16.12.15

A luz que é preciso ver




Ao fundo, aproximava-se uma nuvem que não era bem-vinda, porque vinha carregada de tudo o que não era esperado, nem desejado. Mas não se sabia. O dia começara havia pouco e num céu que queria ficar azul, havia esse anúncio que não se adivinhava. Normalmente, não dava qualquer importância a uma simples nuvem pressagiante, pois presságios, adivinhações ou determinismos não eram da minha esfera de preferências.

E o dia foi andando e não foi andando bem. Sempre recebia essa luz, pouco a pouco, uma e outra vez, e a queria receber e nem ela a conseguia ou sabia receber bem. Foi-se consumindo o dia, porque todos se têm de gastar. Uma fatalidade, por vezes abraçada, por vezes detestada. Num dia branco, sem ocorrência que se quisesse memorizar, querer-se-ia que continuasse branco, até que a negra noite o apagasse de vez.

Foi música e leitura, poucas. Foram pensamentos parvos e ansiedade e tudo continuava à espera de correr bem, antes que a dança acabasse, antes que se apagassem a luz e a sala fosse encerrada. A nuvem já era passado, e só restava mesmo era que o calendário se cumprisse, na certeza que a luz que tem dado vida e forma e muita esperança aos dias, sempre fizesse o fecho em festa, em bom brilho, o que sempre acontecia.

De cada vez, a luz. Não eram olhos, era a voz, e com ela tudo o que contava e conta. E de cada vez, o mau do dia se ia, embora não totalmente, mas sempre com a tal certeza. Há sempre dia seguinte e há mais luz em todos eles. E luz é sorriso, é energia vibrante, é irreverência, é jovialidade, é um afago e um carinho, momentos loucos e divinais, uma paixão que não se explica e apenas se tem de agradecer.

E sempre se termina com essa luz, nem que seja quando Morfeu clama por nós e nos promete muita claridade e a tua encantadora luz que esses olhos e sorriso e todo o teu ser me têm dado, sempre em realidade e sempre em promessa.



E és assim, toda a luz que se precisa ver, que preciso ter. Ela se espraia por campos finitos e prazeres infinitos, é luz de voz, de coisas ditas de coisas por dizer, sempre no teu melhor. É um luz quente, que me trazes, é um abraço morno e protector, é uma grande promessa de soprares nuvens que cá não devem estar. Fecho os olhos e vejo, claramente, porque esse brilho me chegou um dia e não mais sairá de mim e dos meus dias. Vou agarrar com toda a força toda a luz que conseguir reter. Um exercício fácil, porque ela vem até mim com amor. Abro os olhos e é noite e, no entanto, a tua luz está cá, se derramando por tudo à minha volta e acentuando tudo com as sombras projectadas, não com sombras de nuvens que não são bem vindas.

Ninguém vê essa luz. Eu sei que a preciso ver, eu. E ter. E reter.


15.12.15

A prova social e a falácia

Viver em sociedade é um caso de estudo. Desde há muito. Mas há algumas falhas fundamentais, nos estudos sociológicos, muito vincados à disciplina da investigação. Um problema da Ciência, que a ela mesma nunca quer reconhecer. O simples facto de muito investigador se dedicar a um mesmo assunto, ou a assuntos próximos, perverte o raciocínio e principalmente os resultados, feridos de demasiada estatística. 

Em sociedade vivemos todos, mesmo que os nossos dias se limitem a acordar e adormecer numa povoação remota, numa habitação isolada, apenas com a família e o trabalho nos campos adjacentes. Uma família é também uma organização social, ou a sua célula mais elementar.

E viver em sociedade pressupõe, ou deveria, um comportamento colaborativo, teoricamente existente. Ele existe, quando entramos num transporte público, e há mais pessoas a entrar às quais não podemos ser indiferentes, ou pelo facto de todos os lugares estarem ocupados e nos termos de cingir a ficar de pé, mesmo sem contarmos com a cordialidade e compreensão para com alguém idoso, alguma criança, ou alguém enfermo. O reconhecimento apenas da ocupação de lugares, lembra-nos o espaço social onde estamos e obriga-nos a esse comportamento de reconhecimento dos outros, desconhecidos, mas identificados como parte do mesmo ambiente social. 

Mas a colaboração esbarra com alguns aspectos da nossa mente estereotipizante. Esbarra ainda com outros pensamentos e modos de vida mais segregantes. Embate frontalmente com aversões mais complexas e porventura criticáveis. Nem tudo o é, apesar do politicamente correcto de dizermos que temos de aceitar todos. 

Mesmo quando conseguimos reconhecer a nossa tendência natural para o afastamento, para a estereotipização e para a consequente organização em grupos e células sociais mais identificáveis connosco, o que corresponde à falácia de que somos povos unidos, em cada país, em cada sociedade e outras afirmações anexas, todas desconexas da verdade, que é bem outra, somos levados num comportamento de grupo, numa corrente comum, de imitações de grupo, onde a moda, a tendência e a atitude de conjunto se repetem a cada dia e mesmo a cada instante.

Fumar, porque outros o fazem é bem mais comum do que se imagina e muito provavelmente ninguém se iniciaria nesse vício, não fosse por uma questão social. A moda, é um outro grande exemplo de imitação social, o que Rolf Dobelli designou de Prova Social. Uma espécie de prova de que nos inserimos num grupo, numa sociedade. Mas há exemplos bons e outros muito maus. 

Um bom exemplo de prova social foi a atitude nacional dos portugueses na solidariedade para com Timor que conduziu à pressão internacional pela independência.

Maus exemplos, contudo, são muitos. O apoio massivo a Hitler nos anos trinta do Século XX, um dos piores exemplos. Mas há outros, bem menos evidentes. Alguns deles nunca reconhecidos, como a aceitação deste actual Governo pelos portugueses que, precisamente, votaram contra o Partido que agora o formou. Não foram indiferentes, votaram contra, pois o normal seria votarem contra quem antes governou Portugal, se fosse por esgotamento de Poder, ou condenação de políticas, na tradicional alternância de Poder em países democráticos, ao que acresce a difícil governação em tempo de crise económica e social profunda. Outros exemplos de prova social, ou seja, de comportamento apenas explicável pela imitação irracional apenas pela nossa inserção em sociedade é a filiação partidária e a associação num clube de futebol. Há exemplos graves, como o são as emulações colectivas em grupos de inspiração religiosa, ou seitas se assim lhes quisermos chamar, ou o actual fanatismo islâmico. 

Há casos de pouca gravidade que até determinam hábitos e costumes de um povo, e se transmitem entre gerações, como a moda, ou antes até, a tendência para esperar pela próxima moda, e pelo seu seguimento. Ou as tendências musicais, ou mesmo modas gastronómicas, como a actual sobre o sushi. Há situações de mediana gravidade, ou de extrema gravidade (pelo meu prisma pessoal pelo menos) como as reprovações sobre comportamentos de pessoas e casais, quanto a uniões, casamentos, atitudes ou preferências sexuais. Há uma prova social tacitamente aceite como benigna (maligna e causadora de muito mal, fundamentalmente de mentalidades, a meu ver, apenas) como a religião em si, e as crenças colectivas em geral. 

Há sociedades onde ideologias política nunca serão aceites de forma significativa ou mesmo perceptível, como o comunismo nos EUA, ou o fascismo em Portugal. Mas o oposto nunca é condenado. Quando afinal, a título individual e com a excepção de quem se insere nesses grupos condenáveis, por condenarem todos os diferentes de si, as preferências e tolerâncias seriam bem outras.

Há nesta tendência social, da prova social, algo de patológico, algo de impensado e insensato, pois a maioria dos nossos comportamentos, se fossem individuais puramente, seriam tantas vezes o oposto do que o são.

Há milhões de exemplos e há milhões de pessoas a seguirem comportamentos, ou apenas ideias, por este fenómeno e erro crasso, da Prova Social. O erro mais grave é nunca se parar para pensar e pôr em causa, mesmo que se decida seguir algum grupo ou tendência.

5.12.15

O mundo perfeito somos nós

Num mundo perfeito, abraçaria a neve e com ela faria bolas cintilantes e flocos em estrela para tas oferecer, assopraria as nuvens que se quisessem tornar cinzentas não as deixando pairar sobre ti, escorraçaria o frio para que o mundo fosse um abraço quente e te envolvesse.

