31.1.15

Eu teria vergonha...

Eu teria vergonha. E tiraria ilações e consequências. Para quem foi responsável e para mim mesmo, se fosse o responsável pelos responsáveis, que, com estupidez, ignorância e uma inexplicável irresponsabilidade, elaboraram uma prova de avaliação dos professores, com tanto disparate...

Disparate e erro. Como é possível pretender-se avaliar docentes, com a justificação de ser absolutamente fundamental, para garantir a qualidade do Ensino, para filtrar a docência e usar de traduções de um mau gosto e de uma tão baixa qualidade, como se se estivesse a gozar, com uma total desfaçatez, dos avaliados?

E ninguém é responsabilizado? Ah, já sei! Deve ser porque 95% dos professores passaram na prova...na tão bem titulada "Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades” (PACC). Repita, por favor...? Prova de Avaliação de Conhecimentos? E que perguntas se fizeram para tal aferir? Ah! afinal passaram cerca de um terço dos professores? Então deve ter sido porque não tinham "capacidades". Ou as duas coisas, conhecimentos e capacidades, tudo a falhar, coitados. 

Mas alguém me diz que perguntas aferiam estas duas vertentes e intenções da dita Prova?

Uma vergonha. E que está a dar razão aos professores que tanto têm contestado a prova. 

Como outras coisas, mais uma vez, os incompetentes adoram dar razão aos adversários. Como noutros assuntos, se tivéssemos bons governantes do PS ou PSD, não se ouviria mais falar nem de PCP, nem de BE. Veja-se pela Europa, o que aconteceu aos comunistas? Onde andam? Claro, na Grécia, andam cheios de vida os "bloquistas" do sítio, mas pelas mesmas razões. Os Partidos democráticos também por lá, ou principalmente por lá, se portaram bem mal. O Pasok então...e até foi bem mais competente do que o PS de cá! Abram os olhos, portugueses!

O Senhor Crato devia ter juízo. Com esta prova, já é demais, e sobre a sua capacidade e conhecimentos ficou tudo muito claro, pelo menos para mim. 

E concordo, inteiramente com o Pulido Valente.

30.1.15

Dívidas soberanas, Grécia e o Circo

Por regra e por princípio, acho que uma dívida deve ser paga. Seja privada, pública ou soberana (de um Estado). Porque quem paga as suas dívidas ganha direito ao "bom nome", junto dos seus credores. O que lhe pode servir de imagem prestigiada (todos teremos dívidas, uma ou outra vez), principalmente se estivermos a falar de um Estado.

Mas parece-me que há muitos equívocos sobre o assunto das dívidas soberanas, especialmente (tal como a nível privado, ainda há quem pense ser muito grave ter uma divida, quando a gravidade está, apenas, em ter dificuldade ou impossibilidade em conseguir pagar. A dívida de um Estado reveste-se de outras particularidades. Porque, desde já, todos os países têm dívida, ou são muito raros os que têm uma situação de folga financeira, sem dívida e até de superavit, ao contrário de deficit

Os equívocos são diversos, mas referir-me-ei apenas a alguns. Primeiro, as origens das dívidas soberanas. São diversas. Normalmente têm muito a ver, regra geral, com a necessidade (ou não) de um país ter de efectuar investimentos públicos (e privados) a um nível que ultrapassa a sua capacidade de pagar, a um ritmo, a uma passada, igual ou próximo do seu crescimento económico. E acresce, e muito, o seu nível de despesa. Normalmente, a origem se encontrando nas decisões políticas (que não questionarei agora). Quase nenhuma força política escapa a uma quota de responsabilidade sobre a contracção de (mais) dívida ou sobre os excessos descontrolados com o mesmo efeito. Não vem, também, neste texto, ao caso.

Acontece outro facto, embora nunca assumido por forças políticas mais conservadoras, que se "sentem e julgam de direita" (nessa lógica infantil de 1789, e nessa inexplicável, entediante e alergogénica ideia de pertencer a um grupo, a todo o custo, quase a procurar na cor da pele, na dos vasos sanguíneos, ou na forma de vestir o seu enquadramento ideológico. Por parte de quem, não tendo ideias, julga ter ideologia. Mas com ter ideologia, estou perfeitamente de acordo, ser de "direita" ou de "esquerda" é tão idiotazinho...que...me fico por aqui. Uma fantasia com trezentos anos): as dívidas cresceram por interesse, instigadas e estimuladas, por quem tinha e tem interesse nas mesmas. Mas acontece que, por "serem de direita", algumas pessoas julgam ter de defender o ponto de vista da Finança, do sector financeiro, ou, em geral, como o circo português nos demonstra (seguindo os passos do circo europeu e internacional, aliás), porque lhe ficaria muito mal não estar do que pensam ser o "lado do capital". E que isso é aliás o seu elemento identificador da sua área política: estar sempre do lado do capital e da Finança. Lendas e mitos do passado enchem a cabeça a estes medíocres políticos europeus, começando numa Merkel, que, por isso mesmo a tenho apelidado de ridícula e infantil. 

Passando ao "outro lado", que só assim o designo porque eles também têm essa necessidade hoje quase patológica (não pretendo confundir isto com convicções ideológicas auto-fundamentadas, por parte de gente inteligente, obviamente) de pertença. De pertence a um grupo, neste caso, de "esquerda". E isso, segundo eles, implica ser contra o Capital, a Finança, os "ricos" e outras asneiras, surgidas de uma estereotipização (já aqui descrita) quase toda infantil, também, e seguidista, clubista, como a de "direita". Por estas razões é que tenho escrito um tanto sobre assuntos de neuro-ciências, ligados a actividades políticas, empresariais e até atitudes e opções pessoais, num escalonamento que me parece todos conhecermos. 

Hoje era o circo português, sobre a dívida grega. Passos jura que nunca estará ao lado de iniciativas que tenham a ver com o "não pagamos". Assim se sentindo amigo da Finança. E toda a área "de esquerda" é agora syrizíca... Lindo, se não fosse um Parlamento eleito e pago por nós. Triste, por se parecer com um circo de idiotas. Que, assim reagindo, perpetuam a omissão ou a negação da procura de soluções. Soluções para que se evitem mais "investimentos públicos" como a Grécia já promete ir fazer e que a nada levam, se não a mais dívida. São sempre necessários, mas talvez alguém os tenha de pagar...

