26.11.14

Tenham vergonha!

Confesso um amor especial, coisa intima e nutrida com todo o meu empenho. Coisa que me faz ser o que sou, intransigente com princípios humanitários e de muito profundo respeito pelo povo que justifica toda a acção política e social, que sustenta uma Democracia, ainda que doente, ferida por gente que me faz trazer a público este amor confesso. O amor a uma aversão profunda: à Maçonaria e aos seus interesses, nunca confessados, panela onde são cozinhados interesses pessoais e de grupos. Uma aversão que me anima, ao ponto de quando um maçon se manifesta eu sentir logo um assomo de urticária. E quando se manifesta contra os princípios mais elementares que eles mesmo dizem (hipocritamente) defender, e nem quero saber o que defendem, tal a desconsideração que me merecem pessoas que conspiram e elaboram o seu plano de vida, no seio de um grupo que me dá asco...quando o que dizem é contra todo o interesse de uma sociedade onde se inserem...nem vos digo a reacção que me inspira. Fico-me por aqui.

Mas não me fico quanto às palavras de Luis Montenegro. Já la vou. Um dia estava eu a tentar perceber o interesse real do apoio à candidatura do PSD à Cãmara de Oeiras, quando entrou na sala Montenegro, conhecido maçon. Logo me mexi na cadeira...inquieto e preocupado por me saber na mesma sala onde estava tal estirpe. Não consigo aceitar as palavras de Henrique Monteiro, que um dia veio em defesa do seu grupo, Maçonaria, para nos explicar a boa vontade e intenção respeitável da sua instituição. Porque apenas vejo o resultado da sua acção, como grupo, na conspiração de que somos vítimas. E que contraria e desmente a boa intenção da sua sociedade secreta.

Ora, vamos à notícia de ontem. Montenegro dizia que consequências haverão contra os deputados do seu Partido que votaram contra o Orçamento. Não dedicarei muitas palavras à discussão sobre um Orçamento que nos vai deixar pior do que já estamos. Um OE ainda por cima incompetente e mal elaborado, onde os objectivos do próprio Governo não surgem claramente, ou nem sequer surgem, de tal forma que os agentes económicos e a sociedade em geral não poderá entender qual o rumo em 2015, que o Governo pretende para Portugal e todos nós. Medíocre. Mas vindo de gente medíocre, era de esperar. Mas triste e vergonhosa é esta defesa da disciplina de voto. Um dia espero que a mesma seja liminarmente proibida na Constituição. Trata-se de limitar a inteligência individual e o direito à sua livre expressão, em Democracia. Trata-se de por acima da liberdade de alguém responsável, como deve ser um Deputado, o interesse de um grupo, de um Partido, ou tão só de um Grupo Parlamentar. De colocar os interesses, correndo o risco de que esses sejam contra o povo eleitor (e interessa também o povo não eleitor, entenda-se), de um Partido acima de todos nós.

Inaceitável. Se há o risco de um OE não passar, porque dentro de um mesmo Grupo Parlamentar há Deputados que votam contra, o que há a fazer é apresentar Orçamentos de qualidade logo à partida e que não ofendam os direitos e a vida da maioria de nós, dos portugueses. O que não é o caso do OE 2015, manifestamente. E mesmo que fosse um excelente OE, o direito de estar contra o seu próprio Partido tem sempre de ser respeitado, mas sei bem que um elemento que adora pertencer...pertencer a grupos, pela manifesta incapacidade e triste inteligência, que o faz ter uma dependência confessa, como um maçon...entendo bem essa medíocre manifestação de incapacidade intelectual. Pois eu escolho um grupo por livre opção e por defesa de ideias e ideais muito similares às minhas. Não escopo primeiro o grupo e depois me insiro na defesa das ideias do mesmo. Nunca.

A disciplina de voto é uma vergonha. Nesta ou noutra qualquer Democracia. Se um Partido espera a defesa pelo voto, dos seus próprios correligionários, das ideias ou medidas que defende e quer tomar, deve fazer tudo para que as mesmas correspondam ao que se espera desse Partido, pela sua identificação política e social. Não são os seus membros que devem apoiar incondicionalmente, as acções da Direcção, mas esta que tem de corresponder ao que dela se espera, e particularmente, esperam os seus actores políticos, Deputados por exemplo.

Condeno e exijo, como cidadão, a demissão de Montenegro, que me envergonha como membro do mesmo Partido!


24.11.14

Processo Sócrates: Veremos o poder da Maçonaria?

Confesso a minha surpresa pela detenção de Sócrates. Confesso que também me surpreendeu a mediatização da sua chegada a Lisboa, de terem avisado um órgão de comunicação para ser filmada o automóvel onde seguiu para a esquadra. Tratado como um criminoso qualquer, indignaram-se os seus simpatizantes... mas um dia saberemos se ele foi, alguma vez, mais do que isso. Um criminoso qualquer. Pois para mim foi isso e mais nada, sempre.

Depois de muito ter lido e, sem necessidade de muita reflexão, que a criatura me mereça, reconheço, acho que é muito fácil entender-se as razões para alguém, no perímetro jurídico desta investigação, ter intencionalmente pretendido mediatizar. Só alguém muito ingénuo acredita que as tradicionais personagens obscuras e subversivas do PS não tentarão, como no passado o fizeram, com as escutas destruídas e outros movimentos tipicamente maçónicos, influenciar, manipular e impedir mesmo a continuação desta investigação e um eventual julgamento. Já o estarão a fazer, desde o fim de semana, não duvido.

Por estas circunstâncias, se entende a preocupação de um juiz em assegurar que o processo ganha outra dimensão e se evita a esperada manipulação, que outrora veio do mais alto cargo da Magistratura, com essa vergonhosa e subversiva intervenção do Supremo Tribunal.

Mas a mim precupa-me que Sócrates escape, mesmo assim! Isso é que será muito preocupante, pois a criatura tem sido altamente perniciosa e danosa, para Portugal. As mais perigosas actividades de subjugação da Democracia a um indivíduo, pós-ditadura, se devem a este sujeito.

Acho um tanto insensato, ou mesmo ridículo que se misture processos, essa intenção sim com vista a desviar atenções deste em concreto, sabendo-se o que acima explico: uma das defesas da continuidade da investigação é precisamente tornar pública a mesma e com tantos detalhes quantos os possíveis ou recomendáveis. Pois Soares e quejandos tudo tentarão para impedir a sua continuidade. E os socialistas que tanto insistem em mencionar outros casos, a decorrer, e que com razão devem prosseguir, sejam eles afectos a que Partido forem, só estão a tentar, eles sim, desviar as atenções do "camarada" Sócrates, um indivíduo de muito baixo nível como ser humano.

Nem a suspeita força da maçonaria...

Não irão conseguir, desta vez!



18.11.14

O que a vida não nos dá

Nós humanos parecemos andar pela vida à procura de um segredo qualquer, que um dia nos traga uma felicidade incontável e maior do que somos. Construímos ideias e ideologias, religiões e crenças,  teorias pessoais na demanda de uma verdade universal, não tanto universal quanto isso, para alguns, mas que lhes sirva como uma carapuça à medida para o seu fim pessoal. Um fim louvável, claro, e ainda mais, legítimo, de encontro com uma felicidade toda a vida procurada.

Os budistas, tidos como superiores, pelas suas práticas contemplativas e de sereno isolamento, têm como base da sua filosofia de vida e de procura de algo superior, que só atingimos esse patamar elevado, o Nirvana, quando nos libertamos totalmente do Ego. E julgam consegui-lo. Não usam, no entanto de um modo de vida que lhes permita testar isso mesmo, nem sequer se expõem à prova dessa convicção, antes fugindo à contemporaneidade, e ao quotidiano, uma forma de anti-depressivo que mascara a sua protegida realidade. Também são eles que propagam, como espécie de argumento incontestado hoje por quem vive o que se tem vivido nos últimos tempos, que toda a a vida é sofrimento. Mas vivem em consonância com uma religião que procura essa felicidade, que dizem não se alcançar.

Procuramos uma felicidade, ou até vamos dizendo a nós mesmos e aos nossos, que já deixámos de a procurar, numa resignação não totalmente genuína. Mas esperamos que ela apareça, como a chuva ou as tempestades que nos surpreendem. Sem o dizermos, vamos esperando por esse determinismo, algures registado, num qualquer livro insondável, por um Deus, ou um Arquitecto do Universo, por Algo superior, dependendo das nossas crenças.

