29.9.14

Um novo Paradigma para a Democracia (II)

Uma Democracia nascida tarde, numa época em que todos os seus parceiros já viviam em regimes democráticos amadurecidos, com bases culturais sólidas, por comparação com a sociedade pouco informada e com uma cultura muito incipiente, quase exclusiva da classe média e alta, só podia vir a ficar refém de inimigos da mesma.


Portugal viveu quarenta anos de Democracia, com todos os obstáculos que a permitiriam amadurecer ainda presentes ao dia de hoje. A corrupção, organizações secretas ou semi-secretas, sector financeiro, carisma de alguns políticos muito intensificados com todos este sistema e o passado (e presente). Mas é evidente que esta nossa Democracia tem mais "inimigos" que evitam que ela se estabeleça com solidez.

A subalternizarão da sociedade ao poder económico, não regulado, nem pelo mercado, nem por um governo sem interesses conflituosos com ele, tem sido a chave de toda esta captura da Democracia e da Economia em geral.

É este perigoso alicerce da Democracia que é fundamental mudar. Mudar de Paradigma. Para que e Economia não esteja refém de uma oligarquia poderosa e pouco transparente, e o Poder Político em primeira instância, é necessário que as decisões dos órgãos democráticos incidam primordialmente em sectores não económicos, sempre mantendo presente que nenhum regime moderno dispensa uma atenção constante aos agentes da economia e ao crescimento vital do Produto Nacional, base de sustentação já de si insuficiente. Mas cujo ritmo de crescimento tem de ser invertido, e é dos aspectos mais difíceis de intervenção governativa, criada uma situação de austeridade, necessária mas perniciosa, que atirou o país para níveis de poder de compra de uns vinte anos atrás e de investimento também de tempos recuados, ficando bem mais dependente do investimento externo, sem grandes possibilidades de usar um crivo conveniente a um país europeu.

Nos últimos anos foi nosso entendimento que devíamos seguir o rumo que a Europa fosse traçando. Não percebendo que a Europa não tinha ela mesmo, qualquer rumo, mas apenas uma necessidade, pelo lado económico fundamentalmente. Uma necessidade de não deixar perder uma hegemonia já decadente, e uma necessidade de recuperar um lugar no Mundo que outrora tivera, com uma capacidade económica poderosa e competitiva. A ideia de Merkel sobre custos do "Estado Social" expressa bem o rumo que a sua Alemanha quer para toda a Europa: "Somos cerca de 7% da população mundial com um custo em apoios sociais de 50% de todo o Mundo". Pode a Europa estar em excesso, nestes seus apoios sociais, mas não estará mais em défice de apoio, o "resto do mundo"?

O facto é que paralelamente a este "excessivo" Estado social europeu, na perspectiva redutora de Merkel, a desigualdade tem crescido, a diferença de remuneração entre os mais ricos e os mais pobres, ou mesmo a classe média, a caminho da extinção, é cada vez mais assustadora e transforma a visão de Merkel, numa mera impossibilidade. Se a isto adicionarmos o previsível efeito migratório da África sub-shaariana, teremos dentro de anos uma Europa com mais pobres do que os EUA e a própria China. E eu diria que não serão, talvez, necessários vinte anos. O ritmo de empobrecimento generalizado das sociedades europeia ainda não foi reconhecido...mas é assustador.

A descaracterização europeia, tornando-a distante dos seus padrões de outrora, com empobrecimento relativo e absoluto de regiões do sul, e tendendo a alastrar ao centro... é um dos mais relevantes sinais de decadência, à vista, acompanhada e ignorada, com alertas diversos nunca levados em consideração, precisamente porque se tem como base um poder financeiro que já não apresenta a solidez de outros tempos, mas que ilude a degradação económica e social (e cultural) de múltiplas regiões desta grande comunidade de países, onde o sonho nunca se construiu...

A desigualdade, que tem aumentado e continua a crescer é uma autêntica incubadora de oportunismos, um ninho de interesses, que tem sido responsável pela mediocridade generalizada que assistimos na política europeia. É uma incubadora de sistemas corruptos, sem precedentes, em toda a Europa.

Pela minha análise, tenho que a Desigualdade é o factor mais determinante, para uma salvação europeia, e portuguesa (!) que interessa inverter.




 

28.9.14

Estereotipar

"Gostamos de pensar que avaliamos as pessoas enquanto indivíduos, e por vezes esforçamo-nos muito para avaliar conscientemente as pessoas com base nas suas características únicas" (in Subliminar" de Leonard Mlodinow).

Mas estereotipamos...



A estereoritipização que estabelecemos, enquadrando as pessoas, e até a nós mesmos, em grupos, raciais, sociais, sub-grupos, com base na cultura, positiva ou negativamente, na inteligência que julgamos saber avaliar dos outros, nos gostos (que também agrupamos), na ocupação do tempo de cada indivíduo, serve duas causas. A da nossa defesa e segurança intelectual, tornando-nos mais fácil uma rápida avaliação, antes de uma análise, necessária e necessariamente mais atenta e cuidada. A do erro grosseiro que devemos evitar.

Todos fazemos erros parecidos, numa análise ligeira e superficial de outras pessoas, mas é a forma como o nosso inconsciente nos protege, numa aproximação rude sobre os outros.

Mas a nossa mente consciente "sabe" e alerta-nos, embora nem sempre entendamos os sinais, e os sigamos, para a necessária avaliação cuidada, onde se pode contradizer a primeira impressão.

Ao agruparmos as pessoas, catalogando, não as estamos a ver como indivíduos, mas como parte de um grupo já parte do nosso "catálogo" privado. E o esforço, para re-avaliarmos as pessoas, desta vez como indivíduos, vale em geral a pena. O indivíduo ganha outra imagem na nossa, mente, despido de título académico, posição social, capacidade económica, apresentação até, forma como comunica, etc.

Numa segunda avaliação, com o consciente a controlar melhor a mente, uma mesma pessoa, passa de parte de um grupo, estereótipo, para indivíduo, e podemos então ver, com mais cuidado, como a pessoa realmente é, as suas reais características, sem rótulos e "capas".

Mas nem sempre "damos essa possibilidade" a toda a gente. Diria até que damo-la a muito poucas pessoas, normalmente a quem nos interessou à primeira. E esse é o problema. Porque "à primeira" impressão, podemos, e com frequência o fizemos, criámos uma imagem errada de alguém.

A atitude de abertura, de muita abertura mental, e de esforço de análise dos outros sem estereotipar, é o que mais benefício nos pode dar para melhor avaliação de cada um. Como indivíduo.

É como indivíduos que devemos ver os outros. Sem ver "interesses" nossos, preferências, como as acima referidas e outras. Dizemos, mas muitas vezes não o fazemos.

Alguém me disse que o fazia, não há muito tempo. Uma pessoa que considero extraordinária. Deve ser por isso mesmo que a vejo assim, calculo. Sei de mais amigos meus que o tentam fazer. Mas sei que uma ou outra vez, nos deixamos levar, por conforto intelectual, na mesma atitude de análise superficial, sem segunda oportunidade. Defesa nossa.



27.9.14

Outono, um tempo outrora amado


Sempre gostei do Outono. Nasci nele, acho que sempre me referiu uma expectativa de renovação, deste dos tempos de escola. Quando iniciava um novo ano escolar, a minha ansiedade crescia, na medida da curiosidade e do prazer do desconhecido que queria acontecesse. Novos conhecimentos, novos colegas, a dada altura...uma namorada nova talvez me esperasse. Mas eram expectativas, umas que se cumpriram, outras que talvez nem fossem importantes. Era um renovar de ciclo, a contra-ciclo, antes da renovação natural da Primavera. 

Mas nem sempre o Outono me foi amigo. E, com alguma frequência me traz alguma nostalgia, provavelmente angústia. Havia tanto que queria se tivesse cumprido. E tanto de que tenho saudades. E de umas e outras coisas, tenho deixar que ciclos se cumpram, sejam-me favoráveis ou não. Mas estarei sempre cá. E seguramente mais preparado e forte.

Não é uma confissão. Mas algo que...nestes momentos fortes, em que sinto a mudança lá fora, em que não me permito descansar sobre acontecimentos, fico a preparar-me, a recuperar para algo que sei já ter sido. O Outono sempre foi um re-início de ciclo, ou um novo, ou algum que se renova. Como eu, em contra-ciclo com a natureza, que encerra o seu, quando sinto o meu se restabelecer. 

Pela palavras me refaço, sempre assim foi. E recuso. Frontalmente contra uma natureza nem sempre culpada, talvez nunca, nem sempre aprazível para com os meus impulsos e desejos. Recuso a nostalgia a que o Outono, desde há muito me compele. 

Na agricultura, o Outono é um recomeço e um fim. Há tudo em cada Estação. Sem escolha. Comigo, quero escolhas, mas não as irei fazer. Vou deixar o cair da folha, a abcisão, com a calosidade criada na sua inserção, seguir o seu ritmo e aguentar. E cá estou nesta e na Estação seguinte, essa sim, é-me adversa. Não sou nada invernal. Não fora o respeito pela natureza, eliminaria um Inverno que me contraria a minha própria.

Hoje, esperando o temporal da promessa...oiço um dos meus nostálgicos mais amados.


Porque a Nostalgia e o Outono se entendem, ou são a mesma coisa. Uns que morrem para outros renascerem? Uns que hibernam para mais tarde se re-erguerem?

Outono, será um tempo de pausa e espera. Na companhia de um chá, de um chocolate quente, a assistir ao belo por-do-sol que por estes tempos é mais intenso. Os astros não têm sentimentos, mas parece que nós interpretamos assim este sol baixo e este ar misterioso, que não sabemos nunca o que nos traz.


26.9.14

Um novo Paradigma para a Democracia (I)

Inserido na União Europeia, mas sendo apenas beneficiário de fundos europeus, sem condição de país contribuinte, Portugal tem vindo a sofrer as consequências das decisões de países (e dos seus líderes) que não servem ao país. Nem já, tão pouco, à própria Europa. Decisões que não servem sequer ao Mundo Ocidental, que não se inserem nas novas tendências que começam a surgir, ou que se impõe que surjam. O mundo liderado por tecnologia, por produtos de consumo de grande tecnologia, começa a mudar num sentido de mais conceptualismo, onde tais produtos podem não perder a liderança no consumo, mas terão de se adaptar a consumidores que começam a mudar. A Europa está bem longe destas tendências. Portugal, não tem capacidade de contrapor nada a esta Europa germanizada. Liderada pela Finança, que criou crises a seu próprio proveito.

Todas as Economias, europeias, americana, japonesa, estão demasiado baseadas, centradas, num paradigma "errado" e anacrónico. As sociedades servem a Economia e a Finança. Toda a sociedade, em Portugal e pela Europa, se têm centrado no primado da Tecnologia, dos produtos de consumo tecnológico, com ciclos de vida curtos, com constante renovação, colocando as empresas que os produzem na vanguarda do poder económico. O resto da sociedade, desde a orientação dos programas escolares, a orientação profissional, a procura e oferta de emprego, é por este paradigma condicionado. Tudo parecia perfeito, na visão económica das políticas, não fora um factor que iria descompensar todo o sistema e expor as fragilidades, ou mesmo fazer evidenciar que, afinal, o que lidera o mundo são sempre as aspirações das pessoas, mesmo as que não têm qualquer poder ou voz, e não as grandes empresas, ainda que em conluio com o Estado. Nos Estados Unidos, o país de uma Microsoft que derrubou a Big Blue, IBM, ou da mais recente e meteórica ascensão Apple, e onde os grandes bancos de investimento (ou especulação...) lideraram as Finanças e a Economia, foi-se tornando evidente que o factor que iria, ou ainda irá, mudar tudo é a Desigualdade.

