24.4.15

1915...até hoje

Há cem anos nasceu Edith Piaf, mas em Dezembro. Já a 22 de Abril, desse 1915, os alemães usaram pela primeira vez, armas químicas (gás cloro, um dos elementos mais mortais para qualquer ser vivo, ainda hoje um poderoso desinfectante, mas na forma gasosa é dos venenos mais fortes e fatais para um ser humano).

Nesse mesmo ano, um acontecimento, porém, não passou despercebido na comunidade científica internacional, embora hoje pouco seja recordado, ou deixado no cinzento dos dias, pela massificação do mais banal e fútil. Albert Eistein publicou a Teoria da Relatividade Geral (a Teoria da Relatividade Especial havia sido publicada em 1905 e a Relatividade Geral, na sua forma final, em 1916).



Esta Teoria aniquilou a convicção da Física Clássica e da Lei da Gravidade de Newton. Os corpos não são atraídos por uma força proporcional à massa, mas a sua massa provoca uma curvatura no que Einstein designou de Espaço-Tempo. Uma das mais significativas demonstrações desta nova Teoria, agora com cem anos e ainda amplamente reconhecida e aplicada na Física moderna, é a órbita elíptica de Mercúrio. As órbitas dos planetas, aliás, são explicadas pela Relatividade Geral, como sendo consequência da curvatura do espaço-tempo. 

Por graça, conta-se que, um dia, Einstein explicava numa recepção de forma simplista a sua Teoria, desta forma: "se estiver uma hora frente a uma lareira a ler um livro, parece que passaram duas horas, mas se estiver duas horas na companhia de uma mulher bonita, parece que passou uma hora".

Mas esta Teoria explica ainda o que hoje é quase universalmente aceite sobre a expansão do Universo. Por ela, se entendem e descobriram os Buracos Negros e ainda a formação da Via Láctea, a nossa Galáxia, por convergência de Buracos Negros. Por ela, se entende a impossibilidade virtual, e matematicamente demonstrável da não existência de mais planetas habitados. 

Esse é o pensamento que me surge, vezes sem conta, e que me faz sentir tanta coisa, efectivamente, relativa. Os nossos dias são feitos do que nos ocupa, não ocupa fisicamente, e do que a nossa cabeça preenche em actividade, boa ou má, benéfica, ou prejudicial. E, no entanto, se um dia déssemos com a evidência de vida noutros planetas, mais atrasada, ou mais avançada, tudo mudaria em tantas concepções. E não apenas pela vertente científica, mas também as nossas crenças mais profundas, em tantos prismas. 

A importância da física, incansável pela maioria de nós, faz parte do nosso tempo e materializa-se em tanto com que lidamos. Desde equipamentos que usamos, tecnologias aplicadas a diversas áreas, desde navegação, saúde, comunicações, armas (nem tudo é bom...)...

Mas a possibilidade (assim dito apenas pela ainda não descoberta real, neste momento) de vida fora da Terra, mudará um dia muita concepção, e desde logo a da nossa importância como seres vivos. A relativa importância das coisas e das pessoas é um dos temas mais fascinantes, que desde muito gerou discussões, querelas, conflitos e até gerou sentenças de morte, se afrontaram uma religião poderosa. 

Se descobrirmos um dia um planeta com civilizações mais avançadas, como reagiremos? E se for mais retrógrada (pondo de lado a acepção pejorativa)? Não será o mesmo com o que se passa no nosso próprio planeta? Porque temos (uns mais do que outros) "superioridade" raciais, ou nacionalistas? Ou o seu oposto? Alguém disse, por exemplo, que as raças diversas que temos na Terra, evoluíram ao mesmo ritmo, a um mesmo passo, e partindo de um mesmo patamar, a partir de uma outra espécie, hoje aceite como de primatas? E, no entanto, não vivemos todos (com a gestão difícil que temos sabido, e eterna gestão das diferenças...) num mesmo espaço. Cada vez mais o mesmo espaço, aliás, onde se misturam e combinam geneticamente, povos distintos, de distintas raças, provavelmente em estádios de evolução (racial) distintos. Ou, obviamente social. 

Que espanto nos pode trazer a constatação de diferentes fases evolutivas, em termos sociais e, consequentemente, políticos, culturais e tudo o mais, em diversas regiões do Globo? 

O maior espanto, para mim, é que a herança de um mundo inteiro de cultura e evolução, de inteligência ao mais elevado grau, não garante atitudes ao mesmo e expectável patamar. Para mim, é o espanto, o mesmo, que me assoma, quando constato o atraso intelectual de líderes como uma Merkel, o expoente em auto-limitação intelectual na política. Quando se opta pela cegueira em relação ao mundo que nos rodeia, é grave, a título individual. No fundo, acontece-nos a todos, a dado momento, com alguma coisa. Mas quando se lidera uma nação, e se tem presunção em liderar uma região multinacional e civilizacional, é mais do que grave, é crime. Não devia ser assim, sem consequências. Pelo custo elevado para outros, para nós. 

Einstein não foi um humano evoluído em tudo. Afinal nenhum de nós o é. Mas foi um exemplo de esforço individual e de liderança intelectual que dura...há mais de cem anos. E perdura, pelos vistos.

