A Crise "acabou"

Marcelo Rebelo de Sousa é um mestre em soft skills. Um gentleman da política. Não gosta de provocar os seus pares, ou até provoca, mas nunca se antagoniza. Mas não é o único. Há quem o faça, como Marcelo, por uma questão de solidariedade amistosa, familiar, ou institucional. Um homem de princípios sólidos, acha sempre que alguma divergência mais delicada ou uma querela latente, não deve ser trazida à liça pública. Já outros, em prol de uma profunda convicção na coerência intelectual, expõem em pública uma divergência, ainda que polémica. Será o caso de Pacheco Pereira.

Para Marcelo, dito embora en passant, a Crise acabou, a recuperação é evidente. Apenas se fará sentir, essa recuperação, com o passar do tempo, para as pessoas, os que menos capacidade financeira têm.

Há diversas interpretações sobre o início de uma Crise como esta última, e sobre o seu fim. A mesma incerteza que a Economia vem demonstrando, também se espelha nas opiniões. Como não sou economista, e a minha formação sempre me obrigou a outro rigor de contas, a Crise não acabou, ou dito talvez com outra perspectiva e cautelosamente, converteu-se numa outra, ainda a começar, mas provavelmente mais difícil de inverter. Porque provocada por uma totalmente desnecessária austeridade e criação de profunda desigualdade e injustiça social (e laboral, para enfatizar). Manuela Ferreira Leite deu a medida. "Portugal é o país onde é possível contratar-se um Engenheiro por 500 Euros. Para Passos, isto será um excelente oportunidade. Para um quase-pseudo-liberal, por não ter uma só ideia ou provavelmente um pensamento coerente, excepto o de se safar na vidinha e alimentar uma vaidade saloia, é assim. Oportunidade de investimento estrangeiro. Talvez lhe dê para ir logo de viagem divulgar esta chinesice portuguesa, que muito convém aos reis da lavagem de dinheiro sujo, aos genuínos exploradores do trabalho dos outros, na própria casa dos outros.

A Crise da Austeridade é outra, e bem perigosa, desde já por ser negada. Hoje mesmo, o Diário Económica publica que mais de metade dos desempregos gerados na Crise, não serão recuperados. Mas aos "gestores", dos quais conheci um na pele, isso não conta. Os desempregados são o lixo social. Num país decente, seriam os actuais gestores esse lixo social. Mas ha uma diferença essencial: a austeridade pretendeu exactamente este efeito. Por via da exclusão social de todas as exclusões possíveis, só resta a esses idiotas que se deixaram despedir, qual imenso (centenas de milhar) bando de incompetentes, que tinham muitas ousadias, como a de pensar e sugerir, de opinar e de incentivar mudanças em procedimentos, e tantas outras leviandades, como a da recusa da bajulação, o da recusa no compadrio com a corrupção nas empresas privadas (um oceano por desvendar, quando comparado com os pequenos lagos na administração pública), gente "menor" que não tem amor cego pelo dinheiro, mas que teima estupidamente na honestidade. Estes, os desempregados que não mais terão emprego, em Portugal, até morrer, e serão apagados de tudo, da segurança social, do serviço nacional de saúde, do sistema financeiro, por não poderem ter uma modesta conta num qualquer banco, dos seus círculos de amizade, da sociedade. Uma maré de incompetentes, engenheiros, economistas, gestores, professores, enfermeiros, operários de todos os ramos...que nem ouvirão falar do fim da crise, por nem poderem ver qualquer TV.

É, assim, fácil falar de fim de Crise. Ou seria. Não fora o problema inultrapassável que Passos mencionou a semana passada, e que desvendará uma realidade oposta ao que disse: que em 2033 teremos uma dívida que valerá 60% do PIB. Algum jornalista lhe perguntou como? Como prevê que Portugal cresça, se sem crescimento sensível, nunca a dívida será sustentável? Prevê o Primeiro-ministro um crescimento de mais de 5%? E para quando e por quanto tempo? Pensará dedicar-se agora a artes de adivinhação? Ou tem um estudo sério sobe isso? Dos tais estudos económicos de alto nível que se espalham ao comprido por todos os países? Como os que tinha os Estados Unidos antes de 2008. Quem previu um despertar da China? Houve um ex-ministro francês que o fez e ninguém deu importância, era francês...