Num lugar único, ergueria uma cidade onde sentisses tudo perfeito à tua volta, a música te deixasse dançar entregue à alegria e ao êxtase, o tempo não fosse medido em dias ou horas mas em momentos
perfeitos, que se encaixassem em teu redor, à medida do que tu quisesses.



Num abraço forte, iria proteger-te e nunca mais te queria vir sair dele triste ou indefesa. Num beijo, te daria um mundo novo que quisesses provar e nele te envenenasses para sempre. Num momento de paixão te prometeria tudo a teus pés. A fazermos amor...

...te levaria à Lua mil vezes, só para ter o prazer de voltar e te levar de novo, uma, outra e uma vez mais.

Se o mundo fosse perfeito, não existiríamos nele. Porque somos gente e gente normal e neste mundo que temos, fazemos perfeição acontecer todos os dias, meu amor.

Tu e eu! E nada mais conta!

26.11.15

Uma fracção apenas

Temos momentos e tantos momentos. Aquele em que tentamos gerir o ruído à nossa volta, da pressa automática e nervosa de tudo. Aquele em que não queremos ouvir nada do que nos parecem querer dizer, sem o querer, por quase gritarem num locar público, as suas vidas, as suas opiniões, desaforos, ou até as suas declarações de amor. Não é nosso, nem para nós e não queremos saber.

Só queríamos ter um espaço de silêncio para pensar, ou tentar inclusive a impossível ausência de pensamento.

Temos momentos em que o silêncio que até procurávamos nos é tão pesado, que tudo daríamos por um bocado de ruído dos outros. Temos momentos musicais. Temos momentos de assombro por alguém. Momentos de emoção e comoção. De auto-comiseração, sempre julgado ilícito por alguém. De altruísmo, puro ou maculado. De egoísmo saudável, ou condenável.

E temos tudo, em momentos, estanques ou confusos e entrelaçados. "I am a strange loop", escreveu Douglas Hofstadter. E somos todos, a vida toda.



Há sempre uma luz aí qualquer, que nos pode proteger de um ruído cansativo e desgastante.

O ruído pode vir de algo que não se realiza, e nos vai moendo. Ou de algo que se verifica e não aceitamos. Pode ser som, ou não ser mais do que um silêncio que nos ensurdece, como alguém o disse.

Mas essa luz pode revelar-se, e estarmos invisíveis a ela, ou opacos a que nos alcance. Mas há sempre momentos. E só precisamos de um único. Um só momento e tudo se transforma, e os ruídos já não nos alcançam mesmo quando os ouvimos bem ensurdecedores.

O lapso de tempo que nos leva a entender um momento único e diferenciador, que confio nos acontecer uma só vez, não por ser apenas único, mas por ser totalmente distinto e totalmente revelador e importante, é o que nos leva à compreensão dele. À sua percepção, aliás. A compreensão nem interessa que chegue, pois não estaremos de sentidos em alerta para o entendimento.

Uma fracção de luz e o momento já tudo mudou e nada mais será como antes. Mas não é uma luz qualquer. É a luz! E ninguém a viu mais, só uma vez foi avistada, tudo o mais depois é a sua intensidade a crescer, no que só quem a vislumbrou pode viver, esticar os sentidos e desenvolver-se nela até ao fim do tempo.



Não é luz de nos tornar tudo claro, mas de nos deixar confusos, aliás. Depois sim, seremos iluminados e guiados e nos deixaremos levar. Abre-se-nos numa fracção e não deve esvanecer nunca mais.

À nossa volta o ruído do mundo prossegue e já não queremos saber.

17.11.15

Alvorada algo fria

Está a chegar o frio. Há quem diga que pensamos melhor com o frio. Confesso que eu...sinto frio. Mas talvez exista uma razão para que se diga tal coisa. Talvez o calor ambiental nos puxe fisicamente, nos leva a actividades no exterior das nossas casas. O frio, pelo contrário, deixa-nos em casa, e em actividades no interior, da casa e de nós. São conversas mais demoradas com os nossos, são as memórias que elas trazem, são as nossas leituras, os filmes e tudo o que, também nos leva a, talvez, pensar mais.

O frio logo pela manhã ainda a aguardar o despontar do Sol, é provavelmente revitalizante, se sairmos à rua, para um pequeno passeio. Um revisão de momentos vividos, bons e maus, um esquema mental qual folha de cálculo na cabeça, para alguns planos para tempos próximos. Como a formiga, talvez, a preparar outro frio, mais intenso, outro calor humano, mais compensador.

O Sol já começa o seu dia connosco, deixando outros no início da noite, levando-nos a mais um dia que ainda mal descortinamos, no que estiver fora das normais rotinas. Mas o que iremos pensar hoje, o que iremos sentir hoje, a cada dia assim...

A descoberta de como iremos estar, emocionalmente, não é a mesma coisa que a intenção de como iremos estar. Como os nossos pensamentos condicionam o nosso estado emocional, o que o dia nos trouxer também, o que as pessoas nos derem, ou retirarem também.

E...

Há essa reserva de emoções, que vamos contendo porque temos de nos proteger, porque algumas legítimas, não podem ser vividas livremente, ou o dia logo ao despertar não nos irá ser leve. Ou há outra reserva que deixamos que se liberte no sangue e nos encha o corpo todo e alguma euforia, mas muita intensidade de viver nos altere o dia que ainda dá os primeiros passos, a luz do sol já tornando visíveis os prédios lá fora, os sons dos carros ganhando forma e espessura pela visão agora certa dos mesmos.

E...

A visão do que tanto queríamos ver ali, bem à nossa frente, digo, a um palmo de tocarmos o que tem sido tantas vezes uma visão construída e sonhada, à luz ténue mas quente e afagante do que a mesma nos inspira. A vontade e desejo a misturarem-se, a crescerem com a luz do dia.

No frio, talvez o impulso de pensar seja mais claro, mais translúcido, é possível que a mente goste do frio, como as árvores gostam dele para renovar os rebentos na Primavera, após a dormência dos gomos. Talvez precisemos da mesma dormência, e consigamos antever uma renovação pela Primavera.

Quando a luz se espraia lá fora, a vontade de um novo dia em que tudo corra bem, entra em nós na mesma medida e de nós depende que assim seja, as outras vontades dando força à nossa.

Mas é tão bom sair da cama com o sol ainda apenas a ameaçar aparecer. E sair à rua, com mais vontade de nos enrolarmos no dia e na sua luz do que antes, em dias anteriores já o fizéramos. E levarmos connosco o sorriso que o Sol nos diz devermos ter. E há um sol humano que só alguns conseguiram encontrar que ainda tem mais luz e nos abraça mais forte. E devemos levar connosco.


13.11.15

Opiniões e ideias

O que é uma ideia e o que é uma opinião? Todos sabemos, provavelmente. Uns, até terão melhores palavras, melhor forma de explicitar o que uma e outra coisa são do que eu. Mas esta é a minha ideia, sobre as ideias e sobra as opiniões que temos, sobre acontecimentos, sobre projectos, planos e, claro, ideias.

Um ideia sobre alguma coisa, um objecto, um acontecimento, uma pessoa, muitas pessoas...é uma criação nossa, mental, e ainda vivida com o que ela nos transmitir fisicamente, visto que nas ideias, as emoções também estão presentes. Esta uma forma demasiado simplista e redutora, para intencionalmente simplificar, sem entrar numa das áreas de Conhecimento que mais aprecio e me fascina, a Filosofia.

Uma ideia existe, sem ter de se sujeitar a uma comprovação, ou mesmo a uma comunicação da mesma a outros. Não é por a termos apenas para nós, sem a escrevermos, o que tem, aliás, muitas limitações inerentes à nossa capacidade de materialização de ideias e da sua explicitarão, que a ideia deixa de existir. Mas é mais do que um pensamento, que pode, por assim dizer, ser um fragmento de uma ideia, ou um extracto dela. Nisto, alguns concordarão, outros logo discordarão. Normal.