Muitos de nós, a maioria, rejeitamos uma outra forma de vida, sentido uma aversão quase próxima do visceral e enjoativo, pelos que se dizem ateus. E nem nos perguntamos porque alguém se tornou ateu, ou pensa sê-lo. Provavelmente por de alguma forma ter descoberto que o encontro com essa felicidade não lhe vem de uma Providência qualquer, mas do seu esforço pessoal, nunca isolado, mas em sociedade, onde tudo se faz.

Por isso não entendemos os que traçam caminhos e voltam atrás nos mesmos, por se terem dado conta de o novo caminho iniciado não o conduzir a nada. Ou não entendemos a desistência na demanda, da maioria de nós, e o grau de infelicidade atingido, pela mal sucedida procura da felicidade. Pouco mais procuramos pela vida. O amor, o sucesso, a realização, o riso, o prazer, são formas de a procurar. A felicidade. Que a vida não nos traz. E temos nós de procurar. Em geral, não a encontramos, mais do que por momentos breves. Mas julgo que alguns encontram.

Vamos dizendo uns aos outros que para encontrarmos esse grau elevado de realização na vida, essa Felicidade, devemos exigir pouco, exigir de nós e de outros muito menos do que habitualmente fazemos. Mas não há receitas, nem comparativos que nos permitam dizer o que é menos do que alguma coisa, o que é demais ou que nem nada é. O que é exigir menos? E menos é um comparativo. Com o quê? É nos outros que devemos procurar um padrão, ou em nós mesmos e no que julgamos ter feito e procurado antes? E o antes, é desde quando? E refere-se a quê? Mais ou menos material, mais ou menos imaterial?

A vida não é uma Providência e uma Sabedoria em si mesma. Não nos trará um Segredo qualquer, uma Receita, para um dia almejarmos o que até esse momento não tínhamos conseguido obter. É em si mesma uma procura, como tantos filósofos o têm defendido, e não passará muito disso, apenas.

E, que se desiludam os que o tentam fazer sozinhos. O ser humano só realizou efectivamente em colectividade. A genialidade que parece vermos em ilustres figuras da nossa História não foi, e não é, mais do que um intenso labor de procura incessante, por uma vida inteira, de melhor e mais realização. Essa perfeição que nos parece vermos em seres que julgamos inspirados, só se distingue da nossa "normalidade" ou mediania, pelo intenso trabalho de uma vida. Na procura de mais e melhor, intelectualmente.

E nunca há dia para desistir. Mas sempre para continuar.

14.11.14

Estereótipos?

Todos estereotipamos. Mas nem todos, tudo valorizamos.

Entre amigos, conhecidos, familiares e desconhecidos, vamos criando estereótipos, mais ou menos reais, ou totalmente irreais.

Para cada um de nós "há o que" qualquer coisa. Há os que sempre nos falam apenas deles. Os que nunca o fazem, e os que esperam que lhes perguntemos sobre eles. E os que nem assim querem deles falar. Há os que gostam de falar, os que se cansam com isso, mas que gostam que outros falem, e os que se maçam com as duas coisas.

Há os sempre alegres, nem sempre o sendo efectivamente. Os sempre tristes, nem sempre o sendo, verdadeiramente. Os serenos, os dramáticos. Os próximos, os distantes e os alternantes. Há quem goste de carros pretos, sempre e apenas de carros pretos. Os que isso lhes é indiferente. Por acaso esta dos carros pretos parece uma epidemia que assolou o país. Pretos carros, mas apenas nos carros. Mas há os que tudo deve ser preto. Nunca percebi esta fobia da cor. Há até os que acham que flores é coisa de funeral. Coitadas das plantas e das flores.

Há os que sempre dizem "nunca minto", sempre útil na identificação do momento em que começam a mentir e nos podiam apanhar desprevenidos. Há os sempre disponíveis e os que o dizem e nunca estão. E há os que gostariam de estar mesmo e não podem. Há os que noa sempre nos fazem rir e os que adoram criar um motivo para nos fazer chorar. Há os que sempre são amigos, sempre nos fazem falta e nós a eles.

Na minha vida, conheci, tenho ou tive, pessoas, como todos nós, muito distintas, e muitas com aspectos comuns entre elas. As que falam muito mas nem por isso me cansam, nem por um segundo. E que falam, e sabem falar, de tudo. As que falam pouco, mas são incisivas. As alegres e as deprimidas, mas nunca ao ponto de curvarem a forma de ser sobre si mesmas e andarem pela vida enroladas. Mas há as que me cativam pela voz, desde há muito, ou desde há pouco, mas nos primeiros segundos, o seu timbre logo me agarra. Só pelo timbre já me silenciaria (uma proeza difícil) e deleitaria em ouvi-las. E as que o timbre é pouco agradável, mas que o conteúdo é estimulante. E há a mistura dos dois tipos (uma voz encantadora e uma conversa que me prende e cativa).

O que me pergunto é se estes estereótipos existem assim, ou parte será da minha criação interior?

Mas gostos dos meus. São os meus estereótipos queridos. Mas são mais, são pessoas que me animam e são promessa de dias bons.

7.11.14

O Navegante

Morris West foi um dos autores de que li mais livros, há muitos anos, pela adolescência. A obra que o tornou famoso foi "As sandálias do pescador". Escreveu ainda mais dois, ou três, livros sobre o Vaticano, a Cúria Romana, tradições que West conhecia bem por ter sido monge.

Escreveu um livro que considero uma obra mediana, mas com alguns aspectos que me deixaram marcas na memória. O Navegante.

A história de um homem que procura uma ilha lendária, onde diziam que os navegadores se dirigiam para os últimos dias da sua vida. A imagem que guardo, distante, era de um fim sereno, quase aprazível, quando se tinha a certeza da vida estar a terminar. Uma viagem calma, num mar imenso até uma ilha que servia de depósito de vidas longas e de segredos nunca contados. 

Era uma escrita sem grande brilho, mas uma história com ingredientes, não totalmente explorados, onde se misturam mistérios ancestrais e a vida moderna, de homens e mulheres que redescobriam o amor e o desamor, a amizade e a vida tribal que nos é contada um tanto superficialmente. 

Jared Diamond, um iminente antropólogo, tem escrito sobre estas civilizações do Pacífico sul e do Índico, sobre sociedades onde observou vestígios de uma vida ancestral tribal, em transformação, com um processo de ocidentalização a decorrer, mas em mistura com tradições e imensos dialectos. Sociedades que deram um salto gigante no tempo, mas ainda guardam muitos dos traços de outrora.

O romance de West lembrou-me este ensaio excelente "O mundo até ontem", fascinante, como todas as obras de Diamond. 

Uma vez por outra, imagino-me assim, a viver distante de todos os meus, numa ilha tranquila, a vender cocktail a turistas, de calça e t-shirt todo o ano, regressando ao meu país de quando em vez, para rever os meus entes próximos, filhos e amigos queridos, mas sempre voltando a um paraíso de silêncios, leituras, passeios, temperaturas amenas, e sem pressões sociais ou outras. Imagino-me, utopicamente, a terminar os meus dias como o navegador, metendo-me numa canoa, num mar pasmado de calma, um espelho do céu, a percorrer as últimas milhas até ao repositório de uma vida. Esperando ali, sozinho, em pensamentos provavelmente confusos, de tudo o que fiz de errado, de tudo o que tentei, do que consegui, e do que nem alguma coisa queria, aguardando, ao ritmo dos dias, pelo último deles.

A imagem pareceu-me a do cemitério ideal, rodeado da beleza de uma ilha distante, de que ninguém sabe o paradeiro.

Devem ser os dias menos esperançosos que me fazem regressar a estas imagens do futuro que não irei ter. Um dia talvez encontre alguém que me queira acompanhar até uma ilha, um Curaçao, Aruba, Belize...para a tranquilidade que este Ocidente turbulento já não me trará. Ou vou apenas sonhando com essa ideia. 

Li, por estes dias, sobre uma forma de meditação, "meditação mente aberta". Nunca me interessei muito por alguma espécie de meditação, mas afinal, ao ler aquilo, percebi que com certa frequência, muitos de nós andamos próximos de o ter feito. Ou passado por um outro estado, não sei se equivalente, mas com capacidade de nos alterar emocionalmente, fornecendo um conhecimento mais próximo do nosso inconsciente, e quase conseguindo identificar essa ponte difícil entre consciente e inconsciente, de que se desconfia vir o nosso controlo mental total. Já sobre yoga, tive curiosidade, mas nunca pratiquei. 

