16.12.15

A luz que é preciso ver




Ao fundo, aproximava-se uma nuvem que não era bem-vinda, porque vinha carregada de tudo o que não era esperado, nem desejado. Mas não se sabia. O dia começara havia pouco e num céu que queria ficar azul, havia esse anúncio que não se adivinhava. Normalmente, não dava qualquer importância a uma simples nuvem pressagiante, pois presságios, adivinhações ou determinismos não eram da minha esfera de preferências.

E o dia foi andando e não foi andando bem. Sempre recebia essa luz, pouco a pouco, uma e outra vez, e a queria receber e nem ela a conseguia ou sabia receber bem. Foi-se consumindo o dia, porque todos se têm de gastar. Uma fatalidade, por vezes abraçada, por vezes detestada. Num dia branco, sem ocorrência que se quisesse memorizar, querer-se-ia que continuasse branco, até que a negra noite o apagasse de vez.

Foi música e leitura, poucas. Foram pensamentos parvos e ansiedade e tudo continuava à espera de correr bem, antes que a dança acabasse, antes que se apagassem a luz e a sala fosse encerrada. A nuvem já era passado, e só restava mesmo era que o calendário se cumprisse, na certeza que a luz que tem dado vida e forma e muita esperança aos dias, sempre fizesse o fecho em festa, em bom brilho, o que sempre acontecia.

De cada vez, a luz. Não eram olhos, era a voz, e com ela tudo o que contava e conta. E de cada vez, o mau do dia se ia, embora não totalmente, mas sempre com a tal certeza. Há sempre dia seguinte e há mais luz em todos eles. E luz é sorriso, é energia vibrante, é irreverência, é jovialidade, é um afago e um carinho, momentos loucos e divinais, uma paixão que não se explica e apenas se tem de agradecer.

E sempre se termina com essa luz, nem que seja quando Morfeu clama por nós e nos promete muita claridade e a tua encantadora luz que esses olhos e sorriso e todo o teu ser me têm dado, sempre em realidade e sempre em promessa.



E és assim, toda a luz que se precisa ver, que preciso ter. Ela se espraia por campos finitos e prazeres infinitos, é luz de voz, de coisas ditas de coisas por dizer, sempre no teu melhor. É um luz quente, que me trazes, é um abraço morno e protector, é uma grande promessa de soprares nuvens que cá não devem estar. Fecho os olhos e vejo, claramente, porque esse brilho me chegou um dia e não mais sairá de mim e dos meus dias. Vou agarrar com toda a força toda a luz que conseguir reter. Um exercício fácil, porque ela vem até mim com amor. Abro os olhos e é noite e, no entanto, a tua luz está cá, se derramando por tudo à minha volta e acentuando tudo com as sombras projectadas, não com sombras de nuvens que não são bem vindas.

Ninguém vê essa luz. Eu sei que a preciso ver, eu. E ter. E reter.


15.12.15

A prova social e a falácia

Viver em sociedade é um caso de estudo. Desde há muito. Mas há algumas falhas fundamentais, nos estudos sociológicos, muito vincados à disciplina da investigação. Um problema da Ciência, que a ela mesma nunca quer reconhecer. O simples facto de muito investigador se dedicar a um mesmo assunto, ou a assuntos próximos, perverte o raciocínio e principalmente os resultados, feridos de demasiada estatística. 

Em sociedade vivemos todos, mesmo que os nossos dias se limitem a acordar e adormecer numa povoação remota, numa habitação isolada, apenas com a família e o trabalho nos campos adjacentes. Uma família é também uma organização social, ou a sua célula mais elementar.

E viver em sociedade pressupõe, ou deveria, um comportamento colaborativo, teoricamente existente. Ele existe, quando entramos num transporte público, e há mais pessoas a entrar às quais não podemos ser indiferentes, ou pelo facto de todos os lugares estarem ocupados e nos termos de cingir a ficar de pé, mesmo sem contarmos com a cordialidade e compreensão para com alguém idoso, alguma criança, ou alguém enfermo. O reconhecimento apenas da ocupação de lugares, lembra-nos o espaço social onde estamos e obriga-nos a esse comportamento de reconhecimento dos outros, desconhecidos, mas identificados como parte do mesmo ambiente social. 

Mas a colaboração esbarra com alguns aspectos da nossa mente estereotipizante. Esbarra ainda com outros pensamentos e modos de vida mais segregantes. Embate frontalmente com aversões mais complexas e porventura criticáveis. Nem tudo o é, apesar do politicamente correcto de dizermos que temos de aceitar todos. 