Se por exemplo, em Portugal, para o funcionamento do Estado são necessários oitenta mil milhões...e nem a setenta chegamos, fruto dos impostos e outras receitas do Estado, por incipiente, estagnado, crescimento económico...e ainda mais me apetece gritar ao ouvir Passos a falar de um crescimento anual de menos de um por cento (0.7 acho...) quando nem cinco seriam já suficientes e não por um ano apenas...

Ora, apetece-me lembrar que na "Finança", nacional e internacional, há gente de todas as ideologias, mas também dos interesses políticos: "esquerda", "direita", maçonaria, opus dei, bilderberg...etc. Não sendo, por isso, fácil de entender estas expressões descabidas de muitos políticos, que, num Parlamento defendem aquilo que em privado e nos grupos ou sociedades secretas terão de negar. Por isso lhe chamei circo.

Circo, neste monento inclui tanta gente, do Syriza à Merkel, do Jerónimo de Sousa e Catarina Martins ao Costa (que também deixou de ser Pazok para ser Syriza), de Passos a ...todos os que nos desfilam por estes dias de estupidez, na TV. 

A Grécia elegeu quem quis, claro. Foi um processo democrático, pois. Serviu de alguma coisa? juro que não, mas logo muitos veremos isso...

A Europa continua na senda da Austeridade, pois. E também verão o efeito nefasto e demolidor ainda mais gravoso, e nem tardará muito. 

O Circo continua, mas os palhaços já não alegram ninguém. Apenas desiludem.

24.1.15

O que nos pode chegar do berço da civilização europeia?

O Syriza vai ganhar amanhã, numa profunda reviravolta política, numa Democracia europeia. Ou talvez não. Ganhar, provavelmente sim. Mas Tsipra irá conseguir mudar alguma coisa na política germânica da Europa, que, aliás, tem conduzido a União a um pré-caos político e a um desastre social a confirmar, uma falhanço económico já confirmado?

Tsipras quer o perdão de metade da dívida grega. Bruxelas já vai dizendo que não. Relevante? Como atitude, provocação, ou seriamente assumida, sim, é relevante. E de resto? Porquê metade da dívida? E que solução isso traria à Grécia? E se Bruxelas resistir, aliás Merkel? E...porque Merkel tem de se meter em tudo e decidir quem morre e quem fica? Merkel consegue mesmo persistir neste papel de Kaiser (César em alemão?) que aponta o polegar para cima ou para baixo, consoante o destino que pretende para o gladiador escravizado em causa?

Tanto acho que Bruxelas não tem razão, não pelo dever de um país cumprir com uma dívida contraída, mas pelo valor que atingiram as dívidas soberanas, por parte da responsabilidade na sua existência, e pela cega insistência numa austeridade sem qualquer, repito, amigos, Qualquer justificação. Já me cansei de explicar o absurdo de tanta coisa, desde o contrair de dívidas nos montantes em que os países as contraíram, Alemanha incluída, até ao agiotismo permitido num espaço europeu que há muito perdeu o seu sentido de justiça social. Não. Não se trata de uma simpatia de meia-idade com o extremismo tipo-siryza. Mas de algo bem mais profundo e mesmo científico. A austeridade veio na sequência de um conjunto de decisões erradas, nomeadamente do absurdo do relançamento do investimento público, tal como Hollande pretende, ainda, e Costa quer perseguir. Essa mania de colocar o Estado no papel de dinamizador de economias nacionais, trouxe vários países à calamitosa situação sem saída. E daí à austeridade foi apenas mais um passo, já previsto no conjunto de acções que os agiotas hiper milionários, construtores-conspiradores da enorme e suicidária desigualdade (de rendimentos e de patrimónios) têm vindo a preparar. No mesmo barco estão financeiros, como politicos ao serviço do mesmo sistema, e isso, nada tem a ver com áreas políticas. Da "esquerda" à direita, quem ganhou com o crime das inconsoláveis dívidas soberanas, e com a posterior austeridade, não tem mais do que o mesmo interesse: fazer parte do super exclusivo grupo que enriquece, desde há vinte anos, ou mesmo mais, com o empobrecimento em democracias que deixaram de ser soberanas. Disseram-no Stieglitz, Krugman e agora Piketty. Nenhum tem alguma a ver, ideologicamente com os outros. E todos, e muitos mais, confirmam: as dívidas, as austeridades e até a mediocridade políticas servem o mesmo interesse, conspirador.

Neste contexto, surgiu um Syriza, como seria impossível não ter surgido. Muitos se regozijam agora, como tenho visto membros de Partidos portugueses, conservadores fazerem-no.

Mas, o lado, as intenções e opções do Syriza, levam a Grécia a algum lado? Temo que não, e o receio nem é pelo disparate que os gregos se preparam para fazer. É apenas por se vir a confirmar inútil. Ainda que a Grécia ganhe a batalha da sua dívida. Nem assim irá a algum lado. As crises económicas e sociais nos países europeus têm de encontrar soluções a iniciarem-se por algum lado. E, mesmo que o ponto por onde alguém quiser começar, se verifique errado, tudo me parece demasiado pouco e ainda pior, a solução de um país democrático poder passar por um Partido com aspirações anti-democráticas ou, no mínimo, muito coladas a posições de países de regime totalitário, ou movimentos extremistas e violentos, não augura nada, se não de muito mau. Pelo menos, iníquo.

Não sou contra algum radicalização da política, quando o "correcto" já deu provas de não funcionar. Mas pelo menos que seja um extremar democrático e não um extremismo de extremistas, grande diferença nos resultado, estou convicto.

Por isso, a coisa grega não me parece que vá passar de mais do que um número de circo político inconsequente. Mais um. Se estivéssemos a assistir a uma reforma de Regime para que fosse assegurado o poder por alguém de uma inspiração política sensata e equilibrada, já algo se poderia ter como esperançoso. Mas ainda não será desta. Nem por vir do país berço da civilização europeia, ou, sintomaticamente, aliás por mais indício de decadência europeia, ou confirmação, como tudo nos tem sido gradualmente configurado.

Le Pen em França e Tsipras na Grécia? E na Alemanha uma Merkel a estrebuchar?

Do leste da europa nada de novo parece vir. Infelizmente, nem do centro, norte, sul ou oeste...