O que me leva à Opinião. O que é, o que vale? Para mim é, sobre um pensamento e uma ideia, colocar o nosso apreço, ou desapreço, a nossa defesa, ou a nossa oposição. E porque são importantes?  Para mim, de novo, porque são uma forma de participação, em algo muito para além de nós, uma contribuição, e esta não tem de ser sempre favorável ou construtiva, uma forma de pormos fora de nós o que nós somos, um passo nessa construção do que somos, também. Vale para um o que cada um entender, muitas vezes vale mais na forma como a expomos, do que no seu conteúdo, e, frequentemente, leva tanto a uma agregação de opiniões e pessoas próximas, como à divisão e afastamento. No que está mal, e nisto serei veemente, sem me importar um pouco que seja com opinião contrária, lá está, no que está mal é quando uma opinião leva a afastamento de pessoas que se respeitam, admiram ou mesmo têm alguma espécie de sentimento, de amizade, de consideração amistosa, de respeito social ou até de amor.

Uma opinião não deveria nunca afastar ninguém que nos seja próximo. Ao que chamo não apenas de tolerância, como de respeito numa atitude de consideração e cordialidade, ou mesmo, bem mais importante, numa atitude inteligente de nunca deixar deteriorar, ou mesmo destruir liminarmente, o valor das pessoas, para além, muito para além das opiniões, eventualmente divergentes. O que conta são mesmo as pessoas. E com elas, o valor das suas ideias, e das suas opiniões. O que conta até, é a capacidade de termos e de recebermos opiniões divergentes e não desrespeitarmos quem difere, nesse particular de uma mera opinião, mesmo sobre um assunto da maior importância, por qualquer razão que nada tem a ver com saber estar socialmente, emocionalmente e saber manter à nossa volta quem muito possa discordar de nós, como até concordar.

O que muito observo, numa frequência inesperada e, até, direi mesmo, doentia, é o uso das nossas opiniões para nos mostrarmos melhores, com mais razão, com maior conhecimento, ou com uma suposta, apenas suposta até prova em contrário, inteligência superior. E, pergunto, se nos enganarmos perante opiniões distintas, somos piores, somos inferiores? E se acertarmos, somos melhores, rir-nos-emos dos outros? E de que serve esse duelo, essa, direi, mania muito actual, de usarmos as nossas opiniões para demonstrarmos uma qualquer superioridade, uma razão de maior qualidade, uma frequência superior em acertarmos?

Onde anda a tolerância, o respeito pela inteligência dos outros, pelas manifestações das nossas inteligência e das nossas diferenças? Por acaso nos quereremos vangloriar de sempre convencermos outros por uma suposta superioridade? Por acaso acreditamos que por essa via teremos mais sucesso ou seremos mais felizes?

Que me importa ter razão se perder uma boa amizade, ou, em exagero, ou numa atitude de má gestão de emoções e de razão, perder um amor? Ou um simples relacionamento cordial, de respeito e admiração, que de simples nada terá, porque não tem de ser pior ou inferior a uma forte amizade, apenas sendo de qualidade individual inferior para nós, na comparação com relacionamentos sentimentais, obviamente.

Porque queremos atirar as opiniões aos outros, como quase de objectos se tratassem? Porque queremos a todo o custo mostrar a alguém que temos mais razão, ou apenas temos razão e outra pessoa não, em assuntos que nunca se poderão demonstrar, por se ficarem nesse muito rico campo da filosofia. E mesmo que se demonstrassem? Porque razão não nos incomodamos sequer em perder pessoas, porque ganhamos em opiniões?

Se dizemos que a sociedade tem evoluído, terá a nossa tolerância evoluído também, ou há momentos de regressão difíceis de entender? O espírito democrata por onde anda? Há quem me acuse de um aspecto, de uma opinião de que me defendo, com toda a convicção. De não aceitar opiniões de quem é comunista. Exactamente. Nem de quem é fascista. Exactamente. Porque vêm de quem nada aceita e até pretende eliminar, aniquilar, destruir, ridicularizar, mascarar, e recriar as minhas e as de todos, os não sejam como eles. Coisa que não discuto, por perder o meu tempo que muito estimo, é religião com religiosos, por ser ateu convicto e muito bem fundamentado. Coisa que não discuto é política com alguém que nunca aceitará sequer uma pequena fracção do que penso ou do que opino, por não aceitar sequer alguma coisa diferente do que pensa, como é o caso de um fascista, ou de um comunista. Discutir abertamente, filosófica e democraticamente, com cordialidade e educação dogmas com dogmáticos é desrespeitar-me e ao meu tempo e energia. E por em causa o que eu mesmo penso. Um comunista não deve fazer parte activa da participação democrática. Precisamente. Tudo o mais, quem de mim diferir mas se mantiver nos balizamentos da mentalidade democrática, são bem vindos.

E não usarei as minhas opiniões como pedras contra alguém, não farei delas uma arma de demonstração de uma nunca demonstrável superioridade e, sobretudo, não pretendo por em causa relacionamentos elegantes, educados, cordiais, de amizade e muito menos sentimentais, para "fazer valer" uma opinião, ou demonstrar razão, perdendo em tudo o resto que para mim conta bem mais!

Como costumo pensar e viver em conformidade, pouco me interessa ter razão, interessa-me bem mais ter resultados. Apreciar amizades e saber mantê-las pela vida, com tantos que são tão, mas tão mesmo, diferentes de mim, é um prazer e não um calvário. Apreciar relações ainda mais próximas, por força do valor delas, bem superior, ainda mais importante se torna. Não pretendo isolar-me dos outros mantendo uma opinião contra tudo e todos, mesmo que quando veicule as minhas, tenha apenas em conta o que penso, porque até sei que o que penso é todos os dias influenciado pelos outros e principalmente pelos que mais aprecio ou amo. E com todo o prazer o faço.

Era este o testemunho, num momento em que observo tanta gente a criar relações e comportamentos fraturantes e desenvolverem afastamentos, porventura irreversíveis, com prejuízo sempre de duas ou mais pessoas. Embora haja quem pense que só se prejudicam uns.

Ter razão conta tão pouco se perdermos as pessoas!

9.11.15

A verdade e a sensação de felicidade

Dan Gilbert, psicólogo de Harvard é conhecido pelas suas pesquisas sobre a nossa percepção de Felicidade.

Gilbert chegou à conclusão que não temos mesmo a noção do que temos como Felicidade, do que nos faz felizes. Surpreendente. Se perguntarmos a alguém porque se sente feliz, normalmente a pergunta apanha a pessoa desprevenida. E normalmente, diz Gilbert, a resposta é uma recriação, muito pouco correspondente com a realidade.

O nosso cérebro é o único capaz de criar imagens e sensações e quase adivinhar o nosso estado de espírito perante um acontecimento que ainda é futuro. Somos capazes de "sentir" um toque, num tecido, ou um sabor de uma comida que ainda não provámos, um odor que nem ainda cheirámos. Não parece assim tão surpreendente, mas é. E esta interpretação da felicidade é, segundo Gilbert, mais uma criação mental do que, com frequência, uma percepção ou uma noção real.

Provavelmente, Gilbert não inclui a sensação de felicidade perante sentimentos forte, excepto se sentidos a um, ou seja, se não confirmados, como é o caso de um amor, pelos dois confirmado. Uma das razões da própria necessidade de confirmação, constante e difícil de manter. E, ainda, razão, porventura, porque as coisas podem falhar quando a confirmação falhar. Por confirmação, pode-se incluir tudo. Desde as palavras trocadas, como os sinais, positivos, como os sinais negativos. Nestes, a sensação de desconforto quando alguém que sentimos e até sabemos ter na nossa companhia o verdadeiro prazer, ou a expressão mais forte de amor, divide parte desse prazer com outras pessoas, sem que a divisão implique sequer a divisão de sentimento igual. Ou seja, sentimentos fortes e cruciais, como amor, lealdade, amizade sem cobrança alguma, podem ser comprometidos se não houver confirmação recíproca. Mas a nossa noção de felicidade, porque passa em grande parte por uma criação mental, tal como vermos o que nos dá jeito ver, perturba a clareza do próprio sentimento.

E, nesse caso, penso que Gilbert tem razão. Construímos uma noção de felicidade, tal como construímos o próprio mundo. À dimensão de como queremos que as coisas sejam.

