31.8.14

Mudamos ou não?

Uma ideia recorrente que tenho vindo a ouvir, desde há muito, um pouco por todo o lado, é a de que ninguém muda. Querem, no geral dizer, "muda", ninguém muda para melhor. Se questionada a pessoa, sobre a eventual mudança para pior, confirma que se muda, só se muda para pior.

Sempre achei isto uma ideia fechada, exclusiva, fragmentária. Uma ideia segregacionista. Só se muda para pior. E, pergunto-me eu, se assim for, por hipótese, então o mundo só pode piorar, sempre. E a vida. A nossa, e a de todos, porque, afinal todos mudamos (para pior, hipoteticamente). Se se muda apenas para pior, a mudança nunca devia acontecer, não é necessária, não nos faz falta e até se deve rejeitar. 

No entanto, gostaria de relatar experiências pessoais. Em 1993 sofri um grave acidente automóvel, o meu carro tendo sido abalroado e catapultado para embater num poste de eléctrico, evitando o muro à minha frente. Não faço ideia, mas entre o embate no meu carro e o dele no poste, devem ter passado uns míseros milésimos de segundo, até porque a distância seria de uns vinte ou trinta metros no máximo. Nesse lapso de tempo, vi grande parte da vida a percorrer-me perante os olhos. Pensei na minha filha e minha mulher, e que iriam ficar sem mim. Foram pensamentos em catadupa, num exíguo espaço temporal. Mais tarde, li alguns relatos idênticos, e um amigo meu, contou-me um dia destes algo muito semelhante. O nosso cérebro parece criar uma defesa, uma seguro de vida instantâneo, que deve levar a recorrer a qualquer coisa que nos agarre à vida. 

Mas é sobre o processo consequente que me quero debruçar. Um processo de mudança que traz consigo uma força decisiva. A forma como nos agarramos à vida, após uma experiência destas, ainda que efémera, ainda que outras hajam que possam ter mais impacte, elabora uma mudança irreversível em nós. E é boa e é menos boa. Faz-nos, acho que me fez, ter outro sentido de necessidade, de urgência e do que nos é de primordial importância. Mas também nos dá um sentido de urgência, que pode ser bem prejudicial, porque os nossos tempos se desajustam ou não se conseguem ajustar, com maior frequência do que a desejada.

Mas não apenas os acontecimentos de violento e inesperado impacte, ou impacto, nos marcam, ou nos impulsionam para uma mudança. Experiências mais graduais e escalonadas no tempo, negativas ou não, podem operar mudanças. 

O meu ponto é que mudamos muitas vezes para melhor! Eu senti essa mudança em mim, trazida por acontecimentos e experiências nem sempre positivas. Não depende de nós, depende até muito pouco de nós. Pessoas e momentos fazem de nós pessoas distintas do que éramos. Piores, sim. E melhores também. Sinto aliás uma agradecimento silencioso a tais pessoas e momentos. Por vezes reconheci, agradeci, pour vezes, não o pude fazer, porque a mudança não era patente, ou porque o operador da mesma não se apresentava no momento.

Gosto de reflectir sobre alguns destes mitos, ou algumas vezes, provérbios, que são com frequência tacitamente aceites, pois normalmente é mais fácil assim, do que fazermos um pequeno exercício para por em causa ideias destas. E, sinceramente, sempre observei mudanças positivas em muitas pessoas. Também me pareceu verificar que a aceitação deste princípio, sem nos questionarmos, conduz a aceitemos piorar, como um processo natural. Ou, ainda mais complicado, confuso, a ficarmos sem perceber o que um, ou vários,  acontecimento nos fez, primeiro passo para um processo de incerteza e diminuição de capacidade de discernimento, prévio a um processo de decisão.


29.8.14

Processos mentais: o processo decisório, a Certeza, os Impulsos.

Este texto será uma tremenda confusão. Aviso ou advertência (não tenho a certeza...).

Há momentos que pensamos serem de reflexão. E há essa associação da reflexão ao consciente e, dizemos, decisão consciente, logo racional. Outros, serão de impulso, logo poderão ser menos racionais e pouco conscientes.

Mas talvez não seja sobre isto que quero escrever. E esta frase denuncia um processo de indecisão. Será esta consciente, racional ou inconsciente? E que ligação, julgamos nós ser identificação, há entre racional e consciente?

Gosto de evitar escrever sobre assuntos que tenha vivido pessoalmente, momentos e processos mentais inimistas. Mas já o tenho feito. Parece-me que expulso algum "demónio" incomodativo, embora o efeito possa ser demasiado efémero. E, se os escrevo, sinto estar a segui um impulso. Daqui, ocorre-me se um impulso obedece a algum processo, processamento, mental. E, se sim, qual o papel da mente consciente e do ainda tão desconhecido iceberg da nossa mente, o inconsciente, de onde pouca conhecemos, grande parte está submersa, mas é essa a parte que conta e faz danos em embates inesperados. Embates como os que sofremos quando assolados por acontecimentos inesperados. Depois deles. fica uma dor que não dói, mas que nos rói bem fundo e nos obnubila, impedido um mínimo de consciência, sempre necessária e fundamentalmente saudável.

A certeza. Vamos pensar um pouco sobre isto. Que é ter-se a certeza? De onde nos vem a ideia de que temos uma certeza? A ciência desenvolveu um procedimento próprio, designado de raciocínio científico, para tentar eliminar incertezas, em processos de investigação, de descoberta, de busca, de novos conceitos, de factos novos. Se o fez, e tardou muitas gerações de humanos a desenvolver o que hoje usa como procedimento rotineiro, foi por ter sentido, não racionalmente como se julga, a necessidade de transparência intelectual. O afastar da frente de obstáculos, mentais. Armadilhas, ou o que hoje se designa, na mais recente teoria que actualiza a Inteligência Emocional, como Inteligência Positiva, o mais recente processo de avaliação e procura de domínio pessoal dos nossos processos mentais, os Sabotadores da nossa mente. Sobre isto, voltarei mais tarde.

A certeza existe então? Sobre isso tenho dúvida, mas posso estar a usar um processo mental sabotado. Ou seja, tenho incerteza. Pessoalmente vivi momentos de certeza, até que a experiência vivida me confirmasse, de forma brutal e extremamente violenta, que as minhas certezas (a propósito este é um quase eufemismo, pois há certeza e não certezas, ou em si, estamos a sabotar, mais de uma certeza pode ser uma incerteza, contradição em si mesma, ou apenas forma de expressão dúbia ou ainda um lirismo da nossa expressão linguística, legitimo, obviamente), estavam, afinal, todas erradas.

Foi ter conhecido alguém há anos, que era uma certeza enorme para mim, não sei já porque prisma analisei, que factores mentais me sabotaram a clarividência (ou sei, carência afectiva, paixão, etc?), e que se veio a desvendar um oposto diametral do que eu vira. Não vira nada, claro. Mas foi um certeza e não de um momento, mas de anos. Possível, pois. E com tais erros, fica-nos uma dor muito íntima que nos fere o amor próprio, muito mais impactante do que um tremendo murro no estômago. Ficam marcas, que não merecíamos guardar. Muitas pessoas dizem uma coisa espantosa para mim: "ninguém muda". No que discordo com a experiência que tenho observado, e com a minha mesma. Quererão dizer que se muda, mas apenas para pior? Um pensamento tão ridículo, perdoem-me, que nem pensamento, para mim consiste. Evidentemente que mudamos, todos. E nos sentidos positivo e negativo. Horward Gardner um brilhante e fascinante estudioso da Mente (A Teoria das Múltiplas Inteligências, Cinco Mentes para o Futuro, Changing Minds) demonstra numa obra fantástica como a nossa mente pode mudar e como muda a dos outros, com a nossa. Claro que mudamos e até o fazemos, para melhor, com as experiências mais negativas.

A Certeza não é nada uma coisa definitiva. Por graça, e muito provocadoramente, costumava dizer a dois familiares de Ciência, investigadores, que a Ciência era uma verdade extremamente relativa, quando comparada com a Arte, por exemplo. É diariamente desmentida, nas suas tão sólidas certezas. E não conheço processos que mais tentem evitar incertezas, do que os processos científicos. Agora, imagine-se o que são as nossas certezas, em processos de profunda turbulência mental. Vivi e volto a viver essas experiências, ciclicamente bem mais frequentemente do que quereria. Porque somos mais do que nós mesmos, somos nós e todos os outros que estão connosco, ou por nós passaram, e vivemos os nossos processos mentais e o de todas essas pessoas. Tudo nos influencia, tudo nos faz mudar. Tudo, mesmo. E podem ter uma certeza (?), mesmo aquilo que a mente consciente não consegui "ver", também isso nos influencia e nos faz mudar. Sim, mudamos e muito e nem sempre para pior. Sabem que não conhecemos a nossa voz? O que ouvimos dela é fruto de som externo e interno e os outros ouvem apenas a parte externa da mesma. A nossa mudança como pessoas, a nossa forma de ser (!), muda mas grande parte é um processo tão interno e inconsciente que não conseguimos ter dele noção.

