Alan Turing (Enigma): a sua fatal homossexualidade

O Reino Unido, ou a civilização britânica é um mundo de muitos mundos, uns previsíveis, muito, como adoram os britânicos. Sempre saber o dia seguinte. Como lhes será.

Há alguns anos li um livro que diria, interessante ou mesmo mais que isso, e pela narrativa, diria fascinante. Mas um livro pouco profundo, sobre uma das histórias mais importantes, secretas e determinantes do curso da Segunda Guerra Mundial. Um conflito que ainda nos consegue, ao dia de hoje, surpreender pelas revelações. E não me refiro às atrocidades que os Aliados cometeram nos países que foram libertar dos nazis. Isso é um assunto bem mais complexo e polémico.



A obra de Robert Harris tem o título na máquina infernal, uma encriptadora, que os alemães construíram na Segunda Guerra que deu cabo da cabeça aos Aliados durante os primeiro quatro anos de conflito: Enigma. Infernal, porque todos os dias o código base era alterado, e já de si bem difícil era de ser decifrado, tornando quase impossível descobrir o código a ser usado no dia seguinte, nas mensagens trocadas entre vasos de guerra alemães, que, sem quase incómodo algum tropedeavam os comboios marítimos carregados de alimentos, e, bem assim, os navios de guerra aliados. A partir da meia-noite em ponto, o código nas máquinas enigma mudava e, no dia seguinte, outras 159 mil milhões de milhões de possibilidades havia para as mensagens desse dia. Ou impossibilidade de serem descodificadas.



Alan Turing foi o matemático inglês responsável pela máquina e sistema que desvendou o funcionamento da Enigma, essa poderosa e hiper-engenhosa máquina que permitiu aos submarinos alemães trocarem mensagens que nunca foram, pelo menos durante quatro anos da II Guerra, descodificadas, custando a vida a milhões de europeus.

Turing nunca foi homenageado como herói de guerra, mas foi provavelmente devido a ele, e à sua inteligência brilhante que ainda se pouparam mais de 15 milhões de vidas e se abreviou o grande conflito europeu, em cerca de dois anos. Foi também um dos mais importantes pioneiros da computação moderna.

Turing era homossexual. Há tão poucos anos como na década de cinquenta do século XX, a homossexualidade era crime, na Grã-Bretanha, como em quase todo o mundo. Turing foi condenado em 1952 e deram-lhe a escolher entre a prisão e um "tratamento para controlo do complexo hormonal" que lhe permitia corrigir o seu "desvio sexual". Em 1954 Turing suicidou-se. Como era uma vergonha, ser homossexual e suicidar-se, também, a sua mãe nunca reconheceu, nem um, nem outro facto. Em 2013 a Rainha Isabel II perdoou Alan Turing. Em 2013...

Um país com pergaminhos de ter contribuído (liderado segundo eles) para a moderna civilização, de ter dado ao mundo tanta inteligência científica, como política (a mais antiga democracia moderna do mundo), com uma personalidade como Churchill, indiscutivelmente um dos maiores estadistas de sempre, e outra mente brilhante... levou todos estes anos para "perdoar" um crime que nunca o devia ter sido. Mas a civilização ocidental, timoneira mundial (supostamente) tem destas coisas: os Estados consideravam poder decidir sobre a cabeça e as opções de cada um. Sobre as suas escolhas e modo de vida, fosse sobre a sexualidade, como sobre os casamentos. Ainda há uns quatro anos era crime em Portugal não cumprir os "deveres matrimoniais", abrindo-se processos litigiosos ao cônjuge que os incumprisse. 

Uma Rainha tonta que nada fez na vida e nada fez pela vida, tem prerrogativas de perdão sobre o crime da homossexualidade. E a civilização britânica considera-se a herdeira da modernidade...

A ciência tem avançado bem mais depressa do que a mente desta gente tão conservadora e limitada que nos tem liderado, desde há décadas, nesta Europa, por outro lado, berço de tanta gente brilhante.

Sinto uma asfixiante dificuldade em compreender estes fenómenos de atraso intelectual dos nossos líderes e dos nossos Estados. E essa asfixia ainda estrangula mais, quando suspeito que ainda décadas teremos de percorrer para que estes anacronismos e contradições civilizacionais nos deixem de vez.

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