31.10.15

Dias. Há dias...

Uma vez por outra, cai-nos a Lua em cima. Não é não esperar, é não querer mesmo. Mas não há como fugir dela a tempo e ...quando nos damos conta, lá fomos esmagados pelos nossos melhores sonhos e pelos mais temidos pesadelos. E depois?

Fôramos de pedra e faria alguma diferença, algum efeito? Somos de carne e muitos neurónios e estes malandros pregam-nos com cada uma...

Pois é. Se arranjarmos uma caixa para arrumar todos os nossos erros e disparates, todos os nossos excessos mais odiados, e com eles, a cobrir tudo antes de fechar a dita caixinha, os nossos mais pesados remorsos, talvez a caixa se verifique ser maior do que todo o nosso mundo e mais longa ou complicada de deslindar, se a abríssemos, que uma vida inteira. Por sinal, talvez tenhamos todos uma caixa de Pandora privada e que preferiríamos esconder no sótão mais remoto que encontrássemos. Mas Pandora é sagaz e foi inventada para nos retirar a serenidade. Salta-se-lhe a ela, e a nós, a tampa...

Nessa caixa, que guardaríamos, bem longe da vista de todos, em particular dos que mais acalentamos a esperança nunca nos verem com a imagem tocada. Mas imagens intocadas é coisa de Hollywood. E as caixas dos nossos segredos mais ou menos negros são por vezes encontradas, ou por vezes se perde a tampa, ou ainda num momento menos inspirado, arrancoma-la nós. E depois? Somos piores por isso? Não temos todos uma, bem em segredo?


O que é mesmo bom é que alguém nos ajude a levar de volta ao sótão, a maldita caixinha. Se houver esse alguém, talvez a dita nunca mais saia do sótão e as teias que por lá abundem a escondam até ao fim dos tempos.

Mas o que se guarda numa caixa dessas pode até ser precioso. Sabemos que...nenhum animal, dos que não pensam, não dos que se conhecem de quatro, tem tal caixa..negra. Sabemos que só a terá quem com muita intensidade e, note-se, algumas especiais necessidades, viva momentos. Viva momentos, coisa de humanos, armados em sensíveis vibrantes. Os de pedra acocoram-se numa perfeição que só eles vêm, e por de cócoras viverem, ficam mais perto do solo, por onde também andam os bichos.

Importante, repito é que se saiba tudo o que o baú esconde e se use, porque é parte de nós, que se use mesmo. Mas que se saiba usar. E o inconsciente, o mau da fita, incompreendido irmão pobre do próprio cérebro, mas afinal ele mesmo, sente-se tantas vezes preso, que um dia grita à luz do sol, ao que responde a Lua e nos tomba em cima.

O Cientista não estará presente, mas há muita ciência acumulada nos sentimentos mais fortes, dos que nos são mais fortes e sempre mais presentes. E nos levam o arca de volta ao sótão, talvez.

Só para humanos excepcionais, sejamos claros. O que é mesmo bom é sermos humanos em encontro com outros como nós. A pedra fria, que se arranje, na companhia dos seus iguais. Não?

28.10.15

Daqui à Lua

Daqui à Lua, não é um saltinho.

Ir à Lua é uma expressão interessante. E algo mágico pode esconder. Normalmente, significa que há algo que nos faz sentir completamente fora de nós, uma outra expressão carente de explicação. Um aspecto intrigante nestas expressões é precisamente o facto de elas pretenderem resumir uma ideia de algo forte, muito intenso, ou muito difícil de explicar e serem assim usadas, tendo como resultado dificultarem ainda mais a explicação. Que fica, então, ainda menos clara e, até, algo misteriosa. O fascínio em certas expressões está em algo de mágico e de impossível. Uma das maiores dificuldades da linguagem, como tais expressões bem exemplificam, é a quase impossibilidade de se conseguirmos exprimir uma ideia, um sentimento, uma sensação, um momento de intensidade emocional ou de prazer muito absorvente ou transcendental.



Ir à Lua, ser levado à Lua, levar à Lua. Porque a Lua foi um mistério durante muitos séculos. Porque era em si mesma, tão visível e tão inexplicável. Algo transcendente, impossível de se atingir, e se associava, assim, a um momento efectivamente vivido, mas uma impossibilidade de ser transmitido por palavras.

