunto lexical, mesmo que conhecido dos mais informados, estranho para nós nos nossos hábitos diários.

Na diferença cultural e linguística subsiste a nossa riqueza e quem procura leituras, entende as diferenças. Quem não as procura, será confundido e subvertido por uma cultura alienígena do outro lado do Atlântico.

É esmagadora esta arrogância e não me chega a atitude pseudo-esclarecida do Ministro Pinto Ribeiro para me convencer de coisa alguma. Não irei escrever brasilês.

Já o disse há dias na TSF e insisto: Não há necessidade deste Acordo, não há urgência e é perverso o seu efeito.

(O texto é estrutural e lexicalmente complexo? Pois que o leiam no Brasil…Perdoem-ma a arrogância, mas pelo menos eu peço desculpa e não os nossos funcionários, empregados e pagos por nós, que tudo, leoninamente, nos querem formatar e impor. Os nossos governantes socialistas)

6.4.08

A sombra de Salazar


Estamos em Abril. O mês da Revolução de 1974. Lembro-me bem desse dia. Ouvia na BBC as primeiras notícias sobre o Movimento nas Forças Armadas e do que se passava em Lisboa. No quartel do Carmo, onde estava Marcello Caetano.

Tinha 14 anos e vivi o dia, como uma das grandes novidades da minha vida, do meu crescimento. Nesse dia, para além de, para o país se terem aberto novos e desconhecidos horizontes, abriu-se para mim um mundo novo. Descobri a política, a vida social a responsabilidade, pessoal e para com os outros. Descobri que havia uma forma de fazermos algo pelos outros, através de, precisamente vida e combate políticos.

Saí no 1º de Maio de 1974 na primeira grande manifestação livre de há muitos anos em Portugal. Estava eu na Madeira, a minha terra. Ao meu lado na manifestação (berrava-se de punho no ar “o povo está como o MFA” e outras coisas mais) ia o dirigente regional da FEC-ML. Era meu professor na altura. Desde esses momentos sempre acompanhei e nossa vida política e muitas vezes a vivi com o coração. Primeira desilusão pessoal, porque não era a minha simpatia política: vitória do PS nas eleições para a Assembleia Constituinte que levou à Constituição de 1976. E foi também a minha primeira grande lição de democracia. Saber respeitar resultados adversos à formação partidária das minhas simpatias, por respeito à vontade dos eleitores.

Passados trinta e quatro anos, como está a nossa democracia? E que evolução se vê no país e no seu povo? Como são os políticos actuais? Que diferenças encontramos nas nossas vidas, e na nossa sociedade?

Não há dúvidas de que o país mudou e muito. O país cresceu económica e socialmente. Mas não muito, culturalmente. A economia cresceu e modernizou-se. Tudo é hoje mais moderno, mais rápido e , em muitas áreas demos grandes passos que nos colocam no mesmo patamar de países tradicionalmente mais avançados. E em algumas áreas mesmo, bem mais avançados (Banca mais moderna, algumas facilidades em telecomunicações também, estradas e auto-estradas, empresas de serviços muito modernas, etc.). Nestes trinta e quatro anos, Portugal transformou-se, por mérito e por falta de alternativa, num país de agricultura e industria (sectores primário e secundário) num país de serviços, que é o que claramente somos hoje em dia. Mesmo com interpretações erradas e incompreensíveis por parte de partidos como o PS e ministros como o das Finanças ou da Economia. E outras tantos.

Nestes anos todos, porém os nossos políticos não evoluíram tanto assim. Continuamos com o velho hábito do ‘Senhor Doutor senhor Engenheiro’. O hábito clássico e fora de tempo das gravatas e poses doutorais. Mas enfim isso seria o menos.

O pior que se pode verificar neste tempo é mesmo a atitude da Administração do Estado, da Justiça, das polícias, dos Governos. E a ainda salazarista postura e promiscuidade entre políticos e algumas empresas. Isto sempre sucedeu, desde 1974. Desde Salazar. Ininterruptamente. Só foram mudando os actores. E regressando outros.

Houve sempre empresas que se sustentaram no Estado e do Estado e outras que sempre fizeram questão de ser independentes. Há que dizer nomes. A única forma de mudarmos coisas no nosso país é chamá-las pelos nomes. E todos sabemos quais os nomes. No grupo das primeiras estão o gripo e família Espírito Santo, Mello, Champalimaud e outros mais. Depois surgiram novos actores. Amorim, Belmiro de Azevedo, Mota, Teixeira Duarte. E empresas, como BCP, BPI, Cimpor (como novos donos e mais dinâmica). E muitos mais. Alguns destes novos agentes económicos souberam, profissional e responsavelmente, manter-se independentes do poder. Outros fizeram questão de seguir os passos do passado. Este foi e é o caso dos Amorim, e de quase todas as construtoras. Souberam viver em independência, a Sonae, o BCP (agora pervertido indecorosamente pelo poder socialista, bem à moda dos tempos de Salazar) Santos Silva do BPI e tantos outros.

Agora, assiste-se a um desavergonhado controlo de empresas privadas por parte de antigos e actuais membros do PS e do Governo. Já se havia assistido a actos idênticos como o PSD, mas nunca como agora se viu tal indecoro. Como se sabe que não é ilegal um ex-ministro ser convidado para presidir a uma empresa privada, mesmo tendo ministro da pasta do sector onde essa empresa actua, então vale tudo. Mas, se nos interrogarmos, no caso de Jorge Coelho por exemplo (agora dignificado, pelo distanciamento da vida política activa, o homem que dizia “quem se mete com o PS, leva”), o que leva uma empresa privada a convidar um homem de formação jurídica com experiência e habilidade nulas como gestor? Se nos pusermos no lugar do presidente e fundador do grupo, só conseguimos pensar no interesse, precisamente, na promiscuidade entre política e a empresa. Ou não? Ou espera a empresa Mota-Engil que Jorge Coelho lhes leve novas ideias de gestão? Inovadoras ideias? O seu mercado de já líder nacional no sector será solidificado? Irá crescer a sua quota de mercado? Ou será….Importante numa época de megalómanas obras, consumidoras de recursos nacionais, ganhar a todo o custo os concursos que aí vêm?