Mesmo quando conseguimos reconhecer a nossa tendência natural para o afastamento, para a estereotipização e para a consequente organização em grupos e células sociais mais identificáveis connosco, o que corresponde à falácia de que somos povos unidos, em cada país, em cada sociedade e outras afirmações anexas, todas desconexas da verdade, que é bem outra, somos levados num comportamento de grupo, numa corrente comum, de imitações de grupo, onde a moda, a tendência e a atitude de conjunto se repetem a cada dia e mesmo a cada instante.

Fumar, porque outros o fazem é bem mais comum do que se imagina e muito provavelmente ninguém se iniciaria nesse vício, não fosse por uma questão social. A moda, é um outro grande exemplo de imitação social, o que Rolf Dobelli designou de Prova Social. Uma espécie de prova de que nos inserimos num grupo, numa sociedade. Mas há exemplos bons e outros muito maus. 

Um bom exemplo de prova social foi a atitude nacional dos portugueses na solidariedade para com Timor que conduziu à pressão internacional pela independência.

Maus exemplos, contudo, são muitos. O apoio massivo a Hitler nos anos trinta do Século XX, um dos piores exemplos. Mas há outros, bem menos evidentes. Alguns deles nunca reconhecidos, como a aceitação deste actual Governo pelos portugueses que, precisamente, votaram contra o Partido que agora o formou. Não foram indiferentes, votaram contra, pois o normal seria votarem contra quem antes governou Portugal, se fosse por esgotamento de Poder, ou condenação de políticas, na tradicional alternância de Poder em países democráticos, ao que acresce a difícil governação em tempo de crise económica e social profunda. Outros exemplos de prova social, ou seja, de comportamento apenas explicável pela imitação irracional apenas pela nossa inserção em sociedade é a filiação partidária e a associação num clube de futebol. Há exemplos graves, como o são as emulações colectivas em grupos de inspiração religiosa, ou seitas se assim lhes quisermos chamar, ou o actual fanatismo islâmico. 

Há casos de pouca gravidade que até determinam hábitos e costumes de um povo, e se transmitem entre gerações, como a moda, ou antes até, a tendência para esperar pela próxima moda, e pelo seu seguimento. Ou as tendências musicais, ou mesmo modas gastronómicas, como a actual sobre o sushi. Há situações de mediana gravidade, ou de extrema gravidade (pelo meu prisma pessoal pelo menos) como as reprovações sobre comportamentos de pessoas e casais, quanto a uniões, casamentos, atitudes ou preferências sexuais. Há uma prova social tacitamente aceite como benigna (maligna e causadora de muito mal, fundamentalmente de mentalidades, a meu ver, apenas) como a religião em si, e as crenças colectivas em geral. 

Há sociedades onde ideologias política nunca serão aceites de forma significativa ou mesmo perceptível, como o comunismo nos EUA, ou o fascismo em Portugal. Mas o oposto nunca é condenado. Quando afinal, a título individual e com a excepção de quem se insere nesses grupos condenáveis, por condenarem todos os diferentes de si, as preferências e tolerâncias seriam bem outras.

Há nesta tendência social, da prova social, algo de patológico, algo de impensado e insensato, pois a maioria dos nossos comportamentos, se fossem individuais puramente, seriam tantas vezes o oposto do que o são.

Há milhões de exemplos e há milhões de pessoas a seguirem comportamentos, ou apenas ideias, por este fenómeno e erro crasso, da Prova Social. O erro mais grave é nunca se parar para pensar e pôr em causa, mesmo que se decida seguir algum grupo ou tendência.

5.12.15

O mundo perfeito somos nós

Num mundo perfeito, abraçaria a neve e com ela faria bolas cintilantes e flocos em estrela para tas oferecer, assopraria as nuvens que se quisessem tornar cinzentas não as deixando pairar sobre ti, escorraçaria o frio para que o mundo fosse um abraço quente e te envolvesse.

Num lugar único, ergueria uma cidade onde sentisses tudo perfeito à tua volta, a música te deixasse dançar entregue à alegria e ao êxtase, o tempo não fosse medido em dias ou horas mas em momentos
perfeitos, que se encaixassem em teu redor, à medida do que tu quisesses.



Num abraço forte, iria proteger-te e nunca mais te queria vir sair dele triste ou indefesa. Num beijo, te daria um mundo novo que quisesses provar e nele te envenenasses para sempre. Num momento de paixão te prometeria tudo a teus pés. A fazermos amor...

...te levaria à Lua mil vezes, só para ter o prazer de voltar e te levar de novo, uma, outra e uma vez mais.

Se o mundo fosse perfeito, não existiríamos nele. Porque somos gente e gente normal e neste mundo que temos, fazemos perfeição acontecer todos os dias, meu amor.

Tu e eu! E nada mais conta!