Farwest XXI

Acordou sobressaltado. Um imenso ruído, logo seguido de uma forte batida na porta de casa. Estaria a ser assaltado? Como vivia sozinho, não podia ser nada dentro de casa. Estaria a sonhar? Espreguiçou-se, levantou-se de um salto, o tremendo barulho, vozes, gritos indistintos, agora mais forte, mais perto talvez, mais gente?

Quando chegou à entrada da casa, já a porta estava a ser arrombada, entravam-lhe pela casa dentro homens, mulheres que parecia reconhecer...aos gritos. Num nada, agarram-no, puxaram-no para fora de casa, assim, shorts e mais nada. Ainda o sono teimava em abandoná-lo e já ouvia o que lhe gritavam.

"Bandido, filho da p...vais morrer hoje!" Levantaram-no, quantos seriam? Uma, duas dezenas? Reconheceu alguns amigos do café. O António? O Rui, com uma enxada a querer bater-lhe com ela? Os gritos continuavam, mas já não lhe parecia distinguir nada. E, num momento, atingiram-no com pedras, paus...na cabeça, tentava proteger-se, numa impossibilidade louca. Até percebia, agora sabia porque lhe acontecia aquilo. E deixava-se ir, levar-se. Enconstaram-no a um muro do outro lado da estrada frente à sua casa de pedra rústica. Com qualquer coisa que tivessem, lhe batiam, na cabeça, nas pernas, por todo o lado. Percebeu que o sangue lhe saltava, jorrrava e toldia a vista...e o negro, uma luz forte negra, uma espécie de mancha negra lhe cobria a visão que já perdera. E...nada.

Uma história fictícia que pode ser verdade em qualquer aldeia, vila, cidade ou bairro onde vive. Em qualquer lugar, e com a legitimidade conferia pela Lei.

Num Estado de (suposto) Direito, Deputados (supostamente) de direito, legalidade conferida pelo voto, votaram uma Lei que permite constituir listas de pedófilos e serem consultadas por qualquer cidadão. Parece normal, não? Afinal a pedofilia é hedionda, é um crime que nos revolta, desassossega e retira da nossa paz no mais produndo que temos de seres sensíveis. Actos praticados contra crianças e jovens são do mais horrível que alguém pode cometer. Nem imagino como me revoltaria, como reagiria, mas admito que poderia perder toda a tranquila forma de ser de que gosto em mim. Talvez boa parte dos meus princípios voassem num ápice, perante uma violência contra um filho meu.

Mas o papel de um Estado de Direito é proteger as pessoas, neste âmbito. Proteger, com todas as evidentes dificuldades e incapacidades, crianças, contra crimes que, na maioria das situações se passam dentro de portas, em ambiente familiar, nesse silêncio violento que pode matar por dentro para toda a vida, as vítimas de tais actos. Pode matar a saudável mente de qualquer criança ou jovem, até por muito menos do que um acto de pedofilia.

Mas a publicação de uma lista de pedófilos já condenados, em que ajuda ou protege contra futuros casos destes? E não se permite, ou mesmo promove...o que no início do texto ficcionei? Um país europeu, em pelo Século XXI aprova uma Lei destas? Do linchamento popular? O Farwest aqui mesmo?

Que mentalidade medieval se lembraria de uma Lei assim? E que raio de Deputados burros, idiotas perfeitos, que estafermos temos numa Assembleia eleita e paga por nós?

Nem um ser humano normal cosegue seque pensar num acto de pedofilia cometido contra uma criança ou jovem conhecido. Ou mesmo desconhecido. E é bastante normal e saudável a nossa legítima revolta contra qualquer pedófilo.

Mas...

O Linchamento popular por esta Lei patrocinado será o mesmo que estes políticos esperam para si mesmos...se assim continuarem a abusar do Poder que lhes foi conferido?

Pois a mim, parece-me.

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