26.11.15

Uma fracção apenas

Temos momentos e tantos momentos. Aquele em que tentamos gerir o ruído à nossa volta, da pressa automática e nervosa de tudo. Aquele em que não queremos ouvir nada do que nos parecem querer dizer, sem o querer, por quase gritarem num locar público, as suas vidas, as suas opiniões, desaforos, ou até as suas declarações de amor. Não é nosso, nem para nós e não queremos saber.

Só queríamos ter um espaço de silêncio para pensar, ou tentar inclusive a impossível ausência de pensamento.

Temos momentos em que o silêncio que até procurávamos nos é tão pesado, que tudo daríamos por um bocado de ruído dos outros. Temos momentos musicais. Temos momentos de assombro por alguém. Momentos de emoção e comoção. De auto-comiseração, sempre julgado ilícito por alguém. De altruísmo, puro ou maculado. De egoísmo saudável, ou condenável.

E temos tudo, em momentos, estanques ou confusos e entrelaçados. "I am a strange loop", escreveu Douglas Hofstadter. E somos todos, a vida toda.



Há sempre uma luz aí qualquer, que nos pode proteger de um ruído cansativo e desgastante.

O ruído pode vir de algo que não se realiza, e nos vai moendo. Ou de algo que se verifica e não aceitamos. Pode ser som, ou não ser mais do que um silêncio que nos ensurdece, como alguém o disse.

Mas essa luz pode revelar-se, e estarmos invisíveis a ela, ou opacos a que nos alcance. Mas há sempre momentos. E só precisamos de um único. Um só momento e tudo se transforma, e os ruídos já não nos alcançam mesmo quando os ouvimos bem ensurdecedores.

O lapso de tempo que nos leva a entender um momento único e diferenciador, que confio nos acontecer uma só vez, não por ser apenas único, mas por ser totalmente distinto e totalmente revelador e importante, é o que nos leva à compreensão dele. À sua percepção, aliás. A compreensão nem interessa que chegue, pois não estaremos de sentidos em alerta para o entendimento.

Uma fracção de luz e o momento já tudo mudou e nada mais será como antes. Mas não é uma luz qualquer. É a luz! E ninguém a viu mais, só uma vez foi avistada, tudo o mais depois é a sua intensidade a crescer, no que só quem a vislumbrou pode viver, esticar os sentidos e desenvolver-se nela até ao fim do tempo.



Não é luz de nos tornar tudo claro, mas de nos deixar confusos, aliás. Depois sim, seremos iluminados e guiados e nos deixaremos levar. Abre-se-nos numa fracção e não deve esvanecer nunca mais.

À nossa volta o ruído do mundo prossegue e já não queremos saber.

17.11.15

Alvorada algo fria

Está a chegar o frio. Há quem diga que pensamos melhor com o frio. Confesso que eu...sinto frio. Mas talvez exista uma razão para que se diga tal coisa. Talvez o calor ambiental nos puxe fisicamente, nos leva a actividades no exterior das nossas casas. O frio, pelo contrário, deixa-nos em casa, e em actividades no interior, da casa e de nós. São conversas mais demoradas com os nossos, são as memórias que elas trazem, são as nossas leituras, os filmes e tudo o que, também nos leva a, talvez, pensar mais.

O frio logo pela manhã ainda a aguardar o despontar do Sol, é provavelmente revitalizante, se sairmos à rua, para um pequeno passeio. Um revisão de momentos vividos, bons e maus, um esquema mental qual folha de cálculo na cabeça, para alguns planos para tempos próximos. Como a formiga, talvez, a preparar outro frio, mais intenso, outro calor humano, mais compensador.

O Sol já começa o seu dia connosco, deixando outros no início da noite, levando-nos a mais um dia que ainda mal descortinamos, no que estiver fora das normais rotinas. Mas o que iremos pensar hoje, o que iremos sentir hoje, a cada dia assim...

A descoberta de como iremos estar, emocionalmente, não é a mesma coisa que a intenção de como iremos estar. Como os nossos pensamentos condicionam o nosso estado emocional, o que o dia nos trouxer também, o que as pessoas nos derem, ou retirarem também.

E...

Há essa reserva de emoções, que vamos contendo porque temos de nos proteger, porque algumas legítimas, não podem ser vividas livremente, ou o dia logo ao despertar não nos irá ser leve. Ou há outra reserva que deixamos que se liberte no sangue e nos encha o corpo todo e alguma euforia, mas muita intensidade de viver nos altere o dia que ainda dá os primeiros passos, a luz do sol já tornando visíveis os prédios lá fora, os sons dos carros ganhando forma e espessura pela visão agora certa dos mesmos.