Portugal (e Europa): realidade e fantasia

Fantasia 1: O PS e a "Esquerda" ( a tal área política em que muitos gostam de se sentir e encaixar), têm sido mais justos na distribuição da riqueza, e correspondente diminuição das desigualdades.

Fantasia 2: O PSD dos últimos anos, usando de uma muito teórica assumpção, de que o mercado funciona normalmente e os ajustamentos acabam sempre por se verificar, ainda que leve tempo, e pela criação de riqueza se fará essa justiça social, as oportunidades vindo a ser gradualmente para todos.

A Realidade. É dura a realidade. Para todos. Em 1976, acabados de sair de uma Ditadura, que o foi, de uma condição social de injustiças, e das quais todos, os não privilegiados sofríamos, eram estes o número, referentes à distribuição dos rendimentos (nesta análise não está clara se apenas do trabalho ou também do património, se bem que estes estudos têm feito a análise das duas vertentes):

10% do topo (mais ricos) detinham 31,71% da riqueza, 5% do topo detinham 21,12 %, 1% detinham 7,89 % e 0,5%, 5,04%.

Em 2005...

10% detinham 38,25% da riqueza gerada, 5% detinham 26,01 %, 1% detinham 9,77, e 05% 6,42.

Com algumas, muito ligeiras, oscilações pelo meio, a distribuição de riqueza melhorou um pouco entre 1976 e 1989 (mas há lacunas nos dados neste lapso de tempo), mas depois, piorou sempre, com governos quer do PS, quer do PSD, tendo de fazer a ressalva que, durante esse período de tempo o PS este no Governo quase o dobro do tempo do PSD. A justiça social do PS é formidável...! (já nem me refiro à inteligência económica do PSD, que ainda estamos a viver, ou não?).

Os mitos são e mantêm-se os mesmos: na Europa, apenas nos países nórdicos a justiça na distribuição da riqueza é um facto. Em todos os outros países, França, Reino Unido, Alemanha, países do Sul, tudo é uma fantasia. Nem os socialistas trouxeram mais justiça social e melhor distribuição de riqueza, quer no rendimento do trabalho, quer no rendimento dos capitais e património, nem os partidos de "Direita" conseguiram demonstrar que por regulação automática e natural a distribuição de riqueza se equilibra, a desigualdade diminui, as oportunidades para todos se equilibram e o futuro económico e social se garante.

Para esclarecimento dos mais renitentes...http://topincomes.parisschoolofeconomics.eu/#Home:
e ainda: http://piketty.pse.ens.fr/en/capital21c2

20.1.15

Reichstag 1933 - Paris 2015

Fevereiro de 1933, Berlin. O Reichstag estava a arder, e Hitler, empossado Chanceler um mês antes, aproveitou logo o acontecimento, para controlar as pretensões dos comunistas na Alemanha. Supostamente. Até hoje, não é claro que van der Lube tivesse agido sem apoio ou por indicação dos Nazis.

Paris, 2015. O atentado contra o Charlie Hebdo parece estar a incitar ânimos muito diversos, todos eles a servirem o interesse de mais confrontos, de tumultos e de uma animosidade (passe o pleonasmo) contra uma Europa enfraquecida pelos disparates alemãs da austeridade. De passagem, convém lembrar que a austeridade que a Alemanha quer continuar a impor na Europa, não serve nem os interesses dela própria, que, por sua vez, foi alvo de uma generosidade ocidental muito superior quando teve de pagar as dívidas das duas Grandes Guerras (ainda em parte por saldar com alguns países, nomeadamente a Grécia). Convém lembrar que todos os caminhos nos podem estar a levar a uma desintegração muito mais acelerada do que se poderia imaginar, da União Europeia. E nada me parece mais óbvio do que, de novo a falta de inteligência clarividente da que muitos consideram a líder: Merkel. Mas continuo na esperança de me enganar.

Enquanto me engano ou se confirmam as minhas suspeitas, a Europa e diversos países anti-europeus, árabes, Rússia e satélites, vão extremando posições. Os movimentos políticos europeus que nos chegam diariamente pelas notícias, de fontes muito diversas, indicam um extremar de posições, totalmente previsível. É sempre mais forte a necessidade de pertença. De pertença a um clube, mesmo que artificialmente criado, seja de "direita" ou de "esquerda" e todos se tornam previsíveis. Uns, tentando seguir na linha das posições mais secretárias. Outros numa suposta e provavelmente falsa, tolerância a toda a prova. Europa toda demasiado previsível e uma tão preocupante repetição da História de há 80 anos. Por seu lado, os árabes, numa escalada de violência, que também serve muitos interesses políticos e económicos, com a baixa do preço do petróleo, por diversas razões, uma das quais a do "maldito fascista e imperialista" americano que agora se vai tornando praticamente independente das suas produções, os seus petrodólares já não lhes chegam, nem servem os interesses do seu totalitarismo, do armamento dos seus países e mesmo do fanatismo, que sempre tem de ser alimentado com uma desigualdade muito profunda e Estados super repressivos e policiais.

A cada dia, as movimentações após o atentado contra o semanário francês, indicam que de alguma forma alguém parece interessado em repetir os anos antecedentes à Segunda Guerra. Putin é, seguramente, um dos mais interessados. Mas os interesses comezinhos dos líderes europeus, enfraquecidos nos seus países. seguem as mesmas pisadas. Merkel estará de saída, cada vez mais em causa dentro da Alemanha, onde lhe serviram os interesses, a capacidade económica de um povo privilegiado pela Banca e Finanças, numa vergonhosa desproporção à escala europeia. Hollande, estava a cair nas opiniões dos franceses, e aproximando os seus pontos de vista da extremista Le Pen, parece querer segurar-se melhor nas sondagens. Um e outro povos, a fazerem as asneira que tantas vezes se fizeram. É a fragilidade das Democracias: a sua própria força. Quando um povo entra em desequilíbrio e se descompensa, no seu discernimento, como aconteceu na Alemanha de Hitler, e repetidamente por todo o mundo, líderes fracos, líderes perigosos se foram enchendo de favoritismo...o resultado foi sempre bem mais gravoso.

É por isso que nunca se está suficientemente perto de um nível cultural e intelectual superior. Ser cego por um mau gosto do tipo do Charlie Hebdo não é forçosamente ser-se o melhor defensor da Liberdade de Expressão. Para isso, seria bom que todos pensássemos numa situação equivalente cometida contra um nosso ente querido: de uma sátira sem qualquer bom gosto, mas sempre agressiva, contra os nossos...e também no seu contrário, no assassinato gratuito e cruel de pessoas que faziam a sátira.

