15.3.15

Farwest XXI

Acordou sobressaltado. Um imenso ruído, logo seguido de uma forte batida na porta de casa. Estaria a ser assaltado? Como vivia sozinho, não podia ser nada dentro de casa. Estaria a sonhar? Espreguiçou-se, levantou-se de um salto, o tremendo barulho, vozes, gritos indistintos, agora mais forte, mais perto talvez, mais gente?

Quando chegou à entrada da casa, já a porta estava a ser arrombada, entravam-lhe pela casa dentro homens, mulheres que parecia reconhecer...aos gritos. Num nada, agarram-no, puxaram-no para fora de casa, assim, shorts e mais nada. Ainda o sono teimava em abandoná-lo e já ouvia o que lhe gritavam.

"Bandido, filho da p...vais morrer hoje!" Levantaram-no, quantos seriam? Uma, duas dezenas? Reconheceu alguns amigos do café. O António? O Rui, com uma enxada a querer bater-lhe com ela? Os gritos continuavam, mas já não lhe parecia distinguir nada. E, num momento, atingiram-no com pedras, paus...na cabeça, tentava proteger-se, numa impossibilidade louca. Até percebia, agora sabia porque lhe acontecia aquilo. E deixava-se ir, levar-se. Enconstaram-no a um muro do outro lado da estrada frente à sua casa de pedra rústica. Com qualquer coisa que tivessem, lhe batiam, na cabeça, nas pernas, por todo o lado. Percebeu que o sangue lhe saltava, jorrrava e toldia a vista...e o negro, uma luz forte negra, uma espécie de mancha negra lhe cobria a visão que já perdera. E...nada.

Uma história fictícia que pode ser verdade em qualquer aldeia, vila, cidade ou bairro onde vive. Em qualquer lugar, e com a legitimidade conferia pela Lei.

Num Estado de (suposto) Direito, Deputados (supostamente) de direito, legalidade conferida pelo voto, votaram uma Lei que permite constituir listas de pedófilos e serem consultadas por qualquer cidadão. Parece normal, não? Afinal a pedofilia é hedionda, é um crime que nos revolta, desassossega e retira da nossa paz no mais produndo que temos de seres sensíveis. Actos praticados contra crianças e jovens são do mais horrível que alguém pode cometer. Nem imagino como me revoltaria, como reagiria, mas admito que poderia perder toda a tranquila forma de ser de que gosto em mim. Talvez boa parte dos meus princípios voassem num ápice, perante uma violência contra um filho meu.

Mas o papel de um Estado de Direito é proteger as pessoas, neste âmbito. Proteger, com todas as evidentes dificuldades e incapacidades, crianças, contra crimes que, na maioria das situações se passam dentro de portas, em ambiente familiar, nesse silêncio violento que pode matar por dentro para toda a vida, as vítimas de tais actos. Pode matar a saudável mente de qualquer criança ou jovem, até por muito menos do que um acto de pedofilia.

Mas a publicação de uma lista de pedófilos já condenados, em que ajuda ou protege contra futuros casos destes? E não se permite, ou mesmo promove...o que no início do texto ficcionei? Um país europeu, em pelo Século XXI aprova uma Lei destas? Do linchamento popular? O Farwest aqui mesmo?

Que mentalidade medieval se lembraria de uma Lei assim? E que raio de Deputados burros, idiotas perfeitos, que estafermos temos numa Assembleia eleita e paga por nós?

Nem um ser humano normal cosegue seque pensar num acto de pedofilia cometido contra uma criança ou jovem conhecido. Ou mesmo desconhecido. E é bastante normal e saudável a nossa legítima revolta contra qualquer pedófilo.

Mas...

O Linchamento popular por esta Lei patrocinado será o mesmo que estes políticos esperam para si mesmos...se assim continuarem a abusar do Poder que lhes foi conferido?

Pois a mim, parece-me.

14.3.15

Falso Incógnito

Qualquer coisa pode começar a qualquer momento. Continuar incógnito, numa carruagem do Metro, observar os outros, na languidez de uma manhã em estado avançado, nesse tempo que começa para nós e para outros já leva o peso de meio dia andado. Os outros. Somos como os outros, nesta nossa diferente, tão distinta quanto as nossas mais fortes intenções e capacidades nos permitirem ser. Somos também tão diferentes, não distintamente, apenas distinguíveis.

E ir assim, numa carruagem qualquer, uma carruagem sem história onde apenas as histórias de cada um são transportadas a um ritmo de quatro, de seis ou de oito minutos por passagem de cada comboio.

Knausgaard (Knausgard) tem andado comigo. Admiro a sua ímpar coragem de escrever a sua vida, que ainda pelos quanrenta já encheu mais de três mil e quinhentas páginas. Admirável. Esse realismo cru, por vezes cruel consigo, por vezes duro com outros, mas sempre de uma inteligente elegância. Como se meteu esse homem das terras do frio e do silêncio (um silêncio que mata um português mediano), a escrever sobre si. Contando pensamentos, acontecimentos com a coragem que lhe podia trazer tantos dissabores. E pode ter começado assim, numa viagem urbana. Ou num dia desses, do silêncio nórdico, da frieza das palavras que não dos sentimentos.

Um escritor denuncia-se e não ganha fragilidade, mas ganha admiração pela nudez da sua vida, exposta em tão elegante forma. Pode um dia um de nós pegar num teclado e começar?