E...

A visão do que tanto queríamos ver ali, bem à nossa frente, digo, a um palmo de tocarmos o que tem sido tantas vezes uma visão construída e sonhada, à luz ténue mas quente e afagante do que a mesma nos inspira. A vontade e desejo a misturarem-se, a crescerem com a luz do dia.

No frio, talvez o impulso de pensar seja mais claro, mais translúcido, é possível que a mente goste do frio, como as árvores gostam dele para renovar os rebentos na Primavera, após a dormência dos gomos. Talvez precisemos da mesma dormência, e consigamos antever uma renovação pela Primavera.

Quando a luz se espraia lá fora, a vontade de um novo dia em que tudo corra bem, entra em nós na mesma medida e de nós depende que assim seja, as outras vontades dando força à nossa.

Mas é tão bom sair da cama com o sol ainda apenas a ameaçar aparecer. E sair à rua, com mais vontade de nos enrolarmos no dia e na sua luz do que antes, em dias anteriores já o fizéramos. E levarmos connosco o sorriso que o Sol nos diz devermos ter. E há um sol humano que só alguns conseguiram encontrar que ainda tem mais luz e nos abraça mais forte. E devemos levar connosco.


13.11.15

Opiniões e ideias

O que é uma ideia e o que é uma opinião? Todos sabemos, provavelmente. Uns, até terão melhores palavras, melhor forma de explicitar o que uma e outra coisa são do que eu. Mas esta é a minha ideia, sobre as ideias e sobra as opiniões que temos, sobre acontecimentos, sobre projectos, planos e, claro, ideias.

Um ideia sobre alguma coisa, um objecto, um acontecimento, uma pessoa, muitas pessoas...é uma criação nossa, mental, e ainda vivida com o que ela nos transmitir fisicamente, visto que nas ideias, as emoções também estão presentes. Esta uma forma demasiado simplista e redutora, para intencionalmente simplificar, sem entrar numa das áreas de Conhecimento que mais aprecio e me fascina, a Filosofia.

Uma ideia existe, sem ter de se sujeitar a uma comprovação, ou mesmo a uma comunicação da mesma a outros. Não é por a termos apenas para nós, sem a escrevermos, o que tem, aliás, muitas limitações inerentes à nossa capacidade de materialização de ideias e da sua explicitarão, que a ideia deixa de existir. Mas é mais do que um pensamento, que pode, por assim dizer, ser um fragmento de uma ideia, ou um extracto dela. Nisto, alguns concordarão, outros logo discordarão. Normal.

O que me leva à Opinião. O que é, o que vale? Para mim é, sobre um pensamento e uma ideia, colocar o nosso apreço, ou desapreço, a nossa defesa, ou a nossa oposição. E porque são importantes?  Para mim, de novo, porque são uma forma de participação, em algo muito para além de nós, uma contribuição, e esta não tem de ser sempre favorável ou construtiva, uma forma de pormos fora de nós o que nós somos, um passo nessa construção do que somos, também. Vale para um o que cada um entender, muitas vezes vale mais na forma como a expomos, do que no seu conteúdo, e, frequentemente, leva tanto a uma agregação de opiniões e pessoas próximas, como à divisão e afastamento. No que está mal, e nisto serei veemente, sem me importar um pouco que seja com opinião contrária, lá está, no que está mal é quando uma opinião leva a afastamento de pessoas que se respeitam, admiram ou mesmo têm alguma espécie de sentimento, de amizade, de consideração amistosa, de respeito social ou até de amor.

Uma opinião não deveria nunca afastar ninguém que nos seja próximo. Ao que chamo não apenas de tolerância, como de respeito numa atitude de consideração e cordialidade, ou mesmo, bem mais importante, numa atitude inteligente de nunca deixar deteriorar, ou mesmo destruir liminarmente, o valor das pessoas, para além, muito para além das opiniões, eventualmente divergentes. O que conta são mesmo as pessoas. E com elas, o valor das suas ideias, e das suas opiniões. O que conta até, é a capacidade de termos e de recebermos opiniões divergentes e não desrespeitarmos quem difere, nesse particular de uma mera opinião, mesmo sobre um assunto da maior importância, por qualquer razão que nada tem a ver com saber estar socialmente, emocionalmente e saber manter à nossa volta quem muito possa discordar de nós, como até concordar.

