25.11.08

Estalo


A grande estalada começa no primeiro sopro. Ou vem com ele. E nunca mais pára. Vem-nos dia a dia em doses certas e subtilmente. Chega-nos de muitos e todos os lados, e apanha-nos no nosso melhor. Muitos de nós livram-se bem desse estalo incomensurável, e andam por aqui como se nada lhes tocasse. E não toca. Só atinge os infectados. Os infectados pela vida, pela vontade de fazer, de sentir e fazer sentir, de ter e de pertencer. Só atinge os incuráveis infectados, contagiados um dia e nunca mais certos pelo passo normal, diria sensato, dos ‘realistas’, dos ‘pragmáticos’, dos ‘normais’.

Tresmalhados, alguns, somos os infectados pela sensibilidade, pela energia inesgotável, pela vontade de aperfeiçoamento, pela mania estúpida de ser diferente para ser melhor. Melhor por melhor, nada que tenha de entrar em comparações com esses cansativos e chatos dos realistas. Não. Apenas infectados, pela VIDA. Até morrer, que nada se relata mais a partir desse dia, do estalo último. 

Acreditamos na vida, nas pessoas, na sinceridade, no humanismo, na honestidade, como um conto infantil que nos deixa encantados e cegos e....susceptíveis ao grande estalo da vida. Levamos com o ‘estalo’ em doses certas, mas pequeninas e repartidas para que dele não nos demos conta e, assim, não nos possamos desviar.

De tanto querer...tudo se perderá, como no aforismo. Dizem de alguns de nós que somos especiais, somos diferentes, até melhores e até super...e só depois entendemos que se trata de mais um estalo e uma partida. Ah! Até creio, digo eu, que pode ser. Seremos especiais, queridos e, uma vez por outra, num extremo e impensado devaneio de alguém, desejados. Somos bons? Talvez. Melhores, seguramente. E nada disso serve de alguma coisa a alguém.

E somos tantos, tantos mas julgamos que somos...só nós. 

E ficamos sempre, um dia, sempre..sós.


5.11.08

Mr. President Obama!


Yes, we can!

Contra todos os que por aí ainda abundam, reafirmando a sua descrença e insegurança próprias de quem até hoje não fez nem viu fazer mudanças políticas, sociais e, mais difícil, até culturais, Barack Obama ganhou a Presidência dos Estados Unidos da América.

No geral, os portugueses, alinhados e bem, com os povos da maioria dos países europeus preferiam Obama e acreditavam na sua eleição. Mas alguns 'ilustres' que fui ouvindo pela noite fora nos vários canais de Tv portugueses lá foram desenrolando a sua má vontade e, bem pior, a sua má fé, quero dizer, falta de fé ou, pelo menos, de esperança. Esta esperança que há dezenas- sim, dezenas- de anos eu não via ressurgir, desde os tempos de um Presidente americano que não teve possibilidade de provar nem de confirmar quase nada, excepto no discurso, John Kennedy.

Cresci com a imagem de uns EUA que se agigantavam perante o mundo nas diversas vertentes do 'desenvlvimento' humano, na ciência, na tecnologia, na política e na economia. Cresci com a imagem dum país que era o maior exemplo da Democracia e das autênticas oportunidades. Com a imagem e a ideia de uns EUA serem o genuíno líder mundial. Um país onde, bem ao contrário do nosso, o mérito próprio pode vencer as 'cunhas', amizades e joguinhos de influência, mais vivos em Portugal do que nunca.

Anos após, e em simultâneo com a quebra nas esperanças de um grande futuro de sucessos pessoais, com o desencanto que, se calhar, nos chega com a maturidade, fui dando conta da mirífica imagem do 'sonho americano, afinal o sonho de muitos de nós. Quando ainda adolescente, e mesmo nos dias de Abril de 1974, que intensamente vivi e que me fizeram apaixonar pelas causas sociais e políticas, pelas pessoas fora do meu círculo familia e de amigos, acreditava na honestidade e na pureza de alguns dos lideres do meu tempo. Pouco a pouco fui assistindo à queda dos meus 'ídolos' de juventude e deixando-os, apenas, numa qualquer página dos compêndios de história.

Cresci com a mania de que cada um e todos nós temos uma missão na vida e que a diferença entre os comuns mortais e os que se destacam, deixando não apenas um nome, mas um bom nome inscrito na história, está na capacidade de acreditar e de levar em frente essa capacidade. Vivendo em conformidade com ela. E rejeitando a falsidade, a dissimulação e a mentira. Fazer história, contribuindo para o genuíno desenvolvimento humano e das respectivas sociedades e comunidades em que nos inserimos é destino apenas possível para os que de nós, acreditando, vivem com toda a força das suas convicções e vivem concretizando os seus sonhos. E até contagiam outros com esse inexorável e demolidor optimismo.

Desiludi-me vezes sem conta. Ainda hoje luto contra essa desilusão.

Tenho assistido ao grassar de uma mediocre classe política mundial, que a todos nos atinge e nos provoca sofrimentos, nem sempre evidentes. Hoje, vivemos tempos dificeís, mas não por acaso. Uma classe política europeia de que ninguém será capaz de dizer quais as ideias e convicções, ou como se dizem anglofonicamente, 'para o que corre': um John W. Bush, um Zapatero, um Sarkozi, um Gordon Brown, um Sócrates, um Durão Barroso, um Berlusconi, um Putin...todos eminentemente medíocres! Ou, quando muito, demasiado medianos.

Estou em plena convicção que nesta noite, nos Estados Unidos da América, se fez história, não apenas por ter sido eleito Presidente que foi, mas pelo que já simboliza de mudança e de renovar de esperança. Uma esperança que talvez, talvez...esta 'onda Obama' nos chegue à Europa e varra definitivamente esta mediocridade dos nossos actuais líderes, que todos os dias se comprazem em nos piorar as vidas.
Assisti aos resultados das eleições americanas e aos discursos finais, em directo de canais americanos e só fiquei com pena de não ter lá estado e viver com aquele povo a mesma onda de euforia, que temos de dar às pessoas o direito de viver e de acreditar- e não a maneira muito europeia, deitar os 'sonhos' logo abaixo antes mesmo de eles poderem surgir.

Não sendo crente, quase me arrisco a dizer...muito à americana ...'God Save America'.