28.7.14

Vem aí um cataclismo europeu?

Lendo Adriano Moreira, qualquer de nós se deve inspirar. Haverá ainda muito quem tenha anticorpos, artificiais, apenas isso. À laia de clubismo cego. Detesto esse clubismo, que é porque sim, sem razão ou motivo, sem justificação. Para mim, fazer parte de alguma coisa, tem uma base qualquer, uma razão, um motivo, um objectivo até, se for o caso. que nunca será aquilo a que se assiste com as opções no futebol. "Porque és do Benfica?... Porque é o melhor". Ou do Porto, ou do Sporting, etc. E do PS, ou PSD, etc...Mas reconheço na política muito mais opção e pensamento, do que no futebol.

Diza um dia destes, em provocação, um tanto divertido, ao meu filho (três filhos, três opções por clubes de futebol...) que todos os clubes são exactamente iguais. A mesma coisa é escolher uns jeans, ou outros. Servem o mesmo fim, e, afinal, são iguais. É este 'espírito' de clube, que também há muito na política e me provoca urticária. Mas respeito quem o tem, não tenho é muita capacidade de ouvir gente cega pelo seu líder e pelo que ele diz, apenas porque é o líder, ou chefe, do seu Partido. Isso nunca! Nesses momentos, relembro Hitler e a sua eleição democrática. Podem estar neste momento outros no Poder em algum país insuspeito...

Adriano Moreira chama a atenção a riscos e perigos talvez iminentes, na cena política internacional e nacional. O perigo de uma Alemanha, que, de cada vez que experimenta a liderança hegemónica da Europa, nos conduz a um conflito devastador. Mas há ainda um problema maior, de fundo, para o que alertei tantas vezes, exposto por outro grande senhor da cultura: Jacques Barzun. A perda de uma identidade europeia, ou seja o desvanecimento da Civilização que conhecemos. Parece impossível, e já está a acontecer. Bastou muito pouco. Uns quantos políticos sem coluna vertebral, usando o seu poder para servirem interesses empresariais inescrupulosos, destruindo a meio caminho o que alguns outros grandes homens lançaram como semente, alargadas zonas de intervenção do Estado, onde as populações cadenciadas mais necessitavam. A regra de Merkel (apenas uma, há muitos mais e piores, se bem que menos mediáticos): do zero, faça quem quiser, a sua independência pessoal, o seu negócio empreendedor, numa espécie de lançamento às cegas nos mercados que tudo são menos perfeitos ou justos. Esse neo-liberalismo. E, como diz Adriano Moreira, pior se for repressivo, como o temos por cá agora.

Uma Europa onde se deixou de olhar a um equilíbrio social, dentro de cada país e em toda ela como conjunto, mas antes se procura usar o desequilíbrio contra os mais pobres, está a suicidar-se a uma velocidade estonteante. Mas não podemos esperar de uma Alemanha sem líder que pense, que possa ter alguma visão deste processo. Muito menos todos os que por cá e por ali andámos a desperdiçar tempo e recursos com políticas eleitoralistas sem fundamento. Para defesa do estatuto de algum líder narcisista que julga pensar por todos nós, e convence muitos e a si mesmo que é a derradeira opção de todo um país, usando assim de políticas erradas, também elas ao serviço de interesses financeiros sem princípios. Mas líderes desses, um pouco por toda a Europa, tornaram tudo isto num caos, criando mais desigualdade, mais injustiça social, quando falavam de a criar, e muita miséria.

Foi a visão curta de quase todos os líderes dos últimos anos na Europa, com a condescendência popular, e muito clubismo político cego que nos trouxe até onde estamos e nos agarra a este estado, de onde não sabemos como sair. Foi mais. Foi mesmo a intenção provocada de interesses empresariais, financeiros e não só, na conjunção com esses políticos que adquiriram por uns quantos milhões, que nos conduziram a isto. E nisto continuamos.

Este movimento, não sei se neo-liberal, ou outra forma, mas com o mesmo resultado, estancou processos em curso na Europa e em Portugal, que não podiam ter parado. A procura de ideologia e ideias novas, para um mundo que mudou, dentro das organizações partidárias e sociais, não foi o menos. A senda de um equilíbrio social, chame-se-lhe social-democracia, ou qualquer outra forma, com contornos defensores de valores idênticos, também não é menor. O processo lento e fundamental da culturização, da educação para o conhecimento, dos povos europeus mais desprotegidos neste âmbito do saber e do prazer pelo pensar. Então sim, o espírito crítico europeu (e português) seria outro, dando como consequência, novos e melhores políticos e empresários, conscientes de nunca deixarem desbaratar este capital rico na senda do esbatimento da desigualdade, e na senda da melhoria das condições de vida dos povos.

