A encantadora ideia de ser grande

O Ministro das Finanças alemão diz que não existe nenhuma supremacia alemã. Schäuble parece querer dizer que não há alguma tentação por parte da Alemanha de se querer impôr aos outros países, ou de efectivamente ser o grande decisor do futuro dos outros países, numa tentativa de nova germanização europeia, de hegemonia germânica, antes não conseguida pela força das armas.

 Mas uma coisa é Schäuble afirmar e outra é a realidade. Nem toda por culpa alemã. Há duas condições para sermos liderados ou chefiados (pois liderar é exercer um poder natural, conferido pelo reconhecimento dos outros, que o assumem e se deixam conduzir, livremente). Uma é pretender e conseguir impôr a sua vontade acima da dos outros, outra é todos os demais assim o pretenderem, ou, pelo menos preferirem. As razões da liderança são muitas, mas a principal é, como facilmente suspeitamos, o poder económico e financeiro.

Há, por outro lado, uma tentação vertiginosa, sempre preocupante a um dado tempo, de quem é grande, em dimensão, em capacidade absoluta e não relativa. O primeiro dado vem da produção absoluta de riqueza nacional, do Produto Interno Bruto. Contrariado pela distribuição da mesma pelos habitantes de uma país. A comparação entre Alemanha e Noruega, como entre Portugal e Brasil. Muita capacidade nacional "em bruto" se explica pelo PIB, como muita outra se explica pelo PIB per capita. E a tentação da grandeza, da grande dimensão, existe em tantos países, por via dessa capacidade nacional absoluta, nem sempre expressa em distribuição de riqueza. Se Angola e Brasil têm capacidade de adquirir empresas portuguesas, através da dimensão de poucas das suas empresas, isso não demonstra o poder de compra e o bem-estar (relativo) das pequenas empresas, das famílias, das pessoas e das regiões. Como é fácil identificar entre estes países, e o mesmo entre uma Alemanha e uma Noruega, com diferenças comparáveis entre capacidade nacional e capacidade indivudual e bem-estar.

A atitude de quem tem dimensão é denotada em quase tudo e todas as pessoas. Quase todos podemos testemunhar, como pequeno país, a atitude, ou a postura de quem conhecemos de países grandes, que apenas podem ser isso, muitas veze, grandes. Mas não necessariamente melhores. De pequenos grandes países, há muitos exemplos, assim tornados pela capacidade económica e financeira, por sua vez configurada pela elevada capacidade das suas empresas, produtoras de negócios de muito alto valor, como se verifica numa Suíça, num Luxemburgo, numa Noruega que, sendo grande em dimensão geográfica é bem pequeno em termos populacionais. Demonstram estes exemplos que se pode ser maior do que os grandes, com o elevado valor das nossas produções.

A tentação de mostrar dimensão, apesar disso, continua a perseguir grandes economias. Foram elas ultrapassadas há muito, em qualidade de vida e em capacidade económica por pequenos países de que dei alguns exemplos, mas os supostos gigantes assim não vêem o mundo, no dia-a-dia.

É daqui, porventura, que vêm afirmações como a de Schäuble. Ministro de um país grande que outrora caiu bem fundo e ficou muito pequeno. Já Portugal, hoje muito pequeno, foi outrora bem maior do que os grandes. Todos eles.

O domínio de uma, ou várias, tecnologias que se tornam economicamente importantes e até hegemónicas é uma das explicações, hoje acrescidas de tantas mais. Como o poder político, nem sempre auto-investido, mas conferido pelos outros, que assim procuram um líder. O que me parece ter vindo a acontecer pela Europa, que procurou um líder que nunca assim se configurou, sendo apenas um chefe, de mau feitio e mau saber. Mas a tentação de grandeza continua. E, como a História nos conta, se os pequenos podem morrer, os grandes podem explodir, ou implodir. Sempre aconteceu. E os pequenos vencerem os grandes...a História assim nos conta, também, confirmando o conto e David e Golias. Entre Portugal e Espanha...

Por mim, pode Schäuble falar baixo ou gritar bem alto o poder do seu país, que bem sei ser tão efémero, como o está a ser o mundo que hoje conhecemos. A União Europeia, a hegemonia americana, país com uma Dívida que pertence à China. China que tanto ascendeu para provavelmente cair ainda mais depressa. E...os pequenos continuam a sua vida, dia após dia, tranquilos e com o bem-estar que os grandes já perderam. Por mim, pode a Alemanha tentar impôr tudo e mais alguma coisa, que uma dia todos nos cansamos e renegamos a sua grandeza. A identidade nacional sempre funcionará mais e gritará mais alto. Um dia...


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Parece normal

Leituras recomendadas

Nenhum dia é suficiente para conter toda a luz