Já teremos, provavelmente todos nós, sido "levados à Lua" uma ou outra vez. Felizardos os que o foram repetidas vezes e, os que sabem ainda irem ser levados por imensas vezes mais, são uma espécie de "povo eleito" a quem tudo o mais lhes parecerá "terreno" e menor.

Porque esse ideal, esse imaginário que a Lua sempre constituiu não se perdeu na frieza científica da aterragem Lunar da Apolo 11. E as palavras de Neil Armstrong (That's one small step for man, one gian leap for mankind) também podem ainda aumentar esse imaginário do que é quase sobre-humano, transcendental. E quando recordamos momentos único, a nossa tendência, mesmo à falta da expressão, é comparar com a viagem ao nosso satélite de imaginário ora romântico, ora de algo inatingível.

Esse pequeno passo para o Homem, em momento de transcendência, inverte-se num...pequeno passo para a Humanidade, mas um passo gigante para o Homem.

E um muito breve, efémero momento, pode ser essa viagem, que afinal se passa dentro de nós e se reveste da impossibilidade de se descrever. Esta impossibilidade é, em si, uma fascínio tão filosófico, quanto ideário do romantismo mais intenso.

Hoje a Lua estava especial, ou a vi assim. Mas uma visão tantas vezes repetida, pode tornar-se num giant leap for Man, porque é em nós que tudo se passa, e esse tipo de inesquecível transcendência não sai integral de dentro de nós. Daí a utilidade da expressão. Ininteligível, mas cabal no que mais difícil se torna, com palavras normais.

Ir à Lua, ou ser levado à Lua é uma memória e uma promessa. Encerra tanto de superior ou de inatingível, como de romântica aspiração, ânsia de sobre-humano, ou simplesmente a mais estranha forma de expressão de algo que nos torna maiores. Por um lapso de tempo, também ele difícil de mensurar.



Afinal a Lua não tem qualquer culpa, essa, a "culpa" está na nossa Mente. E ter essa "culpa" é um algo que muitos queremos ter.

Deixem-se levar, ou levem alguém, ou vivam a viagem solitária da ultrapassagem de vós mesmos, uma capacidade sobre-humana, que apenas humanos podem almejar. A Lua ainda lá estará por uns dias mais, e até estará sempre, enquanto por cá estivermos, visível ou não, na certeza da sua existência, da sua presença. Para tornar muita coisa menos trivial e nos embuir de sensações de transcendência.


22.10.15

Gratidão

Passados uns bons anos, desde o começo de uma aventura fantástica, que é viver...com a única forma de o fazer que conheço, intensa e apaixonadamente, dou por mim a avaliar, reavaliar e nem sempre concluir. Porque nem tudo tem resposta, e nem interessa que tenha. Mas tanta coisa tem valido a pena e assim parece continuar.

Não me arrependo. Do que quis fazer comigo, do que fui tentando ser. Mas, fundamentalmente, não me arrependo de ir juntando à minha aventura, tanta gente fantástica que só não me surpreende, porque, verdadeiramente sempre acreditei na natureza humana e, com muito mais propriedade, em todos os que fui conhecendo.

Numa viagem que se reinicia repetidamente, confirmo o que percebi nas pessoas, nas minhas pessoas.  Os filhos...parece trivial, mas não é. São uma confirmação de quanto vale a pena sermos apenas apaixonados pela vida, o que os coloca no centro de tudo isto, na maior razão de todas, pela vontade reconfirmada de ir persistindo e dando humildemente de mim o melhor.

Mas não me arrependo. Contra tanto que se possa imaginar, ou erradamente, apressadamente julgar, muito poucas foram as pessoas que me podem ter desiludido. E as poucas que o fizeram, nunca foram do meu círculo mais próximo, afinal, das que amei, com quem vivi, com quem aprendi.

E não me arrependo, nem me surpreendo, mas confirmo. Nada mais garantido tem sido, do que este acertar nos que fui conhecendo. E nos que ontem, hoje e provavelmente amanhã, vão enchendo os meus dias, tantas vezes sem o saberem.

Com cada pessoa podemos sempre aprender, não dessa forma mais visível, mas da maneira subtil, que nos transformam em mais ricas e melhores pessoas também. Há quem esteja longe e me encha tanto os dias. Quem há tanto tempo não me surge nos dias e fez e faz parte de mim. Quem o fazendo, nem pode alguma vez medir a dimensão da importância em que se tornou.