Apesar de termos outra noção, acima explícita, da realidade pelos olhos de outra pessoa. A felicidade que sentimentos forte nos pode transmitir necessita bem mais, porventura da confirmação da razão dela existir, pela palavras, actos e continuidade pela pessoa objecto do sentimento que temos, do que por uma noção nossa, autónoma. O que contradiz a expressão que todos conhecemos de que "amamos mesmo sem que nos amem". Diria quase sem uma impossibilidade. Sê-lo-á seguramente. Se assim analisarmos, e assim crermos serem as coisa, então o Amor, ou a Confiança, a Lealdade, não são sentimentos e atitudes altruístas, como é comum e socialmente correcto dizer-se, mas antes egoístas, pois necessitam de correspondência para existir. E a felicidade que tais confirmações nos pode dar, estará ligada umbilicalmente a esse egoísmo saudável e desejável, única forma de amarmos e sermos amados. O amor não é altruísta até por se demonstrar ser um sentimento social, não individual. Existe se estiver ligado a ser recebido e não apenas oferecido. É onde falham muitos textos românticos e clássicos, que em tudo o mais exprimem bem as intensidades e vivências do sentimento. Por tal ligação da felicidade que o amor nos pode transmitir a outros sentimentos, como lealdade e confiança,  que nunca podem ser menos do que totais, como o amor em si, a necessidade da mesma ligação é fundamental.

O nosso cérebro consegue criar e recriar e antecipar sensações, mas quanto a sentimentos, pode apenas adivinhar, mas a necessidade de confirmação terá de vir de um outro cérebro, precisamente do objecto do nosso sentimento.

Não se estranhe, pois, a coexistência do ciúme, que tentamos conter e controlar a bem da persistência e vida do sentimento, mesmo com as mais pequenas coisas, como a divisão ou partilha de tempo com outras pessoas, por quem nem temos sentimos do mesmo valor, nem disso se aproximam. Não se estranhe que a noção de felicidade no que a sentimentos respeita, tenha de viver em igualdade de valor e intensidade com confiança e a sua prova cabal, a lealdade. Não há pois meios amores, ou amor por algumas coisas apenas. Tudo é absoluto, a partir de um dado momento ao menos, ou não é, simplesmente, nada.

A felicidade por via de amor, é uma necessidade em si mesma. Não uma casualidade.


7.11.15

Mãos

Olhava as mãos como frequentemente fazia, como numa espécie de aquecimento, antes de começar a procurar as palavras, com que queria preencher espaços no papel. E, mais uma vez, não entendia, tinha de estudar este assunto. A transmissão de uma ideia, começava onde? Na percepção do mundo, provavelmente, muito antes de vir a saber sequer se alguma ideia lhe surgiria, se algum recanto novo de mundo podia fazer surgir, com a palavras. Reais ou não. Bem, reais são todas, o que traduzem é que pode não ser. Isso já pensava ter esclarecido.

Mas este processo... uma, duas, milhares de impressões, conscientes, ou subtis, inconscientes, e algo novo se geraria, ou a confirmação, repetição de algo já demasiado conhecido. Aquela janela ali, aquela luz filtrada, ajudariam. Era uma luz serena, redonda e doce, silenciosa, sem atropelos e ruídos obstaculizantes. Era a sua luz preferida, para pensar, ler e escrever. E, olhando as mãos magras, dedos esguios, pensava poder teclar melhor, com mais destreza, ou agarrar a palavra preferida. Mas isso eram parte das boas condições. Que lhe faltava? Tema? Ou as palavras se encarregavam de o encontrar? Normalmente, um resquício de ideia, um pequeno sinal, um empurrão do quotidiano, sem importância qualquer, se poderia traduzir num conjunto de palavras, que ao cair...esperava criar alguma magia, (como dizia Kipling "como uma pequena gota de tinta que ao cair numa folha, faz com que milhares de pessoas, talvez milhões pensem". Pretensão para grandes apenas... ) normalmente nunca surgindo. Como faziam os grandes? Inspiração ou trabalho? Teriam mãos mais hábeis, ou tudo lhes vinha da cabeça? Claro, da cabeça. De onde mais? Algures tinha lido sobre a formação das ideias, ou das decisões, que as ideias podiam gerar. Ora, escrever, sobre o que seja, seria a concretização de um processo decisório. Começava, recuando, na tal percepção do mundo, de uma parcela ínfima dele. Mais nada, mas isso era muito. Era, diziam os especialistas, a etapa mais importante do processo. De decisão. Por isso, também achava o  ter lido, noutro lugar de papel qualquer, que um bom escritor teria de ser antes de mais um bom observador. Algo como...observar sem subjectividade. Como se fosse possível. E, uma vez mais, exaustivamente mais, olhava as mãos, num paralelo entre o seu uso na escrita e na moldagem de cerâmica, na pintura de uma tela, nas carícias a um corpo feminino. Um uso inteligente sempre obrigava a uma dedicação exclusiva do momento. 

Moldar um corpo belo de uma mulher (ou uma mulher, o de um homem), fazendo por transmitir todas as sensações previamente vividas e guardadas, não era coisa qualquer. Era a suprema arte. E superava, tinha de ser, todas as outras. Transmitir todo um mundo, todas as sensações de uma experiência a outra, como se a primeira fosse, ou a última pudesse ser? Transmitir e receber. Quem, num cerrar de olhos, concentrar nas mãos toda a experiência de sensações incríveis, de exploração, de gravação do conhecimento de cada centímetro de um corpo, sentido e (muito) fazendo sentir, para a ver e a ter nas mãos um poder especial, um mundo todo por conhecer. As mãos num corpo são fisicamente o mesmo, mas sensorialmente muito distinta experiência da de um corpo nas mãos. Uma cara bela, ou uma cara que se vê bela entre as mãos, num afago único, todo sentido, todo protecção, todo ...é como querer agarrar num gesto apenas toda essa beleza que se vê, e não a deixar escapar. É uma das melhores e mais inesquecíveis artes de sentir com as mãos. E de transmitir, também, o que somos. Mas todo o contacto das nossas mãos com  um corpo se pode transformar, de um simples sentir físico a uma sensação profunda e incomparável. Afinal, um dos sentidos mais apurados, não sendo apenas a visão e audição, é o tacto. Mas o tacto deve ser ensinado, a nós mesmos e com a interação do que fazemos sentir a alguém. O que torna as nossas mãos algo mais do que um órgão, um membro, é o sentido que lhes damos. E isso é tanto nestas expressões sensoriais, quanto nas artes que elas conseguem elaborar. É uma evolução de algo aparentemente vulgar e vulgarizado. Usamo-las para quase tudo. Mas podemos aperfeiçoar o uso que lhes damos, ou o momento em que as transformamos num instrumento de sensações fortes, intensas e um extensão física fundamental de sentimentos. O toque num corpo, num momento de grande intimidade, num outro de forte sentimento, não é tão diferente como o uso numa criação artística. Mas, o que as torna únicas, às nossas mãos, é num toque corporal, a pessoa que possui o corpo que é tocado e sentido. Era isto também, era isto, acima de tudo. Acima de tudo.


E na escrita? Como se deviam comportar as mãos, após a dita percepção, assimilação e decisão executiva da acção. De escolha de uma palavra e não outra, de uma frase...e de um tema. Como o percorrer suavemente um doce corpo que merecia ser amado...cada milímetro implicava uma decisão, ali tomada em fracções ínfimas de tempo, e exigindo uma execução de rigor, mas de muita sensibilidade. E na escrita não? Claro que sim, mas a sensação lida, era bem outra. Não era sentido ao momento, mas era cheirada, lida e deglutida pela mente. Não escorregava algum descontrolo. Não exigia também, controlo. De nenhum, do autor, da escrita, que não dos toques de pele, esse sim um outro, que por uma vez se descontrolando controladamente, daria um eventual prazer maior.



