22.7.15

Um mundo triturado pelo dia a dia necessário

Deslocava-se pelas ruas com o pensamento noutros momentos, noutras pessoas, noutros locais. Como o livro que vinha a ler, pouco a pouco, em cada comboio e cada transporte que o conduzia ao trabalho, no qual o mundo do escritor se ia desenrolando, desnudando, aos olhos de todos os que o liam, ou leram. Eram pensamentos sobre a razão das coisas, a razão de ser. Do trabalho, do mundo assim construído, que já não levava ninguém a mais do que ir, sem interrogações. Eram as pessoas todas estranhas, uma, algumas, normais, as suas conversas, sobre os seus dias, o que alguém lhes havia dito e irritara, o que alguém lhe havia dito e encantara. Uma promessa, uma ilusão dita, ou uma promessa cumprida com prazer. E o prazer, onde estava por estes dias? O prazer, que em tempos se pretendeu encerrar numa gruta das vontade e naturais impulsos humanos, defendido publicamente há muito, demasiado tempo para que consigamos entender cabalmente como foi ele capaz de ler a mente humana e a felicidade necessária. Epicuro, depois defendido por Lucrécio e por muitos e muito depois dele, que as religiões se têm esfalfado a combater, a denegrir. A felicidade em si mesma, houve um tempo em que rir era uma quase pecado. Rir era coisa duvidosa e perigosa, que podia esconder sarcasmo, crítica e uma inteligência de que desconfiar como perniciosa, e era fundamental dar-lhe luta. O riso não fazia parte das artes da obediência, era precisamente o seu oposto, uma expressão expontânea de um qualquer pensamento, ou sentimento, talvez de satisfação, geralmente, talvez de sarcasmo e arma de crítica política, social e, claro, religiosa. Epicuro dava ao riso um lugar na história, defendendo-o com doutrina. Lucrécio que nunca negou Deus, defendeu que se deve tentar viver à margem de uma protecção divina e de uma predestinação, por nós mesmos e que o riso, o prazer eram, afinal, um mesmo lado da virtude e das mais nobres qualidades humanas.

Saberiam todas as pessoas ali ao lado, as que passavam, as que se sentavam ao lado, à frente e atrás, num comboio, que há mais de dois mil anos, alguém, num ambiente social muito marcado pela força das crenças religiosas, numa mistura perfeita e intricada com a política da época, pôs em causa a defesa oficial da abnegação e da abstinência da felicidade pessoal? E quantos anos pensavam todos esses que encontrava e o rodeavam nas ruas e nos transportes, ter a Humanidade perdido com a caça sem tréguas a pensamento livres e a humanos livres. E a obras libertadoras. E quanto tempo havia perdido a mente humana com toda a história como ela aconteceu, com tudo o que sabemos de regras, impedimentos, limitações, condenações e fogueiras a tudo o que pulsasse de inteligência e pensamento estimulante? Saberiam todos aqueles à sua volta como a sua própria mente havia sido capturada, hereditariamente, sem apelo, pelo desenvolvimento e rumo que o mundo tomou? O mesmo mundo que hoje pretendemos defender, por o vislumbrarmos em decadência, ou mesmo constatarmos, e que devia, podia, muito bem ter tido outro rumo? Mas forças, normalmente brutais e demolidoras, pelas armas e pelo sangue, expulsaram a mente humana do seu caminho natural de crescimento e libertação. Libertação.

Onde estaríamos hoje, sem as regras e as obediências que nos aconteceram? Onde estaria o desenvolvimento humano, não fora o processo violento de cortar com qualquer vontade própria e natural de pensamento próprio, individual, ter cortado pela raiz, ceifado, ou como uma gadanha, decepado uma mente que teria sofrido outro desenvolvimento, muito provavelmente superior e bem mais acelerado. A mesma mente que há dois mil anos indicava ser a matéria constituída por pequenas partículas, átomos, o que se veio a confirmar muitos e muitos séculos após, e que defendeu o universo como tendo surgido dessas combinações de matéria e não provindo de uma decisão deítica.

Mas o dia a dia e o pulsar imparável dos dias e dos espaços não permitia a alguém pensar em mais do que em manter a possibilidade de ir pagando despesas. Nem o mundo que hoje percebemos não se encontrar a si mesmo, mas antes ir desabando à nossa volta, envolto em mentiras e meia-verdades, se podia dar conta do tempo que o Mundo perdeu...