Aprendi que a distância não existe, na materialização de um pensamento de enorme satisfação. Só a saudade, essa repetida ânsia de confirmar a felicidade de os ter conhecido, diminui a euforia de os ter conhecido. Aos filhos, em primeiro, desde o dia um de me terem sido apresentados...tornados possíveis por uma experiência de que não me arrependo nada, com a mãe deles.

E a tantos amigos, e a todas as mulheres por quem um dia me apaixonei. E a vida continua a ser uma paixão. Nas coisas mais simples e na confirmação, repito, não na surpresa, ou talvez também nela, a gratidão deve um dia ser sentida e gritada assim.

Um dia pode ser, ou parecer igual a tantos outros, excepto o de o nascimento de um filho e a cada um deles, uma nova etapa e nova aventura. Um dia pode assim parecer, mas o engano é total, quando olhamos para trás e percebemos que na esmagadora igualdade dos dias, houve-os que nos tornaram a vida bem melhor. E já me aconteceu tantas vezes e por isso...não me arrependo. Há quem fale em erros, eu prefiro experiências, por vezes difíceis, mas seguramente fundamentais.

O que verdadeiramente me satisfaz é ter este pensamento que a surpresa é substituída pela confirmação, afinal. Como me poderia surpreender com pessoas fantásticas, se elas já tudo tinham em si para me fazerem sentir grato? Apenas não me tinha sido evidente.

Aprendi que não se aprende com livros, cultura, conhecimento, experiência. Apenas. Mas com a possibilidade de nos abrirmos a que nos entre na vida gente que faz toda a diferença, o fez e fará. Foi assim no passado. Continua a ser, porque esta aventura não termina aqui.

O dia de aniversário de uma filha confirma, apenas, que é necessário deixar testemunho, de quanto vale a pena. E tantos outros dias e momentos também. Por uma vez, falarmos de nós e deixarmos prova de que as pessoas é que fazem a diferença e confirmam o valor da vida, faz todo este sentido. O sentido da vida está nessas pessoas, de nenhuma me arrependendo, de todas me sentindo grato e a cada dia me preenchendo mais.

Grato, pois.

16.10.15

A mente social


Quando estudamos a evolução humana, normalmente pelas ferramentas das ciências sociais, há aparentemente um aspecto que deixamos para trás. O do conhecimento do próprio cérebro, que ainda começa a ser desvendado.

Até 1950, antes de Roger P. Sperry da Universidade da Califórnia, a ciência assumia que um cérebro inteiro, com dois hemisférios tinha um mais avançado do que o outro. Incrível, não? Aos dias de hoje, a quem não parece isto inacreditável? Antes de Sperry ter apresentado os resultados de testes efectuados em pacientes com epilepsia, a quem tinha sido removido o corpo caloso, que une os dois hemisférios cerebrais, o cérebro era assim visto: Paul Broca nos anos de 1860 e Carl Wernicke tinham descoberto que o hemisfério esquerdo tinha a capacidade da linguagem.

Coloquemo-nos no lugar destes dois investigadores neurologistas. Não é a linguagem um dos aspectos que mais nos distancia dos animais? Não haverá quem não concorde. Nestas premissas, reside uma das vantagens, e igualmente uma das limitações do raciocínio científico. Onde a Filosofia pode dar uma achega fundamental, julgo.

Assumiu a comunidade científica, ainda com base nos pressupostos filosóficos até à época mais aceites, que no que nos distancia dos animais reside a nossa maior vantagem. A linguagem é um desses aspectos diferenciadores. Logo, atribuída ao hemisfério esquerdo, ele só podia ser o hemisfério privilegiado, e, por consequência, o direito, o irmão pobre. Uma espécie de cérebro a meia capacidade. Ou seja, andou uma humanidade inteira a usar meio cérebro, com o qual acabara de concluir, até aos anos 50 do século XX que com apenas essa metade chegara a brilhantes conclusões.

Serve este raciocínio para muitas coisas. A mais polémica e fundamental, a de que estudamos a mente com ela mesma. E imagine-se agora tirar conclusões ( e estabelecer dogmas!) com esta assumida limitação. Ou não assumida, mas verificada.