No processo das crises dos últimos anos, na sua origem, estiveram sempre os interesses de quem as criou: bancos que tinham muito a lucrar com o endividamento descontrolado dos países. Nos EUA e na Europa. Mesmo de países que quase nunca são notícia, como uma Noruega, Finlândia, Holanda. E claro, da poderosa Alemanha, a quem os europeus deram um poder nunca merecido, apenas pela visão do Paradigma económico. E este, com a Desigualdade, tem posto a descoberto a fragilidade maior de um sistema que não pode formar um grupo de países coesos, unidos num único sistema económico, com decisões comuns. Porque a forte, e ainda crescente desigualdade, tem desequilibrado as economias entre os mais ricos e mais pobres, como Portugal, muito para além do sustentável. Este processo está a fazer com que Portugal, o mesmo país que assistiu a avanços tecnológicos e científicos inéditos, onde a esperança de vida é das melhores do mundo, regresse aos poucos ao nível, social, do tempo de Salazar.

Se Portugal tivesse podido acompanhar a solicitação tecnológica que os produtos mais consumidos, ou mesmo líderes de tecnologia, que arrastam outros produtos e fazem nascer pequenas empresas que os alimentem, dir-me-ão, estaria bem noutra situação. Talvez. Mas nunca no espaço europeu se permitira isso a Portugal. Houve um tempo de sonho, de miragem, de um desenvolvimento económico e social repetidamente prometido, mas que nunca chegou. Chegaram grandes obras de construção civil, que deviam suportar uma economia pulsante, criativa e com forte crescimento, mas apenas serviram para deixar o país num endividamento insustentável. Ultrapassámos a Alemanha em quilómetros de auto-estrada por habitante. Mas a Alemanha podia e precisava, para precisamente sustentar a economia. Nós fizemos a casa pelo telhado, mas assim servimos interesses de empresas que sempre vivem e crescem com o Estado, e depois pagamos nós. Nós, os mesmos que gostamos de admirar as grandes empresas, as mesmas que nos sugam, sabendo que se internacionalizaram e são poderosas. Uns desgraçados a olhar para o Palácio que construímos, sem direito a entrar nele.

A Desigualdade, ainda a acentuar-se, por via do crescente enriquecimento de uma franja diminuta da sociedade, a par com o empobrecimento gradual da maioria da mesma, é o factor que um dia mudará tudo. Desde já o Paradigma novo que precisamos e que se tornará evidente e urgente. É um caminho que, creio, se tornará irreversível, por força da necessidade, pois nenhum Estado consegue suportar o desaparecimento generalizado da classe média, com o empobrecimento sem reverso da mesma. E o caminho para a fome dos mais pobres, sem qualquer hipótese de reverterem a sua situação. Seremos demasiados a precisar de intervenção estatal, num país e numa Europa, sem condições para tal. Basta imaginar uma França tornar-se insustentável, e já esteve mais longe, ou uma Alemanha entrar em crise. Por sorte, a China está a desacelerar, mas alguns ajustamentos bastarão para que o país com mais população a nível mundial volte a marcar o ritmo de produção industrial e a marcar os preços dos produtos ocidentais que lá são produzidos. Basta algum ajustamento, na China, país com a maior desigualdade do mundo, para que a Alemanha trema. E nessa altura, se acontecer, Portugal entra mais profusamente na crise.

Triste é vermos o panaroma político português, de gente sem qualquer visão, sentados no paradigma que morre pouco a pouco, a repetirem diariamente coisas, já antes ditas por tantos outros, dos mesmos dois Partidos. Esta mediocridade também se tornará insustentável.

Se se esperava que a Crise Financeira e Económica ajudasse a destapar uma realidade escondida, e nos fizesse recordar onde está o Bom e o Mau, o Medíocre e o Excelente, até ao momento só fez acentuar tudo o que de mau já tínhamos. A Banca continua a ter a primazia nas notícias, os banqueiros a serem vistos como grandes gestores, detentores de um conhecimento transcendental, fruto de um poder que a política, interessada na partilha, lhes permitiu. A Crise, disse-o a uma pessoa conhecida há uns quatro anos, iria acentuar os problemas que conduziram a ela, nomeadamente o poder da Banca e dos seus gestores incompetentes. Incompetentes para servirem uma economia, e não delas se servirem, como deviam ser regulados para tal.

Para que um novo Paradigma possa surgir, há que fazer cortes fundamentais, corajosos, nesta tendência que tem sido suicida, e que, se ainda serve os países já muito industrializados, até um dia despertarem para a crescente desigualdade social e classista, que também os começa a atingir, não serve a Portugal que nunca se aproximou de um patamar de desenvolvimento económico que permitisse mascarar as grandes lacunas e desigualdades fracturantes.

Há que procurar na sociedade, ainda viva e algo pujante, novas ideias e novos elementos, pessoas com inteligência suficiente para saberem pensar "de novo", sem estarem presas a conceitos que morrem ou estão gastos, e com a coragem e capacidade de resistência necessárias a novas lutas, dentro e fora dos actuais Partidos. Precisamos de mentes que tenham Visão, espírito de Missão, sentido de Estado, humildade e queiram servir a Democracia, sem ligações perigosas a agentes económicos dominantes e que usem o Estado, como até agora. Gente que tenha um sentido social e uma compreensão do verdadeiro estado de miséria a que chegaram muitos portugueses. Não podemos dar-nos ao luxo de ter mentes liberais, sem noção da necessidade de intervenção estatal, mas também há alguma intervenção que provavelmente o Estado devia abrir mão, como a excessiva programação centralizada da Educação. Principalmente se continua esta orientação suicida para a tecnologia, sem olhar ao despertar desta Era Conceptual. Há tendência mundiais a que não nos podemos alhear.

Os líderes do futuro não se escolhem. Há que entender as novas necessidades, fazer sentir o nosso desgaste com todo o passado recente e os líderes nele envolvidos, e os novos surgirão de forma natural.

(a continuar)


25.9.14

Erros clamorosos. Líderes que nunca o foram

Portugal adora idolatrar. Há pelo menos três personalidades que foram tidas como líderes, um deles foi-o de facto, mas pelas razões mais pérfidas, outros nem bons chefes. E todos com a maior das malacias intrujadas em cérebros doentios.

Salazar. Cunhal. Soares.

Salazar ainda hoje é adorado. Muita gente o tem como um génio da Finança. O homem que inventou a solução austeridade que hoje repudiamos. Para resolver a crise que Portugal vivia, e por isso o foram buscar, aumentou impostos, extraiu dinheiro a quem não tinha e protegeu os mais ricos, com o mesmo argumento de hoje. O argumento de que tinha de poupar os grandes investidores para assim tornar possível o crescimento económico através deles. Resultado: uma profunda desigualdade ainda hoje enraizada na nossa sociedade e uma divisão social que, por exemplo no Norte da Europa, e mesmo em Espanha, não se verifica. Salazar nada tinha de génio, nem sequer de inteligente. Era uma mente doente, obsessiva, um rato de sacristia admirável e retrógrado. Mas há quem o continue a considerar um grande vulto da história. É assim...diferentes visões. Mas interessante é notar esta enraizada mania portuguesa pelo Estado, pelos seus serviços e pela fiscalização. Somos um povo a contraponto de toda a Europa, anacrónico e cego, e devem-lo muito a Salazar. Preferimos entregar a nossa vida a um livro invisível chamado destino, ou fado. Obrigado Salazar, por nos deixares obscuros e ignorantes.

Cunhal sim era um líder. Mas com todas as piores intenções enraizadas nessa mente não doentia, mas doente. Quem diz defender um povo para depois o trair com uma ditadura, que era o seu objectivo só pode ser doente. Ora, para recordar os esquecidos e, mais ainda, aos cegos por opção, nunca um comunista esteve no poder, em qualquer país do mundo, sem implantar a pior ditadura de todas. Os comunistas são especialistas em organização, mas criminosa. Não me interessa quem se choque com isto. A verdade existe para além do que vejamos ou pensemos. Isto comprova-o a história. Cunhal era um líder e inteligente. Dos três mencionados, era mesmo uma mente brilhante. Mas era o pior de todos em maldade. Não prestava mesmo como político, queria o nosso mal. O pior.

Soares nem foi líder e foi o pior dos chefes. Sem ideias, sem visão. Mas com uma. A defessa de uma rede de influências criada durante anos, nomeadamente colocando amigos na comunicação social que ainda hoje por lá andam. Criou a imagem distorcida de que a cultura é monopólio de uma "esquerda" (não há esquerda nem direita, insisto, insistirei...). A maior falsidade. E pior, nunca teve qualquer visão. Usou do termo Democracia para a sua vaidade pessoal e os seus interesse, que ainda continua a passear para ouvidos tontos. Portugal não lhe deve absolutamente nada. Excepto mais de obscurantismo, mais de ignorância e uma miséria generalizada que depois cresceu com Cavaco e todos os que lhe sucederam.

Três supostos líderes sem valor. Pelo menos valor que nos diga alguma coisa. Por causa deles, e outros ainda menores, que se lhes seguiram, estamos assim. Ignorantes, sem sabermos discernir quem nos pode defender e ajudar, e sabermos escolher (quando há escolha, que nem sempre houve, e agora não mesmo alguma!), e sem querermos sequer saber defender o nosso emprego e o nosso futuro.

Preferimos idolatrar quem não merece, viver de passado sem história de que nos possamos orgulhar, excepto se recuarmos quinhentos anos. um exercício cansativo e frustrante.

Três líderes. Trés mentiras.

Há dias...

Há dias em que devemos remeter-nos ao silêncio, resguardar-nos do nosso mau humor, não responder a quente, não reagir a nada. Normalmente essa deve ser a atitude, nesses dias.

Mas há dias em que penso se dever reagir a quente, exactamente para que alguma raiva passe para outro lado, que a merece. É o caso de hoje, quando leio que um dos empresários com melhor imagem (já sabemos que há muito photoshop nas imagens...) de boa pessoa, de pagar melhor do que na concorrência, que vem a público embuído de sensatez e algum espírito crítico, interpretando o que se sabe serem as preocupações dos portugueses e do país, esse empresário anda a perseguir funcionários, com o moderno instrumento de persuasão para o despedimento: processo disciplinar.

Trabalhei numa empresa (a temperatura vai subir...!) em que isso foi feito com seis funcionários, logo depois de eu ter saído. Comigo nunca o fariam, simplesmente rasgaria o dito cujo no nariz do gerente, um ex-amigo de mais de vinte anos, uma dessas pessoas que não chegamos a perceber como fomos amigos. Seis processos, todos inconsequentes. Numa empresa com pouco mais de 20 pessoas. Seis ameaças, todas para humilhar as pessoas, o maior prazer do seu gerente, que chega a afirmar que a pessoa em causa, quando discute com alguém, precisa de psiquiatra, e para baixar a expectativa de indemnização. Nenhum dos processos tinha qualquer fundamento.

Esta crise, e antes dela a globalização, tem servido para isto. Humilhar as pessoas, fazer baixar expectativas, fazer baixar o valor remunerativo e trazer o mercado de trabalho para níveis dos anos setenta. Voltando a Stiglitz, esse Nobel da Economia hoje muito polémico, mas quem ler o seu livro " O preço da desigualdade" irá entender muito do que ainda se está a passar por Portugal e pela Europa, e EUA (sobre os quais incide o livro, fundamentalmente), o objectivo é exactamente criar desigualdade.