A crise transfigura-se pouco a pouco numa ou em várias outras. A crise das moedas, parece estar a chegar. A crise social não morreu. A crise política seguir-se-á. Com ela pode vir uma outra Grande Guerra...numa Europa onde os extremismos e populismo ameaçam tudo o que não foi construído, mas agiganta o que foi destruído.

Ou a Europa entende que o caminho para Estado Social não devia ter sido travado, e que, bem mais importante e urgente, há que conseguir equilibrar, leve o tempo que levar, países dentro do mesmo espaço político e económico, para um poder de compra mais próximo, menos desigual, para uma justiça social mais coesa, ou podem estes lideres compenetrar-se de que a destruição nem ainda começou, ou começou e não irá parar.

Perde a Europa a sua influência cultural e o respeito civilizacional que granjeou, mas pior ficam milhões de europeus à espera da miséria e morte. Todos os dias.

27.7.14

Desigualdade - episódio 'n'

A desigualdade continua e continuará.

A propósito da (ainda a confirmar) queda de Ricardo Salgado, que afinal se seguiu à queda de Jardim Gonçalves no BCP, aparentemente por distintas razões e causas, voltei a pegar na obra de Stigltiz. Que me custa imenso ler e avançar. É uma "câmara dos horrores" à imagem de filmes de terror dos anos setenta, mas com a diferença fundamental de ser real. Demasiado real.

Amigos meus, que prezo muito, devem incomodar-se um pouco com o que escrevo. Outros, nem hão-de ligar alguma.

Mas quero agora deixar apenas uma análise breve. Para quem quiser reflectir sobre mais uma perspectiva, aliás conhecida, desta crise e das sequelas sucessivas.

Os Bancos foram os principais responsáveis por toda esta crise mundial, europeia e muito portuguesa. Acho que é claro para todos. Mas já nem todos aceitam a responsabilidade de políticos, como Sócrates antes, como Cavaco ainda antes, e como Passos agora. Guterres, foi um menino, nisto tudo. Nem talvez tenha tido a mesma intenção de criar compadres e redes de tráfico de influências, maçons e opus, e outros abomináveis quejandos. Note-se. Não tenho por princípio alguma coisa contra Opus Dei, ou Maçonaria. Não por princípio. Não sou de clubes assim, infantis, de aventalinho ridículo, ou crenças de circo religioso. Sou livre e adoro ser. Mas tenho contra, quando sei que são conspiradores do regime, e que isso tem implicações em tudo o que agora vivemos. E pagamos. E pagamos muito.

Esse promíscuo compadrio, assim definido: banca-sociedades secretas-governo-sociedades de advogados-grandes empresas portuguesas e internacionais-FMI-UE-BCE-Alemanha, criado com parte desta cadeia em total conexão, ou parcialmente, vindo a dar no mesmo resultado, é o grande responsável pela crise, infantil ou levianamente gerida por Cavaco, Sócrates e Passos Coelho (e seguem-se outros do mesmo 'clube').

Mas, como se não bastasse, ainda temos a vergonha e desfaçatez maior. A Banca gerou a crise que lhe interessava, ganhando milhões com ela, colocando milhões de pessoas honestas no desemprego, riu-se de todos nós, insultou-nos (como Salgado: "os portugueses não querem trabalhar, preferem receber subsídio de desemprego, ou outros que acusam gente normal de se ter endividado com telemóveis e automóveis, descarada mentida, já desmontada por exemplo por Paulo Morais da TIAC, a que também pertenço, ou diversos economista internacionais, independentes dos regimes comprometidos com a Banca e poder económico. Ainda os há...) e, vem depois a receber a fatia grande do bolo do Resgate financeiro. Pega nesse bolo, mete ao bolso e deixa falir os bancos. Sai em grande, com bónus e reformas principescas e olha para trás a rir-se de gente que literalmente morre à fome.