Por muito que veja, leia e pense, não estou certo da evolução tão rápida, adequada, certeira e segura da raça humana, em geral. Pontuam essa evolução, felizmente, umas poucas, demasiado poucas, mentes brilhantes, como o foi o físico de Ulm. O resto de nós, pauta-se bem mais pela preguiça intelectual. Custa bem menos...


20.4.15

A Crise "acabou"

Marcelo Rebelo de Sousa é um mestre em soft skills. Um gentleman da política. Não gosta de provocar os seus pares, ou até provoca, mas nunca se antagoniza. Mas não é o único. Há quem o faça, como Marcelo, por uma questão de solidariedade amistosa, familiar, ou institucional. Um homem de princípios sólidos, acha sempre que alguma divergência mais delicada ou uma querela latente, não deve ser trazida à liça pública. Já outros, em prol de uma profunda convicção na coerência intelectual, expõem em pública uma divergência, ainda que polémica. Será o caso de Pacheco Pereira.

Para Marcelo, dito embora en passant, a Crise acabou, a recuperação é evidente. Apenas se fará sentir, essa recuperação, com o passar do tempo, para as pessoas, os que menos capacidade financeira têm.

Há diversas interpretações sobre o início de uma Crise como esta última, e sobre o seu fim. A mesma incerteza que a Economia vem demonstrando, também se espelha nas opiniões. Como não sou economista, e a minha formação sempre me obrigou a outro rigor de contas, a Crise não acabou, ou dito talvez com outra perspectiva e cautelosamente, converteu-se numa outra, ainda a começar, mas provavelmente mais difícil de inverter. Porque provocada por uma totalmente desnecessária austeridade e criação de profunda desigualdade e injustiça social (e laboral, para enfatizar). Manuela Ferreira Leite deu a medida. "Portugal é o país onde é possível contratar-se um Engenheiro por 500 Euros. Para Passos, isto será um excelente oportunidade. Para um quase-pseudo-liberal, por não ter uma só ideia ou provavelmente um pensamento coerente, excepto o de se safar na vidinha e alimentar uma vaidade saloia, é assim. Oportunidade de investimento estrangeiro. Talvez lhe dê para ir logo de viagem divulgar esta chinesice portuguesa, que muito convém aos reis da lavagem de dinheiro sujo, aos genuínos exploradores do trabalho dos outros, na própria casa dos outros.

A Crise da Austeridade é outra, e bem perigosa, desde já por ser negada. Hoje mesmo, o Diário Económica publica que mais de metade dos desempregos gerados na Crise, não serão recuperados. Mas aos "gestores", dos quais conheci um na pele, isso não conta. Os desempregados são o lixo social. Num país decente, seriam os actuais gestores esse lixo social. Mas ha uma diferença essencial: a austeridade pretendeu exactamente este efeito. Por via da exclusão social de todas as exclusões possíveis, só resta a esses idiotas que se deixaram despedir, qual imenso (centenas de milhar) bando de incompetentes, que tinham muitas ousadias, como a de pensar e sugerir, de opinar e de incentivar mudanças em procedimentos, e tantas outras leviandades, como a da recusa da bajulação, o da recusa no compadrio com a corrupção nas empresas privadas (um oceano por desvendar, quando comparado com os pequenos lagos na administração pública), gente "menor" que não tem amor cego pelo dinheiro, mas que teima estupidamente na honestidade. Estes, os desempregados que não mais terão emprego, em Portugal, até morrer, e serão apagados de tudo, da segurança social, do serviço nacional de saúde, do sistema financeiro, por não poderem ter uma modesta conta num qualquer banco, dos seus círculos de amizade, da sociedade. Uma maré de incompetentes, engenheiros, economistas, gestores, professores, enfermeiros, operários de todos os ramos...que nem ouvirão falar do fim da crise, por nem poderem ver qualquer TV.

É, assim, fácil falar de fim de Crise. Ou seria. Não fora o problema inultrapassável que Passos mencionou a semana passada, e que desvendará uma realidade oposta ao que disse: que em 2033 teremos uma dívida que valerá 60% do PIB. Algum jornalista lhe perguntou como? Como prevê que Portugal cresça, se sem crescimento sensível, nunca a dívida será sustentável? Prevê o Primeiro-ministro um crescimento de mais de 5%? E para quando e por quanto tempo? Pensará dedicar-se agora a artes de adivinhação? Ou tem um estudo sério sobe isso? Dos tais estudos económicos de alto nível que se espalham ao comprido por todos os países? Como os que tinha os Estados Unidos antes de 2008. Quem previu um despertar da China? Houve um ex-ministro francês que o fez e ninguém deu importância, era francês...

A austeridade, a meu ver, provocará a permanência de centenas de milhar de pessoas no desemprego, como acima expus. Sem remissão. Mas isso não conta. Vivemos de fundos do exterior, mas parece até termos uma vida normal. Temos uma dívida que vale 130% do PIB, quando no tempo de Sócrates andava por pouco mais de 100% (talvez uns 110%, ok...). Que numa Suíça, vale pouco mais de 30%. Mas o pior é mesmo o crescimento económico, num país onde quem podia gerar riqueza e inovação se limita a vender arroz e massa, e quem tem vontade, ideias e conhecimento, está na faixa-lixo da sociedade, deprimido, sem família, sem nada.