O que muito observo, numa frequência inesperada e, até, direi mesmo, doentia, é o uso das nossas opiniões para nos mostrarmos melhores, com mais razão, com maior conhecimento, ou com uma suposta, apenas suposta até prova em contrário, inteligência superior. E, pergunto, se nos enganarmos perante opiniões distintas, somos piores, somos inferiores? E se acertarmos, somos melhores, rir-nos-emos dos outros? E de que serve esse duelo, essa, direi, mania muito actual, de usarmos as nossas opiniões para demonstrarmos uma qualquer superioridade, uma razão de maior qualidade, uma frequência superior em acertarmos?

Onde anda a tolerância, o respeito pela inteligência dos outros, pelas manifestações das nossas inteligência e das nossas diferenças? Por acaso nos quereremos vangloriar de sempre convencermos outros por uma suposta superioridade? Por acaso acreditamos que por essa via teremos mais sucesso ou seremos mais felizes?

Que me importa ter razão se perder uma boa amizade, ou, em exagero, ou numa atitude de má gestão de emoções e de razão, perder um amor? Ou um simples relacionamento cordial, de respeito e admiração, que de simples nada terá, porque não tem de ser pior ou inferior a uma forte amizade, apenas sendo de qualidade individual inferior para nós, na comparação com relacionamentos sentimentais, obviamente.

Porque queremos atirar as opiniões aos outros, como quase de objectos se tratassem? Porque queremos a todo o custo mostrar a alguém que temos mais razão, ou apenas temos razão e outra pessoa não, em assuntos que nunca se poderão demonstrar, por se ficarem nesse muito rico campo da filosofia. E mesmo que se demonstrassem? Porque razão não nos incomodamos sequer em perder pessoas, porque ganhamos em opiniões?

Se dizemos que a sociedade tem evoluído, terá a nossa tolerância evoluído também, ou há momentos de regressão difíceis de entender? O espírito democrata por onde anda? Há quem me acuse de um aspecto, de uma opinião de que me defendo, com toda a convicção. De não aceitar opiniões de quem é comunista. Exactamente. Nem de quem é fascista. Exactamente. Porque vêm de quem nada aceita e até pretende eliminar, aniquilar, destruir, ridicularizar, mascarar, e recriar as minhas e as de todos, os não sejam como eles. Coisa que não discuto, por perder o meu tempo que muito estimo, é religião com religiosos, por ser ateu convicto e muito bem fundamentado. Coisa que não discuto é política com alguém que nunca aceitará sequer uma pequena fracção do que penso ou do que opino, por não aceitar sequer alguma coisa diferente do que pensa, como é o caso de um fascista, ou de um comunista. Discutir abertamente, filosófica e democraticamente, com cordialidade e educação dogmas com dogmáticos é desrespeitar-me e ao meu tempo e energia. E por em causa o que eu mesmo penso. Um comunista não deve fazer parte activa da participação democrática. Precisamente. Tudo o mais, quem de mim diferir mas se mantiver nos balizamentos da mentalidade democrática, são bem vindos.

E não usarei as minhas opiniões como pedras contra alguém, não farei delas uma arma de demonstração de uma nunca demonstrável superioridade e, sobretudo, não pretendo por em causa relacionamentos elegantes, educados, cordiais, de amizade e muito menos sentimentais, para "fazer valer" uma opinião, ou demonstrar razão, perdendo em tudo o resto que para mim conta bem mais!

Como costumo pensar e viver em conformidade, pouco me interessa ter razão, interessa-me bem mais ter resultados. Apreciar amizades e saber mantê-las pela vida, com tantos que são tão, mas tão mesmo, diferentes de mim, é um prazer e não um calvário. Apreciar relações ainda mais próximas, por força do valor delas, bem superior, ainda mais importante se torna. Não pretendo isolar-me dos outros mantendo uma opinião contra tudo e todos, mesmo que quando veicule as minhas, tenha apenas em conta o que penso, porque até sei que o que penso é todos os dias influenciado pelos outros e principalmente pelos que mais aprecio ou amo. E com todo o prazer o faço.

Era este o testemunho, num momento em que observo tanta gente a criar relações e comportamentos fraturantes e desenvolverem afastamentos, porventura irreversíveis, com prejuízo sempre de duas ou mais pessoas. Embora haja quem pense que só se prejudicam uns.

