18.2.15

(Quase) Sempre a Desigualdade

Os problemas da Grécia, os problemas de Portugal, de Espanha e de mais países pobres, da América Latina, da Ásia, são todos devidos a uma crescente e profunda desigualdade social? A uma desigualdade que, assim, em termos genéricos, pouco diz? Não.

A Desigualdade, que sempre existiu, e, por isso mesmo é argumento de alas mais conservadoras, ou liberais económicas da sociedade, sempre existirá e a vida (leia-se o Mercado, a Sociedade) se encarregará de ajustar e re-equilibrar (coisa que nunca aconteceu), é uma súmula de desigualdades várias: nos rendimentos, desde já. Na Propriedade (e rendimentos dela) e nos Capitais (e rendimentos deles). E nos Acessos. Acesso a oportunidades, na Educação, na Saúde, na Cultura e Conhecimento, na Ascensão (Mobilidade) social.

É uma causa e, ao mesmo tempo, uma consequência. O que centenas de economistas, sociólogos, politólogos, neurocientistas, psicólogos sociais, filósofos (a quem se costuma dar muito pouca atenção e se devia dar muito mais!), nos têm dito, escrito, insistido é que sendo causa deve pensar-se sobre ela e corrigir-se, porque, precisamente por se tornar também uma consequência, é uma rotura social que se torna sempre num factor de atraso económico. Quem perde capacidade de intervir, economicamente, fica dependente. E perde toda uma sociedade. E essa perda, transitória de capacidade de intervenção social e económica, mas também (!) cívica e política, deve-se a tudo o que atrás se indicou, começando por insuficiência ou incapacidade económica.

Ao contrário, e isto nunca será aceite por sectores conservadores e liberais, os estratos mais ricos da sociedade possuem e fazem desenvolver a sua capacidade de intervenção, cívica, social, económica e, para nosso mal, política. E geralmente, não possuem nem Conhecimento, nem Cultura, nem algum mérito, mas apenas meios económicos e financeiros de persuasão da classe dirigente de um país. E tão só. Mas haverá sempre um erro nas generalizações.

Na Grécia, como em Portugal, a corrupção instalada, que não tem mitigado, mas ao inverso, ganha poder, provoca uma perda de recursos tremenda na economia, e faz aumentar a Desigualdade, e a injustiça.

Como se combate? Por intervenção do Estado, por mudança de mentalidades e por denúncia, sem tréguas, mas fundamentada. Sem peias ou amarras a conceitos do passado. Refiro-me, particularmente a alguns conceitos, que mentalidades muito presas a grupos, onde as pessoas se pretendem inserir, as agarram a visões anacrónicas. Como a propriedade do Estado sobre certas empresas, ou a defesa de oligarquias, ou monopólios, por cedência intelectual, ou cedência a interesses empresariais, os famosos lobbies. Sectores como Energia e Combustíveis, Transportes, Comunicações, são presas fáceis destes "complexos" intelectuais distorcidos. E estes, são fonte inequívoca de desigualdades, pelo poder desmesurado que possuem esses sectores, ou as empresas que neles operam, normalmente em monopólio ou oligopólio.

Mas há outros problemas nas sociedades portuguesa e grega (e não apenas). A concentração de riqueza em pessoas e empresas muito pouco inovadoras e criadoras da diferenciação. As maiores empresas portuguesas limitam-se a distribuir serviços e produtos: energia, combustíveis, bens alimentares, representações de empresas internacionais. E nada mais. Não se vê criação, inovação, visão de futuro alguma. Tendo meios em si concentrados, acesso a créditos que empresas e pessoas normais não possuem, não procuram nada de diferenciador, mas vangloriam-se de sucessos e metas que não passam de cópia do que já se fez por todo o lado, não acrescentando valor real e futuro viável a economias anémicas em luta a uma escala internacional.

E o Estado não intervém. Limita-se a gerir. E gerir mal. Sem reformar, sem se reformar a si, pela Administração.

Que se passou com a proposta de Reforma da Administração? Morreu. Portas devia ter apresentado algo de inovador e eficaz, para a modernização do Estado. Apresentou uns farrapos de ideias e nunca mais alguém perguntou ou comentou alguma coisa. E todas as outras? Porque temos um sector educativo que sempre pretendeu defender mais profissionais do mesmo do que uma Educação moderna e que mude uma sociedade de gente iletrada e inculta, impreparada, portanto. E na Saúde o mesmo: primeiro os seus profissionais, e consequentemente, esperam-se meses e anos por uma intervenção cirúrgica, horas ou dias por uma "urgência" e morre-se antes de conseguir uma simples consulta. Mas os seus profissionais estão defendidos, do desemprego e da mobilidade (descendente) social. E a Reforma do sector empresarial do Estado? E dos sectores energético e das telecomunicações? Não, não estamos preparados para mais crescimento económico, nem para esse fantasma dos liberais que é o "mercado a funcionar e a regular e mitigar as desigualdades", criando mais oportunidades e possibilitando o acesso a sectores empresariais a quem tem capacidade por formação profissional e educação e cultura.

