Die Forelle



Podemos sempre começar, por qualquer lado. Uma memória, qualquer, uma observação. Alguém que se vê, algo ou alguém em quem se pensa. Ou, simplesmente, quero dizer, nada simplesmente, iniciar um pensamento novo. Criar. E como se cria um pensamento? Primeiro, observa-se, depois compila-se do que a memória nos associar a isso que vemos. Escrever é um dos melhores estruturadores da mente. O pior será escrever com a realidade. Ela é tão enfadonha, tantas vezes demais. E, então, imagina-se. Um dos prazeres mais fáceis, fúteis e ridículos é entreter-se a observar gente à nossa volta. Num café, à porta da urgência de um hospital, a caminho do comboio, numa fila das finanças, numa sala de espera de um médico. Enquanto isso, pomos Schubert e o seu quinteto Die Forelle, A Truta D667, uma dessas obras que a nossa compreensão não compreende. Aliás, não sei como se pode compreender a capacidade de alguém para compor tal coisa. Aos quinze anos, dava por mim a imaginar que inteligência gigantesca teriam os grandes...escritores, compositores de música clássica, oradores, pintores, matemáticos, físicos. Por essa altura descobri vários, que me abriram a mente e a ambição. A ambição, não para ser como eles, mas para os entender e para, fazer crescer o meu cérebro até algo próximo. O tempo dos grandes sonhos. E até pensei, juro que o devo ter pensado na altura, como seria possível terem criado o que criaram. Fiz, então uma promessa: nunca iria parar de aprender. E, ao longo destes anos dou por mim neste dilema, de ser interpretado como um convencido, um quase arrogante, para alguns, e um muito mais do que arrogante, para outros. E, por mim, comigo mesmo (continuo com a Truta aos ouvidos nos meus adorados Sennheiser de estimação), enquanto me balanço numas linha que começam com pouco sentido para vós e terminam sem sentido para alguém, para ninguém (tentando evitar esse erro comum da dupla negação). Descobri um dia, qual não sei, a incrível capacidade desta língua portuguesa que amo. Rica, complexa, com tantas possibilidades de criarmos e recriarmos ao ponto de a dado... ponto já nem nós entendermos o que queríamos, ao início, ter dito. O que é belo, mas muito incompreensível. Espero apenas que não o seja mais do que o quadro em quadrados negros exposto no museu Berardo, na exposição Berardo no CCB (deixo a resposta sobre a sua autoria a quem sabe mais do que eu sobre essas ondas das artes gáficas, das quais gostos de me ocupar, pelo puro prazer da criação, mesmo sem sentido). Será que a criação filosófica pode, também, constituir um mundo de complexas, muito, mesmo muito complexas ideias, sem que façam sentido a alguém, perguntava-me eu um dia. Talvez num dia em que ouvia Beethoven, uma das minhas paixões, um dos meus egoísmo de eleição, em que me encerrava, sem deixar que o mundo se ligasse a mim, e eu a ele. Acho que já adivinhava que o mundo, ou a vida nele se havia de tornar uma quase agonia, nem que por instantes, sempre demasiado longos, para quem adora mostrar-se e ser optimista e sempre animador dos maus dias de outros. Tarefa hercúlea e impossível, está de se ver. Lembro-me de ter dias de alguma, de nível baixo, inspiração, apenas a passear sozinho pela cidade e a cidade era afinal indiferente, podia ser o Funchal, o Porto, Schwäbisch Hall, Mannheim, Barcelona, Madrid, Paris...Lisboa, e Lisboa outra vez. As pedras contavam mais do que o chão que decoravam. Já Schubert vai do Andantino, quarto andamento do seu Quinteto, em que celebra a vida animada, feliz de uma truta que só o é porque não tem forma de saber quando é pescada e...comida e ainda ando eu por aqui, sem que nada vos tenha escrito. Mas os sonhos eram feitos, basicamente disto: crescer, por dentro, sempre a engordar a cabeça com muita leitura, milhões de quilómetros de conversas estimulantes, sonhos de novo, com coisas, realizações e pessoas, e mais leitura, muita música grande, que me fizesse bem pequeno, e a arte que nunca conseguia explicar e nem precisava de mim para tal. Para completar, e dar entorno, um belo vinho tinto, quando o comecei a apreciar, um tanto depois dos vinte e algo, e a aprendizagem dos sabores e aromas, um novo que fui descobrindo com os tachos e panelas. Este mundo ainda cá está todo, agora mais calmo, do último andamento do quinteto D667, mas agora aldrabei a coisa e voltei ao andante, uma beleza (oiçam, mortais, e sintam-se como eu, ínfimos perante este Schubert gigante, esse romântico que nos faz o coração refém e nos agarra ao mais apreciado do que já alguma vez vivemos, e nunca confessámos), ah! este piano, o violino em diálogo com ele, o violoncelo a encher num ritmo mantido...e lá me chegam de novo...o homem era uma figura, de robe, bigode fininho desproporcional ao mau feitio com que tratara a nora ali à porta do São Francisco Xavier, deu-lhe a birra e mandou a jovem embora porque iria a pé se necessário mas que não precisava de ninguém. Era mais um ritmo a que sujeitei esta Truta, e ela resistiu. E ainda se tornou mais empolgante, deixando lá em baixo colados ao solo todos os humanos de reacções comezinhas e tristes, de quem nada mais tem do que ocupar o tempo, fazendo aos outros perderem o deles. E perder tempo...lembro-me da enorme chatice aos quinze anos que era ir cortar o cabelo e ter de ficar ali parado, uma boa meia hora, sem nada fazer, sem ouvir música, sem ler, sem conversar...uma seca! E nem a truta me salvaria, pois não se pode cortar o cabelo de auscultadores enfiados. No seu Allegro Giusto, Finale deste belo quinteto, temos de nos preparar para ...deixarmos de ouvir a dado ponto esta maravilha, e temos de parar de escrever, de pensar....de tudo. Ora bolas. Por essa adolescência e tantas vezes depois, o prazer que dava falar, e falar de algo novo que acabara de aprender! Porque aprender e saber e ficar para nós de pouco serve. Que parem os pensamentos, as ideias, o fim de Die Forelle, vai estancar-nos a respiração!

E, tal como a Truta, andamos nós, por águas conhecidas, desconhecidas, descobrindo e sendo descobertos, aprendendo, ensinando, alegrando-nos a cada curva do rio, entristecendo-nos na curva seguinte, surpreendendo uma presa, ou sendo comidos, ou apenas mordiscados por um predador, usando das melhores piruetas que conseguirmos, para nos livrarmos das correntes mais fortes, dos obstáculos mais ameaçadores, ou deleitando-nos com a paisagem ou com outras trutas que, como nós, entram na aventura da descoberta, ávidos de curiosidade e de saber. A certeza chega sempre na forma de alguém que nos retira do nosso meio e nos leva com isso a possibilidade de respirarmos, ou um enorme predador, de uma assentada, abre a bocarra e no ceifa a vida e a dança que trouxemos a ela, e toda a nossa alegria. A vida da truta será mais efémera do que a nossa? Ou vivemos várias vidas numa só?

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