Com Sperry algo mudou, mas o cérebro já era o mesmo. Mudou a forma de o vermos, pelo menos a comunidade científica. O hemisfério direito era agora uma massa útil. Mas atentemos. Calcula-se que o cérebro possui cerca de cem biliões de células nervosas e cada uma delas se liga a cerca de dez mil outras. Mais ou menos cem biliões de interligações. Das quais a metade não era, digamos, de importância maior. Não que não tivessem uso, mas que regia por exemplo as emoções e essas eram factos menores, pois o pensamento sequencial e o domínio da comunicação pela linguagem era o aspecto distanciador entre seres humanos e animais. Esta preocupação, se não meramente científica, era fundamente à época. Sermos diferentes dos animais. Como se óbvio não fosse e apenas o tido como pensamento lógico-dedutivo, a razão, fosse a fronteira decisiva.



E é isto que ainda hoje, em geral, se observa. A valorização dessa razão face ao pensamento holístico, à visão de conjunto, às emoções. Há uns anos, a emoção como vertente mental dominante e distanciadora face aos animais (que ainda se designam de irracionais) ganhou terreno, psicólogos de todo o mundo elaborando conceitos, investigando e publicando as suas conclusões favoráveis a uma mente onde a razão não era sinónimo de superioridade intelectual. Tal como com a supremacia racional, a emocional tomou a vantagem, pelo prismas de novos investigadores. Um dos expoentes foi Howard Gardner, ainda hoje um respeitado e muito seguido psicólogo de Harvard. Daniel Goleman foi mais mediático e ficou famoso pela divulgação da Inteligência Emocional. Mas estes não se verificaram ser dos mais intrépidos defensores de uma nova supremacia, a do hemisfério direito.

Pelos dias de hoje, porém, a Mente humana começa, finalmente a ser entendida de forma mais abrangente, os seus dois hemisférios sendo então aceites como igualmente importantes e complementares. Um dos exemplos mais simples que li, foi o de um casal a preparar um jantar a dois, em que o homem verifica a dada altura não ter os ingredientes mais importantes para o elaborar. Com expressão algo irritada, olha para a mulher e diz “vou ao supermercado”. O hemisfério esquerdo apenas consegue entender a sequência lógica de palavras e não a emoção com que são ditas. O hemisfério direito interpreta a expressão facial. Um paciente com uma lesão, num dos hemisfério apenas iria interpretar o que o hemisfério saudável lhe permitisse e, assim, “vou ao supermercado” era uma ida simples...ao supermercado, sem se entender se a bem, se num acto de indiferença, ou num ambiente de crispação. O hemisfério direito, interpretaria a saída de casa do homem como algo a contragosto, com desagrado, ou muita irascibilidade.

O exercício que me proponho não é simples, podendo ser impossível.

É o cruzamento destes actuais conhecimentos sobre a Mente humana e, por simplificação, apenas nesta interpretação funcional de cada hemisfério, não tendo em conta todo o mundo ainda muito conhecido da nossa capacidade intelectual, com o tão parcial e distorcido conhecimento sobre a evolução humana, evolução das sociedade, escolhendo um âmbito qualquer por necessária prática analítica. Concretizando...

O comportamento económico. O comportamento político terá acompanhado todo este potencial intelectual que todos temos, e em que as diferenças de uns para os outros se devem a muito subtis distinções de funcionamento cerebral, com uma imensa ajuda de experiência de vida, conhecimento e...trabalho. Trabalho intelectual.

Eu acredito numa interpretação, sem provas para tal. A libertação intelectual, conjugada com a vontade, a determinação e o grande prazer pelo desconhecido, pela exploração da própria mente, podem desvendar uma capacidade em alguns de nós e deixá-la adormecida em tantos outros de nós. Nisto, uma ajuda preciosa da visão de conjunto, especialidade da direita, digo parte direita do cérebro, holística e interpretativa por oposição a uma limitada análise sequencial, será fundamental.

Se a cada disparate praticado por figuras públicas muito bem apetrechadas de experiência e auto-limitadas nos pusermos a observar, reflectir e apenas tentar o exercício do entendimento dos comportamentos, e se extrapolarmos aos acontecimentos históricos que nos trouxeram até aqui, pelo menos nos poderemos deparar com uma visão nova das coisas, eventualmente esclarecedora e decisiva para tomada de posições que hoje nos parecem, à luz de muita superficialidade, descabidas ou indiferentes. O resto, a cada um compete, evidentemente. Como se fosse viável, depois desta singela reflexão, qualquer evidência.

15.10.15

A tentar ler Mário Cláudio

A tentar ler...