O que eu vejo, é bem diferente do que a Europa da falsidade tenta demonstrar: vejo pessoas na desgraça, pessoal, familiar e profissional. Vejo empresas com dificuldade crescente de subsistência, sem capital, sem possibilidade de financiamento e, muito pior, sem mercado. E ainda sem capital humano de valor. Vejo que se insiste em medidas fiscais erradas, na eterna perspectiva de há vinte anos nos Estados Unidos, agora em quase abandono, e condenada por todos os grandes economistas americanos e outros, como a de tentar aliviar as empresas, quando seria às pessoas que se deveria aliviar o garrote fiscal. Vejo um Fisco que continua a perseguir, sem afrouxar, como se detentor de razão e legalidade, ambas falsas. Vejo cada vez mais gente louca ou deprimida, tensões e excessos familiares e sociais, uma sociedade a perder o controlo e a razoabilidade. Vejo um país sem visão e projecto. Uma Europa sem orientação, sequestrada por uma China corrupta e injusta. Uma civilização refém de países onde a Democracia é uma anedota. Barroso diz que a Europa não está em decadência. Eu digo que está há bem mais do que duzentos anos, mas mais aceleradamente nestes últimos dez ou quinze. E será forçada a decisões muito difíceis, polémicas e perigosas, que podem ser um risco de uma Terceira Guerra. Já o escrevi diversas vezes. Sobre a demografia e as migrações de África, que agora nos chocam pelos terríveis naufrágios que temos presenciado, escrevi há uns quatro anos. Sobre esta decadência europeia evidente, o que agora digo, pois muito já disse e ainda por estes dias publicarei um artigo no "Repórter Sombra", é precisamente o grande perigo da negação. Não que Barroso conte para alguma coisa, mas que o que diz seja espelho do que outros que contam, dizem.

O que interessa, por agora, pois este tipo de crise irá acentuar-se e logo logo se verá que nada melhorou, mas apenas alguns se encontrarão melhor, com menos mercado, menos clientes e mais dificuldades de cobrança, mas com custos de trabalho muitíssimo inferiores e colaboradores muito mais "disciplinados" (o medo faz "milagres"...), o que interessa é conseguir manter esta aura de vitória contra uma Crise provocada pelo sistema financeiro internacional e nacional, que vive da Dívida, ganhar eleições e nunca nada fazer, mantendo tudo na mesma, sem reformas que os pudessem atingir. O que interessa é esta falsa tranquilidade. Manter um país em dependência, sem visibilidade internacional, com a excepção de uma moda turística efémera, uma febre que durará muito pouco e que depois revelará os podres de regiões como Lisboa, onde a dívida foi muito bem camuflada.

A eterna mestria portuguesa das aparências aí está. Mas a muitos isso custará tudo, desde a saúde a mais uns trinta ou quarenta anos de vida desgraçada na miséria mais atroz.

Mas talvez votar seja uma solução, pelos vistos...

19.4.15

À procura de "Lorenzo"

"Cartas a Julieta", filme mediano, de Gary Winick, realizado em 2010, com Vanessa Redgrave e Amanda Seyfred. É a procura de um antigo amor, Lorenzo Bartollini, de Claire (Vanessa Redgrave), mas na realidade o leitomiv é o sonho de Sophie querer ser escritora e ter viajado até Verona em busca de inspiração. Um filme pouco mais do que mediano, a meu ver, mas que me fez regressar a esse outro sonho (meu) de viajar pela Toscana, uma das minhas regiões de eleição e do sonho de uma grande viagem, com tempo e calma, de terra em terra, travando conhecimentos com habitantes de terriolas pitorescas. O encontro com essa luz e pedra vermelhas, esses campos ondulantes onde os ciprestes se impõem na paisagem, tornando-a única.

Depois, há o vinho italiano! Há a gastronomia fantástica. A música, e essa outra da mais bela língua del Mondo.



Quem não gostaria de efectuar uma viagem destas na sua companhia preferida, sem pressas, fazendo reservas de hotéis ao ritmo da vontade e desejo do momento? Sentar-se no jardim de um desses pequenos hotéis regionais, ler e escrever, enquanto se espera pelo pequeno almoço, e depois uma dessas conversas de horas, sobre o estado das coisas, as pessoas, os sonhos perdidos e os conquistados, as ideias, as mais sensatas e as mais loucas que, ali, pela atmosfera única da paisagem ganham coragem e se revelam?

A Toscana, como a Provence, são duas regiões do meu imaginário, que conheci, sempre sentidamente de passagem, conhecimento demasiado efémero, desejo e sonho sempre adiado. A oportunidade, como a companhia nunca se conjugaram, Mas diz-e que o que fica em sonho é sempre o mais desejado e mais belo. Penso e espero que não. 

Ao ver este filme, reavivei este desejo de lá voltar. Viajar de carro, um tanto sem destino certo, ir decidindo pouco a pouco ao ritmo do dia, ao impulso do momento, o calor de Itália no Verão, a luz, bem diferente da das nossas paragens, o vento quente que entra pela janela, uma música adequada, ou não, se a conversa nunca tiver fim, se a energia nunca se esgotar e a vontade de ir e ir e ver mais e a viajar não terminar...É o imaginário que este filme modesto, com uma grande actriz me inspirou. 