21.7.15

A encantadora ideia de ser grande

O Ministro das Finanças alemão diz que não existe nenhuma supremacia alemã. Schäuble parece querer dizer que não há alguma tentação por parte da Alemanha de se querer impôr aos outros países, ou de efectivamente ser o grande decisor do futuro dos outros países, numa tentativa de nova germanização europeia, de hegemonia germânica, antes não conseguida pela força das armas.

 Mas uma coisa é Schäuble afirmar e outra é a realidade. Nem toda por culpa alemã. Há duas condições para sermos liderados ou chefiados (pois liderar é exercer um poder natural, conferido pelo reconhecimento dos outros, que o assumem e se deixam conduzir, livremente). Uma é pretender e conseguir impôr a sua vontade acima da dos outros, outra é todos os demais assim o pretenderem, ou, pelo menos preferirem. As razões da liderança são muitas, mas a principal é, como facilmente suspeitamos, o poder económico e financeiro.

Há, por outro lado, uma tentação vertiginosa, sempre preocupante a um dado tempo, de quem é grande, em dimensão, em capacidade absoluta e não relativa. O primeiro dado vem da produção absoluta de riqueza nacional, do Produto Interno Bruto. Contrariado pela distribuição da mesma pelos habitantes de uma país. A comparação entre Alemanha e Noruega, como entre Portugal e Brasil. Muita capacidade nacional "em bruto" se explica pelo PIB, como muita outra se explica pelo PIB per capita. E a tentação da grandeza, da grande dimensão, existe em tantos países, por via dessa capacidade nacional absoluta, nem sempre expressa em distribuição de riqueza. Se Angola e Brasil têm capacidade de adquirir empresas portuguesas, através da dimensão de poucas das suas empresas, isso não demonstra o poder de compra e o bem-estar (relativo) das pequenas empresas, das famílias, das pessoas e das regiões. Como é fácil identificar entre estes países, e o mesmo entre uma Alemanha e uma Noruega, com diferenças comparáveis entre capacidade nacional e capacidade indivudual e bem-estar.

A atitude de quem tem dimensão é denotada em quase tudo e todas as pessoas. Quase todos podemos testemunhar, como pequeno país, a atitude, ou a postura de quem conhecemos de países grandes, que apenas podem ser isso, muitas veze, grandes. Mas não necessariamente melhores. De pequenos grandes países, há muitos exemplos, assim tornados pela capacidade económica e financeira, por sua vez configurada pela elevada capacidade das suas empresas, produtoras de negócios de muito alto valor, como se verifica numa Suíça, num Luxemburgo, numa Noruega que, sendo grande em dimensão geográfica é bem pequeno em termos populacionais. Demonstram estes exemplos que se pode ser maior do que os grandes, com o elevado valor das nossas produções.

A tentação de mostrar dimensão, apesar disso, continua a perseguir grandes economias. Foram elas ultrapassadas há muito, em qualidade de vida e em capacidade económica por pequenos países de que dei alguns exemplos, mas os supostos gigantes assim não vêem o mundo, no dia-a-dia.

É daqui, porventura, que vêm afirmações como a de Schäuble. Ministro de um país grande que outrora caiu bem fundo e ficou muito pequeno. Já Portugal, hoje muito pequeno, foi outrora bem maior do que os grandes. Todos eles.

O domínio de uma, ou várias, tecnologias que se tornam economicamente importantes e até hegemónicas é uma das explicações, hoje acrescidas de tantas mais. Como o poder político, nem sempre auto-investido, mas conferido pelos outros, que assim procuram um líder. O que me parece ter vindo a acontecer pela Europa, que procurou um líder que nunca assim se configurou, sendo apenas um chefe, de mau feitio e mau saber. Mas a tentação de grandeza continua. E, como a História nos conta, se os pequenos podem morrer, os grandes podem explodir, ou implodir. Sempre aconteceu. E os pequenos vencerem os grandes...a História assim nos conta, também, confirmando o conto e David e Golias. Entre Portugal e Espanha...

Por mim, pode Schäuble falar baixo ou gritar bem alto o poder do seu país, que bem sei ser tão efémero, como o está a ser o mundo que hoje conhecemos. A União Europeia, a hegemonia americana, país com uma Dívida que pertence à China. China que tanto ascendeu para provavelmente cair ainda mais depressa. E...os pequenos continuam a sua vida, dia após dia, tranquilos e com o bem-estar que os grandes já perderam. Por mim, pode a Alemanha tentar impôr tudo e mais alguma coisa, que uma dia todos nos cansamos e renegamos a sua grandeza. A identidade nacional sempre funcionará mais e gritará mais alto. Um dia...