A austeridade, a meu ver, provocará a permanência de centenas de milhar de pessoas no desemprego, como acima expus. Sem remissão. Mas isso não conta. Vivemos de fundos do exterior, mas parece até termos uma vida normal. Temos uma dívida que vale 130% do PIB, quando no tempo de Sócrates andava por pouco mais de 100% (talvez uns 110%, ok...). Que numa Suíça, vale pouco mais de 30%. Mas o pior é mesmo o crescimento económico, num país onde quem podia gerar riqueza e inovação se limita a vender arroz e massa, e quem tem vontade, ideias e conhecimento, está na faixa-lixo da sociedade, deprimido, sem família, sem nada.

O que eu vejo, é bem diferente do que a Europa da falsidade tenta demonstrar: vejo pessoas na desgraça, pessoal, familiar e profissional. Vejo empresas com dificuldade crescente de subsistência, sem capital, sem possibilidade de financiamento e, muito pior, sem mercado. E ainda sem capital humano de valor. Vejo que se insiste em medidas fiscais erradas, na eterna perspectiva de há vinte anos nos Estados Unidos, agora em quase abandono, e condenada por todos os grandes economistas americanos e outros, como a de tentar aliviar as empresas, quando seria às pessoas que se deveria aliviar o garrote fiscal. Vejo um Fisco que continua a perseguir, sem afrouxar, como se detentor de razão e legalidade, ambas falsas. Vejo cada vez mais gente louca ou deprimida, tensões e excessos familiares e sociais, uma sociedade a perder o controlo e a razoabilidade. Vejo um país sem visão e projecto. Uma Europa sem orientação, sequestrada por uma China corrupta e injusta. Uma civilização refém de países onde a Democracia é uma anedota. Barroso diz que a Europa não está em decadência. Eu digo que está há bem mais do que duzentos anos, mas mais aceleradamente nestes últimos dez ou quinze. E será forçada a decisões muito difíceis, polémicas e perigosas, que podem ser um risco de uma Terceira Guerra. Já o escrevi diversas vezes. Sobre a demografia e as migrações de África, que agora nos chocam pelos terríveis naufrágios que temos presenciado, escrevi há uns quatro anos. Sobre esta decadência europeia evidente, o que agora digo, pois muito já disse e ainda por estes dias publicarei um artigo no "Repórter Sombra", é precisamente o grande perigo da negação. Não que Barroso conte para alguma coisa, mas que o que diz seja espelho do que outros que contam, dizem.

O que interessa, por agora, pois este tipo de crise irá acentuar-se e logo logo se verá que nada melhorou, mas apenas alguns se encontrarão melhor, com menos mercado, menos clientes e mais dificuldades de cobrança, mas com custos de trabalho muitíssimo inferiores e colaboradores muito mais "disciplinados" (o medo faz "milagres"...), o que interessa é conseguir manter esta aura de vitória contra uma Crise provocada pelo sistema financeiro internacional e nacional, que vive da Dívida, ganhar eleições e nunca nada fazer, mantendo tudo na mesma, sem reformas que os pudessem atingir. O que interessa é esta falsa tranquilidade. Manter um país em dependência, sem visibilidade internacional, com a excepção de uma moda turística efémera, uma febre que durará muito pouco e que depois revelará os podres de regiões como Lisboa, onde a dívida foi muito bem camuflada.

A eterna mestria portuguesa das aparências aí está. Mas a muitos isso custará tudo, desde a saúde a mais uns trinta ou quarenta anos de vida desgraçada na miséria mais atroz.

Mas talvez votar seja uma solução, pelos vistos...

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