Carta-proposta ao Ministério da Educação para a Reforma curricular


Exmos(as) Senhores(as),

Sou pai de três jovens dos 12 aos 19 anos e vivi muitas experiências educativas contraditórias, desde o meu próprio tempo no Ensino, até ao acompanhamento dos meus filhos e, mais recentemente de dois enteados.

Pessoalmente tive algumas, escassas, experiências directas com o Ensino. Fui professor eventual de Biologia durante um ano lectivo, antes de iniciar a minha carreira como Engenheiro Agrónomo. Mais tarde, fui co-fundador de uma das actualmente maiores escolas/conservatórios de música de Lisboa e do País, a Academia de Música de Lisboa, que ensina prioritariamente, mas não exclusivamente, violino, por um método misto de dois pedagogos de referência, o método Suzuki-Galamian.

Sempre procurei ter uma orientação pela motivação pelo Estudo, pela evolução pessoal e pelo prazer pelo saber, quer a título pessoal, quer no que me tenho esforçado de transmitir aos meus filhos.

Tenho assistido a uma progressiva degradação na Educação em Portugal. Nem tem sido, na minha óptica, uma oscilação, ou alternância de políticas educativas, mas uma efectiva degradação progressiva. De cada vez que mudava o Governo e o Ministério da Educação, esperei melhorias e progressos, que correspondessem a saltos significativos e acentuados na qualidade do Ensino, a começar pelos currículos, mas sem esquecer a disciplina nas escolas e o empenho e profissionalismo de todos, sem que possa estar desligado do mesmo empenho, na mesma direcção, dos Encarregados de Educação. De cada vez, as minhas expectativas saíram defraudadas.

Agora vivemos um período de nova transformação que desejo seja reformista, e na sentido adequado. A minha expectativa tem sido a de um dia podermos, de facto, fazer uma inflexão nesta tendência decadente, que em lugar do nos levar a termos, num futuro de algumas gerações, uma população mais informada, culta, interessada e com espírito crítico, construtivo, tem-nos deixado num marasmo cultural e educativo, não condizente com os mais de oito séculos de história como País independente.

Como opção pessoal, cultural e consciente, continuo a escrever pela antiga e legítima ortografia, pois nunca reconhecerei um Acordo Ortográfico que adulterou a minha Língua, e foi uma imposição política de uma minoria de deputados, e de outra minoria de técnicos com demasiada e suspeita pressa em alterar a favor de um país estrangeiro, a língua que por cá bem se escrevia e falava, e por lá mal se escreve e fala. Lamento. Mas esta é uma das formas do meu exercício da cultura pessoal, e colectiva, e uma expressão de Liberdade que não permitirei alienar pela opção inconsciente e irresponsável de políticos pouco informados sobre a Língua Lusa. Ando agora nesta luta contra a má ortografia, mas respeitarei nos outros a opção pelo Acordo Ortográfico, e numa luta contra o corrector de texto no meu computador...

Se me permitem, gostaria, então de vos endereçar um conjunto de ideias, que tenho vindo a tecer sobre as linhas gerais do que penso dever ser a Nossa Educação e Ensino, se um dia quisermos empenhar-nos na preparação de uma sociedade informada e letrada.

Ensino Básico.

No ensino básico julgo ser fundamental dois aspectos: possibilitar ferramentas iniciais nas áreas da Língua Portuguesa (e do Inglês)  e começar a treinar a agilidade e o calculo mental. As crianças têm chegado ao quinto ano, e passam para o sexto e sétimo, sem as bases do calculo matemático, o raciocínio básico e rápido com as tabuadas. É fundamental que todos transitem do quarto para o quinto ano, com uma capacidade inquestionável nos cálculos, com um conhecimento cabal das tabuadas. Na língua portuguesa, não se deve deixar passar um só erro, ortográfico sintáctico, fonético. O inicio da interpretação e compreensão de textos, deve igualmente ser aprofundado. No inglês, nada o quase se tem avançado, com as crianças a transitarem para o quinto ano sem conhecimentos pelo menos básicos e, principalmente com a curiosidade e vontade de mais saberem. Esta vontade e prazer pelo saber deve ser estimulada em todas as áreas do ensino básico, mas com incidência principal no tocante à vontade pela leitura e pelo raciocínio matemático.


Ensino Secundário.