Criar ruptura social e várias outras, em cadeia, dentro das famílias, nos seus grupos e assim toda a sociedade isolada, o nível de expectativa sobre o trabalho faz com que ele fique mais barato, e sobre mais para Directores Executivos, o que por cá se chama administradores executivos, ou mesmo Directores. A Crise, repito uma vez mais, não surgiu por erros dos mercados ou desatenções negligentes. Foi criada com este propósito.

Nos EUA os Directores Executivos de empresas em falência, receberam prémios indecorosos, de valores previamente subtraídos a colaboradores seus. A falência, porém, demonstrou-se ter sido consequência da má gestão dos mesmos que se auto-indeminizaram. É o que diz Stiglitz, com todas as letras. É o que irá acontecer no grupo do BES. Não duvidem. Já sucedeu no BCP. E seguir-se-ão outras empresas, já faltou mais.

E o Governo, olha para o lado. Normal, se provém do mesmo sistema...

O povo é que não pode continuar a olhar!

Num dia assim eu estaria já na rua num processo tumultuoso de grande impacte! E não seria por mau feito meu. Por gostar de reagir a quente, quando a situação o solicita.

24.9.14

As mudanças que nunca aconteceram

O Mundo podia ter mudado mais cedo? Mudado para melhor? E em que sentido?

Ao analisar alguns momentos cruciais da História, permito-me concluir que tantas vezes este nosso Mundo, Ocidental e mesmo Oriental, podia ter mudado tantas vezes, quantas as que grandes visionários apresentaram as suas ideia, as suas visões, através de palavra escrita ou falada. Alguns destes nosso momentos de oportunidade, foram-nos dado por pequenas, ou não pequenas observações, de filósofos e cientistas, de homens e mulheres de saber, de gente inteligente, ou mesmo visionária, no sentido em que algumas pessoas conseguem, para além de uma inteligência acima da média dos seus contemporâneos, uma inteligência acutilante, apresentar uma visão...que mais tarde se vem a verificar. Não foram nada raras as vezes. Galileu, queimado por ser visionário, e por ter razão (e ainda nos espantamos quando hoje, tendo razão, somos relegados para um plano de esquecimento, num serviço ou numa empresa, ou mesmo num grupo mais restrito de pessoas).

Ser visionário é dar uma oportunidade a uma sociedade de ver algo, que ninguém mais consegue ver. E é muito difícil, raramente se pode provar, e mais raramente consegue que aceitem o que foi "visto". Há nas empresas casos famosos de quem "teve razão antes de tempo". Um livro que me recordo de ler há uns anos, mencionava um desses casos, "O preço da incompetência", de que não consigo agora referir o nome. Outras vezes, temos de reconhecer, que uma sociedade não estará preparada para a inteligência de gente assim. E, no entanto, considero eu, o mundo perde nesse momento uma oportunidade.

Livros raros, ínfima parte do que foi queimado pele Inquisição, ou por Monarcas afrontados com a inteligência cortante e poder de persuasão de homens únicos, são hoje prova deste raros momentos, saltos na evolução a Humanidade, totalmente desperdiçados. Jesus, quase ia sendo um caso perdido, e foi precisamente a solução (interpretação minha, completamente livre) fazer dele o fundador de uma religião que nunca o foi. Foi "recuperado" por Constantino, Imperador de Roma, numa perspicaz estratégia para unificar e apaziguar o Império. Substituiu festas pagãs pelas alusivas a Cristo, sendo o 25 de Dezembro uma delas. Mas muitos outros homens, muito antes de Jesus, tinham dado ao mundo a grande oportunidade, não entendida, abafada ou por circunstâncias da época, deixadas no quase eterno esquecimento. Lucrécio, que viveu cerca de 50 anos a.C. foi o autor de uma obra iluminada, uma obra polémica mas muito avançada para a época, "De Rerum da Natura" ("Da Natureza das Coisas").

Lutero, um religioso profundo, apegado a fundamentos da raiz Cristã, contrariando as tradições que adulteraram a Igreja de Roma, conseguiu divulgar as suas ideias apenas em menos de meio mundo Cristão. Exactamente o actualmente mais evoluído, social e intelectualmente. A essência das suas ideias radicavam na simplificação dos procedimentos, na introspecção genuína, em comunicação com as convicções religiosas e com Cristo, e na decoração simples e "espartana" dos templos luteranos, da Igreja Evangélica. Lutero tinha contra ele um feitio ácido e austero, regras ainda mais rígidas do que Roma, e era impiedoso, tinha "mau feitio".

Da Grécia, hoje um país desgastado, uma civilização que teve outros momentos de glória e é hoje uma sombra disso, vieram os livros, o prazer pelo Saber, que os romanos ajudaram a expandir pelo seu Império. Vários ilustres pensadores foram mais avançados do que o seu tempo, nesse mundo antigo.

Mais tarde, os próprios Iluministas apenas viram parte das suas ideias adoptadas pela sociedade, e parte das Monarquias foram caindo por efeito das suas ideias.

A própria história contemporânea é exemplo de oportunidades perdidas, mudanças que nunca aconteceram, momentos de estagnação da evolução humana. Hoje, penso vivermos momentos contraditórios, que alguma ciência e conhecimento nos faz ou fará avançar, a par com um domínio do Mundo por um sistema Financeiro, Economias e vastas regiões inteiras, ou parcialmente, nos querem agarrar ao passado, regredir. Como sempre aconteceu.

A Desigualdade Social, dentro de muitos países classificados como desenvolvidos, ou entre vastas regiões unificadas pela Economia, e pouco pela política, acentuam esta regressão, sem a visão de fracos líderes, como o caso da Europa, e dentro dela, países como Portugal, Espanha, Itália, Grécia e alguns mais...sem a visão da necessidade do avanço social, económico, financeiro e cultural em bloco.

Estou convicto de vivermos um momento de oportunidade de mudança, que iremos provavelmente perder. Provavelmente já estará a passar. Nenhum dos políticos portugueses ainda me deu uma ténue noção de tar algo de visionário, ou de permitir e ouvir a visionários, a indicação de um caminho. Caminho de oportunidade de Futuro.

A este propósito, para além das obras que tenho vindo a referir, ainda recomendo a leitura, urgente, de Niall Ferguson "Civilização", e, novamente, de Daron Acemoglu e James A. Robinson, "Porque falham as nações" (e, claro, Barzun, Diamond, Judt e outros).

O Mundo podia ter mudado, ter dado grandes saltos evolutivos e hoje, provavelmente, já viveríamos realidades bem distintas. A Ciência que hoje conhecemos, a Filosofia, o Pensamento, enfim a evolução humana parou, forçada a isso, tantas e tantas vezes, por culpa de quem era retrógrado, de quem tinha e tem medo de uma evolução, se sente ameaçado por ela, prefere controlar uma sociedade de gente desenformada e pouca evoluída, controlar economias que não podem avançar, reféns de grupos fechados e que trocam entre si interesses mútuos, e por tantas razões. Mas sempre isto aconteceu, desde antes de Cristo, como agora se sabe, até ao presente em que sofremos bem na pele este amordaçar de todos nós por mão de gente menor. Gente muito pequenina, sem cabeça, sem ideias, sem visão, que se sente ameaçada por todos os que pensam e insistem em divulgar o que pensam.

O Mundo, o nosso ou o mundo inteiro, será sempre refém de gente sem escrúpulos e sem valor, por vezes até humano. A maior ameaça para os medíocres não é a capacidade económica de alguém, mas a sua inteligência versátil e a sua visão de longo alcance.

22.9.14

Complicamos

Porque não somos simples?
Complicamos tanto, o que podia ser tão simples, leve e até doce.

Esteves Cardoso tem escrito uns textos fantásticos, sobre amizade e amor. Sobre o amor, não me lembro de ter lido algo mais belo, mais inteligente. Mas pessoas...nós complicamos tanta coisa mais. Vou provocar, é uma tentação. Quando o Homem "inventou" a Religião, estava já a meter-se em complicações, das quais nunca mais saiu. Se calhar com o amor ainda foi pior. A amizade, porém, parece tornar-se mais leve para todos nós. Mas se falarmos da que é desinteressada, que nos exige um cuidado contínuo, as complicações evitam-se se todos os interviestes tiverem uma atitude idêntica. E depende muito, umas e outras, relações amorosos ou amistosas, graduações de amor, no seu limite significativo, da fase da vida e de circunstância, exógenas, independentes da relação e sem o nosso controlo.

E as relações familiares? Outro género de amor. Mais tensão, mais risco. Mas passa-se um pouco o mesmo que com as outras, parece-me. 

Inventamos problemas, não deixamos situações correrem. Queremos intervir, ou contrariamente, abstemos-nos de o fazer, sendo uma e outra atitude, um risco, provavelmente. São complicações desnecessárias? Ou são fases necessárias que temos de passar, sem as quais as nossas certezas se esboroam, se adiam? E depois isto: a procura de certezas, respostas, razões e causas. Complicómetro humano.

Guilherme de Occam é tido como o autor da frase: "Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenómeno, a mais simples é a melhor". A "navalha de Occam" (Occam's Razor), ou o principio da parcimónia ("among competing hypotheses, the one with the fewest assumptions should be selected. Other, more complicated solutions may ultimately prove correct, but—in the absence of certainty—the fewer assumptions that are made, the better", uma interpretação...slightly different, por causa de "in the absence of certainty"). É um princípio de raciocínio, uma estratégia mental. Mas nada inocente ou desprovida de fundamento. Este princípio ainda hoje é seguido no raciocínio e procedimento científico, por exemplo. E os nossos cérebros, que têm cada um milhões de anos de acumulação de herança de "memes" culturais, de "caminhos" de pensamento, seguem um pouco, ou muito esta forma de procura de soluções, sem que demos conta. Mas "pelo meio", quando, principalmente reina incerteza, ou quando estamos dominados por emoções que não controlamos (vide acima os vários tipos de relações onde os sentimentos tocam), complicamos. Talvez. Há quem se considere muito racional. E não é possível uma avaliação dessa racionalidade, versus emocionalidade.

Complicamos hoje neste nosso mundo ocidental, em soluções sociais, políticas e todas as outras que já sabemos e me escuso de mencionar. A simplificação não é simples. Um texto, uma frase, uma pintura, simples, também se conseguem, e ...complicamos (falo por mim...).

Algumas vezes, talvez compliquemos por desconfiar da solução mais simples, como sendo a melhor. Fácil demais. Procuramos o desafio. A dificuldade. Mas não foi provavelmente por  acaso que Occam formulou a frase: na ausência de certeza, ele acha que a solução mais simples deve ser a escolhida. Ah! E qual é ela? Se pensarmos nas nossas decisões, ou no processo anterior a elas, temos a certeza de ter encontrado a solução mais simples? E até de termos certezas? E lá está, mais um "loop" de raciocínio. 

Simples mesmo era ser mosca, acho que é melhor do que girafa, que se não encontrar árvores altas, ainda faz um entorse danado, e depois não há massagista à altura. Á altura, precisamente. Uma mosca, nem se dá à maçada de contar os dias que lhe restam. São "demasiado" poucos (deram conta deste loop de complicação? Raio de coisa...).

Temos na vida oportunidades, perdemo-las. Temos pessoas, perdemo-las. Temos dinheiro ...(tiram-no...). Por complicação, por má decisão, por erro de análise, por falta de elementos de comparação, por falha temporária de sabedoria. Mas as moscas não têm esses problemas. Mosca ou outro insecto qualquer. Ou um microorganismo. 

Esta coisa de ser humano é uma grande complicação!