A certeza existe? Penso que pode não existir, excepto na confirmação tardia e irremediável com que a vida nos agride. Aconteceu-me. Como também o oposto. Ter a certeza de uma certa pessoa. De ser a Certa pessoa. Tive-a também e tive a confirmação. Mas a mente que avaliou uma e outra situação, uma e outra pessoa, é a mesma. Então, em que ficamos?

Durante muitos anos tenho reflectido sobre isto (reflexão? Consciente?). E adoptei uma estratégia. Evitar correr muitos riscos, lutando eu mesmo, comigo mesmo, para ir confirmando. Problema: se as premissas estavam mal identificadas, todo o processo analítico está sabotado. E levamos (levei) com o tal murro na mente. Os momentos de maior frustarão e sofrimento foram aqueles em que a minha certeza não conseguiu ser confirmada, porque não dependia de mim. E perdem.se pessoas tão fantásticas e únicas assim. Outras vezes, por pura sorte, digo acaso, foi uma dádiva e ou sabemos, ou nunca o saberemos. E vejam lá se não são mais incertezas...

Não está esgotado o tema, longe disso. Mas vejamos agora um outro processo, que habitualmente dizemos não ser reflexão. O impulso. De tal modo menosprezamos a sua natureza e o colocamos num nível inferior das nossas reflexões e atitudes, que tudo fazemos para o contrariar. E, no entanto, está muito presente e frequente em tudo o que fazemos. Podíamos dizer que o impulso cede forças na nossa mente, e que nos vem de uma natureza muito antiga, muito animal. É mais ou menos isto que pensamos dos nossos impulsos, quando dizemos "não vou ceder a este impulso". Devo dizer que os momentos mais maravilhosos que vivi foram fruto de impulso. Não só não me arrependo, como choro a memória deles. Queria-os de volta. Foram um impulso, querido impulso. Tudo o que depois fiz nem de perto teve o sabor do momento "irreflectido" do impulso. E, como todos nós, tento contrariar. Chego depois à conclusão que os momentos de felicidade quase transcendental que momentos de impulso me trouxeram foram de amor por mim mesmo, se também o foram por alguém. E falo de amor, em sentido lato, não apenas sentimental, mas também. Sim, queria mesmo ter impulsos, também os designamos de momentos de inspiração, como os que já tive e abraçava-os para que não me escapassem. Algumas vezes na vida os vivi. Noutros, é claro, vivi uma ilusão, ou sofri consequências deles. E...mais uma incerteza.

Por tudo isto, como saber, não é?

Pensemos um pouco mais além de nós. Pensemos em acontecimentos históricos, em decisões de grandes gestores, ou de políticos. São tantas as que se verificaram erradas e até perigosas que nem darei exemplos concretos. Todos nós conhecemos muitas dessas decisões, que foram erros monumentais, pela História documentados.

A Arte, no entanto, não procura essas certezas. Procura, apenas. Não tem de chegar. Apenas procurar. E vale por si mesma, sem necessitar de juízos de valor, excepto de se sujeitar a gostos e preferências. Como tudo. A Arte, provocava eu esses familiares há alguns anos, é uma forma de conhecimento bem mais perfeita do que a ciência, por mais absoluta. Não é assim, forçosamente, mas é uma diversão mental que me agrada. A Arte também sofre processo decisório e vive certezas e incertezas. Mas segue um caminho, tantos impulsos e ganha perfeição. E muita beleza! Imaginem quanta beleza viverem em momentos de grandes impulsos!

Há impulsos, que nos chegam em cadeia, que são negativos e perigosos, como os que levam alguém a fazer mal. Impulsivamente, quase instintivamente, em cadeia, o maldade é usada contra alguém, e nunca algo de minimamente racional, ou saudável acontece. E se forem perguntar, também sentem isso como certezas, sentem-no... com certeza. Triste sina esta...

Certezas não são eternas, alguém o disse. Incertezas, temo-las todos os dias. Impulsos, não são parente pobre da nossa mente e das nossas acções. Somos feitos de tudo isto, e tantas, mas tantas vezes, a nossa racionalidade, ou a procura dela, nos retira encanto e felicidade. Falo por mim. Sei do que falo...ou tenho mais esta "certeza"...


Cisne Negro

Parece que a teoria do Cisne Negro, de Nassim Taleb se aplica às nossas vidas. Taleb defende que (em economia) o que parece muito, muito improvável acontece mesmo. E que depois de acontecer, as análises que se fazem pretendem que ele seria, afinal, mais provável do que alguma vez seria possível.

Um dos casos apresentados é o do atentado contra as Torres Gémeas em Nova Iorque. Outra situação era a excessiva concentração bancária, que de facto levou a acontecimentos como falência do Lehman Brothers.

Nas nossas vidas, como na economia?

Pois, eu acho que sim. Há quem defenda que as coisas acontecem “se tiverem de acontecer”, ou acontecem “porque têm de acontecer”. Nunca fui apologista desta ideia demasiado determinística para mim, ou para a minha forma de estar. Pelo contrário, sempre me pautei por uma vida que é por nós mesmos determinada. 

Um dos problemas do determinismo, ou da sua forma mais obscura, é a superstição e o seu parente negro, as artes “negras”. Tendo ouvido tanta coisa nos últimos dias sobre este lado “oculto” das nossas vidas, que, para mim, sempre correspondeu a uma espécie de negação da inteligência, fico por vezes…um pouco sem solidez nas convicções, quando o “cisne negro” das nossas vidas, no-la ensombra com actos e com atitudes nunca esperadas. 

Continuo a negar um “oculto” que me parece uma criação da mente humana, como algumas outras crenças, mas há momentos em que reconheço que termos um recurso superior pode ajudar. Momentos de solidão inesperada, não apenas física, mas da que nos diz não termos alguém doutro lado que “comunica” connosco, ou nos quer, ou nos sente a falta. Ou, pelo lado do cisne, que alguém nos quer…fazer muito mal.

Não terá sido isso um pouco o que levou ao atentado ao Word Trade Center em NY? 

Haverá entres acontecimentos tão improváveis, apenas uma diferença de escala?

Por estes dias contaram-me de alguém, que conheci bem, que usa de “recursos negros” no intuito de desejar (fazer, não sei…acho demais) mal a alguém. Mas depois sei que esse alguém, potencial vítima de rituais ou interferências do oculto, até é mesmo vítima, em situações nunca esperadas. Um potencial cisne negro.

Este post tem a ver o o ser maquiavélico que ontem abordei. A pergunta mantêm-se: a quem serve uma maldade gratuita? E porque se dedicam algumas pessoas a práticas de intenção para causarem mal a alguém? Como retaliação, para que a “vítima” não consiga ter a sua felicidade, com outra pessoa, com a sua vida?

É uma improbabilidade muito possível? É um cisne negro? Ou uma predisposição será necessária, para que a potencial vítima seja de facto atingida? 

Será que um cisne negro atinge uma empresa inteira, como Taleb refere o Lehman? E se assim for e o determinismo nos comandar na vida, que faz a nossa própria cabeça o tempo todo?

Há até quem meta o Cosmos ao barulho e lhe dê emprego, como o fazedor de vidas e futuros.

Entre Cisnes, Cosmos e conspirações maquiavélicas, as crenças, a este nível, não religioso, podem ser efectivamente o perigo que nos espreita, quando menos espera.

Por mim, determinismos são uma postura perigosa.

Como se ouve dizer, “yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay…”. Ou então, a nossa rejeição de acontecimentos que não deviam ter acontecido, terá força para que nós mesmos determinemos o nosso caminho.

A uma escala maior, numa grande empresa, que significado teria, por exemplo num caso como BES?            

Aliás, nós mesmos podemos ser os cisnes como quisermos.

Penso que um bom princípio pode ser o esforço de não nos deixarmos soterrar em superstições e outros quejandos.

Cisnes Brancos, por favor e já! 

Quanto a estes, o problema é que têm de ser acarinhados. Taleb não se preocupa com estes. Os negros não são maus cisnes. Com branco e negro, o xadrez já pode começar.