No secundário, penso que a reforma deve ser mais fundacional e profunda. Devemos interrogarmo-nos do real interesse das disciplinas de Geografia (pelo menos com o actual currículo, em que não se valoriza a geografia política, nem a física, e se repetem, ano após ano, conceitos de geografia humana, com pouco avanço), de Educação Visual (ninguém ensina, nem ninguém aprende a desenhar, e muito menos a pintar, usando materiais erradamente, como cravos de cera a seco, que foram fabricados para usar com solvente orgânicos, produtos estes de difícil e duvidosa viabilidade em escolas, pela toxicidade potencial), Educação Musical/música, na qual se 'brinca' à música com umas flautas de má sonoridade e interpretando composições muito incipientes ou infantis, nem se procurando constituir, para quem tiver possibilidade económica pelo menos, pequenos grupos, ou orquestras, com a calendarizacão de concursos, recitais e apresentações, inter e intra escolas, Francês, a qual esta actualmente desprovida do interesse que pode ter tido no passado, sendo hoje mais relevante e com interesse real, o ensino do espanhol, para além de um ensino de inglês que efectivamente ponha os jovens a ler, escrever e a falar a língua.

A Língua Portuguesa tem assistido, como disciplina, o desinteresse crescente dos alunos, excepção feita aos professores que a reinventam. Os livros de leitura obrigatórias, os textos analisados ou estudados, têm contribuído para a fuga da leitura. Não se devi pretender que os jovens que hoje se ocupam na internet ou com os jogos, ou Tv, possam sentir qualquer estimulo com Os Lusíadas, o Padre António Vieira e outros textos clássicos, demasiado distantes e maçudos para adolescentes que navegam num computador pelo mundo inteiro a 60 mbps... Há suficientes obras bem mais estimulantes da leitura, seguramente menos significativas dos períodos históricos da Literatura Portuguesa, mas também mais informativas e mais formativas, actuais, sem “auto-colantes” ideológicos marcantes de preferência.

A Matemática penso que irá no caminho certo, uma vez corrigidas as deficiências maiores no Ensino Básico. Mas a procura da motivação e interesse dos alunos é fundamental. Um professor de matemática não deve partir do princípio da incapacidade generalizada dos seus alunos, mas antes, colocar em si o ónus da responsabilidade pela motivação, interesse, curiosidade e empenho dos alunos, que devem avançar num bloco o mais alargado possível em cada turma. Esse avanço em ‘bloco’, aliás, mais do que o destaque dos melhores, que sempre os haverá, deve ser a preocupação primeira de qualquer professor.

No ensino do Inglês, a preocupação, por vezes excessiva com referências gramaticais e a mais reduzida, relativamente, com o vocabulário, impede que o estímulo e motivação por este idioma possa crescer em cada aluno. Este caminho deve ser invertido, precisamente com o fornecimento de mais vocabulário e com o recurso a metodologias diferentes, como o apoio na música de origem e letra inglesa.

A Educação Física, disciplina muito vocacional, não é de forma alguma de aceitação universal. Mesmo sabendo-se das vantagens de todos os jovens terem uma actividade física, a valorização que tem sido dada a esta disciplina, e a valoração que é frequentemente prejudicial a muitos, ou mesmo à maioria dos alunos, não é, para mim, um assunto pacífico. Nem todos têm a suficiente habilidade, destreza e competência física, nem todos necessitam de a ter, mas muitos são prejudicados nas suas classificações, principalmente quando as mesmas contam para a média final de candidatura para o Ensino Superior. Por outro lado, para os que mais se interessa, e mais capacidades denotam nesta área, carece muitas vezes a prática suficiente, através mesmo de mais competição inter e intra escolar. A constituição de equipas desportivas várias, que vão avançando a par com o ano lectivo e a idade dos alunos seria uma razão mais para motivar os jovens alunos.

Penso que um ensino que pretenda fazer crescer os nossos jovens, e os faça avançar no prazer pelo Saber, Conhecimento, procura da Informação e das Referências Culturais, e treine as suas várias formas de Inteligência, não deve descurar a possibilidade de introduzir a Filosofia bem mais cedo nos currículos escolares. Provavelmente a partir do 7º ano de escolaridade.

Mais tarde, no 10º ano, a Psicologia devia ter um lugar para qualquer área de preferência, científica, técnica ou das ciências humanas e sociais. É uma necessidade comum no mundo moderno, onde os papéis dos profissionais devem ser mais activos e assertivos e o conhecimento de Si e dos Outros é primordial.

Finalmente, ainda que fora do âmbito desta Reforma Curricular, a forma como se faz o acesso ao Ensino Superior, devia igualmente, ser um dia, repensada. Exames Nacionais indiferenciados, para qualquer Faculdade, Curso, Universidade, nas várias disciplinas ou ‘cadeiras’, parece-me já muito desasjustado. Exames definidos pelas próprias Faculdades e Cursos, eventualmente em ‘blocos’ com outros cursos idênticos ou similares, parecer-me-ia bem mais adequado. O resultado do actual sistema de acesso é encontrarem-se imensas dificuldades e incapacidades em matérias como as Matemáticas e outras, nos primeiros anos de muitos cursos, umas vezes por defeito, outras, raramente, por excesso.

Alexandre Bazenga Fernandes
Oeiras

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