20.9.14

Livros e nós

Pensei...deixar este espaço em branco, por uns tempos e sumir. Pensei remeter-me a um tempo de ausência, que talvez o cumpra. Porque é apenas preciso. Não de reflexão, mas de ausência, de me retirar da minha presença constante, quando ela possa ser demais, ou quando alguma falta das palavras que por aqui escorrego, dê mais descanso a quem eventualmente leia. A nossa falta é necessária, mais vezes do que talvez quiséssemos. Mas um livro, um livro sem grande significado, mais do que entreter horas e carregar pálpebras até ao seu limite de saturação, um que havia deixado a meio, há uns meses, por ter páginas a mais num conteúdo significativo, empurrou-me para voltar aqui. Já volto a ele.

Somos personagens, como as dos livros, com que os autores, os bons, vertem para nos ensinar, alertar, ou mesmo e só, entreter. Personagens, que as há tão cinzentas, que nem por serem tristes ou alegres, passam a ter cor. Há-as na vida. Vejo-as na política de hoje. Vejo pela Televisão, que me forço a não ligar, cansado de futilidade, que não nos mudam os dias, talvez com a excepção de para pior. Passo a explicar.

Ken Follett é um bem sucedido autor britânico, que consegue andar de linha em linha até perfazer centenas de páginas e não nos deixar encontrar um Sentido. Uma personagem com espinha dorsal, um figurante nos seus livros, de quem possamos repetir uma ideia ou uma frase. Os seus livros entretêm, ponto. A sua trilogia "O Século", acaba de terminar com o volume mais recente "Edge of eternity", que já traduzido para português ("No limiar da Eternidade") nos enche de papel, praticamente sem uma ideia. Há gente, há sentimentos e há muitos acontecimentos. A história percorre o tempo entre as Grandes Guerras Mundiais e o período pós Guerra, até à queda do muro de Berlim. A ideia em si é mirabolante: cinco famílias, de cinco nacionalidades (americana, alemã, russa, inglesa e galesa), percorrem todos estes marcantes períodos da História, envolvidas em tudo o que aconteceu neste mundo ocidental (assassinato de Kennedy e sLuther King incluídos. Nem os Espírito Santo andaram envolvidos em tanto acontecimento de relevo...). Cada volume pesa umas novecentas a mil páginas. Fiquei pelo meio no primeiro deles. Provavelmente irei ler os outros dois. Mas só para confirmar que, passar o tempo a ler Follet ou ver uma telenovela brasileira, pouco difere das antigas fotonovelas de Corin Tellado (era assim que se chamava?). Um vazio. Personagens, e suas famílias, que passam por tanto e não nos deixam nada. Acontecimentos a mais. Ideias a menos.

Comparemos com Robert Musil, com Steinbeck, Hemingway, Faulkner, Eça, Camus, Hesse...Roth. Em todos eles aprendemos e ficam marcas. Com eles, comparamos a vida que vamos conhecendo. Têm cor, têm "alma" (seja o que isso for), têm até cheiro, no que dizem, no que os seus autores nos transmitem. Escolas plenas! Hesse era um poeta maravilhoso. Cada livro nos enche, ainda hoje, de ansiedade (boa) pela densidade de pensamento. Pela ondulada beleza das suas palavras que nos obriga a parar e...fazer essa coisa que dá preguiça e afugenta muita gente. Pensar. E todos os outros e muitos mais.

Como Follett, encontramos tanta coisa por esta vida assim. Entretém, o que nem é mau. Precisamos desse preguiça intelectual. De uma tal ausência, de nós, ou dos outros sobre nós.

No filme que ontem vi no meu canto, "A terceira pessoa" sem grande profundidade, algo havia de transmissão palpável do que pode ser um se humano. O oposto de um livro de Follett. Sem gente cheia, mas cheia de gente vazia. Como na vida.

Ligo a televisão, ou leio algures, ou me dizem...e penso de novo nestes regimes democráticos que temos. Cheios de Folltetts. Personagens sem nada. Saem de cena e nem sentimos que saíram, pois entram e passaram e só criaram espaço. Os nossos políticos, que se entretêm com campanhas e reuniões, com palavras sem uma réstia de inteligência, dessa que Hesse nos transmitiu, profunda e significativa, maçadora para muita gente, marcante para outros, passam...só preenchendo espaços. E pela vida conhecemos tanta alma assim. Todos têm legitimidade e a vida não é feita apenas de intelectualidade e sentido profundo. É também de futilidade. Que por vezes nos descansa. Como de branco se tratasse (sei que o vazio é o negro, a ausência. Mas não gosto de negro...). Espaço vazio. Claro que sim!

Mas as comparações persistem, para além dos momentos de ausência, a nossa e a dos outros para nós, dos nossos retiros, físicos ou de pensamento. Nem se deve cansar o mundo com ideias e grandes causas. Mas elas existem, ou deviam.

E quando lemos Musil, ou Roth, ou vemos um filme de Bergman ou Malick, ouvimos Pink Floyd, The Doors, Puccini, Schubert...ou uma excelente conversa, sentimos muito mais do que preenchimento de espaços, em papel ou pelo ar.

Era este sentido de vida. Que nos meta a caminho de alguma reflexão ou nos ensine, que gostaria de ver nas nossas personagens, nas empresas e na política. De Ken Follett, sempre teremos muito por aí.

Abaixo destas linhas espero deixar...um novo espaço. Vazio. Por enquanto.

19.9.14

A reclamação do Direito à Independência ou a União?

O referendo na Escócia tem levantado muitas questões e dividido opiniões. Absolutamente normal, tratando-se, a cisão ou independência de uma região, num país com séculos de união, de um tema fracturante, passe o pleonasmo.

Mas o tempo em que isto acontece parece-me levantar outras questões e devia conduzir-nos a todos a uma reflexão mais cuidada. Há mais de três séculos que a Escócia é parte do Reino Unido. Mas nunca foi pacífica a relação, sentindo-se os escoceses, pelo menos parte deles, numa espécie de sujeição a um país que não é o deles. Falam inglês, mas também o gaélico escocês e o scots. Esta problemática linguística não terá tanta relevância, mas é comum a muitos países por toda a Europa, sendo mais marcante em Itália ou na Suíça, por exemplo.

As perguntas que devíamos colocar são, a meu ver:

  • Porque agora esta vaga pela independência, que assola não apenas a Escócia, mas também a Catalunha, para não mencionar ainda o País Basco, ou mesmo a Galiza? 
  • Porque uma Europa que se diz em ajustamento, positivo, e que nega a sua própria decadência cultural, percorreu séculos com mais ou menos estas mesmas fronteira entre os seus Estados Membros e agora dá por si com este dilema?
  • O que levam estas regiões a pretenderem a Independência? Certamente que mesmos os defensores da Independência, têm noção que países maiores, com maior peso populacional e económico, ganham em momentos de conversações na Europa. 
  • Porque, como neste caso da Escócia verificámos, se enganaram os nacionalistas, e perdem assim um referendo que pode nunca repetir-se?
  • Que eventuais consequências isto poderá trazer a uma Europa já tão abalada por crises económicas, divergente entre Estados Membros (fizesse-se agora um referendo em Portugal sobre a nossa simpatia pela Europa...) e animosidade contra os auto-supostos líderes pan-europeus (Alemanha e França)?
  • Que figura pensam estar a fazer os que se colocaram do lado do "Não", mesmo admitindo que estão com a razão (neste momento)?
  • Será que ter perdido o referendo, perdem a razão? Ou que apenas se trata de não ser este o momento? (sou tentado a pensar, também, que este não era o momento, e que em princípio é sempre melhor um país mais forte, maior, mais unido...do que pequenas regiões criadas de uma fragmentação, que surja de vontade popular, com raízes históricas e culturais, mas...)
Mais perguntas se podem agendar. Mas poucas respostas conseguiremos obter. O resultado do referendo escocês fica para a história, como um conjunto de erros cometidos por ambos os lados, em momentos provavelmente mal escolhidos, mas pontuado por eloquentes intervenções públicas de uns (Gordon Brown e Salmond), e desastrosas de outros (David Cameron). Talvez muita coisa mude no Reino Unido, mas pela Europa, ninguém irá ver sinais de mudança que urgem ser feitas. As regiões que reclamam a independência estão insatisfeitas com os países a quem devem soberania, ou também com esta Europa sem cor e sem visão? Ou com uma visão apenas, distorcida e injusta, que passa pelo empobrecimento assumido de uns, para que outros possam manter-se como estão, uma visão germânica. Mas sem futuro, como um dia irão entender. Esperemos que pacificamente.

Mas algo também se pode dizer sobre a coroa britânica. Não terá este momento do referendo um tanto a ver com os sinais de enfraquecimento da casa real inglesa? E não será legítimo que um dia coisas, instituições, pessoas se ponham em causa? 

Que lugar tem a legitimidade dos povos a pretenderem regressar a uma antiga identidade cultural com milénios atrás de si, face a uma conveniência económica e social, que até tem prestado um mau serviço, por quase toda a Europa? O que deve ganhar (não que ganhe, sabemos que não raramente as minorias perdem e por isso o são, e não perdem em razão...)? A causa destes povos, ou uma coesão e força dos Estados Membros, contra alguma frustarão social dominante e diariamente sentida? Isto sem fazer qualquer balanço económico, ou de viabilidade económica, ou de força negocial política. Esse, duvido que alguém o consiga, científica e rigorosamente.

Por mim, fico-me com a ideia de que será mais viável uma Escócia dentro do RU, mas que as causas e vontades populares devem ser respeitadas. E que um dia, eventualmente, fará sentido mudarmos...o sentido da nossa própria opinião. Há causas, que têm de ser intrusadas, que exigem tempo para lhes entendermos a força e a razão. E o que ontem era verdade, não será forçosamente amanhã.

Fico-me também com a ideia de estas causas não surgem neste momento por mero acaso. Parece haver uma espécie de axioma histórico, sempre à espera de ser demonstrado, e que sempre o será: quando surge a vontade de divisão, surge pelo descontentamento. E não estaremos a falar apenas dos países em questão, mas de um assunto que toca e interessa a uma Europa, por estes dias demasiado saxónica. Liderada por uma mulher com visão distorcida de um mundo a fenecer todos os dias. A desigualdade e assimetria entre povos e regiões será a morte sem ressurreição de uma Europa derivante.

A Europa onde um Barroso de triste figura (um homem sim-sim... com sorrisos de condescendência pobres  discursos de circunstância) se ufana de vitórias com pés de barro, é uma Europa muito desatenta e triste...também ela.

18.9.14

Tudo por cumprir

Há quem não viva quarenta anos. Tantos anos como esta espécie de Democracia por cumprir.

Há quem viva o dobro disso e metade, viveu na esperança do fim da ditadura, à espera da Democracia, e outra metade a ver se ela seria, de facto, um regime de justiça equitativa, social, cultural, económica e politicamente (os quatro pilares da Social Democracia lançados por Sá Carneiro em 1974, tinha eu a idade do meu filho mais novo, quinze anos. Vivi esses momentos, do 25 de Abril, com uma alegria...que hoje me entristece recordar).

O nosso regime foi tomado por falsos democratas, interessados em poder pessoal, em vaidade e vacuidades. Interessados num novo controlo do Poder, por um grupo por si dominado. Mário Soares, ao tomar o Poder, enganando a Democracia, e muita gente até fenecerem, instalou um controlo a todos os níveis próximo do antigo regime, vingando-se de Cunhal e de este nunca lhe ter dado espaço na luta contra a ditadura, ou depois, na instalação de um regime novo. Novo, mas podre e muito pobre em verdadeiras liberdades.