Não se irão criar oportunidades, sem todas as reformas, que mudem esta sociedade para uma mais justa e livre de monopólios e oligolpólios, que massacram os consumidores e retiram possibilidades a tantos de nós, aumentando a injustiça e desigualdade.

Isto nada tem de ideológico. Mas é urgente e já o era há quarenta anos, quando Soares criou mais injustiça com a criação de novos interesses e grupos, que lhe são próximos ainda hoje. Com o fim da Ditadura, conquistou-se uma Liberdade que me permite poder aqui escrever isto. Mas gerou-se muito mais incompetência e desigualdade. É preciso sermos livres de pensamento para que possamos ter uma visão desprendida. Sem se pertencer a grupos, apenas...porque sim. E recusando populismos, hoje uma nova ameaça por todo o mundo.

17.2.15

A próxima Grande Ameaça?

Há uns tempos, escrevi sobre o potencial perigo de uma Terceira Guerra Mundial. Não pelo prazer, mórbido, ou pelo fútil passatempo de adivinhação. Nem pelo que me parecia ver nos sinais que ainda me surgem tão evidentes (e desejo enganar-me, espero que sim).

Putin é uma ameaça real. Parece pretender vingar o antigo regime dos sovietes, o tempo assassino e mortal de Estaline, o grande carrasco da História, que o PCP ainda venera. Putin é um ex-KGB que, num país de gente mais interessada nas dificuldades dos seus dias, ou na parca gestão do que conseguem entre mercados negros, corrupção sem igual e simples, legítima sobrevivência, nem olham para o que lhes fazem de uma Democracia inexistente, ou de uma Monarquia não assumida, mas deixam que se alastre, de novo, a terrível censura e perseguição política e o antigo imperialismo militar e violento, completamente desumano da URSS.

Putin não deixará de ser uma das maiores ameaças à Paz, ao desenvolvimento gradual e sereno do Mundo (que a Finança agiota também ameaça há anos, antes e depois de 2008), à estabilidade já precária entre Ocidente e Oriente.

Mas se Rui Ramos, no Observador, considera que o grande perigo e o maior problema vem da Ucrânia e dos confrontos com a Rússia, e da incapaz e frouxa União Europeia, a mim parece-me, cada dia mais, que o fogo pode ser ateado com o que o Estado Islâmico um dia pretender fazer com os Judeus, os Judeus de Israel. Não tenho muitas dúvidas sobre a espera que Israel deve fazer a cada dia, sobre um acto de loucura do fanatismo do Estado Islâmico, sobre cidadãos seus. Como se imagina que reagirá Israel se um genocídio feroz se perpetrar contra os seus, por estes loucos assassinos sem limites?

Nesse dia, que espero nunca surja, o rastilho pode começar, em qualquer lado onde crimes hediondos, como os que semanalmente temos vindo a presenciar, literalmente a ver, nas televisões de todo o mundo, tal como os fanáticos pretendem, nesse dia...não tenho a mínima noção do que podem estar a iniciar. O seu fim, mas talvez o fim de muitos mais, de muita coisa mais.

Putin aproveitará qualquer loucura extrema para se voltar contra o Ocidente que odeia, tanto ou menos do que anseia tentar derrotar, numa Guerra impossível de ganhar. Mas possível de ser ganha pela Morte e pela Desgraça, mesmo antes de começar.

Extremos endoidecidos temos hoje um pouco por todo o mundo, e outros mais se podem juntar, repetindo-se o que há setenta anos se julgara já banido de vez.

E, tal como após antes da Segunda Guerra, as democracias ocidentais se vão escalando em vagas de sucessivas e ineficazes "conversações" bilaterais, trilaterais, etc.

Só uma atitude ao estilo de Churchill poderá evitar o que loucos como Putin, o "rei" da Coreia do Sul e os do Estado Islâmico adorariam iniciar. E, o impossível, tal como em 1939, pode voltar a conjurar e nos arrastar para mais um conflito, desta vez demasiado fatal.