Nos silêncios se revelam mais palavras do que no uso delas? Não sei se alguém, alguma vez o disse. Mas nos momentos raros de silêncio, a corrente selvagem dos pensamentos pode conduzir-nos a algum lugar, dentre tantos sem definição qualquer.

A vontade de fazer algo de novo, escrevendo, que se adia, perante as notícias que se ignoram, as companhias de que nos ausentamos, por nada mais do que procurar o vazio recuperado da ausência de palavras, actos e compromissos que se não pretendem, de que não nos queremos ausentar, por nada mais do que vermos todo um mundo cheio de tanta sensação que não se consegue explicar, ou não se quer, cabalmente. O mundo está louco todos os dias, e nos mesmos lugares de exercício de loucura premeditada, uma, duas, milhares de histórias de bom senso e de amor podem estar em simultaneidade. O mundo que se lê, na Síria, como na Venezuela, na Rússia, como no Brasil, em fragmentos de misérias, grandes e pequenas, por toda a Europa das Civilizações, esse, deve, só pode estar louco, e pelos intervalos, mais esforços de ignorar a loucura, saltar para o mundo do lado, ou dos antípodas, saltar apenas em estado não físico, lutando, aguardando e regressa-se a Mário Cláudio, escritor que nos deve recentrar no pensamento lúcido, culto e arrumadinho.

De arrumadinho se espera despertar. É o tal Outono e as suas partidas. E nem se "ligam as notícias", o pensamento a algumas centenas de quilómetros, no que parece tão perto, mas como todo ele é ar, e depressa está no drama que continua pela Síria, como nos agora esquecidos do Afeganistão, ou dos totalmente irrecordados da Albânia, o drama crescente no Brasil, país de todas as violências. O desarrumo que voar até essas centenas nos traz, o vazio que mais alguns milhares nos pode trazer. Há,  só nós sabemos, um segredo que se quer revelar, ou um segredo que não se pode desvendar, a sua natureza deixando de a ser. Há Facebook que nos maça e desgasta. E o livro ali mesmo ao lado. Espera. Enche-te de silêncio. A sociedade é poluição sonora, os sentimentos uma caverna de quietude.

O escritor é velho, diz Mário Cláudio. E nem foi ele que escreveu aquilo, que está acolá. Acolá, lá bem acolá...está quem deve estar aqui. E o escritor não sabe. Não pertence a esse livro.

Volta-se ao social e à tremenda chatice do real, o Governo ainda não deu à luz. A confusão é quase total, a mistificação é a única que é real. E Mário Cláudio não espera. Está ali, apenas.

As noites são seguramente descanso e nunca a desesperança do silêncio, não é afinal a paz pintada de branco e ausência de ruído? E o pensamento não se podia calar?

Há coisas que deviam de ser o que outras foram e foram mal, ou que não deviam ser o de outras tantas que o são sem se querer. Detesta-se silêncio e até se despreza alguma paz. A paz pode ser paragem, o silêncio ... se se fala dele, agita-se e trai-se a sua natureza.

Se me deixam voar, eu vou, se me deixam ficar, não sei estar. Mas Cláudio ali persiste e vou voltar-me para ele.

Imagino a dinâmica lá fora e custa tanto saber de tanta vida, a folha que cai e só é dada por morta ao chegar ao seu repouso de Inverno. Sabiam que a Saudade é uma palavra portuguesa? Pois claro que sabiam. Sabiam que com ela se criam as perdas? O português inventou uma palavra que não serve para nada.

Vou ali ao lado, Mário espera-me. " O velho que escreve no gabinete da casa demolida, suspende o trabalho para se submeter a um acesso de tosse...". Tem razão o escritor, é com ele que devemos enterrar o vazio. É neste que se revelam todas as palavras que nunca quereremos dizer.

"À secretária do gabinete o velho tendo esfregado os olhos, reedifica a casa demolida". A casa demolida...

A uma demolida devia responder-se com outra a edificar.


11.10.15

Da Natureza da Realidade

A História é uma das matérias de registo, além da estatística e das ciências, pelo percurso da sua evolução. Mas a mãe da memória da Humanidade e até dos ambientes e dos meios naturais é a História. Essa mãe, matriarca da Memória, é porventura a parente pobre, paradoxalmente dos percursos muitas vezes felizes e bem sucedidos da nossa evolução como espécie, outras tantas, infelizes, demolidores do que antes fora construído e testemunha da novos ciclos de atraso evolutivo.