Ter razão conta tão pouco se perdermos as pessoas!

9.11.15

A verdade e a sensação de felicidade

Dan Gilbert, psicólogo de Harvard é conhecido pelas suas pesquisas sobre a nossa percepção de Felicidade.

Gilbert chegou à conclusão que não temos mesmo a noção do que temos como Felicidade, do que nos faz felizes. Surpreendente. Se perguntarmos a alguém porque se sente feliz, normalmente a pergunta apanha a pessoa desprevenida. E normalmente, diz Gilbert, a resposta é uma recriação, muito pouco correspondente com a realidade.

O nosso cérebro é o único capaz de criar imagens e sensações e quase adivinhar o nosso estado de espírito perante um acontecimento que ainda é futuro. Somos capazes de "sentir" um toque, num tecido, ou um sabor de uma comida que ainda não provámos, um odor que nem ainda cheirámos. Não parece assim tão surpreendente, mas é. E esta interpretação da felicidade é, segundo Gilbert, mais uma criação mental do que, com frequência, uma percepção ou uma noção real.

Provavelmente, Gilbert não inclui a sensação de felicidade perante sentimentos forte, excepto se sentidos a um, ou seja, se não confirmados, como é o caso de um amor, pelos dois confirmado. Uma das razões da própria necessidade de confirmação, constante e difícil de manter. E, ainda, razão, porventura, porque as coisas podem falhar quando a confirmação falhar. Por confirmação, pode-se incluir tudo. Desde as palavras trocadas, como os sinais, positivos, como os sinais negativos. Nestes, a sensação de desconforto quando alguém que sentimos e até sabemos ter na nossa companhia o verdadeiro prazer, ou a expressão mais forte de amor, divide parte desse prazer com outras pessoas, sem que a divisão implique sequer a divisão de sentimento igual. Ou seja, sentimentos fortes e cruciais, como amor, lealdade, amizade sem cobrança alguma, podem ser comprometidos se não houver confirmação recíproca. Mas a nossa noção de felicidade, porque passa em grande parte por uma criação mental, tal como vermos o que nos dá jeito ver, perturba a clareza do próprio sentimento.

E, nesse caso, penso que Gilbert tem razão. Construímos uma noção de felicidade, tal como construímos o próprio mundo. À dimensão de como queremos que as coisas sejam.

Apesar de termos outra noção, acima explícita, da realidade pelos olhos de outra pessoa. A felicidade que sentimentos forte nos pode transmitir necessita bem mais, porventura da confirmação da razão dela existir, pela palavras, actos e continuidade pela pessoa objecto do sentimento que temos, do que por uma noção nossa, autónoma. O que contradiz a expressão que todos conhecemos de que "amamos mesmo sem que nos amem". Diria quase sem uma impossibilidade. Sê-lo-á seguramente. Se assim analisarmos, e assim crermos serem as coisa, então o Amor, ou a Confiança, a Lealdade, não são sentimentos e atitudes altruístas, como é comum e socialmente correcto dizer-se, mas antes egoístas, pois necessitam de correspondência para existir. E a felicidade que tais confirmações nos pode dar, estará ligada umbilicalmente a esse egoísmo saudável e desejável, única forma de amarmos e sermos amados. O amor não é altruísta até por se demonstrar ser um sentimento social, não individual. Existe se estiver ligado a ser recebido e não apenas oferecido. É onde falham muitos textos românticos e clássicos, que em tudo o mais exprimem bem as intensidades e vivências do sentimento. Por tal ligação da felicidade que o amor nos pode transmitir a outros sentimentos, como lealdade e confiança,  que nunca podem ser menos do que totais, como o amor em si, a necessidade da mesma ligação é fundamental.

O nosso cérebro consegue criar e recriar e antecipar sensações, mas quanto a sentimentos, pode apenas adivinhar, mas a necessidade de confirmação terá de vir de um outro cérebro, precisamente do objecto do nosso sentimento.

Não se estranhe, pois, a coexistência do ciúme, que tentamos conter e controlar a bem da persistência e vida do sentimento, mesmo com as mais pequenas coisas, como a divisão ou partilha de tempo com outras pessoas, por quem nem temos sentimos do mesmo valor, nem disso se aproximam. Não se estranhe que a noção de felicidade no que a sentimentos respeita, tenha de viver em igualdade de valor e intensidade com confiança e a sua prova cabal, a lealdade. Não há pois meios amores, ou amor por algumas coisas apenas. Tudo é absoluto, a partir de um dado momento ao menos, ou não é, simplesmente, nada.