Observo, no entanto, com este gosto pelo abismo, uma escalada que em nada me deixa despreocupado. Lembra-me, por demais, dos tempos entre as duas Guerras e de tudo o que depois sucedeu. Na altura, como agora, a maioria dizia-se convicta na impossibilidade da Guerra, que no entanto tem sido sempre o culminar, a última, derradeira instância de solução de profundas feridas e diferendos. Da forma mais brutal. Mortal.

16.1.15

Die Forelle



Podemos sempre começar, por qualquer lado. Uma memória, qualquer, uma observação. Alguém que se vê, algo ou alguém em quem se pensa. Ou, simplesmente, quero dizer, nada simplesmente, iniciar um pensamento novo. Criar. E como se cria um pensamento? Primeiro, observa-se, depois compila-se do que a memória nos associar a isso que vemos. Escrever é um dos melhores estruturadores da mente. O pior será escrever com a realidade. Ela é tão enfadonha, tantas vezes demais. E, então, imagina-se. Um dos prazeres mais fáceis, fúteis e ridículos é entreter-se a observar gente à nossa volta. Num café, à porta da urgência de um hospital, a caminho do comboio, numa fila das finanças, numa sala de espera de um médico. Enquanto isso, pomos Schubert e o seu quinteto Die Forelle, A Truta D667, uma dessas obras que a nossa compreensão não compreende. Aliás, não sei como se pode compreender a capacidade de alguém para compor tal coisa. Aos quinze anos, dava por mim a imaginar que inteligência gigantesca teriam os grandes...escritores, compositores de música clássica, oradores, pintores, matemáticos, físicos. Por essa altura descobri vários, que me abriram a mente e a ambição. A ambição, não para ser como eles, mas para os entender e para, fazer crescer o meu cérebro até algo próximo. O tempo dos grandes sonhos. E até pensei, juro que o devo ter pensado na altura, como seria possível terem criado o que criaram. Fiz, então uma promessa: nunca iria parar de aprender. E, ao longo destes anos dou por mim neste dilema, de ser interpretado como um convencido, um quase arrogante, para alguns, e um muito mais do que arrogante, para outros. E, por mim, comigo mesmo (continuo com a Truta aos ouvidos nos meus adorados Sennheiser de estimação), enquanto me balanço numas linha que começam com pouco sentido para vós e terminam sem sentido para alguém, para ninguém (tentando evitar esse erro comum da dupla negação). Descobri um dia, qual não sei, a incrível capacidade desta língua portuguesa que amo. Rica, complexa, com tantas possibilidades de criarmos e recriarmos ao ponto de a dado... ponto já nem nós entendermos o que queríamos, ao início, ter dito. O que é belo, mas muito incompreensível. Espero apenas que não o seja mais do que o quadro em quadrados negros exposto no museu Berardo, na exposição Berardo no CCB (deixo a resposta sobre a sua autoria a quem sabe mais do que eu sobre essas ondas das artes gáficas, das quais gostos de me ocupar, pelo puro prazer da criação, mesmo sem sentido). Será que a criação filosófica pode, também, constituir um mundo de complexas, muito, mesmo muito complexas ideias, sem que façam sentido a alguém, perguntava-me eu um dia. Talvez num dia em que ouvia Beethoven, uma das minhas paixões, um dos meus egoísmo de eleição, em que me encerrava, sem deixar que o mundo se ligasse a mim, e eu a ele. Acho que já adivinhava que o mundo, ou a vida nele se havia de tornar uma quase agonia, nem que por instantes, sempre demasiado longos, para quem adora mostrar-se e ser optimista e sempre animador dos maus dias de outros. Tarefa hercúlea e impossível, está de se ver. Lembro-me de ter dias de alguma, de nível baixo, inspiração, apenas a passear sozinho pela cidade e a cidade era afinal indiferente, podia ser o Funchal, o Porto, Schwäbisch Hall, Mannheim, Barcelona, Madrid, Paris...Lisboa, e Lisboa outra vez. As pedras contavam mais do que o chão que decoravam. Já Schubert vai do Andantino, quarto andamento do seu Quinteto, em que celebra a vida animada, feliz de uma truta que só o é porque não tem forma de saber quando é pescada e...comida e ainda ando eu por aqui, sem que nada vos tenha escrito. Mas os sonhos eram feitos, basicamente disto: crescer, por dentro, sempre a engordar a cabeça com muita leitura, milhões de quilómetros de conversas estimulantes, sonhos de novo, com coisas, realizações e pessoas, e mais leitura, muita música grande, que me fizesse bem pequeno, e a arte que nunca conseguia explicar e nem precisava de mim para tal. Para completar, e dar entorno, um belo vinho tinto, quando o comecei a apreciar, um tanto depois dos vinte e algo, e a aprendizagem dos sabores e aromas, um novo que fui descobrindo com os tachos e panelas. Este mundo ainda cá está todo, agora mais calmo, do último andamento do quinteto D667, mas agora aldrabei a coisa e voltei ao andante, uma beleza (oiçam, mortais, e sintam-se como eu, ínfimos perante este Schubert gigante, esse romântico que nos faz o coração refém e nos agarra ao mais apreciado do que já alguma vez vivemos, e nunca confessámos), ah! este piano, o violino em diálogo com ele, o violoncelo a encher num ritmo mantido...e lá me chegam de novo...o homem era uma figura, de robe, bigode fininho desproporcional ao mau feitio com que tratara a nora ali à porta do São Francisco Xavier, deu-lhe a birra e mandou a jovem embora porque iria a pé se necessário mas que não precisava de ninguém. Era mais um ritmo a que sujeitei esta Truta, e ela resistiu. E ainda se tornou mais empolgante, deixando lá em baixo colados ao solo todos os humanos de reacções comezinhas e tristes, de quem nada mais tem do que ocupar o tempo, fazendo aos outros perderem o deles. E perder tempo...lembro-me da enorme chatice aos quinze anos que era ir cortar o cabelo e ter de ficar ali parado, uma boa meia hora, sem nada fazer, sem ouvir música, sem ler, sem conversar...uma seca! E nem a truta me salvaria, pois não se pode cortar o cabelo de auscultadores enfiados. No seu Allegro Giusto, Finale deste belo quinteto, temos de nos preparar para ...deixarmos de ouvir a dado ponto esta maravilha, e temos de parar de escrever, de pensar....de tudo. Ora bolas. Por essa adolescência e tantas vezes depois, o prazer que dava falar, e falar de algo novo que acabara de aprender! Porque aprender e saber e ficar para nós de pouco serve. Que parem os pensamentos, as ideias, o fim de Die Forelle, vai estancar-nos a respiração!