 

 

 

28.8.14

Economia com Justiça Social

A Crise abateu-se sobre Portugal com uma força atroz e violenta, como em nenhum outro país europeu. Não bastam os comentários e elogios da nossa política, porque são sobre si mesmos, e porque pretendem justificar uma injustiça a que apenas escapam os mesmos que a crise alimentaram, dela vivem, ou com ela sobrevivem, sem grandes sobressaltos, e sem medo do presente e futuro.

Noutros países do Sul da Europa, a crise financeira, por razões idênticas nuns, e distintas noutros, e que ainda não foi totalmente superada, não tem os contornos que teve e tem em Portugal. Porque as causas, por cá não foram ainda desmontadas, e desintegradas. A nosso economia ainda continua na mesma linha de antes, em que a Banca a domina, e em que a própria sociedade no seu todo está em segundo plano.

Quando a economia devia servir a sociedade, em Portugal, temos a situação inversa. Este paradigma é a estrutura perversa que não nos deixa respirar ainda e nos estrangula o futuro. Porque a nossa política disto depende, porque os agentes políticos e económicos são os mesmos, com os mesmos interesses.

E de interesses se trata. Demasiados, com demasiados grupos, e mesmo que poucos, com a capacidade de domínio e estrangulamento de toda uma sociedade. Organizações pro-secretas, onde interesses mútuos se negoceiam e o controlo da economia se delineia.

Não há em Portugal uma genuína economia livre, nem muitas possibilidades de agentes novos no mercado se poderem desenvolver, sempre que interesses de grandes empresas e grupos quase anónimos se possam encontrar e, eventualmente competir. Estas competições são sempre desiguais, e perdem sempre os mesmos.

Mas há neste momento esperanças. Há grupos e programas de empreendedorismo social, que apostam num paradigma diferente, no sentido em que tenho defendido, precisamente para colocar objectivos sociais, pessoas, desenvolvimento real, crescimento, criação de riqueza concreta, e não concentrada nos mesmos de sempre, que farão surgir, esperando que vinguem, uma sociedade com outra justiça social.

Pena, por enquanto, que nem todos, por condicionalismo pessoais, os mais capazes se consigam inserir nesta nova economia emergente. Mas também podem haver esperanças, que se vão construindo.

É de uma nova economia assim, de um nova cultura social que Portugal precisa.

 

No coração da maldade

Durante séculos o Coração era o órgão do Sentimento. Com o tempo, o coração passou a órgão do Amor, o amor-amor, amor-carinho, amor-paixão, o fraternal e tantos amores que só para abordar o tema precisamos de um glossário. Há alguns anos abordei este tema, tentando explicar o que, para mim, consigo destrinçar entre paixão e amor. Há quem sinta amor apenas quando sinta paixão. Um paradoxo em si mesmo, ou talvez não. Há quem fuja da paixão, daquele aperto no peito, o formigueiro, o trabalho acessório, desnecessário e perturbaste dos intestino (telúrico e raquidiano, dizia um professor meu de Inteligência Emocional). Há que considere que uma é o princípio do outro, que são fases do mesmo processo (que não nos tira 'do sério', mas tira o sério). Deixo para mim a minha escolha pessoal no cartaz mais procurado do Universo.

L'amour...

E depois há o ódio e seu corpo físico, a maldade. O anjo negro do amor. 

Quantos de nós já conheceram esta face necrótica da vida? Todos pensamos já ter conhecido, uma ou outra vez. Lembro-me da Lei de Murphy, que nos diz que ...há sempre uma oportunidade para que algo que correu mal, venha a correr pior. 

Mas a maldade vem com gente anexa. Como o amor, mas a face...pode, precisamente, vir disfarçada do mesmo. Lembram-se do Fausto e de Mefistófeles? 

E com a máscara do amor, pode vir um Mesfistófeles refinado? Pois.

Será o ódio e a maldade a face oculta do amor, ou a sua transfiguração? 

E há um coração com maldade, ou maldade no coração? E no centro (coração figurado) há o quê. E o que se pode entender por coração da maldade? No seu mais íntimo, e mais íntimo mais perverso, mais maquiavélico (lá está! Maquievel foi um filósofo! E não pretendia ficar com esta marca de mau. Era um estrafega, infelizmente ao serviço de uma corte Papal onde a maldade era um jogo de crianças, os Bórgia. 

Já foram abordados por este mal maquiavélico nas vossas vidas? E saíram com vida? Sim, claro. Mas o ponto é que não saiamos diferentes do que éramos, quando para esse coração negro que nos abraçou cinzento e asfixiante, entrámos.


Essa a arte, que nos fará flutuar no outro lado. 

L'amour. O elixir que não é para quem pode, não para quem quer. Mas para quem consegue.
Parece que quem não sabe amar ao ódio se dedica. Bebeu um outro elixir, veneno dos deuses negros.


23.8.14

Fundamentalismo

fun·da·men·ta·lis·mo 

(fundamental + -ismo)

substantivo masculino

1. [Religião]  Doutrina que defende a fidelidade absoluta à interpretação literal dos textos religiosos.

2. Atitude de intransigência ou rigidez na obediência a determinados princípios ou regras.


"fundamentalismo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/fundamentalismo [consultado em 23-08-2014].
 
Ninguém aceita para si a esta definição. E…no entanto, para os que soubermos ser honestos, connosco, parece-me que teremos todos um pouco disto, uma vez por outra, num ou noutro assunto.
 
Será uma defesa, será um resguardo, um reduto pessoal, quando dele necessitamos. Mas nunca será a atitude que nos leva a “aprender” e “apreender o mundo”, através do “outro”. O maior perigo, está de ver, é em colectivo.
 
Porque num processo colectivo, que começa pela divulgação de uma ideia, geralmente que rompe com o habitual, com uma rotina, uma tradição, ou costume apenas, mas que parte da identificação de uma eventual necessidade, melhor, de uma espécie de queixa ou descontentamento colectivo, um mal-estar social, ou nacional, partindo então para a instituição de uma ideia “revolucionária” e, depois para a sua divulgação, contagiando, como meio necessário, um vasto grupo social, com o objectivo último de alastrar a toda a sociedade. Ou mesmo cultura.
 
Num processo destes, que leva sempre anos a construir-se e ganhar visibilidade, condição essencial, a dada altura a sua sustentação é alimentada já pelos elementos contagiados. 
 
A História recorda-nos tantas situações destas, muitas que ganharam tal peso que levaram a catástrofes humanitárias e a genocídios. Estes processos, diferentemente de algum que se forme em nós, de intransigência ou rigidez, na obediência a regras ou princípios, nesse caso pessoais, o que se poderia designar uma nuance mais frouxa de fundamentalismo, ou menos radical, sem eventual quadro psicológico grave associado, alimentam-se, os processos fundamentalistas colectivos, muitas vezes, de uma aversão ou um ódio visceral a um outro grupo, sociedade ou cultura. 
 
Num processo pessoal, que não se reveste da mesma índole doentia, mas ao nível de desenvolvimento pode tornar-se prejudicial, ainda que temporário (observei-o em uma ou outra empresa, e parece-me identificável a nível de personalidades públicas, políticas ou não, com a arrogância, altivez, sobranceiras normalmente inerentes, o pior é a surdez aos outros, a cegueira a uma realidade. Mas o processo fundamentalista colectivo é que se torna preocupante. 
 
É um fenómeno de massas, onde haverá sempre alguém a dado momento a querer impedir a sua desintegração, ou dissolução como fenómeno, a quantidade de contagiados é a maior barreira. Quer durante o tempo em que ele se alimenta a si mesmo, como se de uma doença física contagiosa se tratasse, quer mais tarde, quando surgem sinais de vacilação entre os membros de um grupo que o mantém, ou influências externas que o pretendem contrariar.
 
O grande perigo é nunca se saber como e onde “atacar” um grupo destes, com medidas de “contra-informação”, de “esclarecimento”, de divulgação de outras realidades, que dispensam a continuidade do processo fundamentalista, e são mais saudáveis e benéficas para todos.
 
Para melhor ilustrar o problema, pensemos na Alemanha de Hitler. Num processo que começou com as consequências para a Alemanha após o Tratado de Versalles e as reparações-indemnizações aos países da Tríplice Entente. De uma forma muito resumida, Hitler usou a se favor, do fundamentalismo que queria instituir, o descontentamento dos alemães, contra as resoluções do referido Tratado. Mais tarde, usou os Judeus como bode expiatório e solução para os emergentes problemas económicos, indo ao pior que tem a raça humana, quando o ódio se torna colectivo e todos o alimentam. O genocídio mais conhecido da História, talvez não o mais extenso, pois não se conhecem em detalhes e repercussão, ainda hoje os praticados por Estaline e Mao. E provavelmente outros, antes e depois destes.
 