3.2.15

O Abismo

A Austeridade. Querem fazer regressar aquilo que ainda não nos abandonou. Nem no primeiro momento a Austeridade resolveu alguma coisa. Admito que exista algo de corporativo nesta coisa de se implementarem medidas, a nível político, mas económicas, com o intuito de tentar resolver um problema, gerando outro, ou outros. A Austeridade gerou, e sempre assim foi, pobreza, e incipiente crescimento económico. Mas ainda, desigualdade nos rendimentos, desigualdade social, esmagamento de estratos sociais até ao seu desaparecimento. E, não sendo ainda tudo o que a Austeridade faz, cria mais riqueza no estrato superior de uma sociedade. Tudo isto é bem conhecido dos economistas, que, no entanto, insistem em medidas de carácter austero, em economias em default, em crise profunda, em situação de incumprimento dos compromissos da sua dívida. Mas serve uma corporação, que, assim, se perpetua a corrigir, emendar, costurar remendos, num trapo que criou, com o empobrecimento generalizado, mas o enriquecimento selectivo também, e, principalmente, para o que o futuro interessa, na ausência de crescimento, porque insistem as entidades nestes programas? Porque é tão importante o défice de um Estado? Porque, já sabemos, tem que ver com a capacidade de ir conseguindo gerar alguns recursos, que lhe permitam ir cumprindo com o serviço da sua divida soberana, sem com isso gerar mais dívida. Isto, de forma simplista, claro. E, pergunto, o crescimento económico não interessa? Como conseguir limpar contas num Estado, e gerar riqueza que permita dar folga para pagar dívida, mesmo que tenha de contrair ainda um pouco mais, e, bem importante, conseguir aliviar uma economia em termos fiscais, de modo a que o crescimento possa surgir, sem a asfixia do investimento público? Como? Com crescimento nas exportações? E com uma austeridade a níveis insuportáveis consegue-se esse estímulo? E essas exportações, num país sem recursos, não se fazem muito à custa de incorporação de bens importados? Quanto crescemos nós, ultimamente, em Portugal? E quanto precisamos de crescer? Pois...as contas estão feitas e tudo o que for menos de 3% ao ano...nada. E, para se conseguir acreditar no futuro com mais folga financeira, mais competitividade..uns 6%. Quem acredita num crescimento económico de 3%, e quando o teremos? O Estado devia reduzir, por outro lado, o nível de despesa para menos de setenta mil milhões e ainda anda perto dos oitenta mil milhões. Mas mesmo os setenta mil...no pressuposto dos 3% de crescimento.

Se o PSD, confesso inimigo do grande investimento publico, nesta fase, e de um crescimento económico visível (entre 1 e 3%), e de um défice abaixo dos 3%, nada disto conseguiu. E se, o pouco que conseguiu, foi gerando mais desigualdade. E se  o PS pretende reanimar uma economia anémica, por via do que antes fez de geração de dívida (pelo investimento público e pelo crescimento da despesa do Estado, pelo clientelismo conhecido- de que o PSD também tem dado provas bastas). E se nenhum dos dois Partidos soube, ou quis, procurar outros caminhos, que não a austeridade versus despesismo e investimento público, para substituir o privado que não pode existir num contexto onde só um louco investiria...como pretendem os políticos em que o povo diz querer votar, resolver a equação? À maneira grega?

A maneira grega pode resolver alguns problemas no imediato, de facto. Não pagar, ou adiar o pagamento, ou renegociar juros, paralelamente a gerar mais investimento público, distribuir recursos, evitando o crescente empobrecimento generalizado, pode parecer uma panaceia...mas num segundo momento, o problema agudizou-se. Nem duvidem.

Uma sociedade moderna, num contexto em que a oriente se produz e a ocidente se consome, e em que a oriente se concentra essa capacidade produtiva, com baixos custos, e baixos rendimentos das pessoas, e um nível de desigualdade na distribuição dos mesmos superior a qualquer país ocidental...só pode conseguir crescer se conseguir esbater a desigualdade, porque entretanto conseguiu sobreviver aliviando a carga fiscal, conseguiu um rigor nunca visto nas suas contas públicas, sem gerar mais dívida ou sem descontrolar o investimento público, e foi, a ritmo acelerado, preparando melhor a sociedade, em termos educativos e de formação profissional, possibilitando novas criatividades, fora do alcance do Oriente. Ou...

...um dia seremos no Ocidente, o futuro Oriente do actual Oriente: salários baixos, vida degradada, fome, desemprego, anemia política e mesmo regimes ditatoriais.

Podemos nunca chegar a este extremo, mas o caminho está a fazer-se. E são os defensores da suposta justiça social do crescimento económico das sociedades de matriz europeia, civilizadas, cultas e saudáveis que nos estão a levar para esta orientalização: os Partidos conservadores e socialistas democráticos. De toda a Europa. A Alemanha não escapará. Supõe a bioquímica alemã, que se julga líder, política rigorosa e visionária, que evita esse caminho, mas esquece-se da anterior divida do seu país e de como os Aliados lhes aliviaram o caminho, e permitiram ajustar o pagamento da dívida indexando-o ao crescimento das exportações. E ainda assim têm um nível de endividamento que, se um dia os agiotas se aborrecem e lhes cobram os 5% ou 9% que se cobra a países em default...