E, tal como a Truta, andamos nós, por águas conhecidas, desconhecidas, descobrindo e sendo descobertos, aprendendo, ensinando, alegrando-nos a cada curva do rio, entristecendo-nos na curva seguinte, surpreendendo uma presa, ou sendo comidos, ou apenas mordiscados por um predador, usando das melhores piruetas que conseguirmos, para nos livrarmos das correntes mais fortes, dos obstáculos mais ameaçadores, ou deleitando-nos com a paisagem ou com outras trutas que, como nós, entram na aventura da descoberta, ávidos de curiosidade e de saber. A certeza chega sempre na forma de alguém que nos retira do nosso meio e nos leva com isso a possibilidade de respirarmos, ou um enorme predador, de uma assentada, abre a bocarra e no ceifa a vida e a dança que trouxemos a ela, e toda a nossa alegria. A vida da truta será mais efémera do que a nossa? Ou vivemos várias vidas numa só?

14.1.15

This Day, or ..One Day

Vi um vídeo e pensei...mais um. Mas não. É mais um, de facto, a tentar demonstrar que a felicidade é, afinal, coisa fácil. Já vi tantos assim, e, por vezes, apetece-me não ver mais deste kind of stuff...

Parece fácil. Olharmos à volta e vermos, com mais atenção, olhar dedicado, atento ao pormenor das coisas mais triviais e que ali estão. todos os dias. O Sol, claro. E isso é verdade, o Sol intervém nas nossas vidas e dá-nos um ânimo com o qual nem parecíamos ter acordado. Mas chega? Não.

Mas há tanta coisa, dizem estes vídeos. As cores da natureza, na flores, nas árvores, nos animais, no Mar. Os aromas, da mesma natureza, que ainda ali está, se nós cá ainda cá...estivermos. Também é verdade? Sim. Mas não chega.

Os sorrisos das pessoas e as suas caras de pouca disposição, de indolência, da preguiça dos portugueses que desprezam o pequeno-almoço e os benefícios de começar o dia com um copo de água (essencial para o despertar e re-início do funcionamento cerebral), uma refeição energética e saudável, onde se combinem hidrato de carbono (poucos, ou nenhum, se houver excesso de peso), fruta ou sumo de fruta e café.

A lembrança, ou o convívio, que não são a mesma coisa, com os nossos mais queridos, filhos, amigos, familiares e a pessoa que amamos, ou queremos vir a amar ou...

O regresso a um trabalho, emprego, ocupação, chamem-lhe o que quiserem, num tempo em que a satisfação profissional, e menos ainda a realização e sucesso, é tantas vezes um sonho do passado ou uma miragem. Mas ainda um facto, para muitos de nós.

Mas será ainda suficiente?

Do que precisa um ser humano para se sentir Cheio? Feliz, completo e, aí sim, olhar esse sol com outra vontade, tenha ele maiúscula ou minúscula na vida de cada qual, e talvez até passar a ver flores onde antes nem as tinha notado?

Para muito, dinheiro. Sucesso. E talvez chegue. E nenhum vídeo fala disso, pois é politicamente incorrecto.

Para muitos mais, saber que tem alguém na vida que o completa, que o compreende (desculpem o "masculino", não é intencional, mas é escrito de rompante por ....um homem), que o deixa de sorriso rasgado quando chega a casa, ou quando espera alguém. Esse alguém. Ou, se já tem essa pessoa, lhe falta a restante disposição na vida, como sentir-se útil, saber-se parte de uma coisa, para a qual contribui e não recear nem o presente, nem o futuro, quanto a contas e despesas, e até...essa extravagância anti-Troika e anti-Passos/Maria Albuquerque...fazer um fim de semana, ou férias, sozinho e num grande sossego, ou bem acompanhado e numa partilha formidável.

E, assim, nada nestes vídeos, todos muito lindos e estimulantes, que nos dizem verdades simples, que até sabemos, nos diz o essencial. Ou diz?

E quem não pode ter esse dia, porque tem os travões que referi? Os travões que o impedem, por não ter a ocupação e utilidade para a qual se sente mais do que habilitado, ou a pessoa que sempre sonhou, e não conheceu, ou já conheceu e não tem, ou já tem e não consegue, por causa do resto dos seus dias...sai apenas à rua e sorri às flores, ao sol e ao sorriso dos outros e ...regressa a casa completo e feliz?

Pois...Maybe one day!

13.1.15

A Liberdade nos tempos actuais

Atentados terroristas, ameaças de países dirigidos por loucos, crítica política e religiosa polémica, análises políticas e sociais excessivas.

O tempo actual é uma complexa rede de difícil compreensão. No Ocidente, por enquanto apenas neste Ocidente com sinais de decadência, muito evidentes na mediocridade política que nos tem governado, na Europa e na América, e nos sucessivos casos de corrupção que se desvendam todas as semanas, ainda se consegue por cá ter liberdade de pensar, de dizer e de ignorar o que se ouve ou lê.

Por princípio não concordo com limitações à Liberdade, de expressão e outras, como a de movimentos, hoje facilitada numa Europa de portas abertas a todos os povos dos Estados Membros.

Mas há caso... que, para não ter de defender uma forma de limitação ou proibição, prefiro usar a opção de ignorar. É o caso do PCP e do BE, Partidos que defenderam ditaduras e acusaram países livres. Não perfeitos, mas livres. Como os Estados Unidos da América.

O PCP aproveitou o terror vivido em Paris recentemente, para acusar os EUA de serem os culpados, numa lógica enviesada que só um comunista, um ser cego por opção própria, entenderá.