A felicidade por via de amor, é uma necessidade em si mesma. Não uma casualidade.


7.11.15

Mãos

Olhava as mãos como frequentemente fazia, como numa espécie de aquecimento, antes de começar a procurar as palavras, com que queria preencher espaços no papel. E, mais uma vez, não entendia, tinha de estudar este assunto. A transmissão de uma ideia, começava onde? Na percepção do mundo, provavelmente, muito antes de vir a saber sequer se alguma ideia lhe surgiria, se algum recanto novo de mundo podia fazer surgir, com a palavras. Reais ou não. Bem, reais são todas, o que traduzem é que pode não ser. Isso já pensava ter esclarecido.

Mas este processo... uma, duas, milhares de impressões, conscientes, ou subtis, inconscientes, e algo novo se geraria, ou a confirmação, repetição de algo já demasiado conhecido. Aquela janela ali, aquela luz filtrada, ajudariam. Era uma luz serena, redonda e doce, silenciosa, sem atropelos e ruídos obstaculizantes. Era a sua luz preferida, para pensar, ler e escrever. E, olhando as mãos magras, dedos esguios, pensava poder teclar melhor, com mais destreza, ou agarrar a palavra preferida. Mas isso eram parte das boas condições. Que lhe faltava? Tema? Ou as palavras se encarregavam de o encontrar? Normalmente, um resquício de ideia, um pequeno sinal, um empurrão do quotidiano, sem importância qualquer, se poderia traduzir num conjunto de palavras, que ao cair...esperava criar alguma magia, (como dizia Kipling "como uma pequena gota de tinta que ao cair numa folha, faz com que milhares de pessoas, talvez milhões pensem". Pretensão para grandes apenas... ) normalmente nunca surgindo. Como faziam os grandes? Inspiração ou trabalho? Teriam mãos mais hábeis, ou tudo lhes vinha da cabeça? Claro, da cabeça. De onde mais? Algures tinha lido sobre a formação das ideias, ou das decisões, que as ideias podiam gerar. Ora, escrever, sobre o que seja, seria a concretização de um processo decisório. Começava, recuando, na tal percepção do mundo, de uma parcela ínfima dele. Mais nada, mas isso era muito. Era, diziam os especialistas, a etapa mais importante do processo. De decisão. Por isso, também achava o  ter lido, noutro lugar de papel qualquer, que um bom escritor teria de ser antes de mais um bom observador. Algo como...observar sem subjectividade. Como se fosse possível. E, uma vez mais, exaustivamente mais, olhava as mãos, num paralelo entre o seu uso na escrita e na moldagem de cerâmica, na pintura de uma tela, nas carícias a um corpo feminino. Um uso inteligente sempre obrigava a uma dedicação exclusiva do momento. 

Moldar um corpo belo de uma mulher (ou uma mulher, o de um homem), fazendo por transmitir todas as sensações previamente vividas e guardadas, não era coisa qualquer. Era a suprema arte. E superava, tinha de ser, todas as outras. Transmitir todo um mundo, todas as sensações de uma experiência a outra, como se a primeira fosse, ou a última pudesse ser? Transmitir e receber. Quem, num cerrar de olhos, concentrar nas mãos toda a experiência de sensações incríveis, de exploração, de gravação do conhecimento de cada centímetro de um corpo, sentido e (muito) fazendo sentir, para a ver e a ter nas mãos um poder especial, um mundo todo por conhecer. As mãos num corpo são fisicamente o mesmo, mas sensorialmente muito distinta experiência da de um corpo nas mãos. Uma cara bela, ou uma cara que se vê bela entre as mãos, num afago único, todo sentido, todo protecção, todo ...é como querer agarrar num gesto apenas toda essa beleza que se vê, e não a deixar escapar. É uma das melhores e mais inesquecíveis artes de sentir com as mãos. E de transmitir, também, o que somos. Mas todo o contacto das nossas mãos com  um corpo se pode transformar, de um simples sentir físico a uma sensação profunda e incomparável. Afinal, um dos sentidos mais apurados, não sendo apenas a visão e audição, é o tacto. Mas o tacto deve ser ensinado, a nós mesmos e com a interação do que fazemos sentir a alguém. O que torna as nossas mãos algo mais do que um órgão, um membro, é o sentido que lhes damos. E isso é tanto nestas expressões sensoriais, quanto nas artes que elas conseguem elaborar. É uma evolução de algo aparentemente vulgar e vulgarizado. Usamo-las para quase tudo. Mas podemos aperfeiçoar o uso que lhes damos, ou o momento em que as transformamos num instrumento de sensações fortes, intensas e um extensão física fundamental de sentimentos. O toque num corpo, num momento de grande intimidade, num outro de forte sentimento, não é tão diferente como o uso numa criação artística. Mas, o que as torna únicas, às nossas mãos, é num toque corporal, a pessoa que possui o corpo que é tocado e sentido. Era isto também, era isto, acima de tudo. Acima de tudo.


