24.1.16

Nenhum dia é suficiente para conter toda a luz



Quando se passa em frações de segundo, de um estado sem consciência, vindo de um outro em que o cérebro aproveitou o descanso físico para se reorganizar e nos confundiu com aqueles sonhos que parecem saídos de um filme de ficção científica, e nesse breve momento de alteração de estado, nos esforçamos por abrir os olhos à realidade, num natural exercício diário de regresso ao real...

...E o mesmo calor ausente ali está, a mesma luz de um sorriso que escasseia ali está, a mesma respiração amada e o odor dessa ausente mas sempre constante presença imaterial, ali está, num desejo para que o tempo voe e se regresse à doçura de uma realidade nem sempre possível.

Abro a janela para que entre a luz e não me dê alguma hipótese de regressar a um sono que me prende no que não quero, mas que me liberte ao pensamento que entender. E a este sentir por todos momentos em que esses olhos únicos me roubaram todas as palavras que consegui aprender. E, por opção fecho de novo os olhos, já com o quarto iluminado e sinto o que não é possível fisicamente sentir.

A paisagem é agora de curvas suaves e doces que se tem de percorrer, é de aroma inebriante e identificável sempre da mesma forma, associada a essas formas curvas que também emanam um calor que não é apenas físico, mas bem mais de paixão. De olhos fechados estendo o braço e quase sem a total proximidade tento imaginar-me a percorrer o mais encantador dos vales, e a mais maravilhosa saliência. Aproximo-me mais e aspiro o odor do fim de uma noite de sono pesado e encho-me todo desse perfume só assim existente, deixando-o entrar-me fundo e sorvendo a poção mágica que sempre me deixou ébrio e a pairar. Muito, muito ao de leve vou tentando sentir nos dedos a suavidade dessa tua paisagem corporal, abrindo um pouco os olhos como para conseguir ver o que ali ao lado não está, mas vejo mesmo a limpa e alva paisagem que ergue do chão e me deixa em falsa suspensão, pairando.

Há uma luz ímpar que emana de tal paisagem, branca mas doce e não ofuscante, que me chama constantemente para gáudio dos meus sentidos. Há um desejo que se lhe associa e que nem sempre se pode satisfazer e guardar novas memórias de tão bela panorâmica.

Há um som que subitamente surge dos lábios mais perfeitos que alguma vez se pode ter. O som de um novo dia mais que traz consigo promessas chegadas com a paragem do tempo como se quer.

O sorriso, mesmo numa ausência é imprescindível e inquietante. É pertubador e quer-se alimentar essa perturbação e essa insegurança do que se sente, não por incerteza, mas por desejo de novidade a cada momento que o teu corpo permite e impele.

Então os olhos se abrem para um dia mais, em que a luz que a tua pessoa dá, faz dispersar qualquer cinzento dia, qualquer pensamento carregado, qualquer tentativa de tempestade humana ou natural.

E Bom dia é o que se diz de sorriso espraiado e com todo o impulso que o sono ainda em fuga nos permite. Bom dia ao mais belo sorriso e ao mais doce olhar de sempre!

Era Bom dia e deixar-se, de novo levar, pelo peso do sono para mais tarde poder dizer uma outra vez Bom dia e com isso enganar o tempo, com essa sensação de duplicar um dia, num único amanhecer e dois despertares.

Porque não há despertar suficiente para essa bela luz. Nem dia que abarque uma tal matinal doçura.

8.1.16

Quando o sol...

Não é assim tão frequente, mas por vezes desperto antes do Sol. E espero por ele. Adoro a sensação da luz que começa um dia e adoro fechar os olhos voltado para ela, que se intensifica em poucos minutos. Ao fazê-lo, pensamentos que me surgem, ganham a mesma intensidade que a luz dele me quer inspirar e afastam-se planos e previsões para um dia que nem sempre se quer sequer começar. Tudo o resto, quer-se começar.

Nós somos muito mais aquilo que pensamos do que aquilo que vivemos, provavelmente. E é dessa forma que muitos se dedicam aos seus deuses, aos seus fantasmas, às suas inquietações, aos seus prazeres, grandes e pequenos, a grupos aos quais insistem em pertencer. A ideia de um deus que nos protege, a ideia de algo que nos deve orientar, que nos dará num momento que deixou de o ser, com a morte, tudo o que em vida não conseguimos e nem pensamos se para tal lutámos o suficiente, é fascinante para muitos, é uma ideia menor, ou totalmente rejeitada, para mim.