E um pintor, o mesmo? O toque também era importante, a inclinação dele, a pressão, a intensidade, a largura do traço, fosse pincel, ou dedos. Talvez mais como o uso de um toque de pele na pele. Seguramente uma tela se aproximaria muito de um corpo de mulher. E começava sempre nua. Sem nada de história antes do primeiro toque, sem passado mas com todo o futuro por surgir. O processo criativo. Mas...bem! O toque, pelo menos o primeiro, e porque não todos se a inteligência suportasse o uso das mãos como era devido, todos os toques, por dias, semanas e anos...percorrendo um suave corpo de curvas animadoras, prometedoras...um toque que mudava em minutos, com a humidade da pele a dar novas sensações, o aroma...esse fantástico odor, pelas narinas entrando, mas deixando memória nas mãos...não eram arte, sem passado, mas com todo o futuro pela frente? Nem que o futuro durasse minutos. Era futuro e era uma delícia de futuro. Era arte. De quem dava e de quem recebia. No receber, havia imensa arte. Nunca se repetindo de corpo para corpo, ainda que as mãos fossem as mesmas.

Mas o tema era escrita. E escrita seria. Num papel, numa tela, ou num maravilhoso corpo feito ao milímetro para exigir que as mãos que o tocassem se superassem. A todas as vezes. Como numa arte gráfica, ou cénica. De cada vez...um mundo quase todo novo, ou inteiramente.

Tocar era assim algo que muitos descuravam, mas era essencial. Saber transmitir. O que o cérebro, mais consciente, mais descontrolado lhes diga. Por isso as olhava para as preparar, a cada momento da arte que se lhe apresentasse. Era um desígnio. Uma sabedoria que se ia construindo e crescendo, nunca sozinho. Era a tela, o papel, a cerâmica, uma delícia culinária, um gesto desportivo, um toque de amor num corpo de mulher. Deixando as suas palavras nessa pele, gravadas. Ninguém as apagaria.

Seria pretensioso ansiar que, como Kipling, cada toque, numa tecla, pela tinta ao tocar no papel, pelo crayon de pastel ao escorregar na tela, pela moldagem sensual da cerâmica, pelas sensações transmitidas a um corpo...contivessem e despertassem essa mesma magia? De sentir e fazer pensar?

Por elas, mãos, se pode transmitir uma mensagem de paz, de amor, de serenidade de apenas...exaltação do melhor de um ser humano, despido de preconceitos, nu para novas criações.


1.11.15

Prepararmos-nos mentalmente, mas...

Cortisol e epinefrina. Hormonas que intervêm em resposta ao stress. Que também têm um papel na regulação da glicose e de funções alimentares, desempenhando, por isso um papel na nossa dieta alimentar. 

O cortisol é produzido nas glândulas supra-renais e o colesterol está na sua base bioquímica. E em situações de stress, o cortisol, que é considerado tóxico, a nível cerebral, dá-nos uma sensação de nevoeiro mental, de confusão, por um efeito ainda em estudo, mas provavelmente associado ao constrangimento dos vasos sanguíneos o que, aliás, nos faz responder ao stress, pelo desconforto e de um ritmo cardíaco mais elevado, descontrolado também. A nível mental, a sensação de falta de controlo racional e emocional, provoca-nos a necessidade de uma reacção contrária, para bloquear o stress. 


O nível de produção de cortisol, tóxico em excesso é importante na defesa, na prevenção de situações stressanets e na preparação do nosso sistema de alertas, em conjunto com outras hormonas.O stresse excessivo pode ser extremamente desconfortável a par do descontrolo emocional. Está por demonstrar o efeito "droga", impulsionador de mais tensão, stresse e descontrolo, provocado por excessos hormonais e por combinações tóxicas para um normal funcionamento cerebral. Mas parece ser real que em situação de forte carga emocional, as produções hormonais se desequilibram. Evitar situações de descontrolo e stress, pode passar desde logo pela consciência delas, pela noção perfeita dos efeitos pós stress e descontrolo, pelas consequências aliás, para nós mesmos e pelo que a outros que nos são querido pode causar. 

A noção, o conhecimento dos nossos momentos de maior tensão são a nossa maior protecção. Não pelo evitar liminarmente, mas apenas pelo controlo, sobre o descontrolo. Uma depressão, principalmente se não completamente controlada medicamentosamente, pode ser um factor de segurança pelo que acarreta de auto-conhecimento fundamental. 

O controlo medicamentoso, muitas vezes fundamental, ofusca e adia sempre esta possibilidade de reacção e de correcção de comportamentos. Muitas terapêuticas médicas, na realidade a esmagadora maioria, são baseadas numa outra aérea da Ciência, a Estatística. E com ela, a Medicina fica refém de dados comprovados como estes (isto é afirmado por cientistas a sério): estatisticamente são necessárias 300 pessoas para que um medicamento actue em 1. E os efeitos secundário? Por cada pessoa, 5 % de feitos secundários possíveis e graves. Ou seja, das 300 que tomam medicação, 1 pode ser beneficiada, mas 15 serão afectadas por efeitos secundários, quer dizer, 5 vezes mais por estes efeitos, do que pela cura. 

O grande truque é ...pensar, tentar prever situações. E muitas, serão impossíveis. Se uma discussão com alguém se pode evitar, ou diminuir os riscos de não a controlar, ou se uma situação de esquecimento de objectos e actos diários nos pode provocar stress, podemos tentar organizar o nosso mundo. Desde logo, em situações como exemplifiquei. 

Porque já outras, como uma emoção forte, provocada por algo totalmente inesperado, como um acidente grave com alguém que nos é querido, uma doença de um ente querido, ou mesmo nossa, uma morte de alguém, ou, pelo contrário, um acontecimento de grande felicidade, com um filho, connosco, como um sucesso pouco esperado, ou, evidentemente, o nos apaixonarmos quando menos esperávamos, ou nem queríamos, nestas situações toda a preparação é inútil. Totalmente inútil. E em muitas nem faria sentido estarmos preparados, pois há outra perspectiva dos acontecimentos e da vida em geral que tem a ver com o lado não emocional, mas sentimental dela. A beleza do inesperado é, por vezes o que mais nos preenche e exalta como pessoas. 

A beleza de sermos surpreendidos, por outros e por nós. A beleza de nos terem elogiado no trabalho e, com muito maior razão de causa, a de nos sentirmos apaixonados e vermos isso na pessoa objecto desse sentimento. Podemos e devemos preparar-nos com os nossos factores de segurança e com o controlo, programado, que conseguirmos, mas não em tudo. O surpreendente é um dos maiores encantos da vida.

E se o controlo é fundamental, numa fantástica e desafiante viagem diária entre razão e emoção, entre consciente e subliminar, entre prever e nem querer saber o que vem...o mais surpreendente e o maior desafio é ter a sabedoria ao alcance de muito poucos ( e não nos esqueças que todos somos diferentes com todos os que conhecemos, ontem e hoje) de transformar um sentimento forte e muito pouco controlado, em outra coisa ainda maior e mais compensadora, que é ir sabendo alimentar o prazer que outra pessoa nos dá, toda a felicidade que esse sentimento maior nos oferece...


31.10.15

Dias. Há dias...

Uma vez por outra, cai-nos a Lua em cima. Não é não esperar, é não querer mesmo. Mas não há como fugir dela a tempo e ...quando nos damos conta, lá fomos esmagados pelos nossos melhores sonhos e pelos mais temidos pesadelos. E depois?

Fôramos de pedra e faria alguma diferença, algum efeito? Somos de carne e muitos neurónios e estes malandros pregam-nos com cada uma...

Pois é. Se arranjarmos uma caixa para arrumar todos os nossos erros e disparates, todos os nossos excessos mais odiados, e com eles, a cobrir tudo antes de fechar a dita caixinha, os nossos mais pesados remorsos, talvez a caixa se verifique ser maior do que todo o nosso mundo e mais longa ou complicada de deslindar, se a abríssemos, que uma vida inteira. Por sinal, talvez tenhamos todos uma caixa de Pandora privada e que preferiríamos esconder no sótão mais remoto que encontrássemos. Mas Pandora é sagaz e foi inventada para nos retirar a serenidade. Salta-se-lhe a ela, e a nós, a tampa...

Nessa caixa, que guardaríamos, bem longe da vista de todos, em particular dos que mais acalentamos a esperança nunca nos verem com a imagem tocada. Mas imagens intocadas é coisa de Hollywood. E as caixas dos nossos segredos mais ou menos negros são por vezes encontradas, ou por vezes se perde a tampa, ou ainda num momento menos inspirado, arrancoma-la nós. E depois? Somos piores por isso? Não temos todos uma, bem em segredo?


