Bancarrota versus Austeridade

Marcelo Rebelo de Sousa diz preferir não estar à beira da bancarrota do que estar estar à beira da bancarrota. Parece a frase que alguém disse "viver é o contrário de estar morto". Pois eu também prefiro não estar à beira da bancarrota. Eu também prefiro não ter pela frente esse cenário de catástrofe. Não deve haver um só português a pensar o contrário. E daí? Provavelmente, por esta altura muitos de nós desejaríamos nem ter nascido portugueses? E daí?

Este tipo de afirmações não acrescentam nada, mas podem esconder, escamotear, melhor dizendo, o lado que ainda nos toca mais. Eu dou por mim, diversas vezes, a tentar perceber as diferenças.

Diferenças entre o cenário de crise, dessa de 2008, com empresas a falir, por falta de tudo: de capital, de capacidade de re-investimento, de conseguirem manter os clientes, já nem falando em crescerem no mercado da crise, manterem funcionários e, com eles, a capacidade que antes tinham e julgaram necessária à sua actividade (coisa que muitas parecem ter esquecido, mas rapidamente entenderão, entre este e o próximo ano), enfim...empresas ainda a tentarem sobreviver, apenas e a diferença para a situação actual. Nas duas circunstâncias teremos diferentes cenários, no espectro das empresas e nas condições de que dispõem e nas condições que o mercado apresenta às mesmas? Um mercado com muito reduzida capacidade de consumo.

Hoje, ouvia logo de manhã a habitual notícia dos últimos anos: famílias endividadas, perseguidas pelo fisco, como se de criminosas se tratassem. Famílias com desemprego que não conseguem alimentar os filhos! E nada mais conseguem, aliás. Isto é diferente da pré-bancarrota?

Às portas da bancarrota, Sócrates prometia que com um plano do governo tudo se iria resolver. Com esta austeridade em cima das nossas cabeças, este Governo promete o mesmo. Nos dois cenários, perdão, circunstâncias reais, as pessoas e as famílias vivem exactamente o mesmo drama. Não vêm o dinheiro para viver, nem o futuro. Ou que o futuro lhes possa trazer mudança. Porque, sem fazer contas, se dão conta de que estão pior do que há vinte, há trinta anos. Acenam-se-lhes, acenam-nos com melhores tempos, com esperança, mas ninguém percebe como. Mas todos sabemos que com um retrocesso doloroso no poder de compra, nas possibilidades de vida norma, mesmo.

Voltámos a níveis salariais de há mais de vinte anos, se fizermos contas ao actual custo de vida. Nem por isso as grandes empresas desistiram de cobrar, de aumentar preços, custos com energia eléctrica, com combustíveis, com gás, com telecomunicações, com bens alimentares. Se fazem o esforço para demonstrar o contrário, ninguém acredita, porque sente o inverso.

Se a bancarrota nos roubava tudo e destruía o futuro, que fez a austeridade de diferente? Se a crise por esbanjamento do Estado e das empresas nos levou à bancarrota, o que fez a austeridade, se não e apenas a substituição de uma crise descontrolada, por uma depressão económica planeada com os mesmos, exactamente os mesmos resultado?

O problema de Marcelo é o mesmo de quem sempre esteve bem com a vida: não conseguir entender o que é estar sem dinheiro, sem poder pagar as despesas e alimentar filhos e a si mesmo, e ser ainda perseguido pelo Fisco, e não poder encontrar forma alguma de inverter a sua desgraça. Ler estatística não é o mesmo que viver no sufoco.

A bancarrota era o fim de muita coisa, a austeridade é a garantia desse fim que a bancarrota não sabia se assegurava. Nunca entenderão os que planearam esta austeridade, mas ela voltar-se-á com brutalidade contra todos eles. A Alemanha, por exemplo, quando entender que empobrecer os outros se voltará contra ela, já será tarde. Mas aí, terá de novo a possibilidade de fazer o que sempre fez e nada mais saber fazer: empurrar com a barriga, ou de outra forma, provocar mais uma guerra. Os outros é que são sempre os culpados. Isto é para a Alemanha, como para todos os que lhes seguiram os planos e as execuções dos mesmos.

O PSD não escapará a isto, a esta austeridade, como o PS também não. Podem até passar pelo próximo acto eleitoral, mas se um dia o povo entender o significado de uma austeridade perante o fantasma de uma bancarrota, nunca mais lhes perdoarão. E não vale a pena explicar a burros. Fechados em dias de planificação de vícios políticos, como parecer e nunca ser, como fingir e nunca assumir, como substituir uma bancarrota por uma crise provocada por austeridade imposta, eles nunca entenderão. Nem querem. Vivem como D. Carlos, num país falido, ignorante e triste, onde as pessoas se arrastam para não morrer cedo demais, chorando a catástrofe que se abateu sobre os seus filhos, mas dentro de portas, em festas e faustos, nunca sentirão esta imensa e violenta realidade.

Estamos todos, a maioria, bem pior, e não foi a bancarrota. Foi a austeridade.

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