31.12.09

2010: O primeiro local do Novo Ano


Kiritimati, ou Christmas Island, parte da República de Kiribati, é o primeiro local habitado do mundo, onde o ano muda. Este ano, às 10h00 TMG já se estão, nesta ilha, em pleno pacífico, em 2010.

"É considerada o maior atol do mundo. Tem 642 km² de superfície emersa o que representa 70% do território de Kiribati. É o primeiro local habitado do mundo a ver o nascer de cada dia, pois usa o fuso horário UTC+14. Tem cerca de 5 mil habitantes." (Wikipedia)

Estão eles mais avançados do que nós? No ano novo, claramente. Mas nós levamos vantagem sobre a fabulosa terra-de-todos-os-acontecimentos: New York. Levamos seis horas de avanço no sentido da mudança do calendário.

FELIZ ANO NOVO!
UM GRANDE E EXCELENTE 2010!


29.12.09

A Festa


Hoje, deixo-vos um belíssimo texto, lido pela autora, Aline Bazenga, numa Rádio no Funchal, que conta boa parte da vivência da minha infância, da minha família e da "Festa", do Natal, na minha ilha.

"Uma cereja no Outono, o nariz molhado em molhinhos de Junquilhos, sentada nos degraus, entre os poios.

Cheira-se a Festa a chegar.

De lálem, no Lombinho, sinais da matança no ar.

A do Francisquinho, no meu Lombo,

Senhor Francisco dos Armazéns,

será no Domingo que vem – pensava eu,

com os meus botões.

Estive lá.

Os homens, contentes, do lado de lá,

à volta do porco deitado, já quieto.

Do lado de cá, as mulheres.

Com elas provei o primeiro petisco do porco.

Sabia a morcela sem ser,

e misturava-se a lasquinhas de bacalhau,

de mais apetecer.

Naquele ano não seria na padaria.

O primo Alcino tinha um forno para estrear.

E foi a calhar,

para os meus primeiros bolos também.

E a receita?

A tia dizia – a da avó é a melhor.

A prima Gilberta, que não.

A da sua mãe sim, essa sim, a melhor,

e levava cerveja preta.

De papel na mão, lá fui.

(Do tempo da avó Bela, o avô –

era quem fazia estas compras.

Comprava tudo na Manteigaria União,

colada à Havaneza de ainda hoje,

indo pela Condessa,

até quase ao pé do Semeador, arrumado ali na Câmara,

era onde era - contou-me o pai.)

Na rua do Carmo, à frente do balcão e de lista na mão. Cidra, cravinho da índia, cravo da acha, erva-doce, nozes, amêndoas, canela, noz-moscada,

em pedacinhos de gramas, pesados de colher na mão.

Tudo ali.

A banha e o mel de cana. As laranjas e a raspa de limão.

Na banheira verde, misturei tudo,

amassando esperei, velando,

o tempo da massa crescer.

Seria a massa da avó Bela,

da prima Gilberta,

e agora a minha. Sem cerveja preta.

Junto do forno novo, entre broas de mel e licores,

as fornadas rosando o ar,

a mesa grande a compor-se.

Os nossos bolos a juntarem-se,

embrulhados em papel vegetal,

até serem um sobre um, como num tabuleiro de damas.

O ar doce de todos,

o ar de ficando juntos. Na travessia para a Festa.

Os bolos molhados de memórias –

a avó, as tias, as primas e primos e eu fazendo parte deles,

com as minhas mãos de amassar,

embrulhar,

partir com as mãos de dar.

Os bolos daquela Festa.

Não há melhor bolo de mel que este - também vou repetir, até ser avó um dia.

(E cá para nós, em segredos, ouvi dizer

que ainda hoje no Funchal há uma mercearia,

lá para os lados da prima Gilberta,

onde os bolos de mel são os da avó Bela,

e já eram da avó dela)."

Aline Bazenga

24.12.09

O Tratado

O Tratado. O 'De Lisboa'. Que nos há-de 'tratar' da saudinha, a quase todos. Dizem-nos que é importante. Para dar outra eficiência à Europa, querendo eles dizer às instituições da Europa. Porque a 'Europa', das pessoas, somos nós e não as 'instituições'. Para começar.

Dizem-nos que, assim, a Europa será ainda mais importante aos olhos dos outros, dos não-europeus. Que, assim, terá a Europa (afinal, parte dela apenas, mas a parte da Europa selecta, a evoluída...) terá outra voz, mais forte e sonante, nesse mundo injusto para a Europa, nesse mundo que cria crises financeiras de que, depois a Europa vem a sofrer. Nesse mundo que produz mais barato do que a Europa e é, assim, profundamente injusto para quem lhe ensinou, afinal, a produzir.