Não sei se algum tipo de meditação, algum exercício de concentração, próximo da conhecida concentração transcendental, que nos permite fazer, estudar, criar algo com o mínimo de esforço, num momento de total exclusão em relação ao meio que nos rodeia, nos permite esse conhecimento da ligação do nosso sistema 1 e 2, inconsciente e consciente, a que chamam Sabedoria. E de que se diz que os monges no Tibete há muito conseguem, sendo que o conhecimento actual das neuro-ciências parece confirmar. 

Mas fascina-me que cada vez estejamos mais próximos deste entendimento do que afinal nos comanda, e comanda o mundo. E que um dia possamos entender o caminho para um melhor controlo das nossas próprias percepções, ideias, conflitos internos, angústias e momentos de realização e sentimento de felicidade. Tal como me fascina a ideia de tentar um dia algum modo de meditação. 

No fundo é essa a imagem que deixa o "Navegante". E ainda podemos adicionar um melhor conhecimento de tudo o que nos antecedeu, pois a nossa mente, a de cada um, tem milhões de anos, muitos mais do que a nossa vida, com todas as marcas deixadas por uma cultura de que conhecemos parte, ou anterior a nós e nos fez assim. Do melhor conhecimento da nossa própria mente, única, mas com muitas semelhanças à de muitos que conhecemos, sendo todos resultados sociais numa mesma cultura, pode surgir um controlo sobre receios, terrores e ansiedades, mas também dos supressores da nossa inteligência, que a teoria da Inteligência Positiva, sucessora da Inteligência Emocional, segundo os seus investigadores, designa de "sabotadores".  O conhecimento desses sabotadores é, de acordo com o seu mentor, uma forma mais rigorosa de avaliação das nossas capacidades mentais, após o descrédito do QI e a evolução do QE (Quociente Emocional). 

Os actuais conhecimentos de neuro-ciências podem trazer-nos uma vida melhor no futuro próximo? Mas talvez nós mesmos, com exercícios de concentração, de alguma meditação, possamos atingir outro conhecimento de nós mesmos. Uma actividade criativa absorvente, ou mesmo uma actividade intelectual exigente, como ler algo de profundo e que demande muita capacidade mental, ou ouvir música tentando perceber a sua construção, o que pode ter inspirado o compositor, as imagens que nos ocorrem e tentar descreve-las, para nós mesmos, podem ser novidades nesse importante conhecimento do que somos e como agimos. Está documentado que a actividade mental intensa pode dar-nos melhor qualidade de vida, com mais saúde e mais longevidade. 

Pelo menos, pode dar-nos mais prazer e já é muito.



6.11.14

Portugal país valente e imortal

A Oposição diz que continuamos em crise. Ou seja, assume, nem diz muito. O Governo diz que estamos a sair da mesma. Claro que instituições que definiram e apoiaram a austeridade que ainda sofremos (pelos vistos para o Governo já não), concordam com o novo "despertar" de Portugal. Mas, rigorosamente, num assunto onde dificilmente pode haver rigor, o que define estarmos em crise ou não? Pires de Lima, incansável, e inegavelmente inteligente, tem-se desdobrado em esforços para demonstrar que estamos melhor, não bem, mas muito melhor. Rui Rio, não parece concordar, pelo menos pelas mesmas razões. Fala em crise política, ou crise da classe política actual. Bem...pelo menos alguma crise deve haver, pois poucos serão os portugueses que sentem estar já livres do sufoco em que estavam...há seis meses, ou nove. O que define estarmos em crise??? Coço a cabeça e...não consigo perceber como podemos estar ainda em crise, apenas porque ainda temos mais de um milhão de desempregados, e entre eles os mais jovens os mais afectados, e os mais velhos, os sem esperança. Não é já um milhão? São apenas 850 mil? Então..sim, saímos da crise. Deve haver um número qualquer que define saída dos problemas e da crise. O pior é para os que ainda ficam nesse desemprego que lhes retira quase toda a esperança e todos os direitos de cidadania, ainda se sentem bem enfiados no buraco do desespero. Mas deve haver um valor qualquer, fronteira entre crise e saída dela. E a desigualdade sentida, a barreira de acesso a patamares importante na vida? Como pôr filhos na Universidade, como aspirar a uma classe acima da da sua origem, a chamada mobilidade social, contribuição decisiva para a mitigação da desigualdade. Essa mobilidade é um dos factores que podem contribuir para uma sociedade mais interactuante do ponto de vista de participação cívica, mais criativa e geradora de novas oportunidades. Mas talvez, afinal, ela já esteja em grande velocidade, porque a crise terminou. E a maior subida de impostos de sempre, não em valor absoluto de cada um, mas pela abrangência, também não indica qualquer crise. Porque sentimos nós, pobres mortais, que olhamos para o alto da pirâmides, de onde quarenta séculos nos contemplam (como disse Napoleão em Gizé), e onde agora nos olham (sobranceiramente) os iluminados nossos políticos, que ainda não podemos ter uma vida normal, comer normalmente, sair de casa para um café com os amigos, e ter a extravagância de beber um vinho num restaurante? Ou mesmo o absurdo de fazermos um fim de semana com a(o) namorada(o), ou com os amigos? E porque os nosso filhos se queixam de tanta coisa, dificuldades com aquisição de livros para estudar, menos comida em casa, ou falta dela, roupas quase andrajosas...é o carácter caprichoso e culpa dos pais. Nem todos tivemos as inteligências brilhantes dos nossos políticos e empresários fantásticos, para sabermos educar os filhos, educar-nos a nós mesmos e vermos os mais do que evidentes sinais de fim da crise e da recuperação espectacular de Portugal, nação valente. Nobre povo.

Andam para aí uns malucos com a mania de mudar o Regime (mas eles referem-se ao alimentar), de renovar não sei o quê, de não confiar nem em Passos nem em Costa (mas Júdice diz que o melhor para governar Portugal é Costa. Ele sabe o que é governar? Pode ser. E ser governado? Duvido, pois sempre se "governou" bem), de não acreditar nos resultados brilhantes desta austeridade. Gente doida e mal agradecida a tais inteligências do PSD e do PS actuais. Temos, é claro, o contra poder. Sindicatos maravilhosos, de gente séria e profissional. Temos também o corporativismo médico, o jurídico e o dos professores, assim, de repente. E isso é a inveja da Europa. Ah! E o PCP, o único na Europa que ainda surge nos órgãos de comunicação. Isso sim, é bom.

Com todo isto, onde anda a crise? Só vejo excelência.

Nação valente e imortal (à venda aos chineses?).

Vem aí novo Caminho?

José Gomes Ferreira sugeriu uma possibilidade para Portugal. Uma alternativa para esta Democracia, neste momento, sem saída. Estamos encurralados entre os grupos que dominam os nossos Partidos todos e os habituais interesses económicos, que nos têm trazido reféns de decisões erradas e de interesses obscuros. 

Porque razão nem um Governo se interessou por dois problemas nacionais prioritários: Corrupção e Desigualdade social?

Porque nunca alguém de valor, com ideias distintas desta doentia praga que nos assola, destes grupos de gente menor que controla os aparelhos partidários, consegue sequer entrar em um grupo de discussão dentro dos Partidos (os principais, os outros nem da Democracia querem saber, muito menos de nós)? Porque se tornaram impermeáveis a simpatizantes e militantes com ideias válidas, mas independentes de grupos formados e fechados para sequestrar a nossa vida política? Todos sabemos boa parte das respostas, não interessa muito explorar este assunto por esse lado.

Pela Internet leio muita gente de valor que pensa o mesmo de José Gomes Ferreira. A eventual criação de uma força política que arrede do poder esta gente inferior e perniciosa que hoje temos. E porque não se dá um passo nesse sentido? Já tarda...

Têm surgido algumas individualidades com ideias supostamente diferenciadoras dos actuais políticos em funções, mas sempre se vem a verificar que nem são melhores, como até serão piores, em interesses apenas pessoais e mesquinhos.

Mas é estatística e liminarmente impossível que em Portugal não se consiga um movimento de gente de grande valor e honestidade, com espinha dorsal, sentido de Estado, visão, coerência e integridade. 