Esta desavergonhada e criminosa condição de nos empobrecerem, cria e alarga a maior desiguale em séculos de existência dos países ocidentais, nem há duzentos anos observada. É História. E A desigualdade, cria a injustiça e a incapacidade de reagirmos. Cria a nova PIDE, a nova mordaça e censura, muito inteligente e subtil. Provoca a divisão entre as vítimas da crise, e vemo-nos todos a acusarmo-nos de não querermos trabalhar, de nos termos endividado, de sermos revolucionários, de não respeitarmos a legalidade e as instituições, de sermos os responsáveis pela própria crise! A mesma desigualdade que crescerá, e nos engolirá quase moribundos!

Se isto não é um quadro pré-revolucionário... então o louco sou eu e mais uns quantos milhões.  Oe mesmos que estão a sofrer com isto e a pagar tudo. Numa empresa pessoal, teríamos de pagar pelo passivo deixado. Numa empresa privada alheia...pagamos porquê? E para quem? Pagamos os bónus que Salgado irá embolsar? Pagamos as rendas que a EDP embolsa? E PPP? E preço dos combustíveis e..continuamos a pagar, por tal nos impõem? Tudo?

Pagamos antes, durante e depois. E pagamos para nada dos darem, mas mais nos tirarem. Não chega?

Não temos meios de parar com isto? E quando?

23.7.14

Mais um produto da crise. Ou uma desculpa sórdida...

Durante muitos anos me contive. Mas há momentos em que temos uma quase noção de já nada perdermos, e uma estranha combinação com ...uma espécie de sentido de justiça, que tem, algum dia, de alguma forma de ser feito...de se impor.

E sei, que ao dizer isto, alguns deverão rir, outros, olhar para o lado, outros, passar adiante. E poucos, continuarão a ler.

Este post é pessoal. Quase íntimo, a roçar o indecoro. Que pare de o ler, quem para isto não estiver.

Vamos a factos. Numa empresa onde trabalhei, de que já nem relato o quanto passei, é assunto gasto, deprimente. Um colega, num outro país, que apenas conheci noutro ambiente, noutro contexto, foi alvo de um processo de despedimento, um mais, outros se passaram comigo, outro colega e outra mais... Mas este ex-colega, foi vítima de de um processo que roça o desumano. Lançou uma empresa, numa antiga colónia portuguesa, desde o zero...até aos mais de cinquenta milhões.

Este ano, reduziram-lhe o vencimento, aviso para um processo de rescisão, para que se preparasse. Mas quem se prepara para uma 'morte anunciada'? E...agora, agradeceram-lhe o esforço de anos, com o despedimento. Contraiu uma doença, veio a Portugal e o seguro de saúde...tinha-lhe sido retirado. Reclamou, em aflição, junto de um sócio no país em causa. Reactivaram o seguro...e o processo de despedimento prossegue. Com injustiça. E, como conheço o autor destes processos, um 'ser' entre símio e réptil, mais para o lado dos abjectos desumanos que nos merecem um esgar, para dizer o mínimo, já que escrevo para um público em aberto... sei bem como se passam as coisas.

As 'coisas' passam-se, como em muitas outras empresas em Portugal. E desde o início desta maldita crise que nós portugueses não quisemos ou iniciámos, mas que os corruptos e os agentes de tráfico de influências engordaram, que estes processos de criação de climas de medo, de pressão, de inventados processos disciplinares... tomou conta destes cérebros contaminados de tudo o que mal interpretaram no mundo do dinheiro, pelo dinheiro governado, e pelo que há de mais desumano...controlado.

Foi para isto que se inventou uma crise? Foi para esta destruição de vidas de gente boa e esforçada, que gente de um mundo sem escrúpulos se orientou e nos desorientou? Foi para ver à minha volta tantos amigos a sofrer e tanta vida sem futuro?

Hoje, foi um dia duro. Um dia de más notícias. Continuam a imperar os que não prestam. Vão-se em depressões, os que mais admiro e respeito. E não falo de gente normal. Falo dos melhores que conheci ou tive notícia.

Até quando? Talvez assim me entendam...os que me sabem ateu...por ter assistido a injustiça e miséria. E ainda pouco devo ter visto.

Sei que hoje "choram" pessoas de grande qualidade, merecedoras do nosso respeito. Não fora a perversa visão distorcida de quem dá razão apenas a quem detém poder...e dinheiro.




