(Quase) Sempre a Desigualdade

Os problemas da Grécia, os problemas de Portugal, de Espanha e de mais países pobres, da América Latina, da Ásia, são todos devidos a uma crescente e profunda desigualdade social? A uma desigualdade que, assim, em termos genéricos, pouco diz? Não.

A Desigualdade, que sempre existiu, e, por isso mesmo é argumento de alas mais conservadoras, ou liberais económicas da sociedade, sempre existirá e a vida (leia-se o Mercado, a Sociedade) se encarregará de ajustar e re-equilibrar (coisa que nunca aconteceu), é uma súmula de desigualdades várias: nos rendimentos, desde já. Na Propriedade (e rendimentos dela) e nos Capitais (e rendimentos deles). E nos Acessos. Acesso a oportunidades, na Educação, na Saúde, na Cultura e Conhecimento, na Ascensão (Mobilidade) social.

É uma causa e, ao mesmo tempo, uma consequência. O que centenas de economistas, sociólogos, politólogos, neurocientistas, psicólogos sociais, filósofos (a quem se costuma dar muito pouca atenção e se devia dar muito mais!), nos têm dito, escrito, insistido é que sendo causa deve pensar-se sobre ela e corrigir-se, porque, precisamente por se tornar também uma consequência, é uma rotura social que se torna sempre num factor de atraso económico. Quem perde capacidade de intervir, economicamente, fica dependente. E perde toda uma sociedade. E essa perda, transitória de capacidade de intervenção social e económica, mas também (!) cívica e política, deve-se a tudo o que atrás se indicou, começando por insuficiência ou incapacidade económica.

Ao contrário, e isto nunca será aceite por sectores conservadores e liberais, os estratos mais ricos da sociedade possuem e fazem desenvolver a sua capacidade de intervenção, cívica, social, económica e, para nosso mal, política. E geralmente, não possuem nem Conhecimento, nem Cultura, nem algum mérito, mas apenas meios económicos e financeiros de persuasão da classe dirigente de um país. E tão só. Mas haverá sempre um erro nas generalizações.

Na Grécia, como em Portugal, a corrupção instalada, que não tem mitigado, mas ao inverso, ganha poder, provoca uma perda de recursos tremenda na economia, e faz aumentar a Desigualdade, e a injustiça.

Como se combate? Por intervenção do Estado, por mudança de mentalidades e por denúncia, sem tréguas, mas fundamentada. Sem peias ou amarras a conceitos do passado. Refiro-me, particularmente a alguns conceitos, que mentalidades muito presas a grupos, onde as pessoas se pretendem inserir, as agarram a visões anacrónicas. Como a propriedade do Estado sobre certas empresas, ou a defesa de oligarquias, ou monopólios, por cedência intelectual, ou cedência a interesses empresariais, os famosos lobbies. Sectores como Energia e Combustíveis, Transportes, Comunicações, são presas fáceis destes "complexos" intelectuais distorcidos. E estes, são fonte inequívoca de desigualdades, pelo poder desmesurado que possuem esses sectores, ou as empresas que neles operam, normalmente em monopólio ou oligopólio.

Mas há outros problemas nas sociedades portuguesa e grega (e não apenas). A concentração de riqueza em pessoas e empresas muito pouco inovadoras e criadoras da diferenciação. As maiores empresas portuguesas limitam-se a distribuir serviços e produtos: energia, combustíveis, bens alimentares, representações de empresas internacionais. E nada mais. Não se vê criação, inovação, visão de futuro alguma. Tendo meios em si concentrados, acesso a créditos que empresas e pessoas normais não possuem, não procuram nada de diferenciador, mas vangloriam-se de sucessos e metas que não passam de cópia do que já se fez por todo o lado, não acrescentando valor real e futuro viável a economias anémicas em luta a uma escala internacional.

E o Estado não intervém. Limita-se a gerir. E gerir mal. Sem reformar, sem se reformar a si, pela Administração.

Que se passou com a proposta de Reforma da Administração? Morreu. Portas devia ter apresentado algo de inovador e eficaz, para a modernização do Estado. Apresentou uns farrapos de ideias e nunca mais alguém perguntou ou comentou alguma coisa. E todas as outras? Porque temos um sector educativo que sempre pretendeu defender mais profissionais do mesmo do que uma Educação moderna e que mude uma sociedade de gente iletrada e inculta, impreparada, portanto. E na Saúde o mesmo: primeiro os seus profissionais, e consequentemente, esperam-se meses e anos por uma intervenção cirúrgica, horas ou dias por uma "urgência" e morre-se antes de conseguir uma simples consulta. Mas os seus profissionais estão defendidos, do desemprego e da mobilidade (descendente) social. E a Reforma do sector empresarial do Estado? E dos sectores energético e das telecomunicações? Não, não estamos preparados para mais crescimento económico, nem para esse fantasma dos liberais que é o "mercado a funcionar e a regular e mitigar as desigualdades", criando mais oportunidades e possibilitando o acesso a sectores empresariais a quem tem capacidade por formação profissional e educação e cultura.

Não se irão criar oportunidades, sem todas as reformas, que mudem esta sociedade para uma mais justa e livre de monopólios e oligolpólios, que massacram os consumidores e retiram possibilidades a tantos de nós, aumentando a injustiça e desigualdade.

Isto nada tem de ideológico. Mas é urgente e já o era há quarenta anos, quando Soares criou mais injustiça com a criação de novos interesses e grupos, que lhe são próximos ainda hoje. Com o fim da Ditadura, conquistou-se uma Liberdade que me permite poder aqui escrever isto. Mas gerou-se muito mais incompetência e desigualdade. É preciso sermos livres de pensamento para que possamos ter uma visão desprendida. Sem se pertencer a grupos, apenas...porque sim. E recusando populismos, hoje uma nova ameaça por todo o mundo.

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