E na escrita? Como se deviam comportar as mãos, após a dita percepção, assimilação e decisão executiva da acção. De escolha de uma palavra e não outra, de uma frase...e de um tema. Como o percorrer suavemente um doce corpo que merecia ser amado...cada milímetro implicava uma decisão, ali tomada em fracções ínfimas de tempo, e exigindo uma execução de rigor, mas de muita sensibilidade. E na escrita não? Claro que sim, mas a sensação lida, era bem outra. Não era sentido ao momento, mas era cheirada, lida e deglutida pela mente. Não escorregava algum descontrolo. Não exigia também, controlo. De nenhum, do autor, da escrita, que não dos toques de pele, esse sim um outro, que por uma vez se descontrolando controladamente, daria um eventual prazer maior.



E um pintor, o mesmo? O toque também era importante, a inclinação dele, a pressão, a intensidade, a largura do traço, fosse pincel, ou dedos. Talvez mais como o uso de um toque de pele na pele. Seguramente uma tela se aproximaria muito de um corpo de mulher. E começava sempre nua. Sem nada de história antes do primeiro toque, sem passado mas com todo o futuro por surgir. O processo criativo. Mas...bem! O toque, pelo menos o primeiro, e porque não todos se a inteligência suportasse o uso das mãos como era devido, todos os toques, por dias, semanas e anos...percorrendo um suave corpo de curvas animadoras, prometedoras...um toque que mudava em minutos, com a humidade da pele a dar novas sensações, o aroma...esse fantástico odor, pelas narinas entrando, mas deixando memória nas mãos...não eram arte, sem passado, mas com todo o futuro pela frente? Nem que o futuro durasse minutos. Era futuro e era uma delícia de futuro. Era arte. De quem dava e de quem recebia. No receber, havia imensa arte. Nunca se repetindo de corpo para corpo, ainda que as mãos fossem as mesmas.

Mas o tema era escrita. E escrita seria. Num papel, numa tela, ou num maravilhoso corpo feito ao milímetro para exigir que as mãos que o tocassem se superassem. A todas as vezes. Como numa arte gráfica, ou cénica. De cada vez...um mundo quase todo novo, ou inteiramente.

Tocar era assim algo que muitos descuravam, mas era essencial. Saber transmitir. O que o cérebro, mais consciente, mais descontrolado lhes diga. Por isso as olhava para as preparar, a cada momento da arte que se lhe apresentasse. Era um desígnio. Uma sabedoria que se ia construindo e crescendo, nunca sozinho. Era a tela, o papel, a cerâmica, uma delícia culinária, um gesto desportivo, um toque de amor num corpo de mulher. Deixando as suas palavras nessa pele, gravadas. Ninguém as apagaria.

Seria pretensioso ansiar que, como Kipling, cada toque, numa tecla, pela tinta ao tocar no papel, pelo crayon de pastel ao escorregar na tela, pela moldagem sensual da cerâmica, pelas sensações transmitidas a um corpo...contivessem e despertassem essa mesma magia? De sentir e fazer pensar?

Por elas, mãos, se pode transmitir uma mensagem de paz, de amor, de serenidade de apenas...exaltação do melhor de um ser humano, despido de preconceitos, nu para novas criações.


1.11.15

Prepararmos-nos mentalmente, mas...

Cortisol e epinefrina. Hormonas que intervêm em resposta ao stress. Que também têm um papel na regulação da glicose e de funções alimentares, desempenhando, por isso um papel na nossa dieta alimentar. 