19.7.14

"O Preço da Desigualdade"

Já não vou estrear este tema, nem é a primeira vez que refiro um livro essencial para todos. Todos, pelo menos que possam ler sem se cansarem sobre temas sociais e económicos. Mas seria bom que qualquer pessoa o lesse. É importante demais, para compreendermos o grave erro que tem sido a política de austeridade imposta pelo FMI, BCE, UE e Alemanha. Um erro com profundas e extremamente graves consequências. 

Antes de continuar, o que gostaria mesmo que alguém...pensasse, por dois minutos é, se acham que já basta de depressão familiar e social, a que acham que se devem muitos desmembramentos de famílias, e até de amizades? Se iremos continuar a por culpas na nossa vontade de querermos uma casa, um telemóvel e um automóvel. E se esse tal 'consumismo' que tão facilmente se condena em privado, é natural e justo para os centro-europeus e lamentável para nós portugueses, espanhóis, gregos, apenas por sermos...sul-europeus. Se...os países mais antigos do mundo merecem assim ser tratados por uma Alemanha (sim, país a quem atribui a culpa máxima do nosso empobrecimento crescente que ainda será mais profundo. Sim, será!) de gente que há quinhentos anos nem sabiam o seu lugar no mapa mundial. E que hoje, nem sabem o que é um sentimento sentido!

Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia de 2001, in "O preço da desigualdade":

"(...) Embora os problemas da zona euro se tenham primeiro revelado na Grécia, outros países como a Irlanda, Portugal, Espanha, Chipre e Itália não demoraram muito a juntarem-se à lista de países em dificuldades. A extensão da lista devia tornar claro que não se tratava de uma questão de um país estar "no mau caminho". Havia algo de sistematicamente errado. Mas o diagnostico dos líderes europeus era fundamentalmente defeituoso, as receitas seguidas estavam mal pensadas, e ainda vieram a agravar mais a situação (...)"

"(...) O diagnóstico dos líderes europeus ficava-se no desregramento fiscal - ignorando o facto de que dois dos países em crise, Espanha e Irlanda, andavam a apresentar excedentes antes da crise. A recessão provocou os défices, e não o contrário. Mas a receita seguida após o diagnóstico de desregramento fiscal foi a austeridade - que importa que praticamente não haja exemplos de países que tenham recuperado de uma crise através da austeridade?(...)"

O desregramento fiscal a que se refer Stiglitz é o de impostos baixos, segundo a Alemanha, líder da nossa imposta austeridade. Impostos demasiado baixos, segundo eles! Acreditam?! Pois...

"(...) O resultado foi o esperado (nem por todos, como os 'sábios' económicos portugueses...que ainda hoje defendem esta austeridade, que continuará...mesmo com PS a governar!): os países que seguiram a austeridade - seja voluntariamente, como no caso do Reino Unido, ou involuntariamente, como no caso dos outros países da zona euro - entraram em recensões mais profundas e, à medida que estas se aprofundavam, as melhorias esperadas na posição fiscal foram decepcionantes.(...)"

Ora...qual o espanto? Impostos cada vez mais insuportável > retracção mais profunda do consumo > menos colecta > mais impostos, mais altos > menos consumo > mais empresas a falir > menos colecta de imposta.... 

Um Governo liderado por meninos, uma Oposição de meninos, seguidos por gente que adora esbanjar... qual o futuro? 

Nenhum futuro. Um louco, diria que o alívio acentuado a carga fiscal seria um primeiro passo para recuperação económica, ainda assim com uma perda irrecuperável de uma larga franja de pessoas, para sempre fora do mercado de trabalho, logo, para sempre fora do mercado interno. 

O que a Europa, a Alemanha, os principais Bancos, os líderes partidários principais, no Governo ou nas Oposições (nos vários países europeus!) fizeram foi caminhar no sentido de uma destruição europeia em massa, provavelmente muito difícil de reverter. Provavelmente, ou seguramente. 