O nosso problema, quanto a mim, reside neste fenómeno muito negativo do qual ainda não nos libertámos, que nos atingiu com a Globalização há uns anos, e com a crise, recentemente. Encontramos-nos como uma sociedade dispersa, atomizada nas pessoas, nos seus valores, nas suas competências. Fragmentados. Muita gente de valor está em más condições para se apresentar como pessoas válidas, relegados para planos sociais inferiores ou marginais, fruto das transformações no mercado de trabalho, da fragmentação e dispersão das famílias e grupos de amizade e discussão séria.

Quando olho para os nossos políticos e penso...mas quantas pessoas conheço pessoalmente que têm muitíssimo mais valor e capacidade do que esta gente...porque estão estes em funções, no poder, executivo, legislativo ou mesmo na Oposição? Porquê? Porque tiveram a iniciativa de entrarem em forças partidárias, através de grupos de controlo e manipulação perversa das mesmas, para fazerem da política um instrumento dos seus interesses pessoais e de grupo. E os outros, precisamente os íntegros, nunca o fizeram, e se mantiveram afastados, pelas razões opostas aos actuais medíocres. Por diversas razões, de interesse profissional, porque também a política se lhes tem apresentado como uma actividade indigesta, que lhes provoca azia...(para dizer o mínimo).

Mas por todo o lado têm surgido iniciativas, grupos de discussão e estudo, que se constituem por pessoas de valor inquestionável e, seguramente, outra humildade, honestidade e visão inteligente. talvez nos surjam daí as alternativas. Talvez ainda outras tenham de se formar.

Este é um assunto em que "esperar para ver" se torna já excessivo e preocupante. Não é, como nos tem sido dito por alguns suspeitos interessados em manter a actual situação, da qual vivem, um caso de "conhecimento de dossiers". 

É o caso de se encontrarem pessoas com os valores que já sabemos serem fundamentais, gente...com valores, que não os actuais políticos (não todos, claro) que nem os têm. 

É mesmo O Assunto. 

5.11.14

Uma revolução silenciosa

"Olhem para a sociedade em que nos tornámos: somos uma nação bipolar, um Estado burocrático centralizado que preside a uma cidadania crescentemente fragmentada e demissionária".

São palavras de Phillip Blond, filósofo britânico sobre o seu país, mas podem aplicar-se quase à perfeição a Portugal (e a outros países europeus. Parte da doença, ou crise social e emocional que grassa pela Europa, que tem gerado políticas erradas, no Estado e nas empresas, e líderes medíocres. Tempos de desorientação não geram líderes sólidos, inteligentes e bem formados).

Países como Portugal não estavam preparados para o que tem vindo a suceder desde os anos oitenta e noventa, a alguns anos depois de 2000. A entrada na CEE, a globalização, trouxeram novidades à nossa sociedade, nem todas boas. A globalização, em particular, trouxe consigo efeitos perversos, para os quais nunca estaríamos preparados.

Lembro-me de na multinacional alemã onde estava, por volta de 1995 se começar a falar em profundas transformações estruturais da empresa, que apanharam de surpresa os mais antigos, e os chefes da altura, que, numa primeira abordagem (como é comum suceder numa empresa assim, em que os chefes conhecidos são poucos e os que decidem estão muito distantes, sentindo-se esse clima de distância, de grande desnível hierárquico e de algum medo, pelo desconhecido. Alguém distante e hierarquicamente intangível é sempre alvo de um misto de respeito e medo, por não haver contacto próximo e existir um desconhecimento sobre o controlo emocional, perante um desconhecido) abraçaram a "mudança" para pouco depois serem os primeiros alvos de um despedimento que foi apenas internamente vivido e muito silencioso. Eu dependia da Alemanha e passei a depender de Espanha, momento em que se foram degradando as condições de trabalho, na altura muito privilegiadas. Em Espanha havia um chefe alemão, mas um jovem extremamente ambicioso, da geração que cresceu com a globalização, com a moda das grandes fusões de empresas já gigantes, e com a frieza dos números, a obsessão dos rácios, e uma falsa empatia, rapidamente traduzida em despedimentos graduais, sector a sector, num ambiente incaracterístico no que outrora havia sido uma empresa onde trabalhar era um prazer e se fizeram amigos para muitos anos. A estratégia foi confundir as pessoas, introduzir tecnologias que nem todos conseguiram acompanhar, colocar pessoas em funções de maior responsabilidade para logo depois as retirar, e dividir toda a gente. Este processo, que se iniciou muito com empresas alemãs, e se deu entre 1995 e 2002, foi um dos primeiro passos de transformação social e desintegração, social, familiar com profundas sequelas emocionais. Transformou toda a gente. Uns pela negativa, tendo após isso sempre imensa dificuldade em substituir um emprego altamente valorizado e qualificado por funções em empresas medíocres, muitas delas nacionais. Outros, por algum tempo, ainda usufruíram de negócios emergentes, fruto da desintegração das empresas.

A globalização e as fusões de empresas, que a acompanharam, transformaram profundamente a sociedade portuguesa, com consequências para empresas internacionais e reflexos nas empresas portuguesas. No seu rasto ficaram famílias com problemas de entendimento do processo, que a pouco e pouco se foram desintegrando. A sociedade foi sofrendo as consequências. Alguns dos que conseguiram ficar nos "barcos", ainda nas empresas que iam fechando ou despedindo colaboradores, e que foram enviados para comissões no exterior, transformaram-se como pessoas, nunca mais sendo os mesmos. Desses, algumas famílias se "esfacelaram".

Paralelamente, com a abertura do país e a globalização, foram surgindo espaços comerciais que vieram a ser decisivos, por um lado no acesso muito mais facilitado dos consumidores, eles também em processo de transformação dos horários de trabalho, fruto de novas ligações internacionais, e sem o tempo de que antes dispunham, por outro lado, fazendo desaparecer grande parte do comércio tradicional, mais próximo dos consumidores, mais amistoso e com um tipo de relações interpessoais que hoje só se vislumbra em pequenas povoações, fora das grandes cidades. As relações emocionais de outrora, foram-se desvanecendo, ou desapareceram de um momento para outro.

As novas ligações profissionais, a aprendizagem de novos costumes, a assimilação e adopção de hábitos, de trabalho e pessoais, distintos dos que nos caracterizavam, foram transformado a nossa sociedade, atomizando-a gradualmente, chegando-se ao que hoje temos, acrescido do efeito internet e que agarra as pessoas a casa, a contactos à distância de mensagens, comentários em redes sociais e a telefonemas, diminuindo assim, os contactos interpessoais directos. Com o mesmo processo, a natalidade foi drasticamente atingida. O tempo mais alongado para formação superior, seguido da formação intra-empresa, as viagens e comissões prolongadas no exterior, e as elevadas exigências em tempo e dedicação, agarraram as pessoas à profissão e afastaram-nas de uma vida familiar. Atingiu-se de morte a natalidade. Feriram-se mortalmente as relações em sociedade, grupo a grupo, família a família.

Outros factores contribuíram ainda para esta descaracterização temporária. A mania da tecnologia e de um mundo que dela depende e que ela tudo vende. A tendência tonta para passar a moda ao Ensino. Portugal não estava, igualmente, preparado. O choque tecnológico foi um dos maiores disparates do Governo desse vazio de ideias de nome Sócrates. Porque tudo veio no fim do percurso, mas um homem inculto e sem formação, não tinha capacidade de entender. Quando o mundo muda de paradigma, do tecnológico para o conceptual, tenta-se forçar um país a entrar na era da tecnologia. Que sempre terá lugar e ainda muito desenvolvimento, mas os pólos do mesmo, estão já deslocados para outras áreas geográficas, pois as condições produtivas e de competitividade nunca por cá foram criadas e em sociedades que relembram os anos do Taylorismo, agora a oriente, essas condições nem precisavam existir, tal a abissal diferença entre custos produtivos e de remuneração do trabalho. A impreparação da sociedade desorientou-a. E nada aconteceu de significativo, em termos económicos, que se considere compensador das perdas sociais e pessoais.

Ainda, para apenas mencionar alguns dos factores, a Energia. A dependência do exterior. O controlo dos custos de produção, de produtos e serviços, por alguém que não nós. E novamente alguma deslocação de decisão que teve reflexos sociais, porque os teve económicos.