A História não é perfeita, e ela mesma é uma conhecida vítima dos actos fundamentalistas.
 
Mas talvez o mais grave dos fundamentalismos seja o religioso, objecto de uma definição específica, como se viu acima. Referi o quase-fundamentalismo pessoal, assim mal definido, injustamente até, porque o colectivo surge, a dado momento, apenas numa pessoa, depois num grupo e uma sociedade. Felizmente que as nossas intransigências ou rigidez são de menor importância, no tempo e na extensão (danos normalmente para o próprio, talvez mais do que para outros). E nunca são o perigo de intransigências colectivas cegas e contagiantes.
 
O fundamentalismo religioso usa de convicções fortes em casa pessoa, de crença sólida e de medo dos outros, como se de uma ameaça a si se tratasse. É, pois, fácil de usar este receio ou medo, uma vez que a crença é um fenómeno de escolha e de procura, um fenómeno muito pessoal e íntimo alicerce de uma forma de vida. As pessoas que conheço com maior honestidade religiosa (quase todas as que conheço que são crentes) são boas pessoas. Não somos bons em tudo, óbvio. Mas de quem conheço, daria tudo para as defender, não sendo eu religioso. E o fundamentalismo religioso usa precisamente esta bondade, esta quase-ingenuidade por opção pessoal, ou melhor esta vontade de que cada um com a sua acção possa fazer um pouco, num cantinho qualquer, para tornar o mundo melhor, para tonar o mundo de alguém melhor, e para sentir também uma base, um Reduto seguro, uma Força, nos momentos mais difíceis, tanto quanto (já nem todas as pessoas) se sentirem agradecidas a um Deus, um “Ser” (Entidade) Superior, pelo bom que têm na vida, pelo que conseguiram, pela Felicidade atingida. O perigo, penso eu, a este nível pessoal, é deixar esta enorme carga de responsabilidade num Deus ou Entidade Divina, ou viver com uma resignação, que não faz parte da estratégia mental e de vida de um não crente, ateu ou agnóstico. Mas no fundo é outra coisa, que não um perigo. Ao que eu posso chamar de perigo, quem é religioso chamará de “porto seguro”, pela total confiança depositada no seu Deus.
 
Este não é assunto fácil, é fracturante, e polémico, e muito haveria a dizer, obviamente, correndo o enorme risco de uma análise demasiado simplista, mas não simplória, demasiado injusta também, mas parece-me importante nesta minha reflexão, pois o Fundamentalismo é afinal uma outra religião em si mesmo, que usa a Religião de um povo para o usar a ele, e atingir o fim do Domínio do Poder absoluto.
 
Não é, de certeza, a crença sólida numa religião, num Deus, como os normais que somos teremos, que conduz ao fundamentalismo religioso. É o uso pelos fundamentalistas, dos normais e mortais crentes, que os move e os identifica até. Não são os crentes os “culpados” de existirem estes fanatismos religiosos. A natureza de uma crença religiosa é exactamente contrária a qualquer fanatismo. Embora possa parecer muitas vezes o contrário. Aconteceu também com Thomas More, e Cromwell, numa Inglaterra que dava os primeiros passos para uma nova reflexão religiosa, mas onde algum fanatismo, ou fundamentalismo levou a perseguições e torturas. Aconteceu em Portugal em Espanha, com os Judeus. Contra os Judeus. Judeus que ainda hoje fazem uma análise histórica de povo perseguido, usando também eles agora de um outro fanatismo fundamentalista.
 
O Ocidente, onde as sociedade têm estado mais abertas (resta lembrar que foi a Cisão de Lutero que iniciou a reflexão, há quinhentos anos, para esta espécie de liberdade religiosa, onde é livre de o ser quem queira, e livre de ser descrente, ou ateu, quem o queira, mas obviamente sendo a religião um dogma, não se consegue ser religioso e constante crítico da mesma. Pode-se ser da entidade, da organização, da Igreja, ou da forma religiosa, do culto em si, mas não da essência) tem sido o alvo natural do fanatismo dos países onde o poder é religioso, fundamentalista. O Ocidente, assim definido um conjunto de países atípicos e não unos, mas com uma raiz cultural comum e até cristã, tem actuado muito pela força, das armas, em situações emergentes, e muito pouco na procura inteligente das raízes do fenómeno, e das estratégias mais adequadas para contrariar um fenómeno que ainda é crescente, quando se pensava estar debilitado pelas guerras dos últimos anos, e será ainda mais perigoso, para as próprias sociedades onde está implantado e para todas as outras, que sirvam o objecto do ódio colectivo, para assim manterem sob medo as suas próprias sociedades.
 
Outros factores podem tornar este fenómeno crescente numa ameaça dentro dos próprios países europeus e na América. O êxodo também crescente, dos países da região sub-saariana, e da própria Ásia islâmica, por razões de subsistência, cresceste desertificação, escassez de alimentos e ameaças à segurança pessoal e civil. Este tema, muito estudado por um reputado demógrafo alemão, não tem tido a atenção devida nas instituições europeias. Há alguns anos foi divulgado esse estudo, que agora não consigo identificar, onde se alertava para uma possível futura Europa com uma muito significativa população de culto islâmico. As populações dos países islâmicos não são radicais religiosos fanáticos. São pessoas normais, vítimas nos últimos anos de movimentos, esses sim radicais, que gradualmente têm manipulado os mais convictos da sua crença e contagiado pouco a pouco, com eventuais ameaças a início, e evidentes mais tarde, gente absolutamente normal, com a grande diferença para as nossas sociedades, de serem povos oprimidos durante quase toda a sua história e, ainda hoje, em países produtores de petróleo, passarem privações terríveis, viverem em condições desumanas, e até fome.
 
A estratégia do Ocidente para eventualmente conseguir estancar este fenómeno que alastra, tem de ser outra, e talvez passe pela identificação rigorosa das suas raízes e móbeis, e a implementação de novas medidas, que nunca a guerra generalizada. Os povos sob alvo, ainda sofrem mais, e as soluções nunca serão alcançadas. 
 

21.8.14

Desfiando novelos

Temos uma natural tendência para procurar razões, motivos, causas e origens para muita coisa. Queremos, histórica e hereditariamente saber porquês de quase tudo. Excepto o clube de futebol de eleição. Neste caso, normalmente, nunca nos questionamos.

Nos acontecimentos destes últimos anos e meses, há quem se ponha a discutir as razões que assistem a uns e a outros, para justificar um dos lados do actual conflito entre Israel e a Palestina do Hamas. Como membros de uma cultura ocidental, de matriz cristã e europeia, pode haver um inconsciente colectivo que nos impele para condenar palestinianos, e justificar Israel. Ou, pela saturação a que nos conduz esta permanente incompreensão, sobre como um Estado que tem um enorme potencial bélico (a que foi conduzido e condicionado, pela defesa dos seus, perante a constante ameaça a que está exposto), e a sua também raiz cultural ocidental, tendemos a condenar Israel.

É algo que se insere na nossa tendência de justificar o quase, ou totalmente, injustificável. Neste conflito, temos dois povos que todos os motivos têm para uma saudável convivência, onde muitos elementos dos mesmos a praticam, casando-se entre eles, desafiando fronteiras, numa miscigenação improvável.

Mas o meu ponto é o mesmo que me surge quando se menciona a “razão”, numa simples e até pacífica discussão. Momentos em que orgulhos e barreiras, defesas pessoais e dificuldades intelectuais, nos conduzem à recolha ao nosso reduto protector pessoal. Ter razão é um reduto que pode a nada nos levar. Prefiro muitas vezes não a ter, mas conseguir ir até o meu objectivo me determinar. Atingir um objectivo, deixando cair o “ter razão”. Numa outra escala, que exemplifiquei com o conflito na Palestina, ou que posso também lembrar com as nossas políticas, aliás politiquices, nacionais, desde a origem verdadeira da crise profunda em que estamos, a outros acontecimentos mais ou menos recentes, como o caso BPN e BES, ter razão, ou apenas querer procurar as causas, origem, não têm sempre de ser o nosso móbil, se a dado momento, e não apenas por isso, essa demanda nos deixa num impasse.