Há, no mundo, locais assim. Que nunca nos deixaram, desde a primeira vez que os conhecemos, nem que de passagem. E alguns elementos do filme ainda me fascinaram, por acréscimo à Itália mais bela. A escrita, o sonho de ser escritor, a tranquilidade dos campos no Verão, as vinhas, as construções de pedra amarela-avermelhada. O verde dos campos. Uma paisagem inesquecível. No país onde a música começa na língua e todos os dias está em todo o lado. A música, uma companhia e inspiração para a vida. 

Toscana...

14.4.15

Votar ou não, eis a questão

Este é o meu raciocínio actual sobre a coisa. Sei que praticamente ninguém concorda comigo, mas nem procuro isso. Sinto, apenas, uma necessidade de expôr o que penso, já há algum tempo, e agora acho que mais do que nunca, sobre as eleições, com a Democracia como está, os Partidos como são.

Começo, como na Matemática, pelo absurdo. O país vai a votos e apenas decidem votar (Partido A, Partido B, votos brancos, votos nulos, Partido C, etc), votos expressos nas urnas, cinco por cento dos eleitores inscritos, ou seja, válidos (coisa próxima, mas não a mesma coisa). 5% por cento, isso!

E, como a Lei diz, os Partidos distribuem esses 5% de votos entre si. Aliás não é de votos, pois. Mas de votos expressos, coisa parecida, mas não a mesma coisa. Confuso? Talvez, mas apenas para quem pensa. Pouco mais de 8 milhões de eleitores, ou de 9 milhões, consoante a fonte (estranho, não é? Eleitores devem ser pessoas, vivas, e contáveis mas nem o número é rigoroso, enfim), serão os eleitores inscritos em Portugal. Ora, cinco por cento são uns 400 a 450 mil. Menos do que a maior cidade do país. Seria como se...só Lisboa, metade dela, votasse. Mas que conta isso?

Segundo a Lei, uma Assembleia da República novinha, fresquinha, se constituiria, com o mesmo número de deputados, fossem (sejam) eles eleitos por 8 milhões de portugueses, por 4 milhões, ou por 400 mil. Pois ninguém (nunca) tem a culpa de os outros (tresmalhados doidos) se terem "marimbado" para o acto (segundo alguns, quase todos, ao que parece) mais importante de uma Democracia (que eu, veementemente, teimosamente, digo que não é e me escuso neste momento a explicar porquê, mas quem se sentir desiludido com o estado deste Estado, deste Regime, ao que ele chegou, talvez perceba, um dia...porque não é). Os mesmos 230 senadores da Democracia, ou outros fresquinhos e acabadinhos de sair de um maravilhoso acto eleitoral, cheio das mesmas...vulgaridades e de ideia nenhuma, se prestariam a assumir o seu honroso lugar como legítimos representantes do povo. Para, em nome dele, votarem Leis ...a melhorar ou a piorar a vida do povo eleitor. Temos visto tudo a melhorar, só a talho e foice...

Mas claro que é um absurdo. Mas matematicamente possível, incontestavelmente. Mas o absurdo serve que nem luva, ao meu raciocínio, até porque fui eu que o escolhi. Um disparate, mas um cenário, não uma utopia. Se assim acontecesse, que pensariam os "restantes" 95% de eleitores, dos seus legítimos representantes, quando esses votassem o agravamento de impostos, a limitação de liberdades individuais, ou o fim dos contratos de trabalho sem termo? Por exemplo. Em números, que pensariam os 7,6 milhões ou 8,55 milhões? Não interessa nada. A Lei se tinha cumprido, os políticos seriam legitimados. Evidentemente. E...a Democracia, ficaria em bom estado? Claro que sim, pois não ir às urnas é que está errado. Está bem...

E nesse caso, vejamos outro prisma do absurdo. O que este sistema diz é que só devem ser tidos em conta os que votam. Os outros que se calem. O que este sistema diz...não será que não conta nenhum eleitor? Será? Pois se as nomeações, tomadas de posse, escolha de Governo e tudo o mais se fizesse ainda que com uma base eleitoral de 400 mil portugueses, menos do que os mais pequenos Partidos, se não me equivoco, isso não quererá dizer que para os políticos, e para a Lei, não importa quantos votam, quem vota, ou quem nem quis lá ir escolher algum deles? Ou, então, se assim não for, se não retirassem ilações de uma votação tão inexpressiva, sentir-se-iam legitimados para representar e decidir em nome de um Povo? Isto, este absurdo não leva ninguém a pensar que um sistema assim não reforça uma Democracia, mas antes a fragiliza? Então e se...dos 8 milhões e tal, votarem 95% mas desses, 80% votarem em branco, ou votarem nulo? É diferente? Ainda pensam que não votar é não exprimir uma vontade política? 

E mesmo, mesmo mesmo que nem um Partido mereça um voto sentido, sensato e racional, é melhor, sempre melhor do que nem lá ir? E porquê. Fico totalmente aberto a uma explicação. Façam-me um desenho...como se eu fosse uma criança de 5 anos...

