A culpa é desta janela

Uma manhã acorda seca, ou mais seca, e quente, mas muito luminosa. Logo na seguinte, um tempo que promete chuva, e talvez se fique pela promessa. Ali, ao lado da janela, a minha janela preferida, rodeado de uma paz sonora que devia corresponder a essa outra de pensamentos, estava a lembrar-me de tempos e gentes já percorridos. Como o tempo, as vidas mudam, sem aviso, num amanhecer, ou num findar de um dia qualquer. Por vezes gostava mesmo que existisse esse deus, que leva a tanto coro de disparates e a tanto engano e mentira. Gostava que esse tal superior, por o ser, se o fosse, se tornasse um recurso de respostas que não tenho. E, como eu, milhões de pensamentos, mais crentes nessas coisas, devem por estes dias esperar o mesmo. Quando cá por baixo, no real e visível, ou no real invisível, já não se obtêm respostas, para nós e para outros, costuma-se procurar num tal de sobrenatural, de superior, dito supremo por muita gente. Deve ser um conforto, penso que enganador e ilusório, imaginar que por obra superior a vida pode mudar como as duas últimas manhãs tão distintas.

Mas não. Ali, do lado de fora da minha janela, a vida está como cá dentro, talvez mais activa, mais prática e menos ridícula. Os silêncios trazem uma magia. Levam-nos a dar saltos de tempo fantásticos, como inúteis, de dezenas de anos. Gentes que nos passaram, vidas que vivemos, tudo o que não regressa e tantas vezes nem era bom que voltasse. O que fizemos e o que queríamos ter feito, sem certezas do que melhor seria. O que nos fizeram, e o que nem sabemos se nos queriam ter feito.

Foram anos que matámos, por querer e não querer. Iriam morrer em todo o caso. Mas podiam ter tido outro fim.

Este mesmo mundo que dispõe do sortilégio de ter um Gardner, um Damásio, um Dawkins, um Sloterdijk, Scruton, Kahneman, Roth, David Grossman, Rushdie e tantos outros que nos enchem de vontade de os aprender, de ter mais tempo para o prazer que os seus saberes nos permitem, está enfermo e refém de um grupo restrito de perversa gente. As rádios dizem-nos das famílias que agora partilham a mesma casa, num país em que o sonho de ter ser proprietário era o maior de todos. Dizem-nos dos mais de trezentos mil sem emprego e sem um único euro de rendimento. Dizem-nos de todas as desgraças que irão piorar as vidas desses muitos e ainda fazê-los duplicar, engordar o número dos sem futuro.

Um mundo em que se assiste ao conhecimento mais profundo e avançado de sempre, ao fascínio que nos é oferecido o saber nunca existido, tem gente tão anacrónica e malfeitora, como o sabemos ter existido numa Idade Média, numa Antiguidade, ou mesmo há cem anos atrás. Há cinquenta ainda tínhamos ditaduras na Europa, e há cerca de setenta uma Guerra que se alastrou pelo Mundo.

Corremos com os ditadores, pelo menos com os que o eram de forma assumida, mas talvez tivéssemos ficado com os mais subtis, hoje tendo nós a dúvida sobre algumas formas que nos surgem em supostas democracias.

A memória que me entra com esta luz na janela, leva-me ao meu pai e ao que ele pensava, ao que ele pensaria em tempos destes. Como se iludiria, se deixaria enganar, como tantos de nós e como agora se angustiaria com estes homens que nem já esse epíteto nos merecem, que nos enganaram colectivamente. Mas sempre os povos se deixaram enganar pelas minorias. Uma das razões por que alerto com insistência saturante, contra os que as representam, representando também ideais e regimes que sempre deram em totalitarismo e estrangulamento das liberdades.

Quando o Mundo se prepara para saber que o cancro pode ter solução, como funciona, um pouco mais pelo menos, o nosso cérebro, assiste-se ao mesmo desfile de crápulas que não têm já terreno suficiente, e que se espraiam por tudo quanto é mundo, onde exista um povo que precisa de Dívida, que precisa de construir uma ponte, ou uma rotunda, ou um gigantesco aeroporto, ou paulatinamente vão colocando os seus em lugares decisores e decisivos da política mundial, apenas para continuar a fazer imperar a lei do dinheiro.

E o silencio que me traz a estes escritos, e me envolve diariamente é o mais indesejado, onde seria bem vindo o rebuliço da nossa colectiva revolta.

A nostalgia boa leva-me a momentos da minha casa de infância, hoje tornada estacionamento para empresas, numa cidade a mil quilómetros. À casa onde fiz crescer os sonhos grande que tive, de saber e de prazer, de um dia ser mais útil, de sentir ter feito alguma coisa de valor. Uma casa rodeada de árvores, de muitas árvores de fruta, desse espaço que foi a felicidade de três irmãos hoje afastados e desavindos. Sonhos que foram embalados em Beethoven, em Chopin, em Rachmaninov, envolvidos em papel de Eça, de Steinbeck, Hemingway, ou Camus, com um laço de Einstein e Churchill e Sá Carneiro, mas onde todos os outros também estavam. Sonhos de uma vida normal, que não levasse com a incerteza e insegurança aos cinquenta. Esses foram sonhos de luxo! Nada que se compare com os simples e saudáveis sonhos de milhões de humanos, hoje com a incerteza da vida que terão amanhã de manhã.

Vi alguma miséria próximo de quem me rodeava, tornada dura e real pelas vidas de empregadas domésticas dos meus avós, vivendo num ambiente de uma família de doze filhos, uma casa de pedra, onde não se podia andar erecto, sem pintura qualquer nas paredes, qual imagem assassina de uma descrição de Steinbeck. Mas era real. Vi alguma conturbação social nas ruas da minha cidade, em tempos de euforia e afirmação de formas de pensar e viver, e sonhar, nos momentos seguintes aos da nossa 'revolução de veludo'.

Hoje vejo um povo que se deixa levar, que não confia nem na verdade e nem desconfia das mentiras. Foram as mentiras de um anterior governo, de um pro-ditador que enriqueceu, bem à frente dos olhos de todos nós. São as mentiras dos actuais, servindo uma máquina ao que serve, por seu lado, um grupo de sanguessugas a soldo de uma organização poderosa e perigosa.

E é este silêncio assustador, de quem prefere fazer de conta que tudo um dia se resolverá.

Dizem-me os programas que para isso servem, que amanhã pode ser dia de sol.

Diz-me o meu sonho ainda resistente, que amanhã devia ser dia de sol. E de sangue.

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