Assisti a tudo, bem de perto. Sofri com tudo o que foi acontecendo ao meu país. Quando julgava que alguém um dia podia arredar Soares e o seu grupo totalitário, dei por mim na sua substituição por outro grupo que de melhor tinha nada ou muito pouco. Mudavam apenas os amigos e as redes de tráfico de influências. Podem estar certos de que se tivesse alguma vez acreditado em Soares e na propalada Democracia, propaganda pobre e triste, de quem tudo fizera para controlar a comunicação social e conseguira, durante muitos anos, que se perpetuaram até Sócrates, e as artes, num país que ainda hoje vê a Arte e Cultura como monopólio de uma "Esquerda", outra mentira com mais de duzentos anos...eu te-lo-ia talvez seguido, como se fosse ele o estandarte de uma social democracia, ou uma Democracia com justiça social. Mas essa justiça social nunca existiu em Portugal.

O culminar do que digo está no grupo de empresários que foram singrando em Portugal, todos, sem excepção, os mais destacados, com profundas e nebulosas ligações ao poder político e a interesses que fizeram a nossos fraca economia refém. Mas sempre tivemos muita gente a alertar para tudo isto. E isto, são factos. Para muitos, factor carecem de provas. Mas é falso. As provas, ficam para a polícia e tribunais. Mas os factos existem por si sós. E para os constatar, frequentemente é apenas necessário associar acontecimentos, datas e consequências. Passado, é verdade. Mas conta saber e esgravatar bem, mesmo, para o que ainda vem aí neste parco e talvez muito triste futuro.

Outra facto, este do presente é que estamos metidos com grupos de meninos, por sua vez rodeados de tubarões da manipulação e dos interesses obscuros. Pelo menos nos dois Partidos maiores, pelo menos...

Outro facto, que ainda tantos intentam desmentir é a necessidade de Austeridade. Austeridade, talvez, ou nada, para alguns sectores, para os tais que necessitam de Reformas. Já sabemos. As tais Reformas, sempre necessárias, pelo menos para falarmos delas, mas ninguém sabe como se faz, nem tão pouco, verdadeiramente, porquê.

Rigor, não Austeridade. Rigor devia ter tido Soares, Cavaco, Guterres, Jardim, Sócrates e...Passos Coelho. Nenhum teve e trata-se do dinheiro de Portugal e não do Partido respectivo. Austeridade atinge sempre quem não deve, e empobrece um país já de si muito pobre. Mas há um pormenor interessante, ou dois, que muito contam: Sócrates quis acabar com o que chamava "pessimismo" do PSD e isso...custava muito dinheiro. Como tal, força! Endividou-nos. Fez propaganda com assuntos ridículos e só um ignorante ou um maldoso, ou alguém que se estivesse completamente indiferente, ou não...(daria e dá ainda dinheiro a amigos, outros casos que nunca chegaram a tribunal) se metia numa destas: Biodiesel. E Energia Solar, mas tudo em grande. E Eólica, mas em dimensão gigantesca. Conclusão: temos uma das mais caras energias da Europa, porque começámos uma conversão de fontes energéticas ainda muito incipientes, muito antes de tempo, como se fôssemos uma Suíça ou Noruega, que nem eles nisso se meteram! Mas há quem me diga que sou louco, que não defendo as renováveis...e continuamos a pagar e pagar. Um dia, sim, claro, as energias renováveis serão importantes, hoje...são material de investigação. Para um país com custos energéticos elevados e grande dependência do exterior, factor de competitividade chave, este foi um erro clamoroso, no momento em que se decidiu e avançou. Mas era muito politicamente correcto, tanto quanto incorrecto eu afirmar isto.

Rigor no tratamento dos assuntos do Estado. Nunca deixando que o domínio de tais assuntos ficasse nas mãos de privados sem escrúpulos (que não se medem com a altura a que colocamos o nariz em público, nem na forma cadenciada e circunstancial de dizer...alguma coisa, nomeadamente mentiras e asneiras, vulgo Ricardo Salgado e outros mais. Não ele apenas, não apenas....esperem um pouco mais!).

Rigor na escolha de políticos que nos devem servir. Servir! E não serem servidos. O Resultado, do reivindicado prestígio da classe política é termos um grande bando de interessados no erário público, que se sentam na Assembleia da República, nas suas comissões, nos gabinetes ministeriais, e nos Partidos da Oposição. Tudo "come à mesma mesa" e nós pagamos as compras, num supermercado com preços alemães.

Nunca houve social-democracia em Portugal, e há dias comentei isto, a propósito de um excelente artigo de José Manuel Fernandes, no Observatório. Houve algum teatro sobre uma espécie de social-democracia. Mas essa, tinha de se cumprir, nas vertentes enunciadas por Sá Carneiro. E ficaram de fora quase todas, talvez com um suave aroma à mesma nas áreas da Segurança Social e da Saúde, pois são temas e pastas muito propícias a vantagens eleitorais. Na Cultura, nada. Tudo muito ideologicamente marcado e datado. Em termos de justiça social, ainda que se tivesse criado um SNS dispendioso que muitos gabam, mas o país não comporta, pois da Social-democracia faltou uma Economia justa e social, sem privilégios especiais e favores políticos, mercados mais justos mas provavelmente alguns ainda controlados (não sou partidário da ideia de que os mercados se auto-regulam. Uma outra vergonhosa mentira, para a qual o país onde esta ideia nasceu começa a despertar, EUA). Faltou uma sujeição da Economia e das Finanças à sociedade e às suas necessidades, na Saúde, na Educação, na Cultura e na Justiça, no apoio ao empreendedorismo, numa verdadeira cultura de crédito para as empresas, num país em que até o capital de risco é sustentado em garantias que não se podem dar.

Portugal precisa de uma nova reformulação da Democracia. Entendo que talvez nem a antiga ideologia social-democrata, que se fundava em regime democrático com sólidas preocupações sociais, por insustentabilidade económica, por um lado, e porque o mundo entra em novos paradigmas e muda muito, actualmente, e já mudou antes, deva ser repensada. Talvez tenha de surgir uma nova ideologia, uma nova forma de regime.

Uma revolução silenciosa? Uma revolução nas ideias. Nas atitudes. Os nossos políticos do futuro, de que não consigo neste momento vislumbrar algum dos actuais, a desempenhar um papel num regime renovado, têm de ser humildes na atitude. Para governar não há que ser arrogante e sobranceiro. Essa é atitude de chefe, e precisamos é de líderes. De quem queiramos seguir porque sabemos nos levar um dia a um estado melhor, a uma sociedade que prospera, económica e socialmente, mas também, culturalmente. Nunca chegaremos a um patamar europeu de desenvolvimento com um povo inculto e desinteressado. Temos já evoluído muito, mas essa prioridade não conseguiu o ritmo desejável e necessário que sustente a substituição de pessoas em todos os lugares chave de uma sociedade, quando uns se retiram. Levámos quase quarenta anos para perceber a necessidade de limitar os mandatos municipais. Só isto revela que temos uma sociedade acrítica e muito passiva, por falta de sustentação na informação e cultura.

Por isso defendo que a Saúde e a Segurança Social são as áreas de actuação mais urgentes. Talvez também a Justiça, mas se uma sociedade tiver menos conflito, menos problemas económicos e laborais, menos tensão social e familiar, menos materialismo, a Justiça será menos solicitada. Mas as áreas mais importantes da acção do Estado são a Educação e a Cultura. A diferença entre importante e urgente deve ser estabelecida. Numa Visão para o país que só um homem defendeu e se mantém actual. Depois dele, só os interesses pessoais e de grupos predominaram. Nenhum político mais teve a integridade e humanismo de Sá Carneiro. Uma triste realidade. E isto porque em todos os Partidos se foi barrando a entrada e ascensão de gente assim, íntegra e incorruptível. Que há muita gente assim por aí...

Quarenta anos de Democracia (ou Democracia a meio-gás) . E ainda temos muito por construir. Nós. Portugal consigo mesmo. Pode haver inspiração noutros lados, mas o modelo tem de ser nosso.

Não será necessária uma revolução de rua, ou talvez. Mas acarretaria outros custo e um novo atraso, demasiado pesados para um país com mais de um milhão de pessoas com qualidade sem futuro à vista e muitas mais que essas no limiar da fome e miséria.

É preciso é muita inteligência e saber chegar ao poder nos Partidos com quem de facto possa mudar tudo e apagar da memória esta mediocridade toda. E urge!

No discurso de Gettysburg, Lincoln usou estas célebres palavras, ainda hoje actuais e por cumprir, também por cá:

A "government of the people, by the people, for the people".

Precisamos quem lidere, com humildade mas firmeza, um novo processo, com ideias limpos e descomprometidos em mente. Ao nosso serviço!











17.9.14

Gabor Mate: Toxic Culture - How Materialistic Society Makes Us Ill

Gabor Mate, húngaro de origem, canadense, sobrevivente ao holocausto, enquanto criança.

Um pensador de inteligência penetrante e brilhante. Parece...até demais, mas vejam e oiçam muito bem. Pensem nos que conhecem, nas nossas sociedades, no que tem acontecido mesmo nas sociedades ditas mais evoluídas do mundo, onde nos inserimos na Europa. Num tempo em que sabemos que a inteligência humana atingiu um desenvolvimento, nunca antes conhecido?

Quando as relações, as pessoas elas mesmas, contam menos do que o materialismo nas nossas sociedades. Mas deixem-me recordar que, normalmente, associamos materialismo apenas a aquisição, ou busca nesse sentido, por objectos, gadgets, bens em si mesmos, muitas vezes sem serem mesmo necessários. Materialismo inclui tudo aquilo que nos faz pormos pessoas, condição social delas, ou profissional, acima e em primazia, aos sentimentos, às simples relações, ao cuidado com os que interagem connosco, ao acompanhamento dos nossos queridos, amigos ou familiares, parceiros, ou ...qualquer pessoa que tenha um dia feito sentido para nós.

Inclui mesmo a desistência de entender os outros, a abstenção de fazer um esforço mais, uma tentativa mais, como o faziam os nossos progenitores, para recuperar amizade, amor ou simples relação social com alguém. Generalizo, tanto quanto posso, pois isto, confio totalmente, tem atingido as nossas sociedades, tem-nas tornado doentes, e as razões são múltiplas, os factores também. Parte da nossa decadência cultural que não entendemos ao dia de hoje. Doenças que não entendemos. Depressões em todos os que conhecemos, e em crianças! Défice de atenção, agitação inexplicável nas escolas e nos nossos adolescentes. Doenças do foro psíquico e físico. Sabem ...quando dizemos uns aos outros, que as coisas más nos acontecem umas a seguir às outras? Que outra coisa podia suceder, num ambiente social doente? Ou há dúvida desta doença social? Há dúvida, ainda?


Há doenças, físicas, que nos surgem sem que tenhamos razões, causas, que nos façam entender a sua etiologia, o início de tudo. E surgem.

Claro que haverá sempre uma causa física, mas outras, normalmente associadas a uma genética ainda tão desconhecida, e...o ambiente social. Mas as razões ou causas físicas são comuns a muitos de nós, e uns contraem doenças, outros não. A depressão de uma sociedade, os problemas de relacionamento que hoje colocamos a cada um de nós. Quando outrora os nossos progenitores se prestavam a uma fiel relação, por motivos sociais, por incapacidade de sujeição a uma qualquer vergonha, no seu meio e relações, vivemos agora um tempo em que nos separamos pelas razões mínimas, que os nossos pais apelidariam de infantis. A evolução da nossa inteligência tornou-nos mais...impacientes, ou mesmo mais egoístas? É esta faceta de materialismo, de que uma ausência de vida interior e introspectiva mais rica e cultivada, um questionar do que vemos, fazemos e vemos em outros, um estudo, afinal, nas nossas e das vidas dos outros, numa óptica humanista que nos está a transformar em impacientes-desligados-egoístas? Talvez...