Agora leiam isto, com toda a atenção:

"(...) Os banqueiros, e os líderes políticos que pareciam tê-los servido tão bem (neste momento a voltarem-se uns contra outros, como observamos por cá, com BPN, BPP, BANIF, BCP, BES...e lá foram com tantos bancos de dimensão mundial! No que ainda será mais grave, e mais se voltará contra os povos, que terão de pagar, pelos impostos, os enormes buracos que banqueiros fantásticos e rigorosos, do alto do seu profundo saber e da sua insuportável arrogância...provocaram, nos seus próprios Bancos, que são nossos, afinal ao termos de tapar as suas dívidas!), perceberam como criar um sistema financeiro que podia envolver-se em tomadas de risco, manipulações de mercado e práticas predatórias. Mas tinham muito menos noção de como criar um sistema que realmente fizesse o que devia.(...)

Este livro é sobre a desigualdade. Não sobre a austeridade em sim. Mas esta desigualdade foi agravada, extremamente agravada, pela austeridade. É o que demonstra Stiglitz. Outros autores fazem-no, também com a mesma consistência e conhecimento. 



Não se trata de seguir cegamente este ou aquele economista, mas de entender com mente aberta, sem prisões a clubinhos partidários, ou cegueiras orientadas por um mero interesse pessoal, que tudo o que se explica é hiper real, lógico e, sobretudo, confirmável. Todas as semanas temos confirmação do criminoso erro desta austeridade, como o tinha sido criminosa a política de governos como o de Sócrates, de Zapatero, de Blair, de Sarkozy, Berlusconi, Papadreou, pelo lado do esbanjamento injustificado e do populismo rasteiro (redes e estradas inúteis, obras megalómanas e o crime sempre por julgar: a corrupção patrocinada por esses governantes. Nada que tivesse melhorado com os actuais governantes, nos diversos países europeus).

Todas as semanas se confirma o erro que continua, numa austeridade que cria desemprego e miséria, e também se confirma a tentativa de um assalto ao poder de outros igualmente medíocres, que nada de bom nos auguram. 





17.7.14

O Momento Sublime

"Na nossa sociedade, Marcus, os homens que mais admiramos são os que constroem pontes, arranha-céus e impérios. Mas, na verdade, os mais nobres são os que conseguem construir o amor. Na verdade, não há empresa maior nem mais difícil" (Jöel Dicken, in A verdade sobre o caso Harry Quebert).

Na verdade, essa coisa que muitos procuramos, em tanta esquina...a verdade sobre os outros, nós, a vida, a política, a religião, o amor, a amizade, as razões de discussões e de encontros. Na "verdade", tudo se relativiza, quando fazemos coisas, no trabalho, com família e com a nossa pessoa mais querida, por amor, com amor.

Mas ele existe em muito mais assuntos. Ou devia. Far-nos-á falta, quando alguém desaparece prematuramente, como ainda hoje ao ler um amigo, me recordei uma vez mais, da falta dos meus pais. Era uma relação incondicional, era-a apenas porque sim, porque eram pais e eu filho.

Há algo parecido, de envolvimento e de exigência de nós mesmos, efémero mas sublime e que nos faz sentir a superação do que somos. Há quem lhe chame Concentração Transcendental. Momentos incríveis de absoluta paixão, concentração e uso de faculdade mentais nunca noutros momentos experimentado. Quem sentiu, essa auto-superação, entenderá do que falo. É, pode ser, frequente, quando estamos a criar. Uma obra de arte (ainda que sem o reconhecimento colectivo do epíteto, mas esqueçamos o snobismo que as Galerias e correntes artísticas impõem a esse mundo hermético, propositadamente hermético), pode oferecer-nos essa experiência, não direi superior, mas de absorção total das nossas capacidades. Vi-o, com uma das minhas filhas, senti-o. É incrível. É lindo ver.

Nesse momento, o amor, que não o é, faz de nós algo muito superior ao nosso habitual. Concentração Transcendental. Momento de uso da mente, excepcionais e únicos e efémeros. Para tal, há que existir um conjunto de condições. Antes de mais uma paixão por uma coisa, uma tarefa, um hobby, ou mesmo um momento de amor ímpar. Sentirmos que temos mesmo de fazer esse "algo" e que conseguimos reunir tudo em nós, para tal. Ninguém o fará melhor, mas não há sequer vislumbre que qualquer comparação com alguém , ou com alguma coisa. É tudo em valor absoluto, precisamente. O relativo não existe. Depois, a nossa mente entra em câmara fechada. O que nos está à volta desaparece. A mente faz uso de capacidades nunca antes experimentadas. Penso que o Inconsciente "sobe" ao parente pobre da mente consciente.