13.4.15

Bancarrota versus Austeridade

Marcelo Rebelo de Sousa diz preferir não estar à beira da bancarrota do que estar estar à beira da bancarrota. Parece a frase que alguém disse "viver é o contrário de estar morto". Pois eu também prefiro não estar à beira da bancarrota. Eu também prefiro não ter pela frente esse cenário de catástrofe. Não deve haver um só português a pensar o contrário. E daí? Provavelmente, por esta altura muitos de nós desejaríamos nem ter nascido portugueses? E daí?

Este tipo de afirmações não acrescentam nada, mas podem esconder, escamotear, melhor dizendo, o lado que ainda nos toca mais. Eu dou por mim, diversas vezes, a tentar perceber as diferenças.

Diferenças entre o cenário de crise, dessa de 2008, com empresas a falir, por falta de tudo: de capital, de capacidade de re-investimento, de conseguirem manter os clientes, já nem falando em crescerem no mercado da crise, manterem funcionários e, com eles, a capacidade que antes tinham e julgaram necessária à sua actividade (coisa que muitas parecem ter esquecido, mas rapidamente entenderão, entre este e o próximo ano), enfim...empresas ainda a tentarem sobreviver, apenas e a diferença para a situação actual. Nas duas circunstâncias teremos diferentes cenários, no espectro das empresas e nas condições de que dispõem e nas condições que o mercado apresenta às mesmas? Um mercado com muito reduzida capacidade de consumo.

Hoje, ouvia logo de manhã a habitual notícia dos últimos anos: famílias endividadas, perseguidas pelo fisco, como se de criminosas se tratassem. Famílias com desemprego que não conseguem alimentar os filhos! E nada mais conseguem, aliás. Isto é diferente da pré-bancarrota?

Às portas da bancarrota, Sócrates prometia que com um plano do governo tudo se iria resolver. Com esta austeridade em cima das nossas cabeças, este Governo promete o mesmo. Nos dois cenários, perdão, circunstâncias reais, as pessoas e as famílias vivem exactamente o mesmo drama. Não vêm o dinheiro para viver, nem o futuro. Ou que o futuro lhes possa trazer mudança. Porque, sem fazer contas, se dão conta de que estão pior do que há vinte, há trinta anos. Acenam-se-lhes, acenam-nos com melhores tempos, com esperança, mas ninguém percebe como. Mas todos sabemos que com um retrocesso doloroso no poder de compra, nas possibilidades de vida norma, mesmo.

Voltámos a níveis salariais de há mais de vinte anos, se fizermos contas ao actual custo de vida. Nem por isso as grandes empresas desistiram de cobrar, de aumentar preços, custos com energia eléctrica, com combustíveis, com gás, com telecomunicações, com bens alimentares. Se fazem o esforço para demonstrar o contrário, ninguém acredita, porque sente o inverso.

Se a bancarrota nos roubava tudo e destruía o futuro, que fez a austeridade de diferente? Se a crise por esbanjamento do Estado e das empresas nos levou à bancarrota, o que fez a austeridade, se não e apenas a substituição de uma crise descontrolada, por uma depressão económica planeada com os mesmos, exactamente os mesmos resultado?

O problema de Marcelo é o mesmo de quem sempre esteve bem com a vida: não conseguir entender o que é estar sem dinheiro, sem poder pagar as despesas e alimentar filhos e a si mesmo, e ser ainda perseguido pelo Fisco, e não poder encontrar forma alguma de inverter a sua desgraça. Ler estatística não é o mesmo que viver no sufoco.

A bancarrota era o fim de muita coisa, a austeridade é a garantia desse fim que a bancarrota não sabia se assegurava. Nunca entenderão os que planearam esta austeridade, mas ela voltar-se-á com brutalidade contra todos eles. A Alemanha, por exemplo, quando entender que empobrecer os outros se voltará contra ela, já será tarde. Mas aí, terá de novo a possibilidade de fazer o que sempre fez e nada mais saber fazer: empurrar com a barriga, ou de outra forma, provocar mais uma guerra. Os outros é que são sempre os culpados. Isto é para a Alemanha, como para todos os que lhes seguiram os planos e as execuções dos mesmos.

O PSD não escapará a isto, a esta austeridade, como o PS também não. Podem até passar pelo próximo acto eleitoral, mas se um dia o povo entender o significado de uma austeridade perante o fantasma de uma bancarrota, nunca mais lhes perdoarão. E não vale a pena explicar a burros. Fechados em dias de planificação de vícios políticos, como parecer e nunca ser, como fingir e nunca assumir, como substituir uma bancarrota por uma crise provocada por austeridade imposta, eles nunca entenderão. Nem querem. Vivem como D. Carlos, num país falido, ignorante e triste, onde as pessoas se arrastam para não morrer cedo demais, chorando a catástrofe que se abateu sobre os seus filhos, mas dentro de portas, em festas e faustos, nunca sentirão esta imensa e violenta realidade.

Estamos todos, a maioria, bem pior, e não foi a bancarrota. Foi a austeridade.

A grande empresa

A maior transformação do mundo. Da vida. Ou como me dizia a minha filha do meio...da vida do mundo.

