Um sonhador compulsivo

Tinha por hábito fazer o seu passeio a pé até um dos bancos junto à margem do rio. Manuel, Teodósio de segundo nome, que ninguém sabia, nem ele usava, era um ser solitário e, ali, naquele banco, sentindo o frio seco e o vento suave, mas cortante, que anunciava o Inverno, se sentava a pensar num mundo só seu. Num mundo que queria tivesse existido, mas que nunca na verdade conhecera.

Baixava ligeiramente a cabeça e, por baixo das suas grossas sobracelhas, herança familiar que lhe davam aquele ar antigo e sisudo, ia observano o raro e triste movimento, no rio e no passeio que o separava da água.

Os homens e as mulheres conheciam-se há uns milhões e milhões de anos e não se entendiam, não se conheciam. Continuavam a debater-se os mesmos temas de costume. Da igualadade, da liberdade, da distrubuição de riqueza, da justiça e das mesmas oportunidades para todos. Mesmo que tendo avançado muito, o mundo desde um Platão, um Lutero, um Robespierre, um Montaigne, Sartre e tantos outros continuava a ignorar ou fazer por tal, que apenas um terço de si mesmo podia dar-se a esse luxo que era pensar e discutir. As duas terças partes deste nosso mundo nem ânimo, nem tempo, nem hábito tinham de pensar e muito menos de por as suas ideias abertas à discussão.

Ali estava ele, àquele frio estimulante que lhe chegava do rio e lhe soprava nessas suas grisalhas sobrancelhas de marca familiar, tentava assegurar-se que os seus pensamentos não eram nenhuma espécie de mania pessoal de se sentir exclusivo e diferente, mas sim o fruto da convicção mais profunda da futilidade da maioria das discussões quotidianas. As mulheres são melhores do que os homens, os homens são executantes e não perdem tempo a pensar, a esquerda política é mais justa, a direita é mais pragmática e outras tantas máximas, pretensiosas e desinseridas, que até se perguntava quantos anos de desenvolvimento teriam sido em vão, para se chegar a este ponto, a tão pouco...

Manuel, sentado na beira da cama pensava como lhe seria tão agradável, um dia, estar junto ao rio com o tempo e vaida toda para pensar. Com as ideias certas para poder ajudar, fosse, assim possível, um dia, fazer-se ouvir. Um dia iria para a margem do seu rio, para o seu banco, analisar a justeza dos seus pensamentos, sentindo a brisa fria a roçar-lhe a cara e as ainda negras sobrancelhas grossas...

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