Procurar saber o objectivo a que nos propomos, que seja imbuído de toda a sensatez, e muita humanidade, de altruísmo até, de razoabilidade na decisão, e que leve a um patamar de felicidade e tranquilidade, a nível pessoal, quando o for, ou a uma paz e prosperidade, quando a nível social se tratar, seguido de uma forte determinação, convicta, no sentido do atingimento do mesmo, parece-me bem mais saudável, sensato, inteligente mesmo. Ainda que sem se ter razão (certo ou não, muitas vezes prefiro não ter razão e perseguir um objectivo que identifiquei me interessar e me treze vantagem. Tento, quando possível, apenas, não prejudicar demasiado alguém), ou por outro caminho intelectual, ainda que sem exaustivamente se procure o motivo, ou a origem das coisas.

Obter uma solução, e perseguir o seu sucesso. Mas nunca uma decisão má. Em tempos, tivemos um Primeiro ministro de muito má memória, que repetia ser melhor ter-se uma má decisão, que decisão alguma (ele dizia “nenhuma”, pois nem português sabia…não sabendo o resultado de uma dupla negação). Por esses dias, surgia-me uma urticária emocional com tal pensamento. Uma decisão só “pode”, ou só “tem” de ser boa. Não pode haver uma má decisão. E não digo com isto que não existam imensas, demasiadas vezes.

Não há, em geral, forma de se saber se a decisão é boa, ou não. Mas algumas vezes há. Identificamos elementos que a tornam convictamente segura e boa. A nossa convicção, reforçada pela experiência pessoal, ou colectiva também,  a observação, emocional e racionalmente fundamentada, e uma  boa reflexão, fundada em sincero bom senso, acrescida de uma capacidade de pensarmos "de novo", de forma "inovadora", out of the box, como me parece ser a lacuna nos casos que mais mediatizados conhecemos. O conflito entre Israel e o Hamas, os "casos" nacionais, as crises económicas e a tão exausta, esgotada, crise de definição de princípios para a nossa Educação, tal como para a Segurança Social, a Saúde, a Cultura e o Desígnio nacional no seu todo. Continuo a pensar e a constatar que temos sempre regressado aos mesmos pressupostos, tomando decisões com o mesmo valor, ou que ao mesmo resultado conduzem. Na Educação, o pressuposto profissional, e as (mal) identificadas tendências das economias, portuguesa e internacionais, tomando como certas as premissas de uma necessária aposta em tecnologia, em áreas científicas e tecnológicas. Só para se perceber, há "mercados" com valor próximo ou superior aos diversos mercados tecnológicos, um deles a pornografia que, no entanto, não devem ser uma aposta nacional. Até o "mercado" religioso e, um em que alguns portugueses duma suposta e muito referenciada elite, financeira têm apostado: o mercado maior do mundo, o das dívidas soberanas dos países. Do qual somos uma das maiores vítimas, tendo-nos colocado muito a jeito, com toda a teia de interesses, falta de transparência, ignorância colectiva, e cumplicidade política que permitimos. Mas a Educação, regressando ao meu ponto, deve apostar na nova tendência, em clara ascensão, a que nos chega como sendo Era Conceptual, onde as artes, a criatividade, uma nova cultura económica, com fundada ou apoiada por conceitos artísticos, inovadores, trazem para primeiro plano áreas profissionais antes neglicenciadas: design, pintura, música, artes performativas, arquitectura (com novas tendências, abrangendo conceitos de sustentabilidade, integração ambiental, casas inteligentes e energicamente sustentadas, hoje ainda nicho de mercado, ou para elites com grande capacidade económica). Mas outras áreas ganharão interesse e visibilidade: a da Língua, escrita, hoje martirizada e ofendida com um Acordo Ortográfico tão desnecessário como estúpido, feito por apressados ignorantes, com o concreto objectivo de servir um certo interesse económico.

São estes interesses económicos concretos e o desvario, ou desnorte, que nos tem conduzido a esta perda de identidade, a esta vida social nacional sem rumo, mas muito bem aproveitada por gente sem nível, e com intenções criminosas, como os gestores de um BPN, BES ou BPP, e muitos políticos em conluio

Muita responsabilidade nos assiste, a cada um de nós. Num processo que começa em maus pressupostos, segue por identificação e apego a causas das coisas (vide Esteves Cardoso, in a "A Causa das Coisas") que a nada interessam e muito nos prejudicam, e terminam em más decisões. Como a de nada fazermos, cada um e todos como sociedade.

Causas, razões, motivos…e decisões. Na política, na economia, e nas nossas vidas pessoais, estão a todo momento presentes ocupando-nos muito cérebro activo. Muito tempo, muita energia e confundindo-nos ao longo de dias e semanas. Mas tantas vezes as respostas estão bem à nossa frente, não as vendo, ou não querendo ver. Seja porque a procura das razões o não permite, seja porque o nosso esforço é sabotado pela nossa própria mente, e por não querermos dar oportunidade a pensamentos, e soluções eventuais, alternativos. Por uma recusa interior nessa por alternativas, ou por as não pesarmos por igual.

Observo na política esta doentia tendência, mania mesmo, pela dicotomia direita-esquerda, tanto como a da defesa de um “clubinho” que há muito não é um Partido, ou menos ainda uma ideologia. As ideias e ideologias seriam o nosso alicerce fundamental, se por um lado existissem, se por outro, fossem coerentes e vivessem uma sensatez que não se lhes consegue reconhecer. Ficam as defesas de clubinhos e  interesses muito mais pessoais que colectivos. Fica a politiquice saloia.

Na generalidade, quase todos os acontecimentos recentes, nacionais e internacionais se tornaram incompreensíveis, e talvez nem tivessem de ser compreendidos, mas por vezes, apenas, a procura de solução devesse ser a única motivação.

Por estranho que pareça, também as nossas decisões colectivas padecem deste condicionado estado mental. E cada um de nós afecta a sociedade no seu todo, e a condiciona.

Quando uma sociedade não consegue compreender (há uma forma de compreensão social?) que o tempo se lhe escapa para tomar uma atitude contra os assassinos do seu futuro. Quando agentes económicos pervertidos por uma lógica criminosa, não entendem o evidente significado das más decisões.

Há novelos bem impossíveis de desfiar. Mas outros há que não o precisam de ser. A causa que cada lado alega num conflito bélico, pode nem ser o mais importante, excepto se ele é perpetuado, pelo interesse em si mesmo na sua continuidade, claro. Mas se se procura uma solução através dele, mesmo com o pensamento de ser inevitável, talvez nos deixemos enganar, e não nos permitamos encontrar outras soluções.

Há, para mim, novelos e enredos mentais que se devem deixar como estão. E não é fácil. Mas necessariamente possível.

A Causa de muitas (das?) coisas

«Há uma instituição portuguesa que é única no mundo inteiro. É o "já agora". Noutras culturas, tratar-se-ia de um pleonasmo. Na nossa, faz parte do pasmo.O "já agora", e a variante popular "Já que estás com a mão na massa...", significam a forma particularmente portuguesa do desejo. Os portugueses não gostam de dizer que querem as coisas. Entre nós, querer é considerado uma violência. Por isso, quando se chega a um café, diz-se que se queria uma bica e nunca que se quer uma bica. Se alguém oferece, também, uma aguardente, diz-se: "Já agora...". Tudo se passa no pretérito, no condicional, na coincidência."
Miguel Esteves Cardoso in “A Causa das Coisas"

Mas há muitas causas e ainda mais coisas. Há as causas de um conflito entre dois povos, duas nações. A causa da actual guerra pro-fraticida Israel-Palestina/Hamas (apetece-me esta provocação, aos dois lados, que, de facto, nunca entenderam quão irmãos são). A causa, de uma dívida colossal, como as dos países mediterrânicos, que nunca é a causa oficialmente debitada, pelos moralmente débeis e perversamente não assumidos, centro-europeus. A causa de tanta coisa. De tanta desgraça dentro das nossas empresas, onde gestores, administradores, chefes e patrões, encontram causa, em nichos secretos de procedimentos atitudes e pessoais, que sé eles conseguem ver. 

De coisas menos boas, a más. Porque do que é bom, pode-se até procurar a causa, mas nunca nos preocupamos muito com essa demanda. Do que é mau, nos afecta, afecta muita gente, milhares e milhões de almas desgraçadas, normalmente…a causa até será outra.

Normalmente a “Causa” é a justificação, consciente ou inconsciente para se justificar o impossível de justificação. Normalmente, a causa é outra. Como o “queria” e não o “quer”. De facto, muito fado, muito nacional. A falta de assumpção da responsabilidade própria, também uma Causa nacional. Um desígnio português, sei lá. 

