Sul e Norte

A propósito de uma séria dinamarquesa, Borgen na RTP2, tornou-se inevitável a reflexão, de novo, entre nós, os do sul e os países nórdicos.

No episódio que hoje vi, preparava-se um debate entre oito candidatos a Primeiro-ministro. Coincidência. Um ex-PM era siderada pelo jornalista, que insistia na apresentação televisiva, das contas que sustentavam um aumento de "impostos verdes", que ela sustentou serem potenciadores de mais crescimento económico.

A candidata não queria responder detalhadamente, insistia em fugir à pergunta directa do jornalista, guiado pela direcção do programa nos bastidores, comunicando com ele pelo sistema normal co auricular que usava. 

O debate ficou largos segundos em suspenso, com o jornalista a insistir "mas como pretende explicar aos milhares de gestores que um aumento dos impostos verdes, irá estimular a economia?". A política, ficou num silêncio assustador, em suspenso. Quando falou, hesitou, quase gaguejou e...contornou a resposta, não respondeu directamente ao que lhe era perguntado. Mas o jornalista não desistia e só o fez quando recebeu instruções para passar à frente.

Trata-se de uma série de Tv, apenas. Mas feita na Dinamarca, e deve, por isso, espelhar boa parte da postura do povo dinamarquês, dos políticos e jornalistas, perante a responsabilidade dos políticos perante o seu eleitorado. Uma postura diametralmente oposta à que conhecemos por cá, por Portugal e muito por todo o sul da Europa.

Não vi o debate de que tanto se fala por cá, entre Pedro Passos Coelho e António Costa. Vi excertos, o que tanto se tem repetido em diversos canais e li diversas opiniões, críticas e textos onde o debate é tema central.

Umas das melhores crónicas que li foi de Pulido Valente. 

Como o disse já num comentário que fiz, e hoje se reforçou com este episódio de Borgen, não entendo o estilo e o desempenho do nosso jornalismo perante as personalidades actuais da política. Parecem ter quase hibernado, ou se deixado subjugar por alguma influência, ou apenas, talvez por se deixarem estar na mesma lânguida passividade, num redutor cumprimento de agenda, de que os portugueses parecem padecer.

Então algum jornalista imagina que algum dos candidatos saberia responder a uma pergunto do tipo: se a Dívida portuguesa atingiu a dimensão que sabemos, de pelo menos 130% do PIB, como se pensa conseguir um dia reduzir, concretamente, não sendo o Governo o motor da Economia, mas obviamente as empresas, como será possível um dia inverter esta tendência de endividamento crescente". Sem demagogias, generalidades, ideia superficiais, mas com propostas muito concretas, das que quer gestores, investidores e portugueses em geral, que agora participam dos mesmos problema, responsabilidades e dificuldades pessoais com o esforço de cumprimento no pagamento da Dívida. Nem que seja tudo, apenas, num futuro ainda por vir, dentro de 20 ou 30 anos.

Pelo que observei da actual governação, e da anterior, do mesmo Partido que pretende regressar ao Poder, não consigo vislumbrar o ponto de inflexão deste caminho. Nem ouvi, ou li, uma única medida credível nesse sentido. Para sustentar esta dimensão da dívida, ainda serão impostos imensos sacrifícios, pois a economia não apresenta estímulo ou crescimento que torne viável um sequer alívio ou, muito menos, uma inflexão.

Se a isto acrescentarmos a demagogia da loucura de Costa e do PS, ainda pior estaremos dentro de um ano, não sendo precisos os quatro de uma legislatura. 

Posso enganar-me, é claro. Mas se não estiver enganado, então o nosso panorama económico será mais negro, já daqui a um ano, ou seis meses, e, nesse quadro, o papel de um jornalista português, nesta fase, em nada contribui positivamente para melhor esclarecidos ficarmos, ou, mais importante, um dia virmos a ter uma qualidade superior nos nossos políticos.

É evidente e triste de mais este distanciamento Sul-Norte, na Europa.


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