24.5.16

Leituras recomendadas

Podemos passar tempos indefinidos a ler banalidades, ou histórias interessantes que apenas nos ocupam e dão prazer. Nunca nada de mal existe em continuarmos em hábitos de leitura ligeira, que nos tornam as horas mais agradáveis e até as companhias mais preenchidas, com a partilha de uma bela história, com a leitura de um bom livro, mesmo que apenas se trate de um romance, de mera ficção. Há livros que conseguem cativar-nos pela qualidade da escrita, como pela qualidade da construção do enredo.

Mas há outro tipo de leituras, que uma vez por outra fazem todo o sentido e nos ajudam no desenvolvimento pessoal, enriquecendo-nos com conhecimentos e ideia, tanto como com a qualidade da sua prosa.

Recentemente encalhei em alguns desses livros de que quero deixar testemunho, mesmo ainda a caminho de conclui a sua leitura.

Brendan Simms escreveu uma obra tão fascinante, como inteligente e importante. Uma leitura actual, que nos apela a uma reflexão que nem sempre conseguimos ter. Europa, a luta pela supremacia, de 1453 aos nossos dias, editado em Portugal pelas Edições 70, uma obra de 2013, publicada em português em 2015.



Simms fala-nos da História dos últimos quinhentos anos, dos Impérios, sua ascensão e queda e de como a Europa que "construiu o Ocidente" sempre lutou por um desenvolvimento e por uma paz que nunca atingiu cabalmente. De como ainda hoje persistem sinais de um passado agitado, baseado em fronteiras em constante mudança, e em busca de uma força que lidere um mundo, que actualmente parece ter perdido.

Timothy Snyder, em Terra negra, o holocausto como história e aviso, uma obra de 2015, publicada pela Bertrand em 2016, descreve-nos um Hitler menos conhecido e alerta-nos para perigos que imaginamos não serem mais possíveis. É um a obra perturbante, pela proximidade de algumas ideias com o mundo de hoje, mas sobretudo pelo entendimento sobre esse fenómeno que ocorreu num país desenvolvido, no seio de um dos povos já na altura, mais cultos do mundo. Um fenómeno que surgiu na sequência das desgraças que se abateram sobre a Alemanha derrotada e devastada pela Guerra mais sangrenta da História, a Primeira Guerra Mundial, com as consequências económicas conhecidas e mesmo com a complacente atitude dos Aliados perante a Grande Alemanha. Uma atitude que não se viu ou se vê com mais algum outro país no Mundo. E ainda assim, nessa Alemanha de há pouco mais de 70 anos, surgiu um novo fenómeno de violência nunca antes visto, de genocídio continuado e persistente sobre um povo tido como a causa de todos os males. Fenómeno que não surgiu isoladamente, mas que bebeu a violência no passado já vivido em outras paragens, contra os Judeus, como na Rússia dos Czares, na mesma Rússia, ou União Soviética, onde esse povo e religião sofreram perseguições, não tão organizadas, mas bem mais devastadoras do que a perpetrada por Hitler.

O Demónio da Depressão, de Andrew Solomon, uma obra que nada tem a ver com História, Cultura ou Política, obviamente, mas que muito actual é, sobre a doença que se tornou uma das mais importantes no Mundo e que vitima tanta gente, é outro livro que recomendo. Tanto pela qualidade muito elevada da sua escrita, como pela oportuna temática, esta obra é de imprescindível leitura e também nos alerta para o Mundo actual, e para os conhecimentos e erros do passado, como para a necessidade de vermos esta doença com novos olhos.

3.5.16

Os intocáveis

Este título é uma provocação. Ia a escrever qualquer coisa como "personalidades" ou "figuras sagradas", mas lembrei-me, a despropósito, mas mesmo a jeito de algum sarcasmo, de um filme sobre um grupo de gangsters em que ninguém tocava. Até um dia.