Pense-se na verdadeira causa deste conflito israelo-palestinino. Ou, faça-se melhor, esqueça-se a causa e pense-se na estupidez da coisa, que se liga à monumentalidade dos crimes de parte a parte. E em vez de termos a causa, procure-se a solução, sem a coisa na cabeça. 

É um pouco como a preocupação com a razão que se procura ter. Numa conversa, numa discussão, num diferendo, num conflito. A razão ou a procura do objectivo? Eu prefiro sempre saber se tenho um objectivo e procurar lá chegar. Menos, a razão, tê-la ou oferecê-la a quem a desejar. Ganhar a razão, sabe a pouco, é como a masturbação versus o prazer intenso a dois. Um consome-se, o outro perdura e fica memória. Como a razão e o objectivo. Quantas vezes perder a razão e atingir o objectivo, tendo outra pessoa a dita do seu lado, é a diferença entre avançar e conseguir, obter realização positiva, versus ficar-se com a sensação do prazer pequenino.

A causa nem sempre se deve procurar, mesmo quando temos esta tendência (muito minha, grande defeito, de tudo procurar explicar). A razão, talvez ainda menos. 

Dizemos queria, e não "quero", como refere Esteves Cardoso, um homem inteligente com uma capacidade lúcida de analisar o mundano e o contemporâneo social. Mas "queria…é desejo, ou sonho. Não é mau, mas sabe a pouco, e é condicional. Quero, é uma ordem que o nosso cérebro nos permite, na senda do sucesso. E é presente. 

“Já agora”…"eu queria"... Mas acontece que, também "quero", ou devemos "querer". Esbarra-se com tantas “causas”, “querias” e uma inexplicável cultura de resignação, ou mesmo de escolha pelo sofrimento colectivo, que até a linda “saudade” que nos move (ou não) que nos confunde pelo caminho. 

“Já agora” eu queria saber mesmo a causa da crise no BES. A da criminosa actuação no BPN, e no BES. A causa de tanta dívida nacional. A causa de tanta gente que enriqueceu ilícita e injustificadamente. E tantas, tantas mais causa. que já nem me lembro o que causou este texto a necessitar de uma forte desfibriliação mental.
Deve ser por uma causa qualquer...

(Nota: o título gostaria de glosar com uma expressão recentemente adquirida na língua portuguesa, que me provoca uma nova espécie de urticária, impossível de contrariar: o "muitas das vezes", em vez do "muitas vezes". Lembra-me outra....a contratualização, e não a contratação...irraaaa!)


10.8.14

Da matéria inexplorada à mente (ainda) desconhecida

Séculos de Pensamento, de Investigação, desde a aurora da Ciência, e da combinação dos dois, ainda nos deixam provavelmente no adro da nosso templo cerebral.
Razão, Pensamento, Racionalidade, Consciente, Inconsciente, Emoção, Predisposição, Indisposição, Saciedade, Felicidade, Saudade, Desespero, Percepção…as maiúsculas para que tudo tenha uma relevância do mesmo valor no ponto de partida.

Não foi difícil, há milhares, ou milhões de anos, para o primórdio humano, o protótipo do que somos ter percebido a sua diferença quando comparado com os animais (que dizemos irracionais, mesmo agora em que se relativa a racionalidade, perante a emoção, o poder do inconsciente sobre nós, se descobre um pouco mais a forma como o cérebro funciona, como entendemos o mundo, como pensamos e como decidimos).

Está a ser muito mais difícil entender outras vertentes, natureza mesmo, do nosso cérebro, e como se diferenciam conceitos, de forma cabalmente compreensível (já nem direi cientificamente) como mente, pensamento, inteligência.

Um tema muito actual é como se forma um pensamento. Antes ainda, como se armazena uma memória, a mais simples, de uma cor, forma, cheiro (mais complexo). Como é que uma estrutura física elabora? Elabora o que vemos, primeiro, elabora o que pensamos ter visto, o relaciona com esse banco de dados incrível da nossa muito poderosa memória - associar um odor, de muito fugazmente sentido, à passagem de algo ou alguém, a uma sensação, uma outra pessoa, um sentimento mesmo…parece simples, não? E se um odor nos suscita, subitamente um sentimento muito intenso, de euforia, de alegria, ou de nostálgica tristeza?). A capacidade de elaborar analogias, uma arma terrível que nos condiciona, entre tantas, "para o bem ou para o mal”.

Sabemos que inconsciente, hormonas, química em geral, e processos elaborados, nada simples, como aversão, predisposição, mesmo a aparente indiferença, que teve de passar por um processo mental, também ele elaborado, onde as analogias, se fazem sentir, são tudo construções (não digo virtuais, mas efectivas e relevantes, de valor positivo e da sua negação) da mente. Mas até chegar a isso, como funciona o órgão que nos controla?
Como se tem uma predisposição para amar? Até temos por vezes, por várias vezes no percurso da vida, a noção bem real de não termos qualquer predisposição para tal sentimento tão humano, quanto envolvente, dominador e compensador. E como o percebemos, até? Como é que a nossa fantástica mente nos abre uma porta que estaria encerrada? Apenas sinais exteriores? Mas…vamos mais ao fundo? Se pudéssemos visualizar a nossa própria mente, ou de outrém, apenas conseguiríamos ver estruturas. Mais profundamente, poderíamos ver a constituição das mesmas, por outras de menor dimensão, mas não menos importância. E ainda mais em pormenor, a química de que tudo isso se constitui…
Pois! Como é que um conjunto muito elaborado de substãncias, químicas, numa arquitectura física, nos premeiam com pensamentos? Com capacidade de armazenar o que nos chega dos sentidos, que depois é comparado, e depois é comunicado a alguma parte do corpo o resultado desse conselho de administração dos sentidos e sensações, de aversões, de predisposições, de prazeres ou de recusas…e nos leva a uma atitude, ou à ausência dela?

Matéria, como a das pedras, dos minerais que as constituem, das plantas, da água, do ar, dos outros seres vivos ou do mundo que conhecemos, vivo ou inorgânico, numa muito complexa arquitectura nos leva a …odiar, detestar, gostar, amar, adorar…sentir, ser indiferente, reflectir (com maior ou menor influência do consciente, do inconsciente, e influência temporal de outras misteriosas substâncias, como as hormonal, ou ainda de reflexos e posturas psíquicas), ser impulsivo…vem-nos de matéria e se faz “ao mundo” de uma forma ainda muito misteriosa.

Fantástico mundo da mente, mesmo quando escrevo isto. Fantástico, poderoso e até intimidante. Mas fascinante, seguramente (interessante palavra, esta).

E depois ainda queremos entender-nos a nós mesmos, sobre simpatias, antipatias, paixão, raiva, amor ou ódio.

Napoleão tornou famosa a expressão: “soldados, do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”, quando em Gizé, eternizava a sua chegada e conquista do Egipto.

Imagine-se do alto da nossa “pirâmide mental”, desta catedral, a maior do mundo, com muito mais de quarenta séculos de evolução (que lentidão…) o que nos levaremos, nós mesmos a dizer...

Catalunha e BES

Durante anos ouvi a doutrina da "Catalunha exemplar". Trabalhava na altura, por volta de 1997, numa multinacional alemã, onde antes, de 91 a 97, dependíamos directamente da Alemanha, e passámos, após uma "restruturação" das que na altura estavam em moda pela Europa e pelas maiores empresas europeias (organizar cluster de dois a três países, uma moda peregrina...), a depender da "eficiente e hiper sapiente Barcelona". Um desastre total. Nunca vivi tamanha incompetência, de gente que se julgava superior, bem preparada e muito profissional. Tudo mentira do pior nível. Não falavam quase nenhum idioma que se entendesse, eram pueris em tecnologias e uso de informática e, ainda pior, eram hilariantes em teorias de marketing. E...nunca aceitavam, ou aceitam que alguém 'de fora', mesmo de fora da Catalunha, mas de Espanha, tivesse uma opinião, excepto contribuir para um ego muito imerecido.

Anos mais tarde, tive um chefe catalão, novamente numa empresa, outra, alemã. Era socialista, um apoiaste e admirador do Grande Jordi Pujol. Pujol! O homem que tudo fizera pela Catalunha, exacerbando o nacionalismo catalão. O homem a quem a Catalunha deve tudo...e agora também se ficou a saber, que deve também...a mentira, o roubo vergonhoso aos catalães, de milhões de euros, depositados na Suíça. Por parte de quem nem de tal precisava, tendo nascido rico.