É pela História que podemos tomar conhecimento do mundo que nos antecedeu, é a ela que, noutros momentos, ou alguns de nós depositam a maior indiferença. Eventualmente, a História devia ser um repositório de verdades, boas e más. Frequentemente ela é usada para favor um favor aos amantes da mentira.

E a verdade, como sabemos, dificilmente é uma. E na História se misturam, intencionalmente, essa dificuldade de relatar uma verdade, ou usar a mesma dificuldade de a identificar, para transmitir uma herança de mentiras. E não é, como se imagina, nada inocente essa manipulação da verdade. Mas ela, verdade, tem uma natureza. E desse natureza, se trata, afinal, a busca constante de soluções para a genuína evolução humana.

E verdade sobre o bem-estar de um povo, não é indiferente às consequências o uso de mentira. A natureza dela, está presente, ou esteve, apenas pode ter sido usada para fins mais ilícitos. A natureza da realidade, uma forma física de Verdade não é escamoteável. A visão que temos dela, porém, transforma-a quase no seu oposto, no limite. E a História é quem sofre, a Humanidade quem vive as consequências.

É assim com factos e falsos factos políticos. É assim com factos e pseudo factos culturais e até científicos onde a documentação rigorosa e adequada das suas descobertas e dos seus avanços deveria eliminar erros de verdade.

Uma das áreas onde a verdade tem tantas faces que difícil se torna identificar sem titubear a realidade, para além do relato da mesma é, obviamente a política. Uma tradição de negociação política, dita diplomacia, para gozo do assunto, rica em jogos de falsas verdades e mentiras nunca assumidas, remonta a Mazarin e a Maquievel, pelo menos de forma documentada e transposta para a História.

Mas a literatura também tem dado, desde sempre a sua contribuição para nublar a realidade, ou a transformar numa verdade oposta aos factos.

O uso da inteligência humana para os fins ilícitos conhecidos de transformação da realidade foi quase transformado em arte, dando origem à expressão “maquievélica” e levando ao extremo as consequências políticas, até à implantação de ditaduras com esmagador apoio popular.

Dois aspectos que se prendem com o processo da mentira são, do ponto de vista das ciências da mente, fascinantes. O processo mental seja ele qual for tem uma natureza química e tem uma outra estruturada a nível psicológico. Se alguém mente, conscientemente, como se pressupõe ser a mentira, tem de saber enganar o registo mental de factos, trabalhá-lo e traduzi-lo numa outra visão da realidade que é reconhecido pela mente como sendo falso. Os pensamentos são sempre “materializados”, ou seja, um processo, como tal algo existente e positivo. Pode existir uma negação objectiva e intencional de um pensamento, mas não um pensamento negativo, dito inexistente. Uma transformação da verdade, eufemismo para mentira, é uma ludibriação da realidade, tal como a mesma mente que produz a mentir a reconhece. Um processo provavelmente custoso e que, a dada altura pode até alterar o registo da verdade, assumindo a mentir em seu lugar. É o que acontece quando dizemos que alguém “acredita nas suas próprias mentiras”.

A nível mais pessoal e intimista, ou íntimo mesmo, os sentimentos podem ser desmentidos pelas expressões, pelo tom da sua transmissão, pelos factos resultantes e contraditórios, pelo acto sexual, espécie de polígrafo feito com o corpo humano. Mas a outro nível, social, a dificuldade de se entender a própria natureza da verdade, ou seja, da realidade, é bem maior.


Acontece com frequência com a actividade política, muito mais do que com a empresarial, porque a prova dos factos é, também frequentemente de difícil demonstração. Em parte porque a política é da área filosófica e não apenas do nosso quotidiano. Em parte, também, porque há toda uma preparação e escola, até, de exercício de falseamento da realidade. Interessa ao objectivo primeiro de chegada ou manutenção do Poder. E é este simples facto que muitas vezes se ignora, ou pretende ignorar. O mesmo facto que permite dar-se a um partido de um extremo político um voto à borla, uma oportunidade de exercício de falácia e de mentira. Uma dessas falácias é a de que da Esquerda vêm boas intenções e ideias benéficas aos com menos oportunidades. Outra, complementar, a de que da Direita vem sempre algo com um interesse obscuro e prejudicial latente. Nestes tempos, essa tentativa de mascarar a realidade é assunto melindroso, mas de capital importância. E os olhos abertos, por vezes, pode se muito escasso.