10.11.11

O Poder e o mau exercício dele



Quanto mais aprendo na vida mais me convenço da máxima que diz que ser Chefe não é o mesmo que ser Líder. E que o Poder não é 'para todos'. No sentido em que nem todos o sabem usar, ou deviam. Mas as coisas não são, obviamente, como deviam, como sabemos.

Exercer Poder é exercer uma influência decisiva, limitadora, condicionadora, ou não, manipuladora no bom sentido, ou no mau, quanto baste, ou mais do que basta, sobre outra ou outras pessoas. Ter ascendente sobre uma pessoa é ter algum poder sobre ela. Ser respeitado por alguém é ser, de certa forma, reconhecido, nesse poder que se exerce. Manipular é muitas vezes usado em sentido negativo, perverso. Mas a manipulação, com intentos e objectivos não constrangedores, e sem pretender mudar os outros, não é forçosamente uma má atitude, ou nem sempre o é. Tudo isto usamos nós, alguma vez, em alguma circunstância, com alguém.

Mas o exercício do Poder que se tem, sobre uma pessoa ou sobre um grupo, para que seja reconhecido como uma qualidade de um Líder e não de um 'chefe', no sentido mais redutor do termo, é algo que nem todos temos, nem todos o sabemos usar, na maioria das circunstâncias. Para que se use de Poder, sem esmagar ou anular alguém, sem lhe retirar direitos ou sem lhe tirar o sentido que encontra nas coisas, sem que se sinta substituído no seu exercício discricionário, de livre arbítrio, da Liberdade a que tem direito, é fundamental que se comece por respeitar o destinatário do nosso exercício.

O respeito quando não vem da admiração pura, tout-court, por aquilo que o outro é, ou fez, vem de uma coisa bem mais básica, porque fundamental: do amor. Desse amor que temos pelo companheiro ou companheira, marido ou mulher, filhos e filhas, pais, irmãos...ou por amigos que nos dão mais sentido à vida e a preenchem e dão cor. Mas amor também pode ser social, como alguns líderes espirituais e até sociólogos e psicólogos (Goleman, Gardner, entre outros) o explicaram. Esse é o amor por uma sociedade, por uma cultura, por um povo e por um país. E também existe, mesmo em tempos de desencanto e descrença como este em que nos encontramos.

O respeito devemos a toda a gente. Ou devia ser assim, pelo menos numa sociedade utópica, que é algo que nos faz bem seguir, mesmo sendo inatingível. Outras ideias utópicas já serão bem mais perigosas, mas esta não, como princípio. O respeito também devemos recebe-lo de muita gente, ou devia ser de todos. Mas esse respeito, quando levado a admiração, quando a alguém que seguimos, que reconhecemos como Líder, leva-nos a reconhecer-lhe e a outorgar-lhe, até, um Poder sobre nós, que não nos lesa, ou não o deve.

Quando o Poder, por outro lado é exercido apenas porque sim. Apenas porque se tem os meios para tal, porque temos a posição para o exercer, como Chefes num serviço, numa empresa, numa família, como pai ou mãe, mas é desprovido do reconhecimento necessário que leva alguém a consultar-nos, a esperar para nos ouvir, a seguir-nos é vazio e é Um Vazio. Mas é bem pior, uma Perversidade e um Perigo.

E o Poder assim exercido, seja em que ambiente for, mas tanto pior se houver intimidade, como numa família, é bem mais pernicioso, é um autêntico perigo é uma Bomba. Cria desequilíbrios insanáveis. Deteriora relações e conduz ao desrespeito, quando devia levar ao Respeito e Consideração.

Quem julga ter poder, deve exerce-lo o como se de um conselheiro se tratasse, como se se encontrasse numa assembleia política, como se fosse, se não é, um democrata. Não tem deixar de o exercer, apenas por se comportar com cortesia, complacência até, com atitude de ouvinte e de conselheiro. Após uma consulta a todos, um político pode e deve decidir. Assim também, se o ideal é possível, numa empresa, onde nem sempre o é. E com maioria de razão em casa, com a família, onde os laços de proximidade tendem a criar tensões e rejeições, ou, pelo contrário, subserviências nada saudáveis. Como pai ou como mãe, o nosso cuidado no exercício do nosso poder deve ser acrescido e não diminuído, por comparação com outras circunstâncias.

O nosso poder como pais, molda e determina comportamentos subsequentes. O nosso poder é bem mais facilmente aceite pelo exemplo, um poder, aliás de uma força imensa. O nosso poder como pais, a propósito de alguém que neste momento o exerce de forma extemporânea e absolutista, de forma implacável e irresponsável, é condicionante e extremamente perigoso, se não bem exercido. Mas temos, em tais circunstâncias um poder imenso, com frequência, o do Amor. E que se perde, por vezes, indeterminada e irremediavelmente pela sede de Poder gratuito e cego, pela autoridade sem liderança, pelo orgulho idiota e infantil, pela forma como quando o exercemos assim, se afastam de nós os que de nós precisam. Quando os devíamos ter mais próximos...em momentos delicados e de grande tensão. Em momentos, nem sempre identificáveis, extremamente decisivos!