Na cultura ocidental, ciência incluída, sempre houve um conjunto de "monstros" sagrados, inquestionáveis criaturas que parecerem sempre acima de qualquer falha, erro, ou lapso de inteligência. Foram tantos...Freud (logo este!), Kant, Voltaire, Descartes, Marx, Engels, a lista não terá fim. Nem tudo o que disseram e escreveram se configurou ser verdade, mas nem tudo teria de o ser. Mas ainda assim, muito do que deixaram na sua herança intelectual, está plena de disparates. Hoje, por elegância, bem mais do que por justiça em nome de ciência e cultura, desculpamo-los com a repetida ideia de que "à luz dos conhecimentos da época"...ou "com os meios de que dispunham na altura". Mas terá sido sempre assim?

Um dos grandes problema que tem uma "personalidade" é essa famigerada incapacidade de se questionar a si mesma, de pôr em causa o que teorizou, o que declarou ou escreveu. Normalmente, por evidência de insucessos que atingem a nossa vida comum, apenas pomos em causa políticos, religiosos e, claro, nos últimos anos (50? 100, 150?), os cientistas.

À Filosofia damos um bónus de simpatia e de estado de graça perpétuo, pela conformação que toma a sua natureza muito própria: a ausência quase total de ter de demonstrar seja o que for. O que nem é bem assim, e depende do ramo da Filosofia, mas é-o em geral.

À Arte, que para muito nem é conhecimento, mas as evidências do distanciamento dos nossos diários afazeres e rotinas de comuns, muito comuns (um erro, por opção, pois apenas existem..."comuns" e não há uns quantos, mais comuns do que outros, claro), mortais, damos o benefício da desnecessidade de que se explique, e do nosso parco entendimento dos seus autores e suas obras. E assim, fica a Arte numa espécie de pedestal de intocáveis tendências, correntes e movimentos, e seus obreiros. E fica muito bem, acho eu.

À Ciência, não desculpamos com tais facilidades, mas ainda assim atribuímos o contexto de uma época e dos meios disponíveis para tanto disparate, aos olhos dos conhecimentos actuais, sempre a esses olhos, que sempre mudam de ano para ano, de década para década, ad eternum.

Mas talvez nos devamos questionar sobre a genuína qualidade de alguns agentes de Ciência, por mim tantas vezes idolatrados, sem que o mérito lhes tivesse batido à porta. Mas provavelmente, tão só, por maior desconhecimento de todos os demais. "Em terra de cegos...".

Assiste-me uma dúvida, há muitos anos. Se pusermos esta possibilidade, mesmo que a destinemos às calendas, devemos então, provavelmente, pôr uma outra: a de que a Humanidade, a sua Ciência e Conhecimento podem ter sido negativamente condicionados por um vasto conjunto de caminhos errados, de erros diminutos ou colossais, mas que não permitiram, por condicionamento às palavras do "Mestre" em que matéria for, ou tiver sido e por abandono de outro ou outros caminhos, na procura de respostas.

Se tal acontece, e sabemo-lo bem, na Política, na Economia, nas opções religiosas (para quem não for ceguinho e quiser admitir qualquer coisa mais do que o conto que lhes foi impingido na infância), porque não admitir que a palavra de um Mestre qualquer, fez deixar de ser ouvido outras mentes, admissivelmente mais capazes e mais promissoras.

Dou um exemplo, hoje incontestado: De Rerum Natura, escrito umas centenas de anos do aceite nascimento de Cristo, por Lucrécio, se tivesse vindo à luz do dia bem mais cedo, e poderes retrógrados e esmagadores, o não tivessem tentado fazer esquecer, podia ter mudado em muito o curso do desenvolvimento humano. E, anos depois, a condenação de Epicuro, como perverso e condenável, por defender o Prazer como base da vida e como alimento da algeria e esperança, quantas vidas e quantas depressões de poderiam ter poupado. Pode parecer estranho, mas teriam sido centenas de milhões! Exactamente.

A adulação de alguém, pode ser um caminho muito perigoso...