2.2.15

Alan Turing (Enigma): a sua fatal homossexualidade

O Reino Unido, ou a civilização britânica é um mundo de muitos mundos, uns previsíveis, muito, como adoram os britânicos. Sempre saber o dia seguinte. Como lhes será.

Há alguns anos li um livro que diria, interessante ou mesmo mais que isso, e pela narrativa, diria fascinante. Mas um livro pouco profundo, sobre uma das histórias mais importantes, secretas e determinantes do curso da Segunda Guerra Mundial. Um conflito que ainda nos consegue, ao dia de hoje, surpreender pelas revelações. E não me refiro às atrocidades que os Aliados cometeram nos países que foram libertar dos nazis. Isso é um assunto bem mais complexo e polémico.



A obra de Robert Harris tem o título na máquina infernal, uma encriptadora, que os alemães construíram na Segunda Guerra que deu cabo da cabeça aos Aliados durante os primeiro quatro anos de conflito: Enigma. Infernal, porque todos os dias o código base era alterado, e já de si bem difícil era de ser decifrado, tornando quase impossível descobrir o código a ser usado no dia seguinte, nas mensagens trocadas entre vasos de guerra alemães, que, sem quase incómodo algum tropedeavam os comboios marítimos carregados de alimentos, e, bem assim, os navios de guerra aliados. A partir da meia-noite em ponto, o código nas máquinas enigma mudava e, no dia seguinte, outras 159 mil milhões de milhões de possibilidades havia para as mensagens desse dia. Ou impossibilidade de serem descodificadas.



Alan Turing foi o matemático inglês responsável pela máquina e sistema que desvendou o funcionamento da Enigma, essa poderosa e hiper-engenhosa máquina que permitiu aos submarinos alemães trocarem mensagens que nunca foram, pelo menos durante quatro anos da II Guerra, descodificadas, custando a vida a milhões de europeus.

Turing nunca foi homenageado como herói de guerra, mas foi provavelmente devido a ele, e à sua inteligência brilhante que ainda se pouparam mais de 15 milhões de vidas e se abreviou o grande conflito europeu, em cerca de dois anos. Foi também um dos mais importantes pioneiros da computação moderna.

Turing era homossexual. Há tão poucos anos como na década de cinquenta do século XX, a homossexualidade era crime, na Grã-Bretanha, como em quase todo o mundo. Turing foi condenado em 1952 e deram-lhe a escolher entre a prisão e um "tratamento para controlo do complexo hormonal" que lhe permitia corrigir o seu "desvio sexual". Em 1954 Turing suicidou-se. Como era uma vergonha, ser homossexual e suicidar-se, também, a sua mãe nunca reconheceu, nem um, nem outro facto. Em 2013 a Rainha Isabel II perdoou Alan Turing. Em 2013...

Um país com pergaminhos de ter contribuído (liderado segundo eles) para a moderna civilização, de ter dado ao mundo tanta inteligência científica, como política (a mais antiga democracia moderna do mundo), com uma personalidade como Churchill, indiscutivelmente um dos maiores estadistas de sempre, e outra mente brilhante... levou todos estes anos para "perdoar" um crime que nunca o devia ter sido. Mas a civilização ocidental, timoneira mundial (supostamente) tem destas coisas: os Estados consideravam poder decidir sobre a cabeça e as opções de cada um. Sobre as suas escolhas e modo de vida, fosse sobre a sexualidade, como sobre os casamentos. Ainda há uns quatro anos era crime em Portugal não cumprir os "deveres matrimoniais", abrindo-se processos litigiosos ao cônjuge que os incumprisse. 

Uma Rainha tonta que nada fez na vida e nada fez pela vida, tem prerrogativas de perdão sobre o crime da homossexualidade. E a civilização britânica considera-se a herdeira da modernidade...

A ciência tem avançado bem mais depressa do que a mente desta gente tão conservadora e limitada que nos tem liderado, desde há décadas, nesta Europa, por outro lado, berço de tanta gente brilhante.

Sinto uma asfixiante dificuldade em compreender estes fenómenos de atraso intelectual dos nossos líderes e dos nossos Estados. E essa asfixia ainda estrangula mais, quando suspeito que ainda décadas teremos de percorrer para que estes anacronismos e contradições civilizacionais nos deixem de vez.