A perversidade do desequilíbrio europeu


Portugal seguiu, a meu ver, nos últimos anos, o caminho mais errado que podia ter escolhido. O de um país onde os preços se deviam regular pelos da vizinha Espanha, mas os bens adquiridos eram equivalentes aos que consomem os alemães.

Um mercado total de dez milhões e meio, mas de pouco mais de oito milhões activos consumidores, dificilmente pode suportar os preços baixos e agressivos de um mercado cinco vezes maior, como é o da Espanha. E face à dimensão do mercado, assim se calcula a base do poder de compra, do nível de rendimento per capita, dos níveis de poupança e outros indicadores, uns regulados pelos dos grandes países, outros pelos de países como uma República Checa, Hungria, ainda em ascensão no seio da UE, mas, pior, como uma Suíça (que devia ser o nosso 'target').

Mas injustamente, ou propositadamente, o desequilíbrio europeu, entre países como a Alemanha, a Holanda, a Dinamarca e outros como Espanha, Grécia e Portugal, interessa, activa e forçosamente aos mais ricos.

Tal como interessa que, no contexto mundial exista uma China, a duas velocidades, e a várias dimensões, consumindo matérias primas europeias, como aço, plástico, química básica e química fina, e combustíveis de países produtores asiáticos, mas enriquecendo rapidamente, para que lá se coloquem os produtos de luxo e glamour europeus, mais as tecnologias americanas e europeias, persistindo embora, e não dispensando a mão de obra mais barata do mundo, num desequilíbrio e fosso perverso, dentro da própria China, e da China para o mundo 'ocidental', interessa um outro desequilíbrio entre países da União Europeia, mantendo Portugal, Grécia e já não tanto Espanha (que nunca aceitou estar neste grupo dos infortunados-dominados) numa relativa pobreza, de matriz europeia, que em nada se compara à pobreza real de uma China, ou de um chinês.

Mas surge então uma de duas perguntas: interessa a um alemão subsidiar um português com dívidas para que lhe compre um automóvel germânico, correndo até o risco de insolvência e incumprimento do pagamento do mesmo? Interessa a uma Alemanha subsidiar esta dívida colossal, para que alguns, novos-ricos, empresários sem base sólida e políticos vivendo dos recursos de outros, adquiram automóveis e outros produtos made in Germany? Não me parece. Mas sobretudo, não lhes parece a eles, que nos estão a pagar as compras no supermercado e na mercearia, tanto como os medicamentos (que eles também produzem, tal como americanos). Mas, por outro lado, interessa a um alemão que os portugueses deixem de poder comprar os seus VW, BMW e Audi? Também não me parece.

Este o dilema alemão. Que pouco nos interessaria, não fora que o que eles sentem, pensam e decidem nos toca muito a nós nestes momentos de dependência financeira.

Este o desequilíbrio difícil de manter numa Europa nunca plenamente unida e construída, numa Europa que vive disto e não sabe disto sair.

E como quem paga, manda, poucas hipóteses teremos, sem custos maiores, de libertação desta cadeia de interesses mutuamente desequilibrados que se construiu na Europa.

Portugal não fez, nem tão pouco iniciou o único caminho que poderia libertar o país desta posição. Nunca se interessou, nem hoje se vê que o queira, por uma verdadeira educação do seu povo, uma formação elevada e superior, que ainda hoje se despreza tanto. Como o fizeram os suíços, os finlandeses, os dinamarqueses, e mesmo os checos. E tivemos ainda mais tempo e paz dentro de fronteiras do que todos esses.

Portugal nunca iniciou o caminho de se tornar um mercado mais caro, exclusivo e menos dependente de vizinhos e tendências internacionais, com um progressivo e crescente poder de compra das famílias. Fez sempre, pelo contrário, o caminho inverso. E um mercado assim, com baixos preços e fraco poder de compra, é bem mais frágil e dependente.

Se a isto adicionarmos um consumismo desajustado, investimentos públicos faraónicos e políticas pautadas pelo apego ao Poder e reféns de clientelas, bem depressa se entende porque temos esta Dívida (que, recordo, Sócrates sempre a negou publicamente, mas duvido que ignorasse, e usou essa mentira para tirar dividendos, ganhar adversários e ofender gente séria como Ferreira Leite, o que o torna um criminoso da política...) e esta dependência de uma Alemanha que a todos nos parece prepotente, arrogante e imperialista.