Creio que este processo não é português, mas que Portugal estava especialmente impreparado para ele. Creio que este processo irá estabilizar, pode até já estar a suceder, dado que actualmente há outros processos em curso, que valorizam menos os profissionais, e atingem da mesma forma os grupos, famílias e sociedade. Mas são distintos, porventura mais desumanos, porventura e de alguma forma, inversos do anterior.

Creio que dentro de alguns anos, a sociedade portuguesa já entenderá estes processos, pois houve um tempo em que estava demasiado fechada ao que já ia sucedendo lá fora. Provavelmente um tempo chegará em que as relações se estreitarão novamente, as famílias estabilizarão, as amizades recuperarão a emocionalidade de antes. Um dos nossos problemas foi, talvez, nunca ter valorizado o lado emocional de uma sociedade. Com o efeito atomizador, que levou a uma grande dispersão social e a uma desagregação de interesses colectivos, ficámos pior e muito mais expostos a manipulações poderosas, orquestradas por gente que vive da desgraça dos outros, literalmente, das dívidas soberanas e dos seus juros, do empobrecimento provocado, para desequilibrar umas sociedades, em proveito de outras. Ainda estamos nessa fase. Em Portugal e na Europa. Onde menos se sente, foi onde se geraram estes movimentos, intencionais.

Ficámos também piores em mobilização social. Hoje sofremos as consequências, desta nova paz podre, sem indícios de intervenção mais directa dos cidadãos.

De uma forma natural, porventura, re-encontraremos a nossa cultura social, as nossas relações emocionais em sociedade. Não sabemos, parece-me, é em que ponto dos vários processos nos encontramos, e o que ainda será recuperável do que nos identificava e nos unia, socialmente. Não sabemos quando acontecerá nova viragem, ou quando estabilizaremos. Mas há que voltar a encontrar a Nossa Sociedade, alguma dela.

Talvez só após esse momento conseguiremos perceber o nosso Desígnio, que por agora não é o nosso, aquele que vivemos. E traçaremos, então, uma Visão para Portugal. Mas há que limpar esta Democracia, da corrupção que a consome e aos seus recursos económicos. Há que a renovar com outra gente nas lideranças, processos que provavelmente acompanharão todas as outras transformações.

Neste momento estamos, penso, na Idade Média dos tempos modernos, à procura de um reencontro com o que já fomos, mas inseridos num mundo muito distinto e em mudança quase permanente. É o nosso momento cinzento. Que aguarda, com o nosso empenho constante, sem passividade, por um Tempo Novo.


4.11.14

Até que ponto somos uma sociedade?

"Em sociologia uma sociedade (do latim: societas, que significa "associação amistosa com outros") é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos, gostos, preocupações e costumes, e que interagem entre si constituindo uma comunidade.
É um grupo de indivíduos que formam um sistema semi-aberto, no qual a maior parte das interações é feita com outros indivíduos pertencentes ao mesmo grupo. Uma sociedade é uma rede de relacionamentos entre pessoas. Uma sociedade é uma comunidade interdependente. O significado geral de sociedade refere-se simplesmente a um grupo de pessoas vivendo juntas numa comunidade organizada."

Somos um conjunto de pessoas com propósitos comuns, provavelmente. Certamente com idênticas preocupações, gostos próximos e costumes. O que é parte de definição de cultura de um povo. "Interagem entre si", claro, interagimos. Mas para mim esta definição é curta, penetra pouco no conceito que pode definir uma sociedade, diferenciando-a de outras. A interacção numa comunidade pode existir quando estamos em viagem, interagimos com uma sociedade que não é a nossa, mas isso também depende do âmbito da definição. E aqui, podíamos entrar com o conceito de sociedade europeia, etc. 

Para mim, no entanto, sociedade implica uma interação pelos tais interesses comuns, que podem ter implicações para com a mesma. Por exemplo, um problema nacional. Tivemos uma interacção forte e bem evidente quando defendemos causas, como a independência de Timor (que agora nos agride com expulsão de juristas, parece que por terem iniciado investigações incómodas para o poder político de Timor). 

Se esta ideia for aceite pelo mesmos membros de uma sociedade (não me parece propriamente uma interacção a discussão de um resultado do futebol, ou do episódio da novela do dia anterior. É interacção, ou mera comunicação? Trata-se de um processo de análise superficial, e em que não há alguma decisão que implique a vida da sociedade), talvez se ponha em causa o vivermos efectivamente em sociedade. A nosso passividade colectiva, perante problemas comuns de imensa importância, decisivos do futuro comum, penso por em causa esta interacção e, pelo contrário, emergem os assuntos e preocupações individuais em grande destaque face aos colectivos. Também são de extrema importância. Mas o caso é que os problemas familiares e individuais podem, ou de facto, se ligam aos colectivos e deles dependem, na percepção, análise, reflexão e decisão.

Nem sempre é assim e julgo identificar bem, noutros países, sociedade coerentes e com vida activa na discussão de assuntos de interesse comum e na procura de soluções. Mesmo ao lado, em Espanha. Em quase todos os países centro-europeus e nórdicos. O interesse pelo que é comum, a sua defesa, a participação nesses interesses é, parece-me evidente, bem distinto do que em Portugal observamos.

Não entendo as razões, as origens desta sociedade "individualista", deste viver em "ilhas", em que cada um julga poder resolver problemas que, afinal, são do colectivo. E todos sabemos bem de que problemas se trata, de que assuntos dependemos da comunidade, e nunca os resolveremos individualmente. 

Numa sociedade "aos bocados", constituída por essas ilhas, que são os nosso grupos pessoais, ou apenas as nossas famílias, é muito mais fácil governar quem é totalitário, ou apenas autoritário. É bem mais fácil que os grupos de corrupção singrem. As sociedades secretas ganham outra dimensão e capacidade de manipulação. Os problemas colectivos arrastam-se. A organização de um colectivo, e de um movimento torna-se quase impossível. Também não somos o único país a sofrer desta realidade inquietante. Penso que em Itália o problema ainda será mais grave, mesmo dentro de uma única cidade. Mas Itália é um país jovem, nascido de muitas comunidades, historicamente invadidas e colonizadas por diversos povos, com imensos dialectos de cidade a cidade. Portugal é o mais antigo país europeu, com as mesmas fronteiras e língua. 

Precisamente na defesa da língua verificamos a inexistência de uma coesão social. Este Acordo Ortográfico (AO) seria impensável numa França, numa Espanha. Um AO que está a confundir toda a gente e a destruir a língua portuguesa. Nem era necessário, e está tecnicamente muito mal feito. Foi o capricho de um homem ridículo que sempre pretendeu protagonismo, que não almejava na sua Universidade (Malaca Casteleiro). E o curioso é os seus antigos adversários na Faculdade apoiarem o seu AO, apenas por ter sido imposto por outro idiota português, o mais mal intencionado dos políticos em centenas de anos: José Sócrates, um inculto que rouba títulos académicos que não pode legalmente usar. 

Mas o mais grave dos sinais que me leva a pôr em causa sermos uma sociedade autêntica, coesa, é a nossa apatia perante esta política de muito baixo valor, de inferioridade intelectual, que serve interesses de grupos minoritários, e que se reveza no poder entre os dois maiores Partidos. Assim se desenvolvem os interesses e se mistificam as verdades. Durante anos assistimos a uma silenciosa propaganda, vinda do poder político e do financeiro, da solidez da nossa Banca. Da seriedade dos banqueiros e da sua infinita superioridade e sabedoria. Lemos agora, dia após dia, sobre a extrema fragilidade dos bancos portugueses, sem excepção. O banco que em Portugal opera mais sólido e digno de confiança...é espanhol, o Santander. Todos os bancos portugueses denotam agora a sua baixa qualidade, eficiência e fragilidade financeira. 

