Daqui à Lua

Daqui à Lua, não é um saltinho.

Ir à Lua é uma expressão interessante. E algo mágico pode esconder. Normalmente, significa que há algo que nos faz sentir completamente fora de nós, uma outra expressão carente de explicação. Um aspecto intrigante nestas expressões é precisamente o facto de elas pretenderem resumir uma ideia de algo forte, muito intenso, ou muito difícil de explicar e serem assim usadas, tendo como resultado dificultarem ainda mais a explicação. Que fica, então, ainda menos clara e, até, algo misteriosa. O fascínio em certas expressões está em algo de mágico e de impossível. Uma das maiores dificuldades da linguagem, como tais expressões bem exemplificam, é a quase impossibilidade de se conseguirmos exprimir uma ideia, um sentimento, uma sensação, um momento de intensidade emocional ou de prazer muito absorvente ou transcendental.



Ir à Lua, ser levado à Lua, levar à Lua. Porque a Lua foi um mistério durante muitos séculos. Porque era em si mesma, tão visível e tão inexplicável. Algo transcendente, impossível de se atingir, e se associava, assim, a um momento efectivamente vivido, mas uma impossibilidade de ser transmitido por palavras.

Já teremos, provavelmente todos nós, sido "levados à Lua" uma ou outra vez. Felizardos os que o foram repetidas vezes e, os que sabem ainda irem ser levados por imensas vezes mais, são uma espécie de "povo eleito" a quem tudo o mais lhes parecerá "terreno" e menor.

Porque esse ideal, esse imaginário que a Lua sempre constituiu não se perdeu na frieza científica da aterragem Lunar da Apolo 11. E as palavras de Neil Armstrong (That's one small step for man, one gian leap for mankind) também podem ainda aumentar esse imaginário do que é quase sobre-humano, transcendental. E quando recordamos momentos único, a nossa tendência, mesmo à falta da expressão, é comparar com a viagem ao nosso satélite de imaginário ora romântico, ora de algo inatingível.

Esse pequeno passo para o Homem, em momento de transcendência, inverte-se num...pequeno passo para a Humanidade, mas um passo gigante para o Homem.

E um muito breve, efémero momento, pode ser essa viagem, que afinal se passa dentro de nós e se reveste da impossibilidade de se descrever. Esta impossibilidade é, em si, uma fascínio tão filosófico, quanto ideário do romantismo mais intenso.

Hoje a Lua estava especial, ou a vi assim. Mas uma visão tantas vezes repetida, pode tornar-se num giant leap for Man, porque é em nós que tudo se passa, e esse tipo de inesquecível transcendência não sai integral de dentro de nós. Daí a utilidade da expressão. Ininteligível, mas cabal no que mais difícil se torna, com palavras normais.

Ir à Lua, ou ser levado à Lua é uma memória e uma promessa. Encerra tanto de superior ou de inatingível, como de romântica aspiração, ânsia de sobre-humano, ou simplesmente a mais estranha forma de expressão de algo que nos torna maiores. Por um lapso de tempo, também ele difícil de mensurar.



Afinal a Lua não tem qualquer culpa, essa, a "culpa" está na nossa Mente. E ter essa "culpa" é um algo que muitos queremos ter.

Deixem-se levar, ou levem alguém, ou vivam a viagem solitária da ultrapassagem de vós mesmos, uma capacidade sobre-humana, que apenas humanos podem almejar. A Lua ainda lá estará por uns dias mais, e até estará sempre, enquanto por cá estivermos, visível ou não, na certeza da sua existência, da sua presença. Para tornar muita coisa menos trivial e nos embuir de sensações de transcendência.


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