11.7.15

Cegos, surdos e mudos voluntários

Hoje, ao ver uma das conferências TED que muito aprecio, dei com Margaret Heffernan e a sua "The dangers of willful blindness" ("o perigo da cegueira voluntária").

Vale a pena ouvir com toda a atenção, cada palavra.

Willful blindness versus, Whistleblowers.

Lembrei de um dos meus heróis, provavelmente o único.

Um homem que na convulsão do seu tempo, percorria os jardins da cidade que o adoptou e sem nada ver à sua volta, não dando até pelos pássaros que tão bem soube representar numa sua obra (por sinal, uma das mais belas sobre o tema, de sempre e das líricas e encantadoras de toda a obra única que nos deixou), quase que passava pelas "brasas incendiárias" desses tempos e sem se deixar influenciar...chegava a casa, nos arredores de Viena, numa zona linda, de verde, onde hoje pululam os maravilhosos heurige, que nos deliciam com o seu vinho fresco do ano, os arranjos dos pátios, as flores os pássaros, jogos de luz e sombra que surpreendem quem chega de uma cidade de Sol, como Lisboa.


Um homem que, por desprezar a inferioridade manifesta das aristocracias, fundadas em tradições, ignorância e muito snobismo balofo, se exultou com a figura de Bonaparte, que era a um tempo a promessa de libertação, para o grande amante da Liberdade e um genuíno whistleblower (denunciante) da época e ... num segundo momento, rejeitou o seu herói, retirando a dedicatória inicialmente pensada para esta esplêndida sinfonia, Que pelos vistos, se iria chamar "Bonaparte" e ficou "Heróica", apenas por se saber ter sido inspirada numa falsa esperança.

Beethoven era um homem irascível, revoltado contra o abuso da aristocracia, que o adorava e ele continuava a desprezar e que...também se revoltava contra os tantos, como hoje, ou talvez menos, cegos por opção, surdos por adopção, mudos por vocação. Os habitué "willful blinds".

Acontece todos os dias. Acontece em todos os espaços. Temo-los por perto, temo-los longe de nós. Os voluntários da cegueira nada têm a ver com a surdez que Beethoven venceu da forma única como o fez: com as mais incríveis, complexas, belas e absolutamente ímpares, que lhe valerem entre muitos musicólogos a classificação da sua obra como forma do Classicismo, e do Romantismo. Apenas Beethoven, ele mesmo. O Grande amante incompreendido, da Liberdade e do Amor em que parece ter acreditado pouco. Mas um homem com uma capacidade de concentração transcendental fora do comum. Aquilo a que hoje se sabe e chama "momentos de fluxo",  fruto da nossa mente em momentos de concentração sem igual, que nos apartam do nosso ambiente, e nos podem fazer criar, com uma força incrível e um dispêndio mínimo de energia e capacidades. Era Beethoven o seu maior exemplo vivo, por esses tempos.

Nunca fui um conservador. Nunca fui um classicista. Sempre detestei a frase "no meu tempo", porque o meu tempo são todos os dias até deixar de viver. Sempre a lutar pela mesma modernidade e capacidade de aprendizagem que aprendi dos gigantes da minha civilização. Mas com o mesmo amor à liberdade que gostaria de ver em tudo à minha volta. Sem willful blindness, mas com tudo o que já se sabe.

A humildade de governantes, a transversalidade das oportunidades, a sociedade ela mesma, sem fantasias e falsas superioridade, sem aristocracias saloias e idiotices que tais. "Ser bem nascido" não existe. Existem circunstâncias, que ora sim, ora não, se verificam. Num tempo, triunfam, noutro leva-as o vento.

Essa a mensagem do grande Beethoven, plena em toda a sua obra. Admirado pelos que mais desprezava, como só pode acontecer aos que são verdadeiramente maiores, melhores do que nós, génios (em que não acredito, mas que me é confortável e oportuno o termo, por vezes, como agora), se quiserem.

De homens assim temos escassez, porque os tempos fazem os homens e eles, por aí sempre andam e andaram. Mas, os tempos favorecem os medíocres, os pobres de espírito, num tapete de infelizes, que devia ser pisado pelos inteligentes e humildes, com a noção e responsabilidade de ninguém ser alguém por si mesmo, sozinho. Excepto alguns. Mas nem todos podemos ser Beethoven(s)