Mas outros "casos" nos despertam, ou deviam, para esta genuína falha na nossa construção social. Atentando no que em Espanha se passou nos últimos dias, com a prisão de dezenas de políticos, temos por cá gente condenada que nunca cumpre pena, que vive como sempre, faustosamente, e vai de recurso em recurso tentando ilibar-se do que realmente cometeu. Maria de Lurdes Rodrigues, que insiste numa conspiração contra os políticos. Armando Vara que insiste no mesmo e no ar cândido. E todos os outros que nem investigados foram e de quem as evidências de crime se foram destruindo, pelos próprios tribunais? Como é possível um alto Magistrado, que devia dar o benefício da dúvida a uma investigação ainda por iniciar, que devia confiar no sistema em que o próprio se insere, que devia confiar, em último grau no próprio "amigo" que safou, mandar destruir provas, antes mesmo de analisadas em processo de investigação e instauração de processo, antes mesmo de análise num eventual julgamento? Isto não é pôr em causa o sistema judicial de que faz parte e é o seu mais alto dignitário? E este não era um assunto de interesse do grupo, do magistrados em geral, dos juristas e, bem mais, da sociedade em geral? E se Sócrates for mesmo o corrupto perigoso que se serviu do Estado para enriquecer, como o fez, passando de um indivíduo de origens modestas a milionário, sem que tenha tido outra vida que não a política? É assim que se tratam os assuntos do interesse comunitário? Quem se julga o Presidente do Supremo Tribunal, para decidir de forma irreversível o fim de uma investigação, antes dela se iniciar? Acima da própria sociedade? Eu sei bem que muitos juízes sofrem dessa deformação, de pseudo-superioridade, legal e mesmo moral. Que não lhes reconheço apenas pela sua condição profissional. Ser juiz é uma profissão, e nem que fosse uma religião lhes reconheço essa superioridade. Aliás, foi bem patente a inferioridade, recentemente, pela decisão do Supremo Administrativo. Idiotice e ignorância. E muita falta do mesmo sentido comunitário!

É esta ausência de sentido comunitário que me deixa dúvidas sobre esta "sociedade", em ser isso mesmo. As acções não são interacções, mas apenas actos unilaterais, sem o envolvimento de membros da comunidade. 

Não julgo que consigamos ultrapassar grandes problemas, sem grandes atitudes, colectivas, em que toda uma sociedade se empenha. Sempre confiamos em poucos, para "resolver" problemas de muitos, de todos nós. E sempre nos desiludimos, pois precisamente o princípio é o mesmo: cada um trata de si e "dos seus".

Como se resolve? A tomada de consciência é o primeiro passo. Mas não descuremos a importância maior de alguém com carisma e respeitabilidade. Seria, no caso, o Presidente da República, mas temos uma figura amorfa, que apenas parece viver de glórias passadas, imagem irreal de si mesmo e aguardar pela aposentação definitiva.

3.11.14

Serão sinais?

Que sinais estamos a receber nos últimos tempos, pela Europa e pelo Mundo? Serão mesmo sinais a que devamos dar importância? Aos acontecimentos, sim. Mas a catadupa de acontecimentos imprevistos, na Europa principalmente, quererão dizer alguma coisa que ainda não sabemos descortinar?

Os aviões russos. A possibilidade de recessão em países que há um ano mostravam solidez e estabilidade económica: Finlândia, Alemanha, França (Holanda?). As duras palavras (e ameaças) entre Merkel e Cameron. Os excessos à porta da Europa, na Turquia. Os populismo que continuam a singrar, no Norte da Europa. E veremos se não alastram a Portugal e Espanha. Um Presidente da Comissão Europeia sem obra alguma que recebe a mais elevada condecoração da República Portuguesa. Os casos de Corrupção em Espanha, às dezenas (que esperamos sim, alastrem estas prisões a Portugal). O regresso sempre estafado e insuportável de líderes de outrora, sem obra e muito jogo de interesses escondido, em Portugal. A continuação de uma austeridade da Grécia, onde já não cabem mais sacrifícios, mesmo após o próprio FMI ter considerado que tem havido exageros nestas medidas impostas por todo o lado. A Alemanha a ameaçar com mais apertos, os países que "não façam reformas" (que ninguém sabe quais e como).

Não creio, e espero estar certo, que estes tempos sejam um decalque do que aconteceu na mesma Europa, também em crise por esses dias, antes da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais. Penso que hoje há outras seguranças e, assim espero, um sentido mais real do imenso perigo que um conflito com as actuais armas pode implicar.

Mas estes não são tempos normais. E estes sinais ainda confirmam o tremendo insucesso de Durão Barroso, bem ao contrário do que o próprio diz e o Presidente exacerba.

Curioso termos um PR ausente nos assuntos mais importantes e decisivos para o nosso futuro, como o péssimo OE 2015, com mais impostos e mais insucesso para o Governo, quando perceber que a colecta de impostos tem limite e pode implicar mais uma onda de recessão, mas que surge pronto para uma condecoração ridícula e própria de um país africano demente. Nem irei perder mais tempo com tal figura triste e circense, mas de facto, parece-me mais um sinal de fim de tempo.

Não havia forma de se entender estes políticos Europa fora, mas eles ainda conseguem deixar pior impressão do que já tínhamos. Cameron foi desastroso ao possibilitar o referendo na Escócia (e até o considero legítimo se é uma aspiração popular). Cameron parece apostado em atitudes desastrosas. O Reino Unido precisa da UE muito mais do que parece perceber. A sua crise continua, a crise de lideranças por lá, é a imagem de tudo o que por toda a Europa podemos ver. Mas a economia britânica não está famosa. E não deve ver grandes melhoras nos próximos tempos. Um líder trabalhista inglês dizia há pouco tempo qualquer coisa como isto (no país que se julga acima dos outros, o que quer dizer onde eles são melhores do que nós...): devemos injectar dinheiro no Serviço Nacional de Saúde...para depois reconhecer que tal implicava um aumento brutal de impostos e...recuar.

Hollande, como sabemos, chegou ao poder com a medida que Costa quer tomar e já prometeu: por lá, foi aumentar pensões e ordenado mínimo. Por cá, é devolver dinheiro que o Estado não tem. Seria justo, mas não há como, se não reduzirem a despesa do Estado. O que nunca foi feito.

Em Espanha parece que já estão ameaçados os tradicionais maiores Partidos, que sofrem com a extensão da Corrupção. E agora a confiança...?

Merkel irá sair nas próximas eleições e pode ser, embora não provável, que o sucessor tenha uma visão muito distinta da austeridade nos países europeus.

Por cá, já sabemos. 2015, uma desgraça, menos dinheiro, mais fome mais insegurança pelo futuro. A partir daí...uma grande segurança na capacidade de Costa em esbanjar e em esconder contas, como o tem feito na Câmara de Lisboa. E a esperada substituição de todos, pelos amigos maçónicos e os mais medíocres políticos que já conhecemos. "Esperanças de futuro" como Ferro Rodrigues, Pedro Silva Pereira, Eurico Brilhantes Dias (apoiante de Seguro que Costa não deverá ignorar, e ..que só diz disparates), Sócrates (algum tacho haverá por aí, ainda não roubou o suficiente), Vera Jardim, e os "queridos velhotes" de sempre Almeida Santos, Manuel Alegre, Mário Soares. Gente ilustre e de inteligência sublime que tanto deu a Portugal... Cinco anos mais de falta de esperança (esperança, uma coisa perversa, como alguém me disse e muito bem).

Não sei bem ainda que sinais estamos a receber. Mas que somos surpreendidos por exageros e disparates dia a dia...

Hoje foi Timor e os Juízes portugueses, ainda não se percebendo o que aconteceu. Se foi um acto gratuito, merece reprovação e eventual corte de relações, um país que tanto nos deve. Mais uma loucura dos tempos actuais?

Lembrei-me de um filme de há muito "os deuses devem estar loucos". Só podem...

Em Portugal, cada dia que passa precisaremos mais de um "Podemos", não?

(PS.: Também dou a minha contribuição. Hoje ligaram do meu Partido. Um jantar com o líder na próxima sexta, em Oeiras. Disse...não tenho "condições" esta semana. Mas não iria. Só se fosse para lhe dizer: "vá para casa e deixe-nos em paz"....desejaram-me as melhoras...o que me cheirou a segundas intenções...)


2.11.14

Produto social?

Somos um produto social? Alguns filósofos gregos, com Aristoteles em destaque, defenderam que o homem só é feliz na Polis. Em sociedade. O alcance desta ideia, que hoje nos parecerá muito lógica, trivial, é bem mais profundo do que à partida nos surge. Porque seremos uma realização da sociedade? Porque só nos realizaremos em sociedade? 