Mas talvez todos necessitemos de uns momentos de reflexão, começando por ouvir com toda a atenção, e mente aberta, este homem extraordinário. Ele fala-nos de casos, de dados científicos demonstrados, onde a associação de alguma predisposição biológica, genética, a um ambiente desfavorável, uma economia desumana e impiedosa, que nos destrói as vidas... a um stress individual e colectivo, nos conduz a doenças e a situações sociais com graves consequências: desemprego, alcoolismo, tóxico-dependência, ou apenas a perda de relações de amizade, desfasamentos no tempo e no espaço de possíveis relacionamentos, desintegração familiar, mal-entendidos disruptiveis, depressões que se tornam crónicas, obesidade, doenças crónicas, doenças cardiovasculares...

"Os pais dos nossos jovens podem estar a fazer o seu melhor...mas em condições impossíveis"! Diz Gabor Mate.

Há dados concretos sobre tudo isto. E como não entendermos a enorme diferença entre a nossa sociedade actual de abastança, em que sentimos tanta infelicidade, ou fugimos a pensar em felicidade, e a sociedade dos nossos pais e avós, que apesar de tanta dificuldade e escassez de meios e produtos, nos faz recordar o quão felizes conseguiram ser e ainda tiveram a capacidade de nos passarem esses mesmos sentimentos, e ainda o amor, de que vejo tanta gente fugir, recear uma espécie de conexão prolongada, um sentimento de ligação muito forte, que nos foi transmitido...mas que rejeitamos agora, nestas nossas sociedades?

Mate recorda o termo de Karl Marx, Alienação. E refere quatro tipos de alienação, afastamento, separação. Que mais ou menos sofrermos todos, de um tipo ou de outro.

Da Natureza, que temos tratado tão mal, e que nos fez inventar mais umas quantas profissões para apenas se verificarem inúteis, mas assim asseguramos mais uns quantos negócios, redes de influências, mais campos de actuação da corrupção, mais causas de stress social, por via directa e indirecta.

A alienação dos outros, nos relacionamentos que hoje são menos ligados, onde se perdeu muita confiança e nos podemos apoiar menos. Perdeu-se muita segurança nestas relações. Sociedades muito mais desligadas. Doentes, em si mesmas.

Alienação do trabalho, onde sentimos um desligamento crescente, uma falta de motivação, uma razão para nos dedicarmos, falta de sentido do que fazemos, por múltiplas razões que todos sabemos, que cada um de nós, reflectindo, entenderá bem porquê. E mais uma causa de stress, de desligamento e separação de casais e famílias e até amigos. Não?

Alienação de nós mesmos. Se nem nos entendemos a nós mesmos. Se nem reflectimos sobre nós, se perdemos crenças, se perdemos a fé em algo e em nós, se desconfiamos do que somos capazes, se nos desligamos do que somos e da procura do que seremos ainda capazes. Se perdemos o interesse em evoluir, não estaremos a deixar de acreditar em nós mesmos?

Agora, juntemos tudo. Os factores sociais, económicos e ambientais puros. Juntemos a pressa com que vivemos e queremos continuar. Juntemos a substituição que fazemos de factores emocionais e compensação de sentimentos...por produtos e por interesses materialistas.

Penso que vale muito a pena reflectir. Penso que muito do que temos vindo assistir nesta crescente mediocridade social e política, se poderá melhor compreender. Até disso e dessa preocupação nos auto-alienamos.

Penso que deixámos muito do nosso ancestral sentido social, na nossa matriz cultural e religiosa para trás, para abraçarmos uma sociedade sem projecto e sem sentido. SENTIDO. A procura de sentido na nossa vida, e na dos nossos mais queridos, mas a sabedoria que tantos nos tem faltado não nos deixa perceber um sentido...(sei do que falo e muito me faltou). Porque essa sabedoria, só nos chega, com um sentido que consigamos dar a nós, ao nosso meio, e aos nossos sentimentos. Que não podem ser deixados a voar, ao sabor de um vento desconhecido, esperando um dia que por um qualquer acaso nos encontremos numa curva de tempo.

Será que olhando um pouco para trás, não vislumbramos o que agora se põe em causa? Nos nossos próprios pais?

Será que, num breve exercício de memória, olhando à nossa volta, aos estonteantes e surpreendentes acontecimentos dos últimos meses e anos, não identificamos estes "movimentos", usando de alguma alienação, nas empresas, nas políticas, nos extremismos, nas crises sucessivas, na decadência cultural generalizada, nas doenças sociais, doenças do foro mental e físico?

Não se trata de uma teoria conspirativa, ou de um conceito pró-religioso ou místico. É um exercício de observação social, de introspecção individual e de procura de respostas a tanto de inexplicável que temos vivido. Acho...

Proponho um exercício individual: identificarmos as nossas alienações.




15.9.14

Três momentos, de um só Momento

1. Um momento diferente, quando o tempo refresca, nestes dias curtos, em que o Sol começa a ser pouco demais para equilibrar ... São tantos os caminhos que visualizo ter percorrido, outros mais que gostaria de ter iniciado. Definitivamente, detesto a nostalgia, gosto de um Outono que comece num aconchego do pôr-do-sol dos românticos, leve, sem peso imaterial, um calor interior que vem da certeza de Invernos pouco sentidos, ainda que o ar fresco, ou gelado desperte para outras experiências, uma perspectiva, enfim, de bons anúncios desse livro do Futuro, onde dizem termos algures o nosso nome. E que consigamos sempre lê-lo, ao lado de nomes nossos queridos. Gosto da ideia da formiga, da inteligência que conseguimos por nos dias, se ela nos servir para uma partilha com outras mais, caso em que todo o sentido de uma vida se preenche. Caso não, não... O Verão tem gente, multidões, cor, luz, animação. O tempo frio recolhe-nos, e desconfio não ser apreciador. O momento destes dias frescos aborrece. Daria um grande salto já hoje, para uma nova Primavera, não deixaria para trás quem a viagem comigo quisesse fazer, mas tenho bagagem limitada. Vivi momentos inesperados, fortes e memoráveis, que quero voem comigo no salto pelo tempo. E outros, que espero hibernem para sempre, com o frio inexorável que se avizinha. Mesmo que a minha Primavera chegue antes da Primavera, cá estou. Mesmo que não, espero estar. Espero. Guardo bem cá dentro com o meu calor afectado, o que me tocou. Espero. Que o tempo fresco ou frio, o seja aquecido pelo que me foi oferecido. De onde veio, não sei. Mas que não vá. Quando, como, com quem, onde...são só perguntas, e apenas as respostas contam. Venha, então, esse Outono! Estou por cá.

2. Bom dia Vida! Sabes...? Há dias em que me apetece ser eu mesmo. Não irei acordar outonalmente. Sei o que quero, há muito que o sei. Como, sei-o há menos tempo. E ainda há que saber onde e quem me leva na viagem que recusa sombras e tempestades. Conheço a ideia dos desígnios, e dos livros do Destino. Mas não me apetece. Quero escrever lá as minhas ideias, mas não o irei fazer a sós. Falta talvez conhecer a outra letra, ou não. Quero estar atarefado, quero, como sempre uma partillha. E partilha em liberdade. Por muito céu nublado, até dele irei escarnecer. Tenho o meu desígnio, e com alguém o cumprirei. Já será mais rico, porque não meu apenas. Deixarei espaços em branco, sorrindo a quem os preencher. Não entram outonos ou invernos. A chuva lá fora regará o que em mim guardo e no meu futuro crescerá. Chuva alegre, nuvens, a sua nascente. Apenas. Por isso, Vida, prepara-te, que te irei...dar luta e escarnecer. Aí vou eu. E não sozinho. Todos os espaços entre as minhas palavras esperam ser alimentados, por uma letra bela, que até sei de onde vem. Uma letra com música e luz especiais, que até já acho conhecer e não vêm de mim apenas. Faremos do Tempo, um mero observador. De um Tempo novo, já iniciado.

3. "A serenidade não é feita nem de troça nem de narcisismo, é conhecimento supremo e amor, afirmação da realidade, atenção desperta junto à borda dos grandes fundos e de todos os abismos; é uma virtude dos santos e dos cavaleiros, é indestrutível e cresce com a idade e a aproximação da morte. É o segredo da beleza e a verdadeira substância de toda a arte. 
O poeta que celebra, na dança dos seus versos, as magnificências e os terrores da vida, o músico que lhes dá os tons de duma pura presença, trazem-nos a luz; aumentam a alegria e a clareza sobre a Terra, mesmo se primeiro nos fazem passar por lágrimas e emoções dolorosas. Talvez o poeta cujos versos nos encantam tenha sido um triste solitário, e o músico um sonhador melancólico: isso não impede que as suas obras participem da serenidade dos deuses e das estrelas. O que eles nos dão, não são mais as suas trevas, a sua dor ou o seu medo, é uma gota de luz pura, de eterna serenidade. Mesmo quando povos inteiros, línguas inteiras, procuram explorar as profundezas cósmicas em mitos, cosmogonias, religiões, o último e supremo termo que poderão atingir é essa serenidade."
Hermann Hesse, in 'O Jogo das Contas de Vidro'

Com a idade, a serenidade carrega consigo até nós, um Bem esplêndido e admirável, que comove os espaços à nossa volta, sejam vazios ou acompanhados de quem nos quer: a Sabedoria. O mais transcendente dos nossos dons. É esta verdade, criada, alimentada e afectuosamente acarinhada, todo o tempo, que nos fez crescer e nos dá dignidade e granjeia respeito. Mas o respeito vale pouco, se não se associa a algum tipo de amor. Crescemos para isto, e tão só isto: aprendermos a ver melhor, a não rejeitar o melhor, e só com a Serena análise e a Sabedoria do amor, podemos mesmo entender o nosso crescimento. E merecermos o de outros. Toda a vida temos de recear uma rotina mental, mas antes sabermos serenamente posicionarmos para aceitar a serena inteligência dos que amamos. Sem a Serenidade e uma Sabedoria escrutinada, não iremos ser Tolerantes. E é daqui que vem saber esperar e outra atitude, que necessita de interiorização superior, o saber perdoar. Mas não nos deixarmos magoar de novo. Depois, um dia, acontece mesmo o que já o devia. E tudo é em luz serena. Da serenidade e da sabedoria chega-nos o amor. Da paixão, talvez, ou talvez...a incerteza. Para ganharmos serenidade, há que passar por tempestade, provavelmente, digo...o caminho da paixão ao amor. Do desconhecido à Sabedoria, bem maior.


13.9.14

As escolhas, novamente. Sistema 1 e Sistema 2

Daniel Kahneman, eminente psicólogo, numa obra revolucionária, e estimulante: "Pensar depressa, pensar devagar", desenvolve os conhecimentos científicos mais actuais, sobre os conhecidos dois Sistemas da mente, duas formas de pensar, Sistema 1 e Sistema 2.

"O Sistema 1 opera automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço e sem sensação de controlo voluntário.
O Sistema 2 distribui a atenção pelas actividades mentais esforçadas que a exigem, incluindo os cálculos complexos. As operações so Sistema 2 estão muitas vezes associadas à experiência subjectiva de actuação, escolha e concentração".
(...)
"Quando pensamos em nós mesmos, identificado-nos com o eu do sistema 2, consciente e racional, que tem crenças, faz escolhas e que decide o que pensar sobre as coisas e o que fazer. Apesar de o próprio Sistema 2 acreditar estar no centro da acção, o automático Sistema 1 é o herói do livro(...)"