Foi o meu sentimento mais estranho, mais inesperado e mais aterrador. Mas o mais forte, provavelmente. Podemos, e aconteceu, acontece, ter sentimentos poderosos, intensos e envolventes, que nos cegam, embotam o pensamento, obnubilam. Por alguém que nos prende, por demasiado tempo, embora esse nunca seja, em verdade, um tempo demasiado. Excepto se não correspondido.

Mas o sentimento que um filho nos provoca, e nos mantém agarrados por toda uma vida é tão único que só o sabe quem sofre, no sentido mais feliz do sofrimento sentimental. Várias pessoas me transmitiram e passam ainda essa única sensação, que nos causa dor e sofrimento genuíno quando algo não está bem com um filho, ou mais do que um. Quando sabemos do sofrimento de uma filha, de um filho. Várias pessoas me deram testemunho da alegria e orgulho que nos transporta à comoção, quando do sucesso de um filho ou filha (é importante fazer a diferença de género, neste particular, outra coisa que só pai e mãe dedicados entenderão).

É esse o problema de perceber sequer a desgraça de pais e mães que não têm as condições mínimas para darem a mais ínfima dignidade humana à vida de um filho. Ou o problema que nos traz o conhecimento do sofrimento dos outros, por desgraças grande ou tristezas e desilusões ainda que pequenas. Porque parece que quando se trata de filhos, qualquer coisa é empolada, provavelmente, pouca racionalidade e muita emoção, a expressão do maior sentimento do mundo.

É esse também o problema de lidar com as maiores alegrias, vaidades e orgulhos, que tal como os problemas, nos podem enevoar a lucidez. É distinto. Nada comparável a um outro amor, adulto e com outra configuração. E porquê?

Porque depositamos nos filhos uma imensa, uma esperança única. De serem bem melhores e bem mais felizes do que nós conseguimos ser. Que nunca façam os disparates que fizemos. Com o curso mal escolhido, com não termos feito o esforço suficiente, muito incipiente aliás, para termos o curso que os nossos pais sonharam para nós. Pode um pai, uma mãe ter esse direito de sonhar por eles, pelos filhos? Mesmo que de nada sirva, porque há sempre um momento em que a vida que lhes demos é deles apenas, é evidente a legitimidade. A mesma da compensação que nos leva a desejar a alguém que muito amámos, o melhor de tudo. Coisa esta já não para todos. Mas com os filhos é tudo mais fácil. O orgulho se transfigura e aparece o orgulho neles. É uma transpersonalização legítima, mesmo nos casos em que é frustrada.

E daí o sofrimento pequenino, o apertozinho, ou o imenso sofrimento, o sufoco. Com um grande amor, podemos guarda-lo anos e anos infindos, silenciosamente e mesmo viver, quase a normalidade. Será uma simples quase normalidade. Mas com um amor tão paternal...será possível a incorrespondência desprendida desse amor incondicional?

Mesmo nos dias normais da vida normal, quando podemos transportar a maior das alegrias que o tal amor nos deu e dá, o amor adulto, os filhos estão cá dentro. E ninguém os substitui. Vivemos calados, fingindo serenidade, porque é nossa função responsável mostrar essa máscara social a filhos ou sobre filhos. Mas a verdade não é tão disfarçável assim. Qualquer coisita mais idiota sobre um filho mantém presença consciente e apenas se mostra a máscara por sabermos que a insegurança não é aceitável a pai e mãe. Mesmo que esteja "lá".

O que nos transforma assim, numa fracção indestrinçável do tempo, logo à primeira visão, do primeiro filhos, e se repete a cada um? Um instinto animal de protecção, sim. E uma necessidade de vermos neles o melhor de nós, e nunca a falha que podemos ser. Complicado, difícil e até perigoso, pois se pode reflectir numa atribuição de responsabilidade que não se verifica salutar, para eles.

Mas é talvez o mais básico e mais forte sentimento que nos agarra por toda uma vida!


9.4.15

Mobilidade social

Basicamente é assim. Saímos de casa, numa apressada rotina. Vemos todos os demais, que não são apenas demais, mas pessoas com todos os problemas, sonhos ainda, sonhos que já eram, sentimentos, emoções, ansiedades, desejos, aspirações.

No autocarro, no comboio, no metro, na estrada ao nosso lado, são pessoas como nós, que ainda têm ou já desistiram de ter esse sonho de um dia...poderem ter...melhor vida. 

Nos Estados Unidos, têm-se publicado vários livros sobre o velho sonho americano, sobre o sonho de um dia qualquer um poder aspirar a uma vida melhor. O sonho da mobilidade social. Poder subir na "escala" social, ter mais poder de compra, mais margem financeira pessoal, um futuro mais assegurado eventualmente, um dia a dia com menos ansiedade, maior segurança em termos financeiros. E, recentemente, os grandes economistas, os que são livres pensadores, pelo menos, têm concluído e escrito que esse sonho americano se esfumou. Se alguma vez existiu mesmo.