O que é mesmo bom é que alguém nos ajude a levar de volta ao sótão, a maldita caixinha. Se houver esse alguém, talvez a dita nunca mais saia do sótão e as teias que por lá abundem a escondam até ao fim dos tempos.

Mas o que se guarda numa caixa dessas pode até ser precioso. Sabemos que...nenhum animal, dos que não pensam, não dos que se conhecem de quatro, tem tal caixa..negra. Sabemos que só a terá quem com muita intensidade e, note-se, algumas especiais necessidades, viva momentos. Viva momentos, coisa de humanos, armados em sensíveis vibrantes. Os de pedra acocoram-se numa perfeição que só eles vêm, e por de cócoras viverem, ficam mais perto do solo, por onde também andam os bichos.

Importante, repito é que se saiba tudo o que o baú esconde e se use, porque é parte de nós, que se use mesmo. Mas que se saiba usar. E o inconsciente, o mau da fita, incompreendido irmão pobre do próprio cérebro, mas afinal ele mesmo, sente-se tantas vezes preso, que um dia grita à luz do sol, ao que responde a Lua e nos tomba em cima.

O Cientista não estará presente, mas há muita ciência acumulada nos sentimentos mais fortes, dos que nos são mais fortes e sempre mais presentes. E nos levam o arca de volta ao sótão, talvez.

Só para humanos excepcionais, sejamos claros. O que é mesmo bom é sermos humanos em encontro com outros como nós. A pedra fria, que se arranje, na companhia dos seus iguais. Não?

28.10.15

Daqui à Lua

Daqui à Lua, não é um saltinho.

Ir à Lua é uma expressão interessante. E algo mágico pode esconder. Normalmente, significa que há algo que nos faz sentir completamente fora de nós, uma outra expressão carente de explicação. Um aspecto intrigante nestas expressões é precisamente o facto de elas pretenderem resumir uma ideia de algo forte, muito intenso, ou muito difícil de explicar e serem assim usadas, tendo como resultado dificultarem ainda mais a explicação. Que fica, então, ainda menos clara e, até, algo misteriosa. O fascínio em certas expressões está em algo de mágico e de impossível. Uma das maiores dificuldades da linguagem, como tais expressões bem exemplificam, é a quase impossibilidade de se conseguirmos exprimir uma ideia, um sentimento, uma sensação, um momento de intensidade emocional ou de prazer muito absorvente ou transcendental.



Ir à Lua, ser levado à Lua, levar à Lua. Porque a Lua foi um mistério durante muitos séculos. Porque era em si mesma, tão visível e tão inexplicável. Algo transcendente, impossível de se atingir, e se associava, assim, a um momento efectivamente vivido, mas uma impossibilidade de ser transmitido por palavras.

Já teremos, provavelmente todos nós, sido "levados à Lua" uma ou outra vez. Felizardos os que o foram repetidas vezes e, os que sabem ainda irem ser levados por imensas vezes mais, são uma espécie de "povo eleito" a quem tudo o mais lhes parecerá "terreno" e menor.

Porque esse ideal, esse imaginário que a Lua sempre constituiu não se perdeu na frieza científica da aterragem Lunar da Apolo 11. E as palavras de Neil Armstrong (That's one small step for man, one gian leap for mankind) também podem ainda aumentar esse imaginário do que é quase sobre-humano, transcendental. E quando recordamos momentos único, a nossa tendência, mesmo à falta da expressão, é comparar com a viagem ao nosso satélite de imaginário ora romântico, ora de algo inatingível.

Esse pequeno passo para o Homem, em momento de transcendência, inverte-se num...pequeno passo para a Humanidade, mas um passo gigante para o Homem.

E um muito breve, efémero momento, pode ser essa viagem, que afinal se passa dentro de nós e se reveste da impossibilidade de se descrever. Esta impossibilidade é, em si, uma fascínio tão filosófico, quanto ideário do romantismo mais intenso.

Hoje a Lua estava especial, ou a vi assim. Mas uma visão tantas vezes repetida, pode tornar-se num giant leap for Man, porque é em nós que tudo se passa, e esse tipo de inesquecível transcendência não sai integral de dentro de nós. Daí a utilidade da expressão. Ininteligível, mas cabal no que mais difícil se torna, com palavras normais.

Ir à Lua, ou ser levado à Lua é uma memória e uma promessa. Encerra tanto de superior ou de inatingível, como de romântica aspiração, ânsia de sobre-humano, ou simplesmente a mais estranha forma de expressão de algo que nos torna maiores. Por um lapso de tempo, também ele difícil de mensurar.



Afinal a Lua não tem qualquer culpa, essa, a "culpa" está na nossa Mente. E ter essa "culpa" é um algo que muitos queremos ter.

Deixem-se levar, ou levem alguém, ou vivam a viagem solitária da ultrapassagem de vós mesmos, uma capacidade sobre-humana, que apenas humanos podem almejar. A Lua ainda lá estará por uns dias mais, e até estará sempre, enquanto por cá estivermos, visível ou não, na certeza da sua existência, da sua presença. Para tornar muita coisa menos trivial e nos embuir de sensações de transcendência.


22.10.15

Gratidão

Passados uns bons anos, desde o começo de uma aventura fantástica, que é viver...com a única forma de o fazer que conheço, intensa e apaixonadamente, dou por mim a avaliar, reavaliar e nem sempre concluir. Porque nem tudo tem resposta, e nem interessa que tenha. Mas tanta coisa tem valido a pena e assim parece continuar.

Não me arrependo. Do que quis fazer comigo, do que fui tentando ser. Mas, fundamentalmente, não me arrependo de ir juntando à minha aventura, tanta gente fantástica que só não me surpreende, porque, verdadeiramente sempre acreditei na natureza humana e, com muito mais propriedade, em todos os que fui conhecendo.

Numa viagem que se reinicia repetidamente, confirmo o que percebi nas pessoas, nas minhas pessoas.  Os filhos...parece trivial, mas não é. São uma confirmação de quanto vale a pena sermos apenas apaixonados pela vida, o que os coloca no centro de tudo isto, na maior razão de todas, pela vontade reconfirmada de ir persistindo e dando humildemente de mim o melhor.

Mas não me arrependo. Contra tanto que se possa imaginar, ou erradamente, apressadamente julgar, muito poucas foram as pessoas que me podem ter desiludido. E as poucas que o fizeram, nunca foram do meu círculo mais próximo, afinal, das que amei, com quem vivi, com quem aprendi.

E não me arrependo, nem me surpreendo, mas confirmo. Nada mais garantido tem sido, do que este acertar nos que fui conhecendo. E nos que ontem, hoje e provavelmente amanhã, vão enchendo os meus dias, tantas vezes sem o saberem.

Com cada pessoa podemos sempre aprender, não dessa forma mais visível, mas da maneira subtil, que nos transformam em mais ricas e melhores pessoas também. Há quem esteja longe e me encha tanto os dias. Quem há tanto tempo não me surge nos dias e fez e faz parte de mim. Quem o fazendo, nem pode alguma vez medir a dimensão da importância em que se tornou.

Aprendi que a distância não existe, na materialização de um pensamento de enorme satisfação. Só a saudade, essa repetida ânsia de confirmar a felicidade de os ter conhecido, diminui a euforia de os ter conhecido. Aos filhos, em primeiro, desde o dia um de me terem sido apresentados...tornados possíveis por uma experiência de que não me arrependo nada, com a mãe deles.

E a tantos amigos, e a todas as mulheres por quem um dia me apaixonei. E a vida continua a ser uma paixão. Nas coisas mais simples e na confirmação, repito, não na surpresa, ou talvez também nela, a gratidão deve um dia ser sentida e gritada assim.

Um dia pode ser, ou parecer igual a tantos outros, excepto o de o nascimento de um filho e a cada um deles, uma nova etapa e nova aventura. Um dia pode assim parecer, mas o engano é total, quando olhamos para trás e percebemos que na esmagadora igualdade dos dias, houve-os que nos tornaram a vida bem melhor. E já me aconteceu tantas vezes e por isso...não me arrependo. Há quem fale em erros, eu prefiro experiências, por vezes difíceis, mas seguramente fundamentais.