Pertencer a um grupo é uma característica humana, uns sentido mais essa necessidade do que outros. Pertencer e conseguir manter a sua margem de liberdade intelectual e de expressão, não é para todos. Nalgumas área políticas é muito difícil conseguirmos identificar quem sendo parte de um grupo consegue manter a sua independência intelectual e, menos ainda, fazer disso uma expressão pública. Diria que não conheço ninguém. Provavelmente é necessário passarmos do PCP, BE, PS ao PSD para começarmos a visualizar quem pense por si e não assimile e defenda o grupo, com unhas e dentes, sem preocupação mínima com a sua limitação intelectual.

Estranho é vermos pessoas que só se manifestam por via das opiniões aceites e permitidas do seu grupo, do seu Partido, ou da sua organização religiosa, que agora defendem uma Liberdade de expressão que não praticam. Estão limitados, por opção e consideram isso uma vantagem. Não vejo como.

Todos pertencemos a grupos, sociais (uma organização, uma instituição, um grupo de amigos, uma família) e nos identificamos com eles, um ou mais. É o nosso in-group. E também temos os nossos out-groups. Os grupos a que nos opomos. As razões porque escolhemos um ou outro tem muito pouco a ver com decisão racional, mas muito mais com tendência condicionada pelo nosso Inconsciente. Normal. Mas há assuntos, normalmente os que são decisivos de uma sociedade, na sua caracterização, na sua estruturação e, claro, os temos fracturantes, em que as vantagens de pensar por si, fora do grupo, sem sair dele, são imensas.

É o que não fazem os comunistas, sejam do PCP e do BE, e muitos religiosos, seja de que Religião forem. E não fazem muito, não a totalidade, dos socialistas, infelizmente. Perdem eles, e perde uma sociedade em geral. Pensar, falar, escrever e agir pelas regras do grupo é uma auto-limitação da Liberdade individual, que nunca como tal é reconhecida pelos mesmos. Só isto, já constitui uma limitação em si mesmo.

Por isso me parece que, quando o Mundo parece atingir níveis de Liberdade inéditos, há tantas pessoas que a pretendem limitar, mas estranhamente não o querem fazer apenas aos outros, mas a si mesmos. E não se mostram capazes de ver...!

12.1.15

Choque de Civilizações?

Li, por estes dias, mas tenho de confessar que não sei quem referiu, em todo o caso a expressão não é inovadora, que estes ataques em Paris, e mais os das Torres Gémeas, em 2001, e o de Londres, significam estarmos perante um choque de civilizações. 

Por outros lados, em texto de uma amiga no Facebook, li que os muçulmanos irão um dia “evoluir”, como já nós evoluímos (o exemplo era muito significativo, sobre o que o Papado outrora fez, cometeu, criminosamente, aos olhos de hoje. Não discordo nem de uma, nem de outra expressão/afirmação. Mas faço a mim mesmo algumas perguntas.

Concordo na análise da minha amiga, sobre o estado civilizacional das sociedades islâmicas. Como de outras. Se pensarmos no que pode levar um grupo de fanáticos loucos e criminosos, sanguinários, sem qualquer respeito pela vida humana, como se ainda vivêssemos no mundo de há cinco séculos, a armadilhar crianças de dez anos com bombas e as levar a se suicidarem… Crianças que nem infância conheceram, e que talvez tivessem sabido do mundo de magia e felicidade encantada que as crianças europeias tiveram e têm oportunidade de usufruir.

Escrevo sentado num sofá, uma caneca de chá ao meu lado, um bom cobertor de excelente lã de Monsaraz, um simples e, no entanto, tão especial, privilégio de europeu. Neste momento, alguns fanáticos da Jihad estarão a planear mais uns actos de extrema violência, outros a torturar ou a matar inocentes, que o que mais desejariam era estar no meu lugar. Um lugar que os meus antepassados conquistaram, também com sofrimento e sangue. Evoluímos, na Europa, no Ocidente, em geral. É verdade, mas também o pode ser a evidência de uma sociedade em decadência que necessitamos de recuperar, e isso irá custar mais uns tempos de desgosto, mas desta vez provavelmente aos que agora são os mais privilegiados neste Ocidente doente. Mas eles não o sabem, ainda, nem nós.

Uma das perguntas que me ocorre por estes dias, já nem é a que alguns sérios historiadores, e alguns pensadores terão feito, após as conquistas de terras a outros povos pelo mundo. Se é legítimo levarmos a nossa forma de vida a esses povos, mas antes, se serve de alguma coisa. E, no entanto, parece-me que precisamos uns e outros, de forçar esse salto no tempo, um salto, provavelmente e séculos.

Talvez antes, outra pergunta se imponha: O que agarrou a civilização árabe, ou mais em concreto o Islão, a um passado, vendo correr ao seu lado o progresso (que alguém gosta de glosar e negar, mas que se não pode ainda ser com ligeireza visto como absoluto, se pensarmos nos equipamentos, máquinas, gadgets, e apetrechos que hoje moldam e comandam o mundo económico e definem o estádio de desenvolvimento até social de vários países), cultural, social e, claro, é evidente das nossas religiões. E, no entanto, também, esta ideia de evolução religiosa é muito complexa e nem por sombras de ligeira análise. Pelo menos para quem não é religioso ou crente. O que manteve o Islão preso ao passado? Várias explicações podem avançar-se, mas eu arrisco duas, com o que pode acarretar de grosseiro o que penso sobre esta modernidade em várias velocidades, quando observamos o mundo.

Muitos estudo há sobre o avanço das sociedades e das nações, sendo os anglo-saxónicos os mais prolíficos nestas análises, como não surpreende. Nial Fergusson, em “Civilização", e em “Império”, Jared Diamond, em “O mundo até ontem” e “Armas, germes e Aço” e outras obras, Acemoglu e Robinson em “Porque falham as nações” e tantos outros, de onde não posso excluir o decano Jacques Barzun. As causas e origens da ascensão ou da decadência, de uma sociedade ou nação, são diversas. A descoberta e domínio de uma tecnologia, e a sua obsolescência. A desigualdade social gerada numa sociedade, pelo domínio em monopólio ou oligopólio de um forte e determinante bem económico, como a produção de petróleo, controlada nos países islâmicos (nem todos são produtores de petróleo, mas os que não são seguem as pisadas políticas e totalitárias dos outros, com a base religiosa como argumento). Há um padrão comum nos países onde persiste, ou até recrudesce o totalitarismo islâmico e nos que alimentam fundamentalismo religioso, e anti-ocidental: a miséria e escassa instrução e informação dos povos.