Com uma tela em branco à frente, já vivi um ou outro desses momentos. Com uma "folha' de papel, ou um espaço em branco num computador, também. Mas não me lembro como comecei. Apenas comecei e não consegui parar. Até...ter achado que estava feito. À minha volta deixou de haver mundo. Já o senti noutros momentos. Mas não para aqui relatar. Já o vi em algumas pessoas. De umas, também não relatarei. Da minha filha, por uma e outra vez, a tocar violino, ou a estudar matemática. Foi incrível e maravilhoso, estar a li e presenciar. Era como ter entrado nessa câmara de vidro transparente em que ela se tinha encerrado, e estar de fora assistir. Nem deu por mim. E teve um desempenho, como se algo de divino, se o divino existe, a tivesse tocado. A mente brotava criação, inspiração e tudo saía sem o mínimo esforço. E é assim que se define esta capacidade especial que todos temos em potencial, mas por muitas razões, muitos de nós não conseguimos viver. Saem as nossas criações, sejam de arte, de ciência ou de paixão com alguém, numa produção sem o mínimo esforço, mas com uma qualidade nunca antes conseguida. Vivê-lo não faz de quem o vive alguém superior, mas alguém com uma sorte fantástica, de ter conseguido canalizar tanta capacidade mental como o mínimo dispêndio de energia e esforço.

É o momento sublime. Acho que já tive a sorte de o experimentar algumas vezes. Vem sem ser solicitado, mas somos nós que criámos as condições para tal. O tal amor de que fala Dicken, no romance que refiro. Não fala de um amor apenas humano, embora pareça. Pode também ser, e pode viver-se em momento de intensa paixão, de intimidade excepcional, difícil de repetir muitas vezes, ou mesmo apenas de comunicação, ainda que à distância, ou presencial, em conversa apenas, quando se sente uma força imparável, impossível de deter. Mas o mesmo se aplica a uma produção pessoal, como antes mencionei. E é também uma outra versão de amor, não por alguém, mas é-o no sentido do empenho e penetração mental, raro e profundo. Indescritível, como podem ver pela dificuldade de o descrever cabalmente.

16.7.14

Incompatibilidades de luxo e incompatibilidades plebeias

A comparação parece, à partida, excessiva. Mas o excesso será outro...

Os políticos, os que têm funções-chave em matérias que se relacionam com importantes áreas das decisões do Estado, dos grandes projectos, digo melhor, das áreas e sectores que dominam o Orçamento do Estado, que custam, por isso aos portugueses a fatia maior do dinheiro que é nosso património comum, seja do que nos chega via Dívida Soberana, que sempre pagaremos os menos capacitados, ou da colecta directa e excessivamente injusta a que nos compelem.

Na nossa Assembleia da República, onde a soberania dos cargos termina, onde começa a responsabilidade para com os eleitores, ou devia assim ser, há deputados, não tão poucos assim, mas também não a maioria, que tendo acesso privilegiado a informações sobre negócios do Estado, em curso ou potenciais, usam esse acesso e o poder conferido, em interesse de empresas que servem, nas quais têm funções meramente com esse mesmo objectivo. Conflicto de interesses, tráfico de influências, as designações são várias, para o que o que todos sabemos chamar de Corrupção por influência directa.

As áreas de acção do Estado mais propensas a estas autênticas redes de interesses, partilhados em predominância por membros dos Partidos mais vezes em funções no Poder, PS, PSD e CDS (mas onde podem também existir alguns casos de gente dos pequenos Partidos, nunca com a mesma expressão e, porventura, gravidade) são as Obras Públicas (quase todos desconfiamos de tantas obras realizadas sem a necessária prioridade ou urgência), o Ambiente (lembram-se de processos relacionados com reciclagem, a urgência e pressão sobre processos nas cimenteiras...?), Parcerias Público-privadas, mas também a Saúde, os Transportes, a Agricultura, a Educação ...deixo para outro texto, o detalhe sobre tudo isto.