O que verdadeiramente me satisfaz é ter este pensamento que a surpresa é substituída pela confirmação, afinal. Como me poderia surpreender com pessoas fantásticas, se elas já tudo tinham em si para me fazerem sentir grato? Apenas não me tinha sido evidente.

Aprendi que não se aprende com livros, cultura, conhecimento, experiência. Apenas. Mas com a possibilidade de nos abrirmos a que nos entre na vida gente que faz toda a diferença, o fez e fará. Foi assim no passado. Continua a ser, porque esta aventura não termina aqui.

O dia de aniversário de uma filha confirma, apenas, que é necessário deixar testemunho, de quanto vale a pena. E tantos outros dias e momentos também. Por uma vez, falarmos de nós e deixarmos prova de que as pessoas é que fazem a diferença e confirmam o valor da vida, faz todo este sentido. O sentido da vida está nessas pessoas, de nenhuma me arrependendo, de todas me sentindo grato e a cada dia me preenchendo mais.

Grato, pois.

16.10.15

A mente social


Quando estudamos a evolução humana, normalmente pelas ferramentas das ciências sociais, há aparentemente um aspecto que deixamos para trás. O do conhecimento do próprio cérebro, que ainda começa a ser desvendado.

Até 1950, antes de Roger P. Sperry da Universidade da Califórnia, a ciência assumia que um cérebro inteiro, com dois hemisférios tinha um mais avançado do que o outro. Incrível, não? Aos dias de hoje, a quem não parece isto inacreditável? Antes de Sperry ter apresentado os resultados de testes efectuados em pacientes com epilepsia, a quem tinha sido removido o corpo caloso, que une os dois hemisférios cerebrais, o cérebro era assim visto: Paul Broca nos anos de 1860 e Carl Wernicke tinham descoberto que o hemisfério esquerdo tinha a capacidade da linguagem.

Coloquemo-nos no lugar destes dois investigadores neurologistas. Não é a linguagem um dos aspectos que mais nos distancia dos animais? Não haverá quem não concorde. Nestas premissas, reside uma das vantagens, e igualmente uma das limitações do raciocínio científico. Onde a Filosofia pode dar uma achega fundamental, julgo.

Assumiu a comunidade científica, ainda com base nos pressupostos filosóficos até à época mais aceites, que no que nos distancia dos animais reside a nossa maior vantagem. A linguagem é um desses aspectos diferenciadores. Logo, atribuída ao hemisfério esquerdo, ele só podia ser o hemisfério privilegiado, e, por consequência, o direito, o irmão pobre. Uma espécie de cérebro a meia capacidade. Ou seja, andou uma humanidade inteira a usar meio cérebro, com o qual acabara de concluir, até aos anos 50 do século XX que com apenas essa metade chegara a brilhantes conclusões.

Serve este raciocínio para muitas coisas. A mais polémica e fundamental, a de que estudamos a mente com ela mesma. E imagine-se agora tirar conclusões ( e estabelecer dogmas!) com esta assumida limitação. Ou não assumida, mas verificada.

Com Sperry algo mudou, mas o cérebro já era o mesmo. Mudou a forma de o vermos, pelo menos a comunidade científica. O hemisfério direito era agora uma massa útil. Mas atentemos. Calcula-se que o cérebro possui cerca de cem biliões de células nervosas e cada uma delas se liga a cerca de dez mil outras. Mais ou menos cem biliões de interligações. Das quais a metade não era, digamos, de importância maior. Não que não tivessem uso, mas que regia por exemplo as emoções e essas eram factos menores, pois o pensamento sequencial e o domínio da comunicação pela linguagem era o aspecto distanciador entre seres humanos e animais. Esta preocupação, se não meramente científica, era fundamente à época. Sermos diferentes dos animais. Como se óbvio não fosse e apenas o tido como pensamento lógico-dedutivo, a razão, fosse a fronteira decisiva.



E é isto que ainda hoje, em geral, se observa. A valorização dessa razão face ao pensamento holístico, à visão de conjunto, às emoções. Há uns anos, a emoção como vertente mental dominante e distanciadora face aos animais (que ainda se designam de irracionais) ganhou terreno, psicólogos de todo o mundo elaborando conceitos, investigando e publicando as suas conclusões favoráveis a uma mente onde a razão não era sinónimo de superioridade intelectual. Tal como com a supremacia racional, a emocional tomou a vantagem, pelo prismas de novos investigadores. Um dos expoentes foi Howard Gardner, ainda hoje um respeitado e muito seguido psicólogo de Harvard. Daniel Goleman foi mais mediático e ficou famoso pela divulgação da Inteligência Emocional. Mas estes não se verificaram ser dos mais intrépidos defensores de uma nova supremacia, a do hemisfério direito.

Pelos dias de hoje, porém, a Mente humana começa, finalmente a ser entendida de forma mais abrangente, os seus dois hemisférios sendo então aceites como igualmente importantes e complementares. Um dos exemplos mais simples que li, foi o de um casal a preparar um jantar a dois, em que o homem verifica a dada altura não ter os ingredientes mais importantes para o elaborar. Com expressão algo irritada, olha para a mulher e diz “vou ao supermercado”. O hemisfério esquerdo apenas consegue entender a sequência lógica de palavras e não a emoção com que são ditas. O hemisfério direito interpreta a expressão facial. Um paciente com uma lesão, num dos hemisfério apenas iria interpretar o que o hemisfério saudável lhe permitisse e, assim, “vou ao supermercado” era uma ida simples...ao supermercado, sem se entender se a bem, se num acto de indiferença, ou num ambiente de crispação. O hemisfério direito, interpretaria a saída de casa do homem como algo a contragosto, com desagrado, ou muita irascibilidade.

O exercício que me proponho não é simples, podendo ser impossível.

É o cruzamento destes actuais conhecimentos sobre a Mente humana e, por simplificação, apenas nesta interpretação funcional de cada hemisfério, não tendo em conta todo o mundo ainda muito conhecido da nossa capacidade intelectual, com o tão parcial e distorcido conhecimento sobre a evolução humana, evolução das sociedade, escolhendo um âmbito qualquer por necessária prática analítica. Concretizando...

O comportamento económico. O comportamento político terá acompanhado todo este potencial intelectual que todos temos, e em que as diferenças de uns para os outros se devem a muito subtis distinções de funcionamento cerebral, com uma imensa ajuda de experiência de vida, conhecimento e...trabalho. Trabalho intelectual.

Eu acredito numa interpretação, sem provas para tal. A libertação intelectual, conjugada com a vontade, a determinação e o grande prazer pelo desconhecido, pela exploração da própria mente, podem desvendar uma capacidade em alguns de nós e deixá-la adormecida em tantos outros de nós. Nisto, uma ajuda preciosa da visão de conjunto, especialidade da direita, digo parte direita do cérebro, holística e interpretativa por oposição a uma limitada análise sequencial, será fundamental.

Se a cada disparate praticado por figuras públicas muito bem apetrechadas de experiência e auto-limitadas nos pusermos a observar, reflectir e apenas tentar o exercício do entendimento dos comportamentos, e se extrapolarmos aos acontecimentos históricos que nos trouxeram até aqui, pelo menos nos poderemos deparar com uma visão nova das coisas, eventualmente esclarecedora e decisiva para tomada de posições que hoje nos parecem, à luz de muita superficialidade, descabidas ou indiferentes. O resto, a cada um compete, evidentemente. Como se fosse viável, depois desta singela reflexão, qualquer evidência.

15.10.15

A tentar ler Mário Cláudio

A tentar ler...

Nos silêncios se revelam mais palavras do que no uso delas? Não sei se alguém, alguma vez o disse. Mas nos momentos raros de silêncio, a corrente selvagem dos pensamentos pode conduzir-nos a algum lugar, dentre tantos sem definição qualquer.