O cortisol é produzido nas glândulas supra-renais e o colesterol está na sua base bioquímica. E em situações de stress, o cortisol, que é considerado tóxico, a nível cerebral, dá-nos uma sensação de nevoeiro mental, de confusão, por um efeito ainda em estudo, mas provavelmente associado ao constrangimento dos vasos sanguíneos o que, aliás, nos faz responder ao stress, pelo desconforto e de um ritmo cardíaco mais elevado, descontrolado também. A nível mental, a sensação de falta de controlo racional e emocional, provoca-nos a necessidade de uma reacção contrária, para bloquear o stress. 


O nível de produção de cortisol, tóxico em excesso é importante na defesa, na prevenção de situações stressanets e na preparação do nosso sistema de alertas, em conjunto com outras hormonas.O stresse excessivo pode ser extremamente desconfortável a par do descontrolo emocional. Está por demonstrar o efeito "droga", impulsionador de mais tensão, stresse e descontrolo, provocado por excessos hormonais e por combinações tóxicas para um normal funcionamento cerebral. Mas parece ser real que em situação de forte carga emocional, as produções hormonais se desequilibram. Evitar situações de descontrolo e stress, pode passar desde logo pela consciência delas, pela noção perfeita dos efeitos pós stress e descontrolo, pelas consequências aliás, para nós mesmos e pelo que a outros que nos são querido pode causar. 

A noção, o conhecimento dos nossos momentos de maior tensão são a nossa maior protecção. Não pelo evitar liminarmente, mas apenas pelo controlo, sobre o descontrolo. Uma depressão, principalmente se não completamente controlada medicamentosamente, pode ser um factor de segurança pelo que acarreta de auto-conhecimento fundamental. 

O controlo medicamentoso, muitas vezes fundamental, ofusca e adia sempre esta possibilidade de reacção e de correcção de comportamentos. Muitas terapêuticas médicas, na realidade a esmagadora maioria, são baseadas numa outra aérea da Ciência, a Estatística. E com ela, a Medicina fica refém de dados comprovados como estes (isto é afirmado por cientistas a sério): estatisticamente são necessárias 300 pessoas para que um medicamento actue em 1. E os efeitos secundário? Por cada pessoa, 5 % de feitos secundários possíveis e graves. Ou seja, das 300 que tomam medicação, 1 pode ser beneficiada, mas 15 serão afectadas por efeitos secundários, quer dizer, 5 vezes mais por estes efeitos, do que pela cura. 

O grande truque é ...pensar, tentar prever situações. E muitas, serão impossíveis. Se uma discussão com alguém se pode evitar, ou diminuir os riscos de não a controlar, ou se uma situação de esquecimento de objectos e actos diários nos pode provocar stress, podemos tentar organizar o nosso mundo. Desde logo, em situações como exemplifiquei. 

Porque já outras, como uma emoção forte, provocada por algo totalmente inesperado, como um acidente grave com alguém que nos é querido, uma doença de um ente querido, ou mesmo nossa, uma morte de alguém, ou, pelo contrário, um acontecimento de grande felicidade, com um filho, connosco, como um sucesso pouco esperado, ou, evidentemente, o nos apaixonarmos quando menos esperávamos, ou nem queríamos, nestas situações toda a preparação é inútil. Totalmente inútil. E em muitas nem faria sentido estarmos preparados, pois há outra perspectiva dos acontecimentos e da vida em geral que tem a ver com o lado não emocional, mas sentimental dela. A beleza do inesperado é, por vezes o que mais nos preenche e exalta como pessoas. 

A beleza de sermos surpreendidos, por outros e por nós. A beleza de nos terem elogiado no trabalho e, com muito maior razão de causa, a de nos sentirmos apaixonados e vermos isso na pessoa objecto desse sentimento. Podemos e devemos preparar-nos com os nossos factores de segurança e com o controlo, programado, que conseguirmos, mas não em tudo. O surpreendente é um dos maiores encantos da vida.

E se o controlo é fundamental, numa fantástica e desafiante viagem diária entre razão e emoção, entre consciente e subliminar, entre prever e nem querer saber o que vem...o mais surpreendente e o maior desafio é ter a sabedoria ao alcance de muito poucos ( e não nos esqueças que todos somos diferentes com todos os que conhecemos, ontem e hoje) de transformar um sentimento forte e muito pouco controlado, em outra coisa ainda maior e mais compensadora, que é ir sabendo alimentar o prazer que outra pessoa nos dá, toda a felicidade que esse sentimento maior nos oferece...