Os marxistas, repescaram esta ideia para reforçar uma espécie de necessidade das nossas manifestações ideológicas terem de passar pelo colectivo. Mas a sua intenção, ainda hoje, é a que eliminar o indivíduo, como origem de ideias, de iniciativas. Não porque, confirma a história, não o que dizem, sempre diametralmente oposto ao que fazem quando no Poder, pretendam que as decisões, mesmo as percepções e análises, sejam do colectivo, mas para que, sendo todos o mais "iguais" possíveis, alguém os lidere sem esforço. Claro que é uma utopia, que resulta sempre no uso da força, da coacção, da fiscalização de cada cidadão, na sua "re-educação" forçada. Mas a ideia da necessidade do colectivo está lá, embora muito distorcida, em favor de uma lavagem intelectual colectiva, na senda da criação do que em tempos chamaram do "homem novo". Mas os marxistas sempre tiveram esta intenção de tudo re-escrever no mundo: o Homem, a sua História. Sub-repticiamente, os nossos manuais escolares, pelos quais aprendem os nossos filhos (e antes nós por outros igualmente manipulados, por sinal oposto), intentam sempre na re-escrita de uma História, onde tudo de bom vem de "esquerda", tudo de mau, de "direita". E esta conspiração intelectual real tem sempre passado de Ministério a Ministério, sem nada se alterar. Uma vergonha e uma deformação e distorção da Democracia, como ainda hoje se nota. Não temos, nem devemos esperar uma Democracia autêntica com esta manipulação intelectual e cultural, socialista e maçónica, da nossa sociedade. Mas há quem diga que eu exagero. Pois até exagerarei mais: penso que em Democracia nenhum Partido Comunista devia ser legal! Ou teríamos de ter no extremo oposto, algum Partido também. Mas por mim, ninguém que defenda, ou esteja ligado a quem instaurou um regime ditatorial, deve participar da Democracia, de forma livre. É uma perversão inadmisível e que distorce perigosamente uma Democracia. Mas reconheço que a ameaça actual da Democracia até vem dos Partidos maiores, que em princípio são democratas. 

Feito o parêntesis (deformação pessoal...) vejamos até que ponto seremos produto social, sabido que o somos da nossa tradição familiar, do nosso ambiente cultural histórico, que herdámos tanto de tantas gerações antes de nós, e que tudo isso se inscreve no nosso inconsciente de forma, diria, impressionante. Uma experiência há uns anos, com bebés, demonstrou que logo às primeiras semanas  sabemos distinguir entre uma coisa boa e uma má. Simples imagens de uns bonecos que tentavam subir uma colina, onde um deles contrariava essa tentativa, os bebés reagiam mal ao mal intencionado. E outro "boneco" que ajudava os demais a subir, eram a escolha dos bebés. Um princípio ético positivo (a ética todos temos, pode ser positiva, boa, ou negativa, má), e uma moral (a acção na sequência de uma ética) logo inscrito na nossa genética e com imediatos reflexos nas nossas atitudes? Pois sim. Talvez os "memes" que Dawkins identificou e criou o termo. Herança cultural. 

Mas se assim se trata de uma herança cultural, não a devemos, em teoria, apenas ao ambiente familiar. Porque, por um lado, nem sempre os nossos progenitores e todos os seus antepassados, terão vivido pela mesma ética e moral, podendo isso ter sucedido ou não, nem algum de nós é impermeável  à sociedade onde vive.

Na realidade, a sociedade é o nosso campo de acção, mas também o nosso espelho preferencial. Por pormos à prova o que dizemos, ou pensamos, o que fazemos, vamos prosseguindo, ou vamos alterando as nossas acções. Não queremos ser rejeitados pela sociedade, mas pelo contrário, queremos a sua aceitação, aprovação. Trate-se de um grupo, o nosso grupo, ou, numa acção de maior alcance social, muitos grupo, a sociedade em geral. Podemos muitas vezes prosseguir num determinado caminho, contra a aceitação tácita do nosso grupo (profissional, amigos, família, um deles, ou todos), mas sempre teremos a noção, por vezes incomodativa, da má aceitação do que fazemos pelos "nossos". O que não nos deixa confortáveis e, provavelmente, um dia, corrigimos o caminho. "Só somos felizes na Polis". Podemos se-lo fora da Polis, mas tal exige de nós um esforço e um compromisso que nem todos seremos capazes de conseguir suportar. Geralmente o isolamento, por opção. (não tendo de ser total).

Esta uma das razões, muito fortes e determinantes, pela qual fazemos escolhas sociais, pela qual preferimos espontaneamente rodear-nos do sucesso, dos outros, nos outros, e tendemos a afastar-nos do insucesso, ou da depressão de alguém. E só os mais inteligentes, os que já reflectiram sobre o seu papel no mundo, e se inserem na vida com uma forte segurança pessoal, ultrapassam este "preconceito" social. Porque o nosso inconsciente, sem que o saibamos, faz escolhas por nós, cataloga as pessoas, o que nem é bom, nem mau. O inconsciente não decide tudo por nós, mas funciona a uma cadência duzentas vezes superior ao consciente, criando percepções e tendendo a decisões, muito antes do consciente nos dar algum sinal sequer do que observámos, ou das escolhas que iremos fazer. Se o inconsciente se identificar pelo Sistema 1, e o consciente pelo Sistema 2, como alguns psicólogos e investigadores o fazem, diremos que os dos Sistemas funcionam em coordenação, mas não perfeita, porque na maioria das situações o 2 nem actua. Esse é o que funciona quando algo de mais importante e decisivo o solicita. Não nas situações em que, por exemplo, afastamos alguém de nós porque o seu aspecto não se enquadra em "padrões" que com o tempo fomos definindo.

Pois, o inconsciente, responsável poderoso pela grande parte das decisões mais básica e automáticas que fazemos, umas provenientes dessa cultura familiar e social, outras pelas que a vida nos vai permitindo construir numa espécie de "cultura única e pessoal", é o que mais nos empurra para o interior de um grupo, ou nos deixa apenas nas suas fronteiras. E é muito por aqui, claro que com o sistema 2, a funcionar e corrigir impulsos e decisões do 1, sempre que alguma coisa nos exige mais reflexão, que somos e nos vamos enquadrando como produto social. 

Procuramos sentir a realização por parâmetros socialmente aceites. O que, quando temos "sucesso", por esses parâmetros medido, nos dá um sentimento de realização e felicidade, e o oposto nos frustra e até nos torna menos felizes. Mas o nosso cérebro tem mais armas do que podemos imaginar, e se formos abertos o suficiente, encontramos alternativas a algum insucesso, tal como o vemos, ou julgamos os outros verem em nós. Um tanto condenavelmente, dependendo da ética e moral de cada, e do seu grupo, não nos deixamos ligar a alguém que não aufere de uma posição social respeitável, ou estável, com algum mérito ou sem ele, mas cujos padrões sociais do nosso grupo, ou da sociedade em geral, nos indica ser alguém respeitável. Perverso? Talvez? Mas tudo se refere a uma inserção, pois pretendemos "fazer parte", e não ficarmos à margem de qualquer grupo. E só um esforço intelectual particular, nos leva a não rejeitarmos alguém que não está catalogado pelo sucesso, pelo instituído "respeito" social. Esforço não ao alcance de todos. Mas é esse tipo de esforço que vence preconceitos raciais, sociais e profissionais.

Mas há o extremo oposto. Quem se ancore no sucesso de outros, nem procurando o seu próprio. Nessa senda se insere boa parte de uma educação tradicional muito conhecida, mas pouco reconhecida. O caso de quem pauta toda uma vida por procurar juntar-se a quem tem posição e poder económico. Parece-me que pelos dias de hoje, acontecerá menos, mas ainda podemos conhecer alguém que assim escolhe viver. Desistem de si, pelo que são e podem ser, e agarram-se a alguém que serve a imagem de sucesso que procuram, não em si, mas nessa outra pessoa. E, claro, o oposto, em gente madura e que reflecte por si, por si luta e por si faz escolhas. Mas essas são de outro cariz, e os seus grupos, são constituídos por pares da mesma mentalidade: gente que por si pensa e actua, gente que procura uma independência, sem recusar uma inserção social. Antes procurando-a pelos mesmos motivos. Essa procura, de pares de si mesmo, é uma procura de Eros. Eros não reflecte apenas um aspecto erótico, como na actualidade se tem identificado. Na antiguidade grega, Eros referia-se precisamente a esta identificação, tendo a ver com amizade, com o amor que temos pelos amigos, tendo a ver com padrões que identificam e aproxima e juntam pessoas, com algo em comum que seja suficientemente forte para manter coesão. Os grupos, por definição compõem-se de elementos com algo ou muito em comum. Uma micro ou macro cultura comum. É Eros que os une.