A vontade de fazer algo de novo, escrevendo, que se adia, perante as notícias que se ignoram, as companhias de que nos ausentamos, por nada mais do que procurar o vazio recuperado da ausência de palavras, actos e compromissos que se não pretendem, de que não nos queremos ausentar, por nada mais do que vermos todo um mundo cheio de tanta sensação que não se consegue explicar, ou não se quer, cabalmente. O mundo está louco todos os dias, e nos mesmos lugares de exercício de loucura premeditada, uma, duas, milhares de histórias de bom senso e de amor podem estar em simultaneidade. O mundo que se lê, na Síria, como na Venezuela, na Rússia, como no Brasil, em fragmentos de misérias, grandes e pequenas, por toda a Europa das Civilizações, esse, deve, só pode estar louco, e pelos intervalos, mais esforços de ignorar a loucura, saltar para o mundo do lado, ou dos antípodas, saltar apenas em estado não físico, lutando, aguardando e regressa-se a Mário Cláudio, escritor que nos deve recentrar no pensamento lúcido, culto e arrumadinho.

De arrumadinho se espera despertar. É o tal Outono e as suas partidas. E nem se "ligam as notícias", o pensamento a algumas centenas de quilómetros, no que parece tão perto, mas como todo ele é ar, e depressa está no drama que continua pela Síria, como nos agora esquecidos do Afeganistão, ou dos totalmente irrecordados da Albânia, o drama crescente no Brasil, país de todas as violências. O desarrumo que voar até essas centenas nos traz, o vazio que mais alguns milhares nos pode trazer. Há,  só nós sabemos, um segredo que se quer revelar, ou um segredo que não se pode desvendar, a sua natureza deixando de a ser. Há Facebook que nos maça e desgasta. E o livro ali mesmo ao lado. Espera. Enche-te de silêncio. A sociedade é poluição sonora, os sentimentos uma caverna de quietude.

O escritor é velho, diz Mário Cláudio. E nem foi ele que escreveu aquilo, que está acolá. Acolá, lá bem acolá...está quem deve estar aqui. E o escritor não sabe. Não pertence a esse livro.

Volta-se ao social e à tremenda chatice do real, o Governo ainda não deu à luz. A confusão é quase total, a mistificação é a única que é real. E Mário Cláudio não espera. Está ali, apenas.

As noites são seguramente descanso e nunca a desesperança do silêncio, não é afinal a paz pintada de branco e ausência de ruído? E o pensamento não se podia calar?

Há coisas que deviam de ser o que outras foram e foram mal, ou que não deviam ser o de outras tantas que o são sem se querer. Detesta-se silêncio e até se despreza alguma paz. A paz pode ser paragem, o silêncio ... se se fala dele, agita-se e trai-se a sua natureza.

Se me deixam voar, eu vou, se me deixam ficar, não sei estar. Mas Cláudio ali persiste e vou voltar-me para ele.

Imagino a dinâmica lá fora e custa tanto saber de tanta vida, a folha que cai e só é dada por morta ao chegar ao seu repouso de Inverno. Sabiam que a Saudade é uma palavra portuguesa? Pois claro que sabiam. Sabiam que com ela se criam as perdas? O português inventou uma palavra que não serve para nada.

Vou ali ao lado, Mário espera-me. " O velho que escreve no gabinete da casa demolida, suspende o trabalho para se submeter a um acesso de tosse...". Tem razão o escritor, é com ele que devemos enterrar o vazio. É neste que se revelam todas as palavras que nunca quereremos dizer.

"À secretária do gabinete o velho tendo esfregado os olhos, reedifica a casa demolida". A casa demolida...

A uma demolida devia responder-se com outra a edificar.


11.10.15

Da Natureza da Realidade

A História é uma das matérias de registo, além da estatística e das ciências, pelo percurso da sua evolução. Mas a mãe da memória da Humanidade e até dos ambientes e dos meios naturais é a História. Essa mãe, matriarca da Memória, é porventura a parente pobre, paradoxalmente dos percursos muitas vezes felizes e bem sucedidos da nossa evolução como espécie, outras tantas, infelizes, demolidores do que antes fora construído e testemunha da novos ciclos de atraso evolutivo.

É pela História que podemos tomar conhecimento do mundo que nos antecedeu, é a ela que, noutros momentos, ou alguns de nós depositam a maior indiferença. Eventualmente, a História devia ser um repositório de verdades, boas e más. Frequentemente ela é usada para favor um favor aos amantes da mentira.

E a verdade, como sabemos, dificilmente é uma. E na História se misturam, intencionalmente, essa dificuldade de relatar uma verdade, ou usar a mesma dificuldade de a identificar, para transmitir uma herança de mentiras. E não é, como se imagina, nada inocente essa manipulação da verdade. Mas ela, verdade, tem uma natureza. E desse natureza, se trata, afinal, a busca constante de soluções para a genuína evolução humana.

E verdade sobre o bem-estar de um povo, não é indiferente às consequências o uso de mentira. A natureza dela, está presente, ou esteve, apenas pode ter sido usada para fins mais ilícitos. A natureza da realidade, uma forma física de Verdade não é escamoteável. A visão que temos dela, porém, transforma-a quase no seu oposto, no limite. E a História é quem sofre, a Humanidade quem vive as consequências.

É assim com factos e falsos factos políticos. É assim com factos e pseudo factos culturais e até científicos onde a documentação rigorosa e adequada das suas descobertas e dos seus avanços deveria eliminar erros de verdade.

Uma das áreas onde a verdade tem tantas faces que difícil se torna identificar sem titubear a realidade, para além do relato da mesma é, obviamente a política. Uma tradição de negociação política, dita diplomacia, para gozo do assunto, rica em jogos de falsas verdades e mentiras nunca assumidas, remonta a Mazarin e a Maquievel, pelo menos de forma documentada e transposta para a História.

Mas a literatura também tem dado, desde sempre a sua contribuição para nublar a realidade, ou a transformar numa verdade oposta aos factos.

O uso da inteligência humana para os fins ilícitos conhecidos de transformação da realidade foi quase transformado em arte, dando origem à expressão “maquievélica” e levando ao extremo as consequências políticas, até à implantação de ditaduras com esmagador apoio popular.

Dois aspectos que se prendem com o processo da mentira são, do ponto de vista das ciências da mente, fascinantes. O processo mental seja ele qual for tem uma natureza química e tem uma outra estruturada a nível psicológico. Se alguém mente, conscientemente, como se pressupõe ser a mentira, tem de saber enganar o registo mental de factos, trabalhá-lo e traduzi-lo numa outra visão da realidade que é reconhecido pela mente como sendo falso. Os pensamentos são sempre “materializados”, ou seja, um processo, como tal algo existente e positivo. Pode existir uma negação objectiva e intencional de um pensamento, mas não um pensamento negativo, dito inexistente. Uma transformação da verdade, eufemismo para mentira, é uma ludibriação da realidade, tal como a mesma mente que produz a mentir a reconhece. Um processo provavelmente custoso e que, a dada altura pode até alterar o registo da verdade, assumindo a mentir em seu lugar. É o que acontece quando dizemos que alguém “acredita nas suas próprias mentiras”.

A nível mais pessoal e intimista, ou íntimo mesmo, os sentimentos podem ser desmentidos pelas expressões, pelo tom da sua transmissão, pelos factos resultantes e contraditórios, pelo acto sexual, espécie de polígrafo feito com o corpo humano. Mas a outro nível, social, a dificuldade de se entender a própria natureza da verdade, ou seja, da realidade, é bem maior.


Acontece com frequência com a actividade política, muito mais do que com a empresarial, porque a prova dos factos é, também frequentemente de difícil demonstração. Em parte porque a política é da área filosófica e não apenas do nosso quotidiano. Em parte, também, porque há toda uma preparação e escola, até, de exercício de falseamento da realidade. Interessa ao objectivo primeiro de chegada ou manutenção do Poder. E é este simples facto que muitas vezes se ignora, ou pretende ignorar. O mesmo facto que permite dar-se a um partido de um extremo político um voto à borla, uma oportunidade de exercício de falácia e de mentira. Uma dessas falácias é a de que da Esquerda vêm boas intenções e ideias benéficas aos com menos oportunidades. Outra, complementar, a de que da Direita vem sempre algo com um interesse obscuro e prejudicial latente. Nestes tempos, essa tentativa de mascarar a realidade é assunto melindroso, mas de capital importância. E os olhos abertos, por vezes, pode se muito escasso.