Confesso a minha ignorância para uma análise mais apropriada das sociedades islâmicas, que não conheço, com excepção de uma breve passagem em Marrocos, que não me habilita a estruturar melhor pensamento sobre este assunto. Mas a análise não depende apenas desse conhecimento. Depende da capacidade de um raciocínio que se afigure mais ou menos independente. De religiões e de atávicos complexos culturais. Mas noto-os em muitas pessoas que têm escrito sobre este assunto, relacionado aos crimes de Paris, como observo o esforço de independência de quem está cultural e intelectualmente ligado a uma religião que se diz hoje mais evoluída, o cristianismo, mesmo na forma do catolicismo, para mim uns bons anos atrás das igrejas cristãs do norte da Europa. 

Haverá mesmo um choque de civilizações? Ou mais propriamente um choque temporal, difícil de entender e muito menos de aceitar? E, se assim é, como se resolve? 

As medidas mais ou menos securitárias terão de ser tomadas, pois a urgência das mesmas e o cuidado com os povos potenciais vítimas assim o exige. Mas estou seguro de que não resolverão o problema. Uma civilização, hoje em dia, dificilmente pode mudar uma outra. Outrora, usaram-se as armas, os germes e o aço… hoje, que poderemos usar, se as armas não nos têm trazido onde queríamos e onde muitos desses povos bem oprimidos pelos ditadores e fanáticos do Islão, bem o desejariam.

Neste momento, pouco mais do que perguntas me restam sobre este assunto. Trata-se de um confronto no tempo, no espaço geográfico, agora com a dificuldade acrescida de os perpretadores dos crimes serem cidadãos europeus, como a mesma educação dos nossos filhos, vítimas potenciais. Trata-se de confronto de civilizações, provavelmente, também e de religiões, vertente nunca assumida por ninguém. Não irei discutir as razões teológicas, ou das instituições religiosas que suportam cada religião. Não por não me parecer estimulante, mas porque além de gerar polémica é totalmente futil. Será tema para um teólogo, ou um crente, provavelmente, mas eu seria suspeito nessa argumentação.

Desconfio que a mediocridade dos políticos europeus, que agem muito ao estilo bombeiro, não nos trará alterações, nem sequer reflexões, que teremos nós todos de ir fazendo e propondo. Esperemos pelas próximas semanas e meses, no entanto.

11.1.15

Pela nossa saúde!

Sapos Jornais (Correio da Manhã), hoje: "Férias de Médicos agravam caos na Saúde”.

Se há coisa que não entendo é isto: como se deixam as urgências dos hospitais chegar a este estado. Pelo vistos, de certeza, não sabe o Estado, melhor, o Governo, que o direito à saúde não pode ser comprometido por nada. Nem falta de verbas, nem falta de médicos, nem falta de Ministério capaz. Por acaso sabe o Governo que numa sociedade organizada este caos já o teria feito cair? 

Nos últimos meses, por um acaso infeliz, andei um tanto pelos hospitais. Um cálculo renal teimoso, médicos incompetentes que, sem entrar em detalhes, foram atrasando a solução de um problema simples, conduzindo a duas infecções gravíssimas, que me podia ter custado a vida. Literalmente.

Sobre o pessoal dos hospitais, tenho a dizer o seguinte, depois de ter passado em quatro hospitais da região de Lisboa: Médicos na urgência, tudo bem, umas vezes, sim…outras nem por isso (exemplo: um médico pouco competente receitou-me um antibiótico generalista, de largo espectro, que, por não ser adequado à infecção em causa - ele tinha o meu historial e podia, por isso, saber que a infecção anterior - infecção de origem hospitalar, como seu sabia e consta numa das notas de alta…- havia sido causada por uma bactéria, que só podia se combatida por um antibiótico hospitalar, conhecido pela “bomba dos antibióticos, e um seu colega, de competência duvidosa também, logo comentou comigo “mas não lhe fizeram uma urocultura?” o que atesta bem as dúvidas e a deficiente formação dos nossos clínicos. Eu sabia…por formação profissional, que um antibiótico mal receitado, numa situação infecção grave, podia dar como consequência o desenvolvimento da infecção, ao contrário de a debelar, pois destruiria as bactérias que competiam com a da causa principal. Não o sabem estes médicos).

Do pessoal de enfermagem, simplesmente nada tenho a apontar, ou até tenho: são profissionais formidáveis, quer na competência, quer na dedicação e capacidade de trabalho.

Um cálculo renal, e seis meses para resolver a situação! Por decisões erradas, vacilações e insegurança da classe médica. 

Esta semana resolveu-se finalmente. Mas como tinha indicação de, em caso de febre, de dirigir de novo a uma urgência, lá fui eu, ontem de novo. Pretendia ter a certeza que os sintomas, febre, tonturas, vertigens e arrepios, não eram provocados pela minha inimiga Klebsiella. Não consegui saber. Não consegui ser atendido na urgência, após quatro horas de espera ainda tinha dezassete pessoas à minha frente. Porque também me pareceu que os sintomas eram mais de um estado gripal, desisti.

Pelo meio, a observação ao vivo do caos que dizem haver nas urgência dos hospitais. Confirmei. E nunca tinha visto as coisas numa urgência, como vi. Até uma insólita situação, de um indivíduo ferido por uma bala, provavelmente da polícia, pois quatro viaturas da PSP mais uma provavelmente da PJ ali entraram. Uma pequena situação hollywoodesca. Gente a protestar em voz alta, a dar o seu show, os habituais ciganos e outros doentes que se fizeram acompanhar de mais de dez pessoas. Será que ajudam uma urgência em caos, ao irem em grupo assim, por causa de um familiar? Uma urgência em que metade das pessoas não se podem sentar, e temos de ficar fora, junto à entrada, ao frio da noite, agravando o que para lá levámos? Ouviam-se comentários sobre as pessoas que chegaram a falecer na espera da Urgência. Como é possível deixar morrer alguém antes de se tentar resolver o seu problema, já dentro de um serviço de urgência? Isto não implicaria logo, de imediato, sem apelo, a uma demissão do chefe da urgência e do administrador hospitalar? E, após mais de um mês de caos, com situações de saúde a se agravarem, nas condições actuais, de tempo muito frio, principalmente para os mais velhos e debilitados, até por sub-nutrição, não devia o Ministro sair, demitir-se ou ser demitido? O Ministério a Saúde tutela a saúde ou apenas os custos e orçamento do SNS e regras da Saúde em geral? Há centenas de pessoas que desistem à porta da urgência e podem agravar o seu estado. Há gente a morrer por não lhes ser facultada uma assistência a que têm direito, que foi ou será paga, social e individualmente. 