Vêm grandes diferenças entre este Governo e o de Salazar? Só falta mesmo a ilegalização dos outros partidos e a criação de nova policia política. Passos que, valha-nos isso, não conseguirá dar. Mas já nem precisam. Com um povo que permanece, trinta e quatro anos após 1974 obscuramente inculto, não será difícil este Sócrates movimentar-se e tentar instituir o seu império.
O país continua fechado, na economia, na cultura, socialmente. Continuamos na mesma estrutura económica e empresarial dos tempos do Prof de Finanças de Coimbra, desde há mais de setenta anos. Continuamos obscuros e toda a modernidade e iniciativa tem de ser sufocada por individualidades e grandes grupos empresariais. Nada pode sobrar para empresas familiares ou de média dimensão. Temos ainda demasiados monopólios ou oligopólios, controlados pelo poder ou por quem ja conseguiu triunfar neste ambiente adverso, só favorável aos que se aliaram ao poder, agora ou no passado recente.

Quando mudamos? Quando alguem independente e corajoso surgir? Ou tivermos um povo que se insurja. Ou revolte.

Pedra, apenas


Talhada para fazer parte de uma calçada. De uma estrada que, como norma, deve conduzir a algum lado. Cortada como tantas outras. Parecia bem. Perfeita até. Tentaram enquadrá-la, combiná-la inserindo-a, entre as outras na calçada.. Não foi possível. Podia ser perfeita, ou parecer, mas não serviria para aquela calçada. Puseram-na de lado, empilhada num monte com outras. Anónima. Acompanhada mas solitária. Uma pedra mais, apenas. Voltaram a experimentá-la, ajustando-a o melhor que conseguiam mas ela recusava-se a ficar bem. Algo não a compatibilizava com as pedras ao seu redor na calçada que iam, pouco a pouco, construindo. Mas a estrada de pedras, todas iguais (bem, o mais possível iguais) teria de continuar.



Rejeitaram-na. Foi atirada para longe dali, para um campo adjacente. Ela parecia mesmo sobrar. Estar a mais. Atirada sem mais escrúpulos para o prado ao lado da estrada, ali ficaria oculta nas ervas. Por muito tempo.



A estrada concluída com as outras pedras. Todas excepto ela. Todas cortadas do mesmo bloco rochoso. Da mesma massa. Da mesma origem, ou família. Esta pedra, no entanto, ficara de lado.



Um dia, uma criança encontrou-a e recolheu-a, encantada. Olhava os seus minerais a brilharem ao sol e comparava-a a um céu de estrelas mágicas. E aquela seria a maior pedra na sua colecção. Preta, mas com essa beleza subtil, de minerais, cintilando, comunicando consigo.



Era a pedra mais importante da sua colecção. A que se sobressaía das demais. Pelo porte, pela presença e beleza subtil. Era, porém, necessário saber ver o seu valor. E nem todos o sabiam.



As pedras na estrada haviam sabido encontrar a sua utilidade. Constituíram uma calçada, de uma estrada , aparentemente bem feita, que podia ou não, levar a bom termo. Ou a sítio algum.



A rejeitada não cumpriu a função para a qual havia sido talhada. Mas era agora o orgulho da colecção de uma criança. Por ela era acarinhada e podia levar um pouco mais de felicidade a essa criança.



As pedras têm muito pouca vontade própria, mas conseguem mais ou menos cumprir com a sua missão. Ou função. Delas veio a terra e o pó. Os solos onde germinam sementes e nascem germes e larvas. Delas as estradas, boas ou não. Com funcionalidade ou não.



Até uma criança pode delas tirar utilidade e ser, assim, mais feliz.



E nós?






5.4.08

Spring Sunset


Tenho um fascínio especial pelas primeiras tardes de sol de fim de tarde, na Primavera. Um sol baixo, limpo, claro, que me traz do passado um pouco de nostalgia e saudade de momentos fantásticos, que sempre transportarei comigo. Mas este sol brilhante e belo, traz-me também o futuro. Parece, no final de um dia, em que algo termina com a promessa de renovação um dia após, que este sol único de todos os sóis do dia, me traz algo desse futuro.

E porque é um sol fantástico, acolhedor, aveludado, só me pode trazer mensagens boas. Traz de certeza esperanças novas e algo que no seu indecifrável, me colhe no melhor de mim, no mais certo do meu optimismo e traz-me, também, um sereno sorriso à face.

É um sol de tarde silenciosa, como o são as saudades, boas e más, mas que me dão essa vontade enorme de voltar aos sítios dos meus sentimentos bons, dos meus momentos acarinhados.

Quero que este sol…leve a minha mensagem, a que me traz sempre, todos os anos por esta altura, de uma esperança sorridente, a todos os que eu quero tocar, com esta energia recarregada devido a ele também para fazer um pouco por alguém que necessite, por alguém que muito quero, ou por alguém a quem não tenha feito bem...ou por alguém que tenha ficado para trás. Mas, por vezes, quando queremos fazer bem e certo, acabamos a fazer mal.

Vivam, como eu tento, o sol da Primavera, todos os dias, como se não fosse mais acabar!