Não será muito difícil entender que o mesmo se passa na Europa. Mas há uns bons anos, os regimes democráticos europeus nos brindaram com uma outra possibilidade, ou realidade. A social-democracia, que pelos seus caminhos mais equilibrados, não permitia que o Estado desistisse da protecção dos mais pobres, dos menos capazes, ou dos que menos oportunidade conseguiram ter, ao mesmo tempo que permitia uma economia de investimento económico e de crescimento baseado nas empresas familiares e na classe média. Foi na classe média que assentou o grande desenvolvimento de todas as mais ricas economias europeias e mesmo a dos Estados Unidos, e de qualquer outra economia pelo Mundo. Nunca foi no poder oligárquico das grandes multinacionais, ou na plutocracia. Mas hoje, tudo é bem diferente.

Mudou o paradigma, com a destruição da classe média, precisamente. Mas se mudou nos Estados Unidos, muito mais se alterou em algumas economias da Europa, mas numa, em particular, provavelmente de forma bem mais demolidora: Portugal.

Se em Espanha muito se destruiu, e uma grande faixa do povo espanhol não mais terá emprego até morrer, porque assim será, ainda assim nos anos que hão-de vir, as possibilidades são outras. E pelas razões opostas às que políticos, banqueiros e grandes empresas propalam, vergonhosamente, e com o nossa passividade,  permitimos. Por todo o lado se luta e pratica, mais ou menos, pelos juros baixos, pela possibilidade de novos negócios, de novas oportunidades. Mas não em Portugal. Por cá, elaboram-se cada mês, programas de empreendedorismo para apenas consumo dos ainda subsididados pela segurança social. Ou para consumo de recursos pessoais. Nada mais. Nem uma entidade aredita e deposita confiança num empreendedor. E nunca, mas nunca, haverá qualquer possibilidade de alteração do modo de vida de quem já quase desistiu do sonho, de apenas vir a ter uma subsistência, muito menos de poder vir a ascender socialmente, por via da melhoria das suas condições de vida.

Quem matou o sonho português, se de facto ele existiu? Mataram todos os que sequestraram a economia e o país: bancos, grandes empresas (todas), grandes empresários (todos, sem qualquer excepção) e Partidos políticos (todos, sem excepção). Como?

Com os juros elevados, apenas com preocupação de grandes lucros, nunca reeinvistidos internamente. Com preços elevados em tudo, desde a distibuição geral (alimentar, vtesuário, automóveis, etc). Políticos, com os gastes desmesurados a auto-atribuição de condições de vida de luxo totalmente imerecidas. Tudo praticamente é mais barato na Alemanha ou em qualquer país mais rico, com excepção de alguns bens alimentares, mas na restauração, que não nas cadeias de distribuição, onde sempre se paga menos do que em Portugal. É mais barato adquirir um automóvel numa Alemanha, onde se aufere, em média, quatro vezes mais, ou uma cerveja, um chocolate, um quilo de arroz, um queijo, uma salada. Uma mensalidade de serviço de Televisão ou internet (as comparações são propositadamente difíceis). Um telemóvel, uma hora de energia eléctrica, um dia de aquecimento (que existe por lá, de facto, e não por cá, de facto). Um litro de gasolina ou gasóleo. Ou mesmo um dentista, especialmente um dentista. Claro que é generalização. Mas é estudar o tema, há por todo o lado estatística e é mesmo assim, em média. Publicarei um estudo mais factual, brevemente.

Se o sonho morreu em Portugal, não morreu nem em Espanha, nem em outro lado qualquer, talvez com excepção da Grécia, onde ainda se faz por matar o que resta. Por cá, quando sairmos à rua para trabalhar, iremos frustrados amanhã sempre mais do que hoje. Porque será mais um dia do mesmo, mas menos um de esperança ou de vida.

Nem um Partido político quer, consegue ou sequer sabe inverter isto. Não querem saber. A preocupação será sempre com os nossos empresários da Banca, da massa e do arroz e da colecta de impostos sobrepostos (como nos automóveis, onde também somos excepção mundial). Tudo se paga mais em Portuga, e sempre se ganha menos. 

Assim se aniquila o sonho e se retira toda e qualquer hipótese à mobilidade social. Mas um político ao ler um texto destes diria..."nem quero saber, tenho o meu futuro, o meu" e um "grande gestor" português até pensará pior: "mas que pretende esta gente com isto de querer vida melhor, se não têm o meu nível e categoria?". Um gestor ou político alemão, pensará ou mesmo dirá em alto e bom som "que isso da aspiração a melhor vida é para uma raça superior, um latino nunca". Nem duvidem, pois por mais que tenha visto e veja, encontro sempre o mesmo. 

Hoje, menos do que amanhã, verei mais gente desanimada, revoltada, deprimida, pelas ruas e pelos empregos. Mas que nunca nada farão, nem sequer pensarão. 

É demasiado pessimista? É abrir os olhos, por favor...