Mas a Europa é a dos que decidem por ela? Ou é a dos que decidem quem decide por ela? Dos mesmos que amanhã não sabem se também vão receber a notícia, ou a carta, de que também ficarão desempregados, sem o rendimento e a qualidade de vida que a Europa sempre promete, tal e qual os seus amigos e colegas, que pensavam que seriam casos únicos. Que aconteceria apenas 'aos outros'. O desemprego, como a doença, o acidente e a desgraça. O fim dos sonhos. O fim do estatuto. O fim, ou a mudança de tantas amizades. Com o desemprego, também se vão algumas, muitas amizades. O desemprego, como a lepra de outros tempos...

Interessa a um eleitor sensato, responsável, com sentido do dever democrático, este Tratado, para o qual se celebrou numa cerimónia de mais de um milhão de euros, qual migalha em horizontes de TGV's (uma panaceia para todos os atrasos e todas as misérias) um Tratado assinado por um 'punhado' de usurpadores da vontade dos outros, um Tratado redigido por 'alfaiates' que o foram compondo com as várias medidas e cortes, à medida do capricho de cada 'senhor do poder', de cada Estado-membro? Interessa?

Uma Europa que se constrói em ilusões históricas como o proverbial e estúpido e anacrónico enquadramento ideológico-partidário de 'esquerdas' e 'direitas', como se se pudesse meter cada um de nós numa espécie de cor, de rótulo de forma tão simplória como desajustada. Com tanta evolução, dita humana e tecnológica, e ainda se usam 'encaixes' de pessoas em grupos, grupelhos aliás, ridículos, de esquerda e direita, para assim se dizer, consoante o 'lado' de que se, supostamente, se vêm, dos... 'bons e dos maus'.

Interessa uma 'espécie' de 'ordem social e política que se coloca diariamente nas mãos, ordeiramente, sem me querer repetir, de pseudo-ilustres, iluminados, que sabem o que nos é bom e vantajoso e, por consequência, o que é mau e desvantajoso? Um grupo de insucedidos, economica e politicamente, ou diria melhor, de falhados bem vestidos, bem transportados e bem remunerados, diz-nos que nos devemos 'comportar' bem, e sermos solidários, não com outros iguais a nós, no nosso burgo ou bem longe dele, noutro país, mas com os ditos 'iluminados timoneiros' e votarmos, votarmos sempre e nunca nos abstermos. Votarmos para os eleger (ou não teriam emprego!) e para dizer sim à miséria de Tratados fúteis e ridículos, vazios de significado futuro, para que assim a Europa continue a ser o lugar mais ordeiro do mundo, o mais 'limpinho' o de 'estilo e classe' que os 'outros invejam.

Mas afinal, este Tratado, ou outro qualquer, não vai mudar os destinos dos que ficam sem trabalho e sem futuro, dos que têm de mandar ao lixo os seus brilhantes currículos profissionais e académicos, que são enaltecidos e promovidos pelos senhores do 'status', porque no dia seguinte ou nesse mesmo...ficam sem saber como sustentar o modo de vida, ou apenas...a família e eles próprios.

Uma ordem política democrática que se ri de nós, todos os dias, e nos ri nas costas, com explicações idiotas sobre a origem das crises económicas e sociais, sobre o seu desenvolvimento e sobre o nosso futuro após as mesmas, porque...tudo ficará na mesma, ou, alías, bem pior.

Quem perde o emprego e passou a vida a auto aperfeiçoar-se, a formar-se e subir de grau académico e profissional, amanhã, se voltar a recuperar a ocupação profissional e a dignidade, fá-lo-á à custa de uma nova escravidão. A das horas sem fim ao serviço da nova empresa, das novas e mais restritas e elevadas exigências, do vencimento mais reduzido e dos objectivos mais ambiciosos e vigiados. À custa da dignidade profissional que a tudo custo tentam recuperar, a bem, dizem-nos de uma nova ordem económica, que, pós-crise, tudo terá de mudar, com mais exigência...mas apenas para os que foram engolidos na crise. E nunca para os senhores do Tratado e do Banco Central Europeu.

Um dia trataremos do Tratado e de quem 'tratou' de nós.

Outra vez, porque a história tem esta mania de se repetir.

10.12.09

Os loucos de Lisboa


A manhã começou suave e doce, e fresca e límpida, desde o trajecto de comboio até Lisboa, ao autocarro que me levou ao Largo do Rato. Suave e doce, ainda sem a cafeína que se costuma impor matinal e diariamente, uma dependência que, por enquanto, a sinto pouco prejudicial, e que me acalenta a alma no seu amargo quente ...

O Allegro do belíssimo Trio K502 de Mozart, aquecia-me o ouvido e enchia-me o espirito de coisas boas, enquanto me deliciava com o sol que batia nas lindas fachadas setecentistas da baixa lisboeta, junto ao Cais do Sodré, ou Praça Duque da Terceira. O autocarro parecia assim flutuar pelas notas aveludadas daquela música redonda e envolvente que noz transporta para outras esferas do pensamento e nos protege de pensamentos menos positivos.