Que impulso pode mudar uma vida, uma linha de actuação? Que nos pode fazer regressar a um passado, completo, incompleto, a que não queremos regressar, a que adoraríamos voltar?

O que nos pode fazer saltar dessa mancha que se arrasta ensonada, na rotina asfixiante, na rotina assustadora, tiruradora, fatal, para uma brilhante etapa de vida, não pela admiração de outros, mas sempre de alguém, porque sempre gostamos que alguém nos aprecie, nos aconchegue num elogio, ou simples apoio, num confortável empurrão para mais e para a frente?

Pode ser um sinal? Ou uma não mais suportável rotina cinzenta que nos ameaça destruir? Há dias desses, que nos parecem sufocar pela nossa própria estupidez, em que não mais aguentamos ser o que somos, e queremos saltar para fora de nós mesmos.

Pode ser o dia em que nos damos conta de que a cinzenta e morna rotina não serve mais. Se esse dia chegar. Entretanto, as imagens vão insistindo nesse filme da memória que queremos-não-queremos, mas que é de nós e dos outros que de nós fizeram. Ou não. Um dia desses todos teremos essa vontade violenta e demolidora que nos leva a escrever. Nem que ninguém mais veja. Ou a mesma vontade, para assumir uma desistência.

Knausgard não desistiu. Usou do que melhor sabe para falar do que mais lhe deve ter custado. Por a nudez das suas vidas cá fora, ao descoberto de todos, a uma luz. À luz que sabe ou não entender esse impulso, necessidade de tudo dizer. Mas nunca se diz tudo. Nunca. Morre connosco talvez o pior, ou exactamente o melhor do que fomos, vivemos ou queríamos ser.

13.3.15

Condições de vida impostas e...impostos

Impor significa uma ideia simples, que todos conhecemos desde os primeiros anos de vida. Significa obrigar a. Contra a vontade de a quem se impõe. Não é forçosamente mau. Depende, na essência, dos resultados, nem sempre previstos ou de imediato entendimento por quem é alvo de imposição.

Aplica-se na vida em tantas circunstâncias, formas e acepções e em fases nem sempre tranquilas e favoráveis. Mas como muita coisa na vida.

Impostos, essas taxas, valores, percentagens sobre valores que desde a antiguidade foram sendo Impostas ao povo, e nesses tempos idos de memória antiga, apenas ao povo, são imposições. Algo a que vulgo se substantivou, partindo do verbo. E assim ficaram. Mas o significado central, o cerne do termo é esse mesmo. E isto era uma explicação trivial e fútil até, não se desse o caso de quem mais Impostos nos impôs, passe o pleonasmo, quase pretendesse evidenciar ignorância infantil sobre o assunto.

IRS, IVA, IMI,  IMT, Taxas para o ADSE, Taxas moderadoras nos serviços de Saúde... tudo subiu, tudo foi imposto, tudo é Imposto. Seria normal, repito-me, não fora o destino dos mesmos servir a quem é imerecedor. O Estado. O Estado esbanjador, irresponsável, cego e injusto. O mesmo Estado que nos quer cobrar outra imposição. A de penhora. Por meros euros de dívida, ROUBAM-SE contribuintes honestos.

Porque desonesto é o Estado. Só é legal, mas a legalidade só está acima do demais, numa sociedade ainda democrática, pela força de Tribunais e das polícias. Nada mais. De outra forma, sendo nós o Estado, a coluna vertebral do Estado, e "eles" a apenas Administração, incompetente, injusta e, pelo que temos assistido, também ilícita, ilegal mesmo e até bandidesca, é absolutamente fácil aceitarmos o princípio da injustificada atitude de cobradores contra quem há-de morrer à fome, muito antes de atingido por doença ou velhice saudável e natural.

Mas, como o nome assim nasceu, assim se criaram os incumpridores e os que distorcem a licitude dos Impostos impostos. Passos Coelho não pagou? Esqueceu-se? Não podia pagar? Mas eu...tu, você que me pode estar a ler, não nos podemos esquecer, não podemos não poder...pagar. E ele, o homem que mais nos impôs miséria através desse sistema de cobrança e roubo total, completa e ilicitamente criado por ele e por uma Europa de loucos agiotas, não tem o mais ínfimo direito a se "esquecer".

E, se anglo-saxónicos fôssemos, já se teria demitido. Mas por cá, não. Por cá cobra-se mais taxa de ADSE para fazer crescer o superavit do ADSE. Ou apenas irritar os funcionários, ou fazê-los sair do sistema e desviá-los para o falido, a Segurança Social normal e o SNS deficitário. Não há forma de entender. Mas há uma. Uma só. Despedimento do Governo e proibição de exercício de funções públicas oara sempre. Se um funcionário qualquer, um número mais ("mecanográfico...") do Estado for acusado de desvios ou ilegalidades, é impedido de o voltar a ser, para sempre. Mas um Primeiro-ministro mantém-se em funções e até pode ter futuro político?

O problema seria ficarmos sem Governo neste momento? Mas há momentos bons para ficarmos sem Governo? O problema, esse, seria menor, bem menor, do que continuarmos com um Governo de gente assim, que passa pelos buracos na estrada, não os vê, destrói as viaturas e ainda lhes é oferecido um outro automóvel de luxo. São Excelências. Não sei a que propósito. Não entendo porque ainda temos Governo.

Não porque pode haver melhor. Não só não creio, como estou certo de que não teremos. Mas isso não me impede de considerar que este homem não pode mais exercer qualquer função do Estado ou para o Estado!