Jordi Pujol, o Grande Pujol. O grande ladrão, tão falso como a própria Catalunha, que do 'alto' da sua grandeza...nada é mais do que o resto de Espanha, ou de alguma outra região europeia. Apenas mais uma mentira no mundo europeu das mentiras. Este homem recebia comissões por todos os negócios contratados pelo Governo da Catalunha. A extensão da sua corrupção põe em causa muito argumento sobre Espanha, regiões autonómicas, e sobre o Socialismo democrático, neste caso independentista. Põe em causa a falsa verdade de que a Esquerda é pura e limpa e nunca corrupta, como os 'nossos' queridos PS's por cá nos querem fazer crer.

E...por cá. Até assusta, mais do que surpreende, a campanha acelerada e forçada de muitas personagens do PS na sua desesperada tentativa de se distanciarem de Ricardo Salgado e do seu famigerado, outrora dourado e rigoroso, perfeito e magnânimo BES e GES. É tal o esforço, o quase desespero, de tentativa de colagem de um BES muito amigo de Sócrates ao PSD que o cheiro é pior do que o de Veneza em Agosto. Ou das nossa ribeiras onde tudo se verte...

Pujol e Salgado. Dois, outrora, monstros sagrados, que pareciam tudo fazerem perfeito e intocáveis se  configurarem, que hoje nem se percebe bem a necessidade de correrem para o abismo da má fama e desgraça pessoal total. Não se percebe esta vertigem pela decadência, em gente que nem disto precisava.

Mas percebo uma coisa muito bem, pois a digo há anos em excesso: a confiança em gente "superior" deve se muito inferior à que se tem por uma vaca louca no cio...levam tudo à frente e a cegueira, não lhes permite ver que praticamente nada fazem de bem ou correcto. E à sua volta, praticam a 'terra queimada', sem algum escrúpulo.

Outra vez Joseph Stiglitz, de memória, sem rigor na citação: Os directores executovos dos Bancos, que antes eram respeitados pela sua elevada gestão, usaram da poupança conseguida nos despedimentos de colaboradores normais, para poderem usufruir de prémios milionários, no momento da queda dos seus bancos, queda essa fruto da sua péssima e incompetente gestão. Prémios descomunais, para quem gerou prejuízos descomunais, à custa de desemprego de gente normal e provavelmente muito superior, humana e profissionalmente.

Foi também assim no BES e no GES. Foi também assim na Catalunha com a corrupção activa de Pujol. Corrupção que é sempre, onde existe, e existe em todo o mundo, sem excepção, o maior dos custos suportados pelos contribuintes. Nem mais!

E não estou a falar apenas de sector público, como se vê, como Pujol. Mas também, e em muito maior escala, podem crer, do sector privado. Conheço casos concretos. Onde trabalhei. E ainda hoje se gabam de serem os mais inteligentes e competentes gestores...mas penso que o tempo, o tempo justo, acabar por nos chegar a todos. Usam da pressão de falsos processos disciplinares, para empurrarem gente competente, séria e profissional para fora das suas empresas. Usam de todos os recursos, legítimos ou não, mas sempre injustos, para assim poderem ter gente apenas 'sim-sim', sem espinal medula, ou sombra de carácter, sob total controlo. Irão destruir anos de crescimento empresarial e perder absolutamente tudo. Excepto uma fortuna pessoal criada com o sangue e sofrimento dos outros. Gente-réptil, merecedores do maior desprezo humano. Irão tê-lo, mas rir-se-ão quando estiverem numa bela praia, num belo resort de luxo...

3.8.14

Sob a copa das anoneiras

Há árvores que nos dizem mais do que outras, nos impressionam pela sua dimensão, pela forma da copa, do que ela abraça. Imagino, como li em Steinbeck, a copa de um enorme carvalho, que é de facto uma bela árvore, um verde límpido e vivo, luminoso aos raid de sol que tentam penetrar.
Uma anoneira grande, de muitos anos, é uma árvore imponente, Não tem o belo de um carvalho nas suas folhas, ou tronco. Mas no verão, os muito poucos raios de sol que se aventuram a chegar ao solo, após ultrapassarem a densidade das suas folhas, ganham um valor especial, e constroem uma teia de pequenas pérolas luminosas, para quem está deitado no solo a admirar tal espectáculo. Também nos oferece um aroma que poucos outros seres vegetais têm possibilidade.

Era debaixo de anoneiras que os meus pensamentos, as minhas leituras também, ganhavam a serenidade que esses dias de criação de um mundo que eu ainda não sabia existir, tomavam forma e corpo.

Mas numa dessas tardes, a minha avó passava por baixo de uma copa densa de uma das suas enormes anoneiras que ela tanto amava, e tropeçou num baixo murete, pequena fronteira entre um caminho de cimento recto que começava no portão da casa e terminava no fundo do nosso quintal. Caiu e fracturou umas costelas. Na altura, a fractura ainda não lhe retirara o génio e energia que nos oferecia quotidianamente. Dias depois, porém, tudo se começou a alterar, quando nos demos conta da razão da queda ter já sido um AVC que a veio a deixar agarrada ao seu quarto, definhando pouco a pouco.

Os meus avós eram os donos da casa. Uma casa grande, com quartos enormes. O dos meus avós era um quarto onde tudo cabia, para além da cama, uma mesa central e cadeiras, um sofá (canapé), um grande tapete, imitação persa, na parede, dois grandes roupeiros, e duas mesas e toucadores. O espaço entre tudo isto era um outro quarto à dimensão de hoje. Aquele quarto e o dos meus pais, seriam hoje um apartamento, no mínimo. Mas o espaço do quarto dos meus avós, seria pequeno para os últimos dias do fim da sua vida, viera eu a perceber mais tarde.

A minha avó era uma mulher inteligente, de carácter muito difícil e temperamento duro, ríspido. Levei anos a perceber porque era ela assim. E quando acho ter percebido, dei-me conta de que ela tinha sido uma influência decisiva na minha vida, nem sempre pelas melhores coisas, mas também por elas. Não era uma mulher de cultura, das que lêem livros aos netos, mas tinha sido professora primária e com ela aprendi a ler e a fazer contas, ainda antes de iniciar a escola. E eu era, afinal, o neto predilecto. Sem saber porquê. Já nessa idade eu me deixava agarrar a quem se agarrava a mim? Talvez.

Quando ela se deixou abater e o efeito do acidente vascular que sofrera a foi deteriorando, a consciência das pessoas que a rodeavam também nos revelou outra pessoa. A dada altura não reconhecia a sua filha, minha mãe, que cuidava dela diariamente, e um pouco apenas o próprio marido. Mas chamava por mim, e de mim aceitava que lhe desse a sopa. O que me comovia mas também me enchia de orgulho. Deixava-me triste que a minha avó não reconhecesse a filha que até a sua vida profissional transformara anos antes, por ela. Também me deixava triste ver a sua albergai inesgotável desaparecer, ter-se transformado numa mulher quase doce, com muito de infantil. Mas apreciava aquele reconhecimento direccionado a mim.

A minha avó Maria Bela, era diferente de todos nós. Tinha cabelo claro, olhos claros, uma cara redonda, e um estilo nervoso de tudo fazer e estar na vida. Era muito enérgica e super autoritária. Mais tarde, muito anos depois, acho ter percebido porque ela era assim. Eu não gostava da sua forma de ser autoritária, pois não gosto mesmo de gente assim.
Mas ela sentia-se diferente. E, em parte, teria as suas razões. Era uma mulher que aos olhos da época, tinha muita independência, e falo da de pensar, não outra. Só no tocante a política ela não pensaria por si mesma, pois admirava Salazar, o que quando percebi, após 1974, detestei. Chamava-nos, ao meu pai e aos seus três netos, comunistas. Coisa que nunca fomos. Ela sentia-se porém, uma pessoa distinta e distante de quase todas as que a rodeavam. Por ser rigorosa e exigente com quase tudo. Tinha sempre roupa muito actual, impecavelmente limpa e passada. Em casa, tudo tinha de estar sempre limpo e muito arrumado. Talvez por isso eu ainda aprecie um quê de desarrumação em alguns objectos, como livros.

Quando, meses após o seu acidente no quintal, a minha avó partiu, uma boa parte do meu mundo de então também se foi e eu não me apercebi. Foi a primeira pessoa desse mundo a deixar de estar no meu. Foi o meu primeiro grande confronto com a perda, e com a tristeza. A de ter consciência que há pessoas que não voltam mais.