Ao passar na rua da Misericórdia, já o rádio do telemóvel ia noutra fantástica obra, a primeira Partita de J.S. Bach, para violino solo. Uma música que nos aproxima 'dos deuses' ainda que eles possam nem existir. Uma música untuosa, que nos abraça e nos faz sentir menores, perante a sua beleza e suprema perfeição.

Antes da paragem do Largo da Misericórdia, um tresloucado decidiu iniciar o seu dia e o dos outros com insultos e impropérios a uma senhora de idade que denotava dificuldade em se deslocar para a parte posterior do autocarro...

(aos berros e num tom misto de insulto e de gozo, irritado com o seu mundo e, pelos vistos, com o dos outros)... "sai-me do caminho, velha do c... que fazes aqui? já devias era estar em casa...e não vir atrapalhar os outros!"

Ao responder a alguém que o interpelou, ainda se excedeu mais, com a mais profícua substantivação às partes íntimas de senhoras e senhores... só se acalmando quando alguém lhe lembrou que havia crianças a bordo, mesmo ao seu lado, mas regressando à sua loucura, consciente, e de estimação, assim que saiu para a rua.

São os 'loucos de Lisboa', neste caso com minúscula, para não desmerecer os autênticos, da "Ala dos Namorados"?

Gente que já não tem algum controlo emocional, nem o mínimo de complacência com a decência...dos outros, que seja. Perturbados e desequilibrados, descompensados sociais, para quem já nada importa, nem o seu mínimo entendimento do que fazem a si mesmos, nem uma escassa noção do mundo em que vivem, e que não se encontram sozinhos nele. Se genuína a sua loucura social, onde acabam pessoas assim? Num grupo de terapia, ou apanhados numa onda de marginalidade? Vítimas voluntárias da loucura maior de um outro qualquer tresloucado, ainda mais arrojado ou fisicamente mais pujante? Ou tudo não passa de um simples 'golpe de encenação teatral', do pior gosto que se possa imaginar?

Ou será pura delinquência?

Um amanhecer aveludado com um sol branco e forte como só Lisboa sabe oferecer, logo perturbado por esta 'cena' de trapos sociais, de uma manta psíquica que cada dia se vai desfazendo em algumas cabeças mais fracas...

9.12.09

Reflexões, ou pura retórica.


Um dia acordamos e parece-nos tudo, quase, normal. Um dia saímos de casa e logo aos primeiros 'acontecimentos' nos damos conta de que esse dia é tudo, menos normal. Ou que, afinal, os outros dias também não o foram.

Porque vemos tudo, se não tivermos feito o esforço devido e honesto de usar outros meios (os dos outros, nomeadamente), pelos nossos olhos (uma composição complexa entre visão, mente e experiências acumuladas, nem todas, sempre positivas ou construtivas...) e nos deixamos levar (talvez nem possa ser de outra forma) no esmagamento que as rotinas diárias nos concedem, não fazemos a pausa que se impõe, para reflectirmos no que andamos a fazer, por vezes há anos, e na construção do mundo em que andámos a laborar...

E nesse dia, alguém, talvez consciente ou não, envia-nos um sinal, ou algo que assim interpretamos. E pomo-nos a pensar...

De que nos adianta esse distanciamento que, tantas vezes obsessivamente, vamos elaborando em relação ao mundo mais primário, mais automático, mais instintivo, mais animal, mas também mais genuíno, intelectualmente honesto, simples mas não simplório, como se de uma missão para toda a vida se tratasse? De que nos serve andarmos toda uma vida nessa azáfama de informação ou educação pessoais, se ela mais adiante ou mais atrás, nos pode conduzir ao afastamento de tantas coisas que são a estrutura básica da nossa sobrevivência e, consequentemente, parte essencial da nossa felicidade? Coisas como as mais pragmáticas das que nos sustentam a forma de vida razoável e sensata? Elaborar numa construção de mais aperfeiçoamento pessoal, mais informação ou, epíteto anti-social, cultura? E se isso nos afasta de tanta gente que, à medida da passagem do tempo, nos acaba por isolar?

'Remar contra a maré'...tem sempre um significado dúbio e pouco saudável, porque, desde logo a 'nossa maré' não é distinta das outras... e a nossa também é objecto dessa mesma actividade que leva tantas outras pessoas a tentarem levar a 'sua embarcação' contra as correntes' que se lhe vão surgindo.

Por obsessão? Obstinação? Teimosia pura e simples? E a quem a aproveita? Porque não deixar-se, apenas, levar nessas marés que por aí surgem?

Hoje, alguém me lembrou este meu sítio onde debito estes dislates de algum mundo interior, nem sempre tranquilo. Sinto-me agradecido, até pela consideração que me merece. Até pelo comentário elogioso. Mas não me sinto com uma energia ou capacidade de dar mais substância, de momento, às futilidades que, por aqui, vos podem maçar.