A Saúde num país europeu não é a Saúde em Marrocos. O povo português não pode ser tratado como no Terceiro Mundo. Por cá, pagam-se todos os custos do SNS. Ou agora, ou por contração de dívida, pessoal e do Estado, que teremos também de pagar. O Governo tem Poder de decidir mal e reduzir custos, mesmo por exagero. Tem poder, mas não tem o Direito a fazê-lo! 

1.1.15

Começa sempre mais um ciclo, de descoberta, de risco e de prazer. Pela vida que segue.

Quanto vale um Ano? Digo, não o valor dos dias que lhe pesam. Mas o valor, o peso, numa vida, num momento da vida, numa fase, ou o que seja. Quanto vale um pensamento? E se, num ano, tivermos um pensamento por dia? E se forem dois? Ou vários? Em média, ou em absoluto, quantos pensamentos valem um ano? E de que servem? E as palavras que os traduzem, que sabemos nunca os traduzirem integral e fielmente?

Ao ter um ano terminado, outro, novo, porque os calendários convencionados assim o determinam, iniciado, claro que entre o último dia de um e o primeiro do seguinte, não há uma linha. Separadora. Sendo que, se separa, também une. Ao terminar 2014, não há outra forma de encararmos, de termos a visão de um novo, 2015, se não for pela cega esperança, ou por uma esperança que ganhe corpo e força, se houver para tal resistência e perseverança, cada dia, pelo nosso esforço. Quero dizer, resta-nos, aos optimistas, aos mais realistas e aos pessimistas mais racionais (só se excluindo os pessimistas pouco racionais), juntar a esperança, coisa imaterial e do foro da fé (para os que valorizam fé, em algo supostamente superior, ou em si mesmos, para os que acreditam na raça humana como única detentora da determinação do seu futuro, como eu...quase, quase), juntar esperança, pois, a uma permanente busca alicerçada na capacidade humana, no trabalho "diário", persistente, em seu prol.

Esta explicação devo-a a mim mesmo, antes de mais. Depois, faço com ela um mero exercício de busca de uma resposta que até hoje não consegui encontrar. Porque tenho menos fé na mudança que os segundos, as fracções de tempo, que constituem a tal linha separadora, ou unificadora (neste caso interessa separar, fechar um ciclo, iniciar, uma vez mais, um outro) podem operar, sem mais, do que na nossa capacidade, usando desse artificialismo do Ano Novo, para fazermos mudar o que queremos que mude.

E, porque em 2014, o que pretendi mudar, não consegui, e me surpreendi, com o que o tempo, e o que ele me trouxe, mudou em mim, não eu nele, tenho-me deixado levar por este pensamento. Será desta? Há promessas que fazemos a nós mesmos. Parte delas, alguém pode saber, parte, só nós mesmos podemos confessar, aos botões. Porque podem ser simples, ou não, fáceis ou muito desafiantes, exigentes, mas podem apenas para nós ter significado. Como, cumprir connosco, o que a nós prometemos, sobre o que somos e queremos disto tudo, antes que o ano deixe de mudar de vez. Porque os que sabiam adivinhar o que para nós e de nós esperávamos, já cá não estão. Ou, apenas, porque não temos que incomodar alguém com pensamentos que podem nem ter corpo suficiente.

Sei de tantos amigos que sonharam para si vidas bem distintas. Chegaram ao final do ano anterior, ontem findo, certos de mais alguma frustração (frustração não é vergonha) acumulada. E cada ano...a vontade de acreditar naquela ínfima fracção de tempo que separa dois anos consecutivos, que pode mudar o rumo de muitas vidas, ou de algumas, cada um da sua, vai definhando.

Mas um reduzido ciclo de fundamentais pensamentos, pessimistas como se impõe, deixa-me a certeza da necessidade de acreditar. E este primeiro dia, é o dia em que temos de prometer a nós mesmos a mudança e o esforço e a luta por tudo isto. E só assim se justifica, até o ritual anual de tradições da última noite e dos votos de Feliz Ano.

Soçobrar não é para vivos e inteligentes, nem para todos os outros. E render-se a vontades de outros, os que pensamos (e de facto...) decidirem o nosso futuro, não chega. É curto e pode ser demolidor.

Cada passo, um pensamento, cada raio de luz, desta que nos tem banhado os dias. Cada pensamento que lemos, ou que no passado ouvimos. Cada experiência humana, sabida, ouvida e lida. Fazemos tanto cada dia, de pequenas e automáticas coisas, rotinas e mais rotinas. Podemos começar por nos livrarmos de algumas, e criar outros ritmos. Há muitos anos, decidi, porque aprendi, por mim e para mim mesmo, criar uma mecânica nos meus dias. Procurar sempre mais e novas ideias, sobre tudo isto, que constitui a nossa vida e as nossas razões, de por cá estarmos. Nada de muito filosófico, mas em cada leitura, ou em algumas conversas, com tanta gente, surge algo que podemos tornar parte de uma ideia nova. Eu uso o conhecimento constante, a aprendizagem, como subterfúgio, para me enganar...tantos desenganos. Ou para continuar numa busca. Nunca saberei de que serviu. Mas enquanto uso, ocupo a mente, que a quero sempre em exercício constante. Um dos meus filhos...diz por vezes "és muito sério, a pessoa mais séria que conheço". Não sei de onde lhe surgiu a frase. Mas sempre assim fui, desde a idade dele, precisamente, por essa altura iniciei uma busca no conhecimento, que é diário. Nunca me cansei. E, de facto, perdi alguma coisa na vida por essa forma de a ver como coisa muito séria. Sei-o bem. E nunca saberei o que ganhei. Apenas prossigo, pelo prazer, coisa que me anima sempre, o prazer, de muitas "naturezas", confesso um descendente inconsciente de Epicuro.

E proponho esse prazer aos meus amigos. A descoberta. Do que quiserem! Dêem muito, mas muito trabalho à Mente! E divirtam-se. Nesse âmbito, e dessa perspectiva, eu divirto-me.