Acho que nesse dia, em que eu era ainda muito jovem, estava no meu sexto ano de Liceu, ou sétimo, já nem sei bem. o meu mundo de facto mudou mais do que eu esperaria.

E lembro-me ainda hoje, que essas anoneiras eram dela. As árvores e sombra que ela tanto amava. Nessas anoneiras enormes eu e os meus irmãos fizémos “cabanas” para as nossas aventuras, com tábuas pregadas nos seus troncos, lá bem no alto, o que deixou a minha avó numa fúria de referência para nós.

A essas árvores não posso deixar de associar a minha avó Bela, uma mulher de mau génio, mas uma mulher inteligente que marcou para sempre a minha infância, até por ter sido a primeira de todos a partir e me ter dado conta do que é a morte, para os que ficam.

2.8.14

O Caso BES e um Regime à espera de mudança

O caso BES é paradigmático. De má gestão nas grandes empresas portuguesas, ou, como diz o povo por estes dias, de uma gestão que só foi má para a empresa e para os outros, mas excelente para os seus gestores.

O caso BES não é como diz Sousa Tavares. Respeito a sua opinião, mas afirmo que ofende a minha inteligência e o meu direito, exactamente o mesmo tamanho do dele, de democrata e eleitor, mas muito mais, de membro de pleno direito de um povo massacrado com escândalos sempre sem uma justa solução.

O Caso BES ofende-nos, aos impotentes e aos justos e honestos, que somos muitos. Ofende a quem tem de pagar, como veremos muito brevemente, a leviandade e o dolo. 

Mas um pensamento ocorre-me de cada vez que me recordam este caso e a vergonhosa família sem qualquer nível moral e social, contrariamente ao que muitos ainda pretendem defender, entre eles Sousa Tavares e todos os que ao silêncio cauteloso se votaram sobre isto. 

O Governo e a Democracia. O Governo não tem responsabilidade directa. Pois. Mas este é um caso onde uma outra responsabilidade assiste ao Governo e cada dia ela cresce e se torna descontrolada. O descontrolo sobre a sua própria responsabilidade, no que toca a dar um exemplo histórico, é deste Governo, por estar em funções. Não aceito que o Banco de Portugal seja o único responsável por esta calamidade, no tocante a regulação e fiscalização. Podemos ainda vir a apurar que não tem assim tanta, nem meios suficientes, pois estampa a tratar com gente sem escrúpulos ao nível da Máfia mais capacitada. Gente sem qualquer nível, pois a história de uma família não se transmite nem genética nem socialmente. 

O Governo tem sim, e hoje ainda mais convicto estou, depois de ter assistido a um fugidio assumir dos seus poderes e responsabilidades, de enfrentar isto como uma oportunidade única, mesmo única, de dar um exemplo. Um exemplo de que com esta crise, com esta tremenda austeridade, com estes casos vergonhosos na economia, há um outro lado que se tem de começar a construir. O lado de um Estado onde o Direito, a Justiça e a Transparência nos negócios fazem sentido e serão defendidos contra toda e qualquer intenção que os pretenda demover.

Num contexto destes, até uma nova legislação, com efeitos retroactivos se pode justificar. Mas o que tem de ser feito, deve sê-lo. A família Espírito Santo tem de responder judicialmente se for o caso. E tem de assumir os prejuízos, com os seus próprios bens. E nunca, em caso algum será aceitável que o ónus desta actuação criminosa na gestão de um Banco que terá um património próximo de cinquenta por cento do PIB nacional, passe para um povo já tão massacrado.

Por isso dá vontade por vezes de se ser Islandês...

Se fosse Governo, não hesitaria em tomar medidas, sobre este caso e sobre prevenção de futuros outros, que aí virão não tarda. Medidas exemplares, mesmo inovadoras a nível mundial. 

Este é um caso de Governo e um caso de Estado! O Governo tem de assumir as rédeas deste processo e não as deixar para puras autoridades financeiras. É um caso de uma dimensão e que envolve uma família que anos afim se auto-institui de uma superioridade imerecida. A nosso história de novecentos anos não se pode compadecer mais de uma impunidade sobre gente desta índole.

Passos Coelho que não duvide. Irá ficar inevitavelmente ligado ao tratamento que der a este BES. Era bom que o sentido de Estado, a responsabilidade com ter de mudar esta Democracia doente, esta identificação passiva com gente desta natureza e carácter, fossem os seus pensamentos nos próximos tempos. 

Mas o que fizer este Governo, com tudo isto, o marcará. Num ou noutro sentido.

1.8.14

Sonhar sonhos antigos

De Steinbeck, A Leste do Paraíso, com Beethoven e a sua fulgurante Quinta, ou a romântica Quarta, enchia-me a cabeça de coisas grandes, de sonhos impossíveis de não se realizarem.

Lá fora, os ramos mais finos da anoneira afagavam as janelas de vidros de pequenos rectângulos, por si mesmas um sinal do tempo da construção desse que era o "quarto novo", da casa onde vivi, pelo meu avô construída.

Vivia um tempo de onde não se podia prever o tempo de hoje. Um tempo onde todos os sonhos cabiam. Um curso, uma carreira, seguir o sonho dos grandes cientistas, das descobertas marcantes, ou dos escritores que dançavam pelos meus dias com as suas palavras ritmadas, a sua música poética, as descrições de paragens que contava conhecer. Steinbeck enchia-me o imaginário. Eram as suas descrições de pormenor, onde imaginava o aroma das ervas e montanhas da califórnia, ou me deixava entristecer com o insucesso e falência de Trask na sequência de uma greve de comboios que impedem a expedição de produtos agrícolas, alfaces, a saírem do Oeste rumo às grandes cidades. E a suas relações com os Hamilton, por várias gerações. A investigação sobre a passagem bíblica referente a Caim e Abel, efectuada por Lee, o cozinheiro chinês. que se fazia passar por um inculto sem diferenciação, sendo afinal um homem repleto de capacidades nunca dos seus patrões conhecidas. Livros que ainda hoje me permitem paralelos aos que se vive pelos nossos dias difíceis.



Era um tempo de muito sonho e de muita emoção. O sonho, ou os vários, foram-se transformando, se não esmorecendo. Algum, definhou e feneceu. As emoções, por vezes parecem mais exacerbadas, ao ouvir um Beethoven que me fora oferecido nos meus dezasseis pelo meu grupo de saudosos amigos. Uma antiga edição Deustche Grammophon, de Karajan e da sua Wiener Philharmoniker em vinil. Pérola absoluta para quem não valoriza outras jóias que as da inteligência e da cultura, obras não efémeras do génio humano.

No quintal, as sombras desta época do ano eram duras e quentes. Escondia-me no quarto mais tranquilo da casa, onde tantas vezes nem me sabiam encontrar e entrava nessas páginas se Hemingway, de Faulkner, de Caldwell, de dos Passos, ou de Steinbeck que guardei como uma das minhas maiores referências. Eram escritores de cenários imensos, mas também das primeiras lutas sociais no país onde o sonho ainda era parte dos dias deles e de todos nós. Onde o sonho também foi aniquilado pela mesma gente que hoje nos arruina o nosso.




A música, importada dos dois séculos anteriores, um Bach, um Beethoven, um Chopin que me fazia comover e depois rir de mim mesmo por o ter feito, não correspondia ao que ia devorando em páginas de profundas emoções e conhecimento social. Mas a emoção vivida essa sim, era a mesma e era fantástica e bela, nesses dias. Por essa altura, não formara ideia alguma dos meus dias de hoje, e de como os sonhos e as emoções se travestrariam no que hoje são.

Nesses dias, que hoje recordo ao acorde de qualquer das obras que há quarenta anos vou ouvindo, nunca podia imaginar o que hoje me seria possibilitado e, também, intensamente vivido. Mas é impressionante como antigos acordes, e memórias tão carinhosamente guardadas, me trazem emoções idênticas, que, por aqueles dias me pareciam pueris e exacerbadas.



Sento-me aqui, ouço e revivo, numa vivência em tudo indistinta, ou talvez ...revivida, quando emoções e sonhos se vão recuperando, outra e outra vez, com talvez igual força. Só não tenho as anoneiras da minha terra, do meu quintal, e a doce sombra que me inspiravam. Mas tenho pessoas com uma força que me levam em abraço a esses cálidos verões de tão queridas recordações.

Ninguém pode imaginar como estas composições, a par do rock dos meus dias jovens, e leituras que me foram formando, com as sensações hoje vividas, me tocam lá fundo, onde eu já nem me sabia existir. E voltam a exigir de mim o sonho, de que nesses tempos me alimentava e me fez, em grande parte, como sou.