A ideia de pertencer a ideias de outros, é, em si, a atitude de pobreza intelectual mais perturbadora que se me pode assolar. Mas sei bem que essa necessidade de pertença, a religiões, a ilusões e fantasias é aconchegante, para dizer o mínimo, ou é salvadora para atingir o tipo de atitude mental que a muitos traz realização e felicidade até. Pertença a quem ou a quê? Um grupo, religioso, ou um grupo político. Um clube, ou apenas pertença a uma cadeia de rotinas diárias que podem fazer-nos esquecer problemas, ansiedades ou tristezas, nem que por umas horas até o sol se esconder de novo, ou a noite nos pesar forte nos olhos e nos entregarmos a Morfeu.

Mas, para mim, o tempo de uma vida é demasiado curto para outras realizações que me fazem sentir o que verdadeiramente sou, um ser humano que sente e que quer sentir-se viver. Com toda a intensidade que conseguir, ou a sociedade e as necessidades mais básicas me permitirem.

Quando o Sol nasce, com ele vem, de olhos assim fechados a sentir algum calor dele como promessa de conforto e promessa dessa intensidade na vida, penso em viver, sentindo. E, por isso, a minha necessidade de pertença é para com alguém que amo muito, porque promessas desse sentimento que sempre procurei, forte, preenchedor e decisivo, que faz vibrar, sentir-me ainda mais humano, vivo e intenso, por dar e receber seja em que proporção ou forma for, mas sempre com a mesma vontade de entrega, essas promessas foram-no apenas isso durante demasiado tempo. Demasiado tempo e apenas promessas. E é com o sol de cada dia, com essa mudança de coloração no céu por cima de mim, que constitui em si mais uma promessa, de mais um dia de vida, que me entrego, hoje, como ontem a alguém que me faz sentir bem, vivo e único como sinto o objecto de um amor grande, muito grande.

Se fecho os olhos, vejo-te assim, e sinto-me entregue ao que de mais valioso uma vida pode conceber. Se os abro, vejo um espaço em volta, onde não te vejo. Mas sinto na mesma, e sinto-me feliz por sentir e seres essa promessa. Mas és uma promessa viva e pulsante, não uma ideia, uma fantasia, ou uma criação puramente mental.

E tantas vezes quero viver assim, intensamente, como se sentisse o efeito da água quando escorre pelos dedos e não se consegue reter, que me excedo, quando me devia conter. E a promessa de me sentir bem, por ter tanto querer que te sintas bem, se perturba ou pode ficar abalada por exageros e falta de bom senso ou de razoável serenidade. Mas é essa falta que pode trazer perturbação a uma segurança e serenidade que tanto se quer.

É a isto que vale mesmo a pena pertencer e saber pertencer. Não a uma ideia vaga, uma filosofia, uma religião, sempre uma qualquer fantasia que nos afasta das pessoas que devíamos amar, em vez de delas nos aproximar. A entrega a algum grupo pode trazer outros benefícios ou prazeres, mas nunca o mesmo que um amor mesmo grande e único nos dá. E é de dar, ou seja de receber e de dar de novo, que se trata e com isso todo o prazer de uma vida em poucos minutos se pode sentir. A procura de uma felicidade pode fazer-se por pequenos prazeres, por apego a grandes ideais. A felicidade em si, que não sabemos o que dura, não tem nada a ver com a sua procura. A felicidade pode chegar mais fácil pelo imaterial e pelo nunca demonstrável. Não é um caminho difícil e uma entrega. É render-se sem esforço e sem luta a algo que não passa de uma criação interior. Mas pode trazer felicidade a muitos e sei que traz.

Mas, para mim, nada que se compare a esse abraço e esse beijo que nos dá vida como nada mais. Ou nada como, serenamente irmos vendo um filho a crescer e lhe irmos dando esta mesma vontade de viver, e com a mesma intensidade e com a mesma liberdade. Viver e sentir, na pele, no odor, comprovar com a visão, ter pela frente o mais lindo sorriso do mundo, de um filho, de quem amamos, é uma escolha, essa sim sempre mais difícil pelos enganos a que nos entregamos sem saber, pelos erros que cometemos, pelos desvios enganados na vida que nunca quisemos acontecessem e eles fizeram mesmo parte da nossa história. Não é fácil saber encontrar. E saber manter, ainda mais difícil. Mas vale tanto a pena.

E mesmo que o sol chegue forte, não é ele o sol que quero. É um outro, que é sol ou é lua, mas que é sempre algo a que quero mesmo pertencer. Esse é o sol que quero sempre que chegue e que ainda que não o veja claramente, sei bem que está lá.