7.4.15

Repórter Sombra

"Quantas vezes nos damos contas de, efectivamente, não termos, numa dada situação pensado “bem”? Mas, apesar de tudo, em situações de forte envolvimento emocional, sejam derivadas de um problema no trabalho, um diferendo com um familiar chegado, ou com a mulher ou marido, somos levados a aceitar que muito provavelmente não estávamos nas melhores condições emocionais para uma reflexão mais aturada, ou um pensamento mais ponderado"

(...) "Um dos melhores exemplos do que nos podem proporcionar, ou das capacidades dos dois Sistemas da Mente, ou das duas “formas de pensar” é a nossa percepção sobre os políticos, principalmente quando em momentos eleitorais, em que as nossas escolhas são determinantes. Seria de esperar que reflectíssemos…

As escolhas, tal como demonstrou Alex Todorov, têm muito mais a ver com uma “percepção” de competência e de capacidade, que se prende bem mais, ou inteiramente com o aspecto do político. Um rosto de queixo quadrado é associado a poder, carácter dominante. O rosto de traços redondos, ao oposto. E as escolhas têm, então, que ver com o que nesse momento for mais determinante, considerado necessário a um político e à colectividade que o elege. Pouco ou nada tem a ver com a análise detalhada, crítica das suas propostas e das características e aptidões pessoais. Nem todos escolhemos assim. Nem todos escolhemos com base em algo um pouco mais profundo, como o tipo de discurso, e não do seu conteúdo, ou do estilo, mais ou menos agressivo, retaliador, de “guerrilha”, etc. Mas acontece que a maioria sim. Estas são decisões associadas ao Sistema 1 e nada ao Sistema 2"

A Mente humana, ainda um oceano imenso por descobrir, mas com surpreendentes revelações a cada avanço, hoje bem mais rápido, a cada momento. 

Das minhas leituras pessoais sobre este tema fascinante, irei publicando alguns artigos no Repórter Sombra, este o primeiro, publicado no dia 1 de Abril:

http://reportersombra.com/2015/04/a-mente-quase-surpreendente/.





Se um dia houve um sonho

Portugal teve um sonho? Terá Portugal algum dia sonhando mesmo com um nível de vida europeu? Quantos de nós acreditamos ainda nesse sonho de virmos um dia a ter uma "vida europeia", num espaço geográfico e social que se medisse pelos padrões europeus?

Quando há uns bons anos falava com colegas espanhóis, na empresa onde trabalhava, tínhamos em comum esse sonho de uma Europa que fosse o nosso espaço. Uma Europa que fosse o nosso continente, não apenas geográfico, mas cultural, económico e social. Os ibéricos vinham sofrendo de demasiados anos de isolamento, resultado de ditaduras que tardaram em ser arredadas. Seria assim o sonho europeu, um sonho ainda mais desejado. Talvez. Seria também mais difícil de ser alcançado, provavelmente. Por demasiado tempo fora de um ambiente social de padrões de exigência superior aos habituais nos nossos países.

Mas o maior problema foi o desejo se confundir com a capacidade de realização. Os países ibéricos, e ,como sabemos agora, não apenas, mas ainda a Grécia, e ainda que já pertencendo a um espaço económico bem mais europeu, em certa medida, a Itália, não estavam preparados para uma Europa com hábitos económicos bem diferentes, comportamentos laborais distintos e uma exigência pessoal, na preparação, na organização e nas expectativas, totalmente diferentes, também, ou mesmo opostas.

Pela minha interpretação, as exigências de portugueses, de espanhóis e de gregos, também se confundiram com um tardio despertar para uma realidade que a Europa já havia vivido: os anos do confronto político e social com as ideias marxistas e comunistas. Não estávamos preparados para nos inserirmos num espaço em que a exigência profissional, empresarial e política era bem distinta. A culpa...essa seria de todos, como ainda muitos recusamos que seja. A culpa é do mesmo teor e do mesmo peso, imenso, que a culpa de termos hoje os políticos que temos. Não exigimos de nós mesmos, não sabíamos, como não soubemos, exigir dos outros. Mesmo dentro de portas, com os nossos Paridos, hoje dominados pelos mais medíocres dos quarenta anos de políticos que vimos tendo.

Mas esta análise parece falhar, quando vemos e reflectimos na classe política europeia, ela, afinal, também, repleta de políticos de mediana capacidade, quase ausente visão, sem projecto definido, gente que parece reunir-se para cumprir calendário, muito mais do que para ajustar uma visão comum para um futuro comum, com medidas concretas e eficientes. Uma deriva. A total perda de um sonho.

Se foi o sonho português um dia, poder ter uma vida de nível europeu, com mais elevados padrões, não se viu por cá como, com o povo desinteressado na sua própria evolução, negando qualquer esforço de melhoria, pelo lado da educação, do conhecimento, da cultura e do comportamento social. Viu-se, como se vê, um povo que não se respeita, desde a pequena sujeira nas nossas ruas, o pequeno furto ( tão conhecido exemplo de ser impossível termos uma caixa com jornais nas ruas, de onde se retira o jornal e se deixa a moeda, sem roubar todos or jornais ou vandalizar a caixa...como se vê por todo o lado, nos caixotes de lixo, nos grafitis selvagens, nas mais diversas manifestações de vandalismo menor, apesar de termos cidades bem menos violentas do que a generalidade de países por esse mundo, ou mesmo pela Europa), até à recusa em participar no seu próprio futuro, com evolução dos seus conhecimentos pessoais, em geral, e em particular em termos de política, intervindo, responsável mas decisivamente. Se não soubermos formar uma ideia, por mais ténue, do que queremos para nós e para os nossos, para a sociedade e para o país também, como o seremos para os políticos que queremos escolher? É por isto que duvido da verdadeira "utilidade" de eleições como as temos tido.

E assim se pode ir esmorecendo e desvanecendo o sonho, se chegou a existir.