Se ligarmos esta teoria dos dois Sistemas da Mente ao que hoje se sabe da dimensão de registo e capacidade do Inconsciente, por comparação com o consciente, e da já tão convencionada Inteligência Emocional, não sei onde ficam as ideias, de outrora sobre a racionalidade do que vemos, e vemos tão mais do que a nossa consciência nos "diz" termos visto, do que analisamos e do que decidimos.

Nada de que tenhamos de ter receio ou pavor. Não há propriamente um descontrolo, mas há, seguramente, muito menos controlo do que pensamos do que podíamos imaginar. A nossa subjectiva avaliação ganha em pontos ou em rounds, a qualquer veleidade de uma avaliação objectiva. E como humanos, só temos a ganhar com isso.

O Sistema 1 é sintético e o Sistema 2 é analítico e detalhado. Os dois funcionam com todas ou quase, as situações, mas com preponderância de um sobre o outro, dependendo do caso. O Sistema 1 leva-nos a decisões do momento, quase-impulsos, o Sistema 2, mais lento, pode levar a corrigir-nos erros de uma "análise" apressada do Sistema 1.

Estes Sistemas não existem em estruturas separadas ou em "lugares" identificados no nosso cérebro, mas funcionam realmente assim, e complementam-se, ou, em muitas situações, apenas o Sistema 1 funciona e nada de prejudicial daí surge.

Se associarmos estas descobertas, não tão recentes assim, mas comprovadas agora, às que se têm feito sobre o nosso "subliminar", podemos entender melhor a nossa própria forma de pensar, e desconfiar de uma decisão, ou confirmar. Ou, melhor, prepararão-nos, melhor, para as coisas verdadeiramente significativas e marcantes nas nossas vidas. As que a podem mudar. Desconhecedores de tudo isto, nem chegaremos a entender o significado do que pensámos, ou estamos em vias de o fazer.

Com isto presente, olhando à nossa volta, com os que conhecemos e com muitos outros, talvez também nos seja mais fácil entender tanta gente e tanto acontecimento, que à luz de antigas teorias do Racional e do Emocional, apenas, se tornam difíceis descodificar. Mas, claro, que isto não chega.

No entanto, o Sistema 2 e o nosso Consciente (ambos os sistemas) são o nosso controlo mental, sobre algum desconhecido, algum risco, alguma incerteza. Por outro lado, o domínio do nosso mundo mental inconsciente, e a rapidez de resposta mental do Sistema 1, fazem a grande parte do nosso poder decisório no dia-a-dia.

Há que voltar a este fascinante tema...



10.9.14

Conversa com um comunista

No final de um dia mau, dirigi-me a Sintra, para reviver uma amizade com um amigo vinte anos mais novo, com uma formação académica exemplar e de alto valor, desempregado, uma simpatia de pessoa, além de um querido amigo ...surgiu-me uma conversa com um jovem recém-licenciado em Antropologia, comunista convicto e ortodoxo, que nem sei como se alguém se tornar ainda hoje um defensor dogmático, num mundo onde as certezas se abatem a cada dia.

O meu amigo afastou-se, impaciente com estas conversas estafadas de tanto dogma e força de convicção, numa ideologia morta e num tempo errado. Vive, como muitos mortais que conheço a alimentar um virtuosismo dualista, direita-esquerda, que tantos adoram alimentar. Tentei, como tento sempre, explicar o meu ponto de vista, sobre a desnecessidade, o irrealista e anacronismo de tal visão, dual e limitada, estreita para um mundo que deu milhões de voltas desde 1789.

Mas isso, sei-o bem, só um dia quando ressurgir um novo ideólogo consistente e respeitado que prove que nunca existiu o conceito de Direita, nem o de Esquerda, na política ou na sociedade. Um dia destes vou esforçar-me por "perder" mais tempo a explicar porque a mim me é claro que não. Não há Direita, nem Esquerda, mas há conceitos, visões, estratégias e actuações diferentes na política e mesmo na nossa atitude social. Mas a dicotomia é que me parece curta e estreita demais.

A este jovem inteligente e argumentativo, deve ter-lhe feito imensa confusão que um homem confessadamente social-democrata não se considere de direita, nem de centro, nem de esquerda e que defenda pontos de vista, alguns, idênticos aos seus. Que sim, que o sistema financeiro é responsável por este empobrecimento generalizado, pois dele extrai mais recurso, e que sim, que houve muita injustiça e exploração no tempo de Salazar, mesmo tempo em que a economia estava no poder de algumas, poucas, famílias. E eu, atónito, expliquei que a mim nenhuma confusão me fazia. Porque há quem adore e sinta essa necessidade de pertencer, e quem sinta a de pensar livre, por si. retorquiu a coisa mais espantosa ouvida de uma boca e um cérebro de vinte anos: que pensar por si, livremente, era uma ideia burguesa. No que quase me pareceu ver-lhe um subtil trejeito de aversão ao mencionar o termo, "burguesia".

Há muito que não conversava com um comunista, essa espécie humana, rara para mim, que escolhe fechar olhos e ouvidos ao pulsar natural e constante do dia a dia, que lhes desmente a visão fora de tempo, no tempo de hoje. Confesso que me entristece ver valores humanos e intelectuais se deixarem perder nesta ideia tonta da necessidade de pertença, e mais ainda uma pertença a um clube de ideias gastas de mais de cem anos. tentei ainda recordar que a espécie humana devia ter evoluído, para mutuo longe do conceito de 1789 e ainda mais para o pernicioso e criminoso mundo das ditaduras do início do século passado.

O mundo exige muito mais de nós, do que nos apegamos a filosofias com mais de cem anos, ou mais de duzentos.

Claro que afinal, até me diverti. Mas o resultado é o mesmo. Para ele, devemos ter discutido, para mim, conversado e com as diferenças todas que as nossas mentes nos ditaram. Eu, toda a vida tentei libertar a minha do que os outros me dizem dever pensar e dizer, em simultâneo com a aprendizagem diária do que esses mesmos me passam. Para ele, não há que ter a veleidade das ideias próprias, como se o mundo um dia tivesse sido desenhado, e bem, por alguns seres superiores, Marx, Engels, Lenine e esse imenso assassino, Estaline.

Lembrei-lhe as zonas do mundo onde existem hoje as maiores desigualdades e injustiças sociais, certo da previsível resposta de que na antiga União Soviética assim não era. Pois não, corrigiam-se as desigualdades dentro dos Gulag, que ele designa de campos de trabalho e reeducação. Claro. Há quem saiba por nós o que para nós e bom... Mas não para mim. Posso eu nem saber, mas outros não saberão melhor do que eu.

Vim pelo caminho de regresso a casa, com esta sensação desconfortável de ter falado com um jovem que terá tido a oportunidade de ouro de ver um mundo melhor do que eu vejo, e um mundo com uma ideia nova, que pudesse eventualmente fazer parte de um movimento que a todo o momento espero desperte, de uma organização ideológica refrescante e que nos traga futuro de novo. Mas não, vi um jovem inteligente e enérgico a defender ideias mortas e enterradas, que alguns como ele, pensam poder ainda implementar, sobre os cadáveres das vítimas das mesmas.

Se recentemente vivi a título pessoal uma realidade totalmente virtual e vi e vejo o desmentir do mundo que se nos olha de frente e nos invade o olhar, fazendo dele um mundo invisível a um humano normal, que me espanta que com tanta doutrinação ainda alguns nossos jovens se deixem e escolham incluir em grupos de ideias falsas e perigosas?

Há Direita sim senhor, e há esquerda com certeza. Mas apenas para quem assim quiser crer. Porque se se defender a privatização de uma Caixa Geral de Depósitos é-se de Direita e o oposto, deve fazer-nos de esquerda. Pois, para mim, privatizar a CGD é acima de tudo uma estupidez, agora, mas que eu já defendi, porque não concordo que um Banco que é acionista de bancos privados, esteja excluído da concorrência normal e não esteja cotado na Bolsa. E que sirva, antes de mais, de poiso a gente ex-política, mesmo nem sabendo o que é um Banco. Mas hoje, com as  Finanças ao serviço e sabor de um capitalismo desumano, essas privatização seria muito contraproducente e agravaria o estado de coisas no sector. Nisto não há nem Direita nem Esquerda, mas sensatez e reflexão no exacto momento, uma forma de pragmatismo.

Foi interessante, tanto quanto uma pequenina desilusão, por ainda termos jovens a viver a vida de há quarenta e poucos anos. Em pleno século XXI.




9.9.14

Herança desbaratada?

Jared Diamond, um autor que sempre se destacou da multidão de escritores pouco inteligentes e normais "de mais", escreveu três obras fundamentais para o nosso entendimento da evolução das culturas do mundo, e o que daí podemos inferir.

"Armas, Germes e Aço" (que tenho de reler, confesso), "Colapso" e "O Mundo até Ontem". A primeira, discorre de forma muito profunda sobre a procura do entendimento quanto à evolução assimétrica do mundo, ocidental- europeu-e os outros. A segunda, sobre as razões do colapso de diversas sociedades, uma obra que ainda hoje me impressiona, mais pelo que ainda pode acontecer, do que pelo no passado sucedeu (o desaparecimento da civilização da Ilha de Páscoa, com a deflorestação, o risco social sempre iminente de uma Islândia, algumas zonas outrora prósperas dos Estados Unidos, hoje praticamente as mais pobre ...e, pergunto-me, se não estaremos a assistir a este nosso próprio colapso em Portugal e um pouco pela Europa, em certos países. Com sinais de extremismo político, mas sem que possam ser esperança alguma de futuro e, bem pelo contrário, uma verdadeira ameaça para o futuro próximo (extrema direita em França....). A terceira, sobre o que podemos aprender com as sociedades mais tradicionais, hoje até já bem "ocidentalizadas".

São três obras altamente recomendáveis, pelo originalidade, pela inteligência brilhante de Diamond e pela actualidade.

Se temos políticos incapazes, gestores apenas do dia-a-dia e da sua vida pessoal, sem visão e sem interesse genuíno nas desgraçadas, para sempre, vidas de tantos de nós. Se temos extremistas a crescerem em importância e popularidade. Se temos zonas de conflito latente, mesmo às portas da Europa. Se não conseguimos deslindar alternativas e se a alternativa única for uma revolução em larga escala, provavelmente porque apenas Portugal não muda nada... não estaremos em tempo de pensar se o nosso colapso não bateu já à porta?

Mas para tal, as razões, as origens possíveis de colapso social ou de um país inteiro, devem ser bem lidas e analisadas, partindo da obra de Diamond. Climas extremos, sectores da economia que já hoje perderam importância, zonas de conflito permanente e duradouro, fundamentalismos, zonas degradadas em termos ambientais, em larga escala e incapacidade de uma sociedade responder num contexto de competitividade acessível, quando todas as políticas lhe retiram essa eventual capacidade de resposta.

Conseguem intensificar alguma coisa que se nos aplique...?

Pois, a mim parece-me há muito que esta austeridade, que fez crescer injustiça social (Sábado, Passos Coelho dizia ter feito melhorar a justiça social...deve ter sido num qualquer quarteirão vizinho dele, pois ninguém deu por nada). O nível de impostos asfixiante, a falta de domínio tecnológico, um povo sem cultura para se poder regenerar em novos negócios e ideias, novas oportunidades, mesmo em ambiente altamente desfavorável a crédito a empresas, cobranças exageradas pelo Estado, custos de energia e outros a níveis também incomportáveis, transportes mais caros, devido a combustíveis muito massacrados pelos impostos, burocracia que nunca se alterou e nos libertou desse pesadelo, problemas gerais de liquidez na sociedade e na economia, com consequências no investimento e nos prazos de pagamento de bens e serviços, desigualdade demasiado acentuada entre a classe mais formada numa empresa e os gestores e patrões da mesma... serão estes factores de desenvolvimento, de recuperação económica, de criação de emprego, de crescimento da riqueza e ...de retrocesso no processo colapsante que nos ameaça?