Também há quem procure sucesso e realização, mas por circunstâncias diversas, não ao alcance do seu controlo, não o almeje, porque o grupo em que se inseriu é o errado para si. A frustração profissional vem muito por aí. E uma sociedade em crise está cheia de casos destes, às centenas de milhar, aos milhões, todo um país. Porque os seus paradigmas foram sendo desenvolvidos para servir muito poucos, e a grande maioria fica fora, marginalizada e infeliz, com dificuldades várias. Quando assim é, e é o caso português, só uma profunda revolução social, com tempo ou forçada a um só tempo, pode ajustar esta frustração da maioria. Foi o caso da Revolução francesa de 1789. Mas que num primeiro momento até se tornou pior, dado o extremismo oportunista e violente que se gerou. O risco de qualquer Revolução. Quando ela não surge, a maioria de nós vai-se arrastando pela vida, procurando compensações em grupos mais exclusivos, onde os elementos procuram um Eros comum.  Mas tudo depende nas nossas próprias expectativas e da importância que damos a cada componente da nossa vida: se a profissional, se um hobby, se um grupo de amigos, se os nossos tempos livre, se numa actividade que até pode ser mais do que um hobby, por criativa e geradora de uma alternativa de realização pessoal e profissional. Da nossa flexibilidade e inteligência, da nossa energia ainda em reserva, depende esta segunda oportunidade de realização.

Somos parte do social e produto parcial dele. 

1.11.14

O ausente

Em 200 assinei o meu documento de apoio à candidatura de Cavaco Silva, à Presidência da República. Nessa altura, para mim, Cavaco Silva tinha sido o Primeiro-Ministro que mais tinha feito pelo crescimento económico do país, período em que Portugal teve a mais baixa taxa de desemprego, também. Não me deslumbrava com todos os aspectos da sua governação, período durante o qual considero que os governantes se afastaram demasiado dos seus eleitores, e durante o mesmo se dera muito pouco valor a alguns dos sectores, pelouros, que considero, desde sempre como essenciais para atingirmos um patamar de segurança na Democracia, com um povo mais esclarecido, mais culto (este termo que ainda me parece mirífico perante o que vejo do nosso povo...enfim)

Fiz parte dos apoiantes, mais ou menos activos, de Cavaco, mas nunca participei em campanhas ou acções de rua, porque a minha actividade profissional não me deixava qualquer possibilidade e porque, confesso, que o ambiente de feira das campanhas nunca me seduziu. Mas perante o panorama da altura, achei que Cavaco seria o Presidente que devíamos ter. Embora guardasse algumas reservas, quanto ao seu carácter, a raiar o autoritário, ou mesmo assumidamente autoritário, contrário ao que entendo dever ser a atitude de um político num país europeu e democrático.

Passado o primeiro mandato...durante o qual as minhas dúvidas foram ganhado forma e volume, considerei-me desiludido com a falta de capacidade do homem em agir como um "mortar", um ser feito da mesma matéria do que todos nós. Via um ser seráfico, demasiado teatral, e identificava o mesmo complexo de muito provinciano português: alguém que exacerba os títulos, talvez por ter tudo feito a muito esforço, talvez por esse esforço, que o levou à Cátedra, ser demasiado desproporcional à sua real inteligência.

E foi o que comecei a ver neste homem. Alguém que se transcendera durante a vida académica, numa luta com os mais elevados conhecimentos na sua área, as Finanças, num esforço quase anti-natural. Fazendo um paralelo com outras figuras públicas conhecidas, ainda hoje ao ler um pouco do currículo de Durão Barroso, me perguntei se tanta formação o "encheu" efectivamente, se assimilou alguma coisa...pois não se lhe conhece uma ideia, um rasgo de inteligência, uma teoria sobre qualquer coisa, nem que seja sobre o sal que deve ter o bacalhau. Cavaco...será um tanto diferente, mas apenas e especificamente, na sua área de formação, Finanças. O que é demasiado redutor para um Presidente. O que é demasiado desajustado, num país que, embora ainda valorizando em excesso o sector financeiro, tem mais urgência em por esse sector ao serviço da sociedade, do que em continuar num sistema, suicida de nos por a todos a servir as Finanças e...a pagar os seus desvarios de dolosa gestão.

Cavaco pareceu continuar na mesma linha de antes, de quando era Primeiro-Ministro, mas agora enclausurado numa casca de cera e papelão, que nos parece demasiado artificial, teatral e sem conteúdo meritório. Quando o vejo a entra ou sair de um salão em Belém, antes ou depois de uma comunicação, lembra-se os soldadinhos de chumbo, um precioso, mas desfasado no tempo, brinquedo da minha infância, ou antes dela. Um soldadinho de chumbo...que nos deixa sempre pela metade, quando pretende "falar" connosco.

Mas na verdade ele nunca quer falar connosco. Fala sempre com a intenção do recado para alguém, que não somos nós.

Cavaco tem sido tudo, menos o "Presidente de todos os portugueses", esta imagem que Soares nos deixou. E quando vêm os recado, normalmente já quase tudo aconteceu.

Mas pensei em escrever este texto, para que me tentem dizer se alguém o viu. A sério...alguém viu Cavaco? (Where's Wally). Cavaco não está ausente apenas por não estar. Mas mesmo quando está...está ausente. Uma a duas vezes ouvi-lhe discursos importantes... e nada aconteceu. Tudo continuou igual, não houve reflexão alguma que percorresse o país, não houve alteração visível que coisa alguma. Da última vez, disse algo que todos sentimos...mas há trinta anos que o sabemos e sentimos: a necessidade de repensar, renovar a atitude e até a classe política (tão longe ele não iria, pois por onde ele andou na vida, o fruto vermelho com que fazemos saladas...não deve ter existido. Parecia "te-los" quando PM, mas deve ter sofrido um qualquer desaire e ..foram-se). Ninguém mais do que um Presidente da República tem legitimidade autoridade moral para puxar as orelhas a estes meninos que pululam pela nossa política, dando-nos cabo da vida e da vida do futuro. Ninguém mais do que ele para fazer tremer interesses instalados. Mas como ele "os" deve ter perdido. Ou perdeu a vontade? O que me deixa muito mais preocupado.

Bem sei que se trata de um Professor de Finanças, que vê o mundo dependente desse outro, perverso e criador por excelência de injustiças e desigualdade, nem servindo para nos servir: mas para se servirem. Bem sei. Aliás ele esteve envolvido num tal assunto de acções...muito pouco transparente.

Mas desaparecer, oh Wally! Não se sabe o que anda a fazer, mas pagamos para ele não nos dar indício do que anda a fazer. Pagamos para ele...desaparecer, mas se nos perguntarem...não queremos.

Quando os líderes dos actuais Partidos se entretêm a dizer asneiras e nos retiram futuro, já que presente pouco temos (alguns), devia ser o Presidente a tomar rédeas de algum caminho, de algum vislumbre. Não que decida em lugar do Governo, ou do futuro Governo. Mas um Presidente não pode ser um lugar de cera, ou um vaso de flores daquelas velhas e cheias de pó que víamos em casa de uma tia velhinha. Mas parece ser. E desta feita, com muito pó, debaixo do qual deve estar camuflado, que não se vê. Talvez para se camuflar dos aviões russos. Por exemplo...o Chefe da Forças Armadas não tem uma palavra sobre estes voos provocatórios dos russos? Ou sobre algum concerto de posições a nível europeu sobre o assunto?

E sobre esta onda de comentários relativos à Banca? E sobre o Orçamento? Bem sei, bem sei. Sobre o OE 2015 deve pronunciar-se (mas não irá) após a sua aprovação mas...oh! Essa já aconteceu. E sobre as consequências deste OE, nada? Não sabe ele o que todos sabemos, que ficaremos ainda mais pobres? Não fez ele um discurso sobre estes dois temas: a nossa pobreza infligida e os impostos asfixiantes? E já nada nos diz?

Onde anda o Ausente? (ok, se aparecer, deixa de o ser, é isso). De que nos serve ter um Presidente que nada nos diz, não aparece? Não leva já mais dias de desaparecimento do que o ditador da Coreia do Norte? E já nos esquecemos todos que até parece termos um Presidente algures?

Algures, em parte incerta...