E que acontece a um cidadão normal? Se por exemplo for desempregado e receber subsídio de Desemprego da Segurança Social? Não pode auferir nada mais de outra fonte, seja de uma acção de formação, que o poderá colocar de novo no mercado de trabalho, ou de um emprego parcial para com isso poder fazer frente ao total de despesas que tem de suportar. Muitos de nós tendemos a condenar com a maior ligeireza estes cidadãos, esquecendo-nos de fazer a necessária e justificada análise. UM desempregado será um criminoso a ter de prestar contas de tudo, se o desemprego até foi uma das consequências, ainda que indirectas da acção irresponsável e criminosa dos agentes políticos com incompatibilidades, ou corruptos, mesmo? E de que valores falamos? E o subsídio auferido não é consequência das suas contribuições durante a vida profissional activa? Mas...a estes, por estes cidadãos, nada a fazer. Até nós os condenamos, aos (até condenação judicial, que nunca acontece... não se lhes pode imputar a imagem de criminoso, claro), pelo menos, imputáveis por incúria, ou dolo, ou “apenas” envolvidos numa rede de influências que lesa o Estado...nada!

14.7.14

O (des) respeito pelo Trabalho

Houve tempos em que o Trabalho teria sido respeitado...Houve? Não! Nunca houve. Mas talvez estejamos a entrar numa nova era, precisamente pelo Trabalho, por via de uma Economia que se paute por paridades nunca até hoje vistas. Talvez. Apenas...talvez. Mas...

Em tempo útil, refiro, tempo de Trabalho, nunca vivi um autêntico Respeito pelo trabalho. Pode esta imagem chocar muitas hostes. Eu sei. Mas passo apenas a explicar (contratualmente), o que é tão-só um ponto de vista parcial, como o são todos neste blogue.

Estou, obviamente, a ser voluntariamente excessivo. O que também passo a explicar, em contexto. No entanto, escrever sobre este tema, não parecendo, é repositório de muito mais emoções do que à partida seria de imaginar.

Numa Europa que se foi construindo sobre cadáveres de miseráveis e ilustres, alicerçada em muita dureza social, mas onde também se viram surgir as teorias defensoras de um Humanismo nunca totalmente conseguido, uma Justiça Social, que pouco mais se ficou do que em projecto, uma distribuição de poderes, em Democracias algo coxas, e muito marcadas pela corrupção crescente (talvez não crescente, mas sempre a mesma...), os direitos de quem trabalha, nunca, com honrosas excepções para os lados do Norte (excepção feita a um Reino Unido com uma das mais desiguais sociedades no Mundo, em termos não de direitos, eventualmente, mas de acesso aos mesmos meios de rendimentos auferidos), nunca foram cabalmente respeitados.

Sempre se teve uma visão de regalia, de favor, de excepção e de prémio, de empresários e proprietários de empresas, de administrações e direcções, para com os seus colaboradores. Dir-me-ão...mas numa Alemanha também, dando de garantido que no Sul da Europa sempre assim foi? No centro da Europa, pode este mundo laboral ter sido bem diferente da realidade conhecida a Sul. Mas mesmo por esses lados, onde as desigualdades são bem menores, há também esta errada premissa de que pagar a um colaborador é uma coisa muito próximo de um Favor que se lhe faz. Por cá, acho que muitos de nós reconheceremos o favor que nos têm feito todos os que poder discricionário auferem nas empresas e instituições, em partilharem connosco uns quantos euros.

Quase...uma forma de manterem vivos os desgraçados que um dia se atirarão aos leões, numa luta desigual, qual arena de Roma.

Nesta lógica, se instituem prémios de produtividade, apresentado-os numa tal bandeja de prata, a esses excelentes colaboradores de que se gabam ter nas empresas, antes do dia do seu cair em desgraça. Prémios e auferimentos por 'objectivos' hoje já bem demonstrados serem bem mais contrapuducentes do que benefícios...excepto para a mesma empresa que os abana bem frente aos olhos dos que não têm opção de escolha.

Não. Este não é um discurso marxista, ou aquilosado em pressupostos anacrónicos. É um texto de quem tem observado o insucesso de erradas políticas remuneratórias e injustiças laborais gritantes, todas conducentes a uma depressão salarial, recentemente acrescida, acentuada com total cobertura, ou mesmo imposição de países com muito mais elevados vencimentos e poder de compra dourado.

É um lamento aos gritos de quem não se compadece com este generalizado e, absurdo, tácita e pacíficamente aceite, empobrecimento pessoal e social!

A importância de ter um "hobby"

As transformações do mundo do trabalho, no Ocidente, têm levantado questões sobre a importância das profissões, relativamente à vida total, ao Uso do Tempo, pelas pessoas.