Há uma herança histórica em todo o lado. Temo-la em Portugal quando há quinhentos anos nos aventurámos em mares nunca antes conhecidos. Tivémos recentemente uma coragem e uma solidariedade, internacionalmente reconhecidas, com o que por Timor conseguimos fazer. Com um país muito maior e mais poderoso do que o nosso, ganhámos quase todas as guerras, a Espanha. Nunca dizimámos civilizações como fizeram os nossos violentos vizinhos. Apesar de algumas atrocidades escamoteadas pela História. Fomos pioneiros na abolição da pena de morte e da escravatura. Somos praticamente mestres em humanismo e em contactos multi-cuturais. Mas parece que hoje, um povo outrora corajoso e decidido, se esqueceu da sua herança histórica, que corre nas veias e está impresso no nosso DNA.

Se Jared Diamond escrevesse uma obra sobre Portugal, penso que nem teria necessidade de ir à Nova Guiné, para entender como se anda para trás na evolução, quando por lá se avançou, em poucas dezenas de anos, o equivalente a centenas por cá na Europa.

Não estou certo de termos aprendido com culturas tradicionais por onde andámos. Todos os dias espero o anúncio de uma convulsão social, justificada por esta desigualdade crescente, por esta miséria persistente, que começou por ser intelectual e cultural e é agora de sobrevivência alimentar e económica. Não entendo discursos como o que ouvi do Presidente do PSD no encerramento da Universidade de Verão. Pintou um quadro que não está em alguma parede nem em algum museu. Ninguém o viu, nem verá.

O quadro de termos cumprido um programa...de "ajustamento". Pois. Um ajustamento para baixo, que nos trouxe às dificuldades e perda de futuro. Falou e quase se baralhou, pensamentos difíceis para aquela cabacinha, mas muito se sorria...de consumo interno, de exportações...e fiquei com a impressão de que ele, afinal, tinha também tirado o curso ao Domingo. Então o consumo interno não aumentou, mas...disse, não houve pelo menos, mais endividamento. É mesmo formado em gestão? E o endividamento não é um motor da economia? Só não o é, quando não há capacidade de o pagar...não? Mas ok. O consumo interno não é muito importante, e as exportações diminuem porque os outros países, maus e feios, mau feitio, não querem comprar, mas estão bem! É birra! Estão bem...até porque de tão bem estarem, souberam a receita ideal para nós, os que estamos mal: austeridade, sonegar dinheiro a quem não o tem, aumentando assim a desigualdade, deixando impendes os grandes financeiros, que nos trouxeram a esta crise.

Onde o Governo vê um bom programa de ajustamento, com o esforço dos portugueses, eu vejo um povo apático que o devia já ter corrido e ao lindo programa dele. Agora sim, diz ele. Já estamos diferentes, muito diferentes, o Estado está diferente, a Economia está diferente. Pois, está pior! Tudo mais pobre, tudo menos eficiente, tudo com menos futuro. Talvez concorde que na Saúde algo de bom se conseguiu. Mas na Educação? Onde vê ele isso? Rankings e avaliações internacionais, de quem anda anacronicamente ao inverso do futuro? Abram os olhos...o mundo de Jobs e Gates está a desaparecer...o mundo dos Mercedes e Audis também. O mundo será outro dentro em pouco, mais conceptual, mais humanista, depois do que aí ainda vem. O mundo será um mundo com mais ideias e menos tecnologias. Onde andam estes políticos a aprender, o mesmo mundo de sempre nunca muda para eles? Desde há setenta anos que estamos nisto, mas os próximos setenta, serão muito diferentes.

E falou Passos de economia, de sistema financeiro, dizendo que já não são estes que mandam na sociedade. Quase me engasguei e nem estava a comer...engasguei-me com uma ideia: Passos não chegou a terminar a puberdade política mas ria-se de um jovem social-democrata e até lhe deu o seu próprio exemplo.

Mas agora teremos Costa no PS, o costa da maçonaria moderna, nada ligada a interesses e tráfico de influências.

Vamos deixar-nos ficar a ouvir esta lenha-lenga? Pelos vistos...dentro de poucos anos, já estaremos de novo a sessenta anos de desenvolvimento dos países do centro da Europa. Por enquanto, não nos endividamos mais, segundo Passos, embora a dívida tenha crescido e sem controlo, e ele não sabe nem como, nem disso fala, mas estamos como dizia Salazar. Modestos mas orgulhosos. "Orgulhosamente pobres", acho eu.

E isto não é negarmos a nossa herança histórica? Onde andam os genes dos homens quinhentistas? deixaram-nos por terras de Goa, seguramente...

A vida pela metade

A Vida pela Metade. É o título de um livro, de Anabela Mimoso, que nunca li, nem faço a mínima ideia de que versa. Mas este título sempre me sugeriu muitas situações e experiências que tenho observado.

Chegar a "metade da vida", algures pelos quarentas, ou mais de metade, pelos cinquentas, e sentir claramente que não se teve a vida...que se queria. Vi, vivi e confirmei com muitos amigos meus. Talvez consiga afirmar que alguns, antes mesmo do "meio da vida", a tenham tido quase toda, assim num concentrado, diria, quase exótico, de sucesso, felicidade, tranquilidade e esperança no futuro. Mas quando me meto a pensar, a escrutinar a memória, a passar em revisão grande parte dos meus amigos e familiares, chego a conclusão oposta.



Frustração profissional, insucesso, frustrações sentimentais, e restam afinal, alguns bons e fundamentais amigos. Ainda bem, que esse "resto" não se revela algo na margem da nossa vida, mas acaba por ser o que nos acompanha até aos dias finais. E, durante todo este trajecto, sabe a pouco. Queremos empolgar-nos com um grande amor, e ele surge, e ele se vai. Queremos um sucesso profissional e reconhecimento, pelo que somos e fizemos, e continuamos a fazer e...nunca surge, ou é mais efémero que os assuntos do amor.

Julgamos encontrar um emprego, uma carreira, um lugar no mundo tortuoso e, bem...pois... impiedoso do trabalho, que nos puxa para baixo e nos tira o lustre dos nossos primeiros momentos, quando um elogio nos atirava aos píncaros, longe estarão esses dias, e um dia nos vemos a descartar a carreira, para nos deixarmos levar numa rotina que nos pague despesas, e não se torne um fardo pesado demais. E todos, ou muitos, sentem esse fardo que levamos, mesmo ao nosso lado. O que só nos prejudica, mas já pouco nos importa.

Queremos deixar uma marca do que fomos e tentámos ser, algo de que se orgulhem amigos e, sobretudo filhos e alguém mais, e não temos mestria ou tempo para a preparar. Deixamos sempre marcas em alguém, certamente.

Julgamos encontrar a pessoa certa, que pode tardar dezenas de anos, numa vida de outras poucas dezenas mais, e ...o caminho terá afinal de ser outro. Julgamos ter sido encontrados, e ...o mesmo sentido e resultado, ou algo ainda mais difícil de se carregar.

Meia vida, ou meia vida e pouco mais, não nos chega para cumprir um sonho, e logo aí pode estar o fim, após a curva da metade nos ter desencantado.

Olhamos à volta, olhamos para o lado, ali estão os nossos tesouros e legados mais valiosos, se outros seres não se lhes ombreiam em importância, e tememos pelo que pode ainda vir a ser pior do que nos foi a nós.

Olhamos para trás e vemos pais com dificuldades, que não tomavam anti-depressivos, que riam e se riam deles mesmos, que tiveram sonhos que nós não conseguimos cumprir, que talvez não tivessem procurado sequer o trabalho perfeito, o amor perfeito, os amigos perfeitos ou a saúde perfeita, mas que com tudo assim mesmo imperfeito, tiverem mais momentos mais felizes do que nós, seus descendentes. E...não se entende.

Um dia disseram-me que o nosso mal era procurarmos algo demasiado bom, algo muito melhor do que nós, ou mesmo algo apenas...demasiado encantador e satisfatório, e não nos limitarmos a aceitar, ainda que procurando, ou procurar numa bitola mais baixa.

Acho que o fiz, ou tentei fazer, e me frustrei na mesma. Um deste dias assaltou-me a ideia pouco reconfortante que uma coisa não aprendi dos meus pais: ser menos exigente, comigo talvez, de certeza com os outros. Mas não me acho, também, exigente com os outros e vivi alguns anos em ambiente e pessoas, que me confirmam essa tão baixa exigência que me pareceu a dada altura, ter desaprendido a viver, e de mim querer ser e estar melhor, cuidar melhor. E, quando me deixei encantar e ofuscar pelo que achava já arredado de mim para sempre, escorregou-se-me pelos dedos, em tempo mais célere do que a minha compreensão conseguiu intrusar.

Uma vida pela metade pode ser levada até ao fim dela, mas como só espero baixar braços no tempo em que o tempo desistir de mim, há algo perto de metade, mesmo que um tanto menos, que espero encher com muito mais...do que a metade em falta. Ainda muito em falta.

Vim até aqui tentando construir um controlo da minha metade vivida, sempre com alguém a contribuir, sempre com certezas de o resto nunca se revelar pior. Vim até aqui com o que de melhor fui tentando fazer, sabendo que não me queria comparar, excepto com o meu momento anterior, em que sabia menos, era menos conhecedor, era menos perspicaz, era menos inteligente, amava menos, era menos feliz e era menos realizado. Os dias por vezes, contradizem-me, arrogantes que são em tomar o controlo que queria meu, e em me deixar com muito menos certezas, ou mesmo uma grande dúvida.

Acreditar foi a melhor forma de generosidade que encontrei para com todos os que vim lidando. Confiar, seguiu-se-lhe. Contribuir, um desígnio. Partilhar foi um prazer. E há um tempo em que com todo o optimismo de que me gabo de ter, estas seguranças tremelicaram e fizeram vacilar.

Mas sei que a vida pela metade ainda tem de estar por vir. Mesmo tendo visto parte, dessa melhor parte. Só pode, pois o Plano era esse. O meu e o dos que assim aqui me deixaram. O plano era que as metades da vida não são iguais e não valem o mesmo, mas que temos todos de usar do nosso melhor para fazer do nosso resto de tempo, a parte significativa. Temos mesmo é de saber ler sinais, quando nos são apresentados e é tão nebuloso e desfocada essa indicação que nos surge. O meu lema tem sido o de que uma oportunidade só nos chega uma vez. E não sabemos bem qual delas, das diversas, era a escolhida e perfeita para nós.

Por isso nos enganamos, e por isso nada nos consegue ensinar a ver. Nada, nem ninguém. Mas há sinais, com frequência, e eu estou certo de ter visto alguns, ontem, hoje e amanhã outros poderão explodir diante mim. Devia ter estudado um outro curso, devia ter conhecido outras pessoas, outras mulheres, devia ter sabido fazer as coisas de outra forma, com tanta coisa e tanta gente. E provavelmente me foram dados fortes sinais e eu estaria a olhar para o lado. Esse movimento do pescoço que nos pode estragar toda uma vida. Ou, um olhar a fixar o que está errado, ou o que está mesmo certo, mas só nos pensamos ter visto.

Ficar com a vida pela metade sem a cumprir toda é que não pode mesmo ser. Nenhum livro nos ensina isso, ninguém nos indica isso, nenhum sinal pode ser tão pernicioso e maldoso que nos impeça de ver.

Não se pode mesmo.