A importância do Trabalho, parece, por um lado ter ganho ainda mais preponderância, pela sua escassez, pela depressão salarial, e pelas maiores exigências em horário.

Por outro lado, o Trabalho, ou melhor, a sua importância relativa no nosso dia, e na nossa vida, tem sido visto por novas perspectivas. Perspectivas já antes conhecidas, paradigmas que não são inovadores, mas que face ao valor e ao sentido que agora sentimos ter de dar às nossas vidas, perante um mundo de Trabalho que já não oferece as garantias de outrora e, ao invés, as retirou e deixou milhões de pessoas com tempo a mais nos seus dias, e com expectativas de vida mais longas, tem surgido com mais força do que nunca a necessidade de nos darmos a nós mesmos um outro...Uso do Tempo.

E os hobbies, ou 'ocupação de tempo livre', designação sem correspondente adequado na língua portuguesa, ganham cada vez mais importância. Vejamos algumas das razões para termos um 'hobby', uma ocupação do tempo extra-profissional, que se forme a nosso gosto e prazer, e o venha eventualmente a ser uma rotina de vida.

Sem distinção entre hobbies que impliquem actividade física, ou pela sua natureza sejam apenas relativos a actividade mental, o que se depreenderá dos mesmos:


  1. Melhoria do sistema imunitário: Há evidências científicas sobre as vantagens da actividade física associada a um hobby, para um sistema imunitário mais completo, e mais eficiente. Nestas actividades estão incluídas, por exemplo, as caminhadas, as corridas, em espaços não, ou pouco poluídos, ciclismo, e muitas outras, desde que praticadas pelo Prazer.
  2. Melhor Flexibilidade: A dança, a prática de jogos com movimento, mesmo de consolas, Ioga (yoga), pelo uso de músculo habitualmente preguiçosos, ajudam a retardar o seu envelhecimento e maior flexibilidade, por mais tempo.
  3. Memória melhorada: Jogos como Sudoku, jogos de palavras, ou mesmo actividades como fotografia, de forma planificada, podem contribuir para uma memória mais potente, base fundamental de um cérebro saudável.
  4. Redução do stress negativo e promoção do eustress: as actividade que desempenhamos por prazer e não por obrigação, em ambientes de que mais gostamos, ajudam a reduzir o stress, e pela excitação e prazer, promovem o eustress (forma de stress positivo que é estimulante cerebral, podendo ser exemplos, ver um filme dramático que nos choque, ou um filme de terror, para quem tira prazer do mesmo, ou um desafio difícil mas que nos dê imenso prazer)
  5. Um hobby melhora a nossa auto-estima: Pelo prazer em praticar uma actividade que nos agrada, escolhida por nós, sem qualquer obrigação, e pela possibilidade de criarmos um novo grupo de amigos e convívio, também escolhido e não constituído por que temos de o aceitar profissionalmente, há um claro contributo para a nossa auto-estima.
  6. Sensação de realização: pelas mesmas razões expostas no ponto anterior, um hobby fornece-nos uma revigoraste sensação de Realização e Preenchimento, contributo primário para uma mente saudável. Podem ser exemplos o estabelecimento de metas a ultrapassar, em caminhadas, corridas, ciclismo, de tempo ou distância, ou na produção de textos se actividade é a escrita.
  7. Interacção com novas pessoas: através de um hobby, constituem-se com frequência novos grupos e encontram-se novos amigos, por associação à actividade em si mesma, e não os grupos e amigos que nos chegam no âmbito profissional, sem por nós terem sido escolhidos. Um estimulo mais a 'irmos' para o hobby, um estímulo que nos desvia de preocupações profissionais, e nos concentra em algo que nos dá imenso prazer.
  8. Aquisição de novas capacidades: através de um hobby que se vai desenvolvendo, descobrem-se e desenvolvem-se novas capacidades e destrezas, com benefícios físicos e psíquicos.
  9. Novas possibilidades futuras: uma actividade gerada fora do âmbito profissional, pode vir um dia no futuro a dar-nos alternativas para novas profissões ou actividades profissionais, sendo então importante, a descoberta de novo hobby.
Na Era Conceptual, em que já nos encontramos, a criatividade é um ingrediente central na nossa saúde mental, na nossa mente com vida mais prolongada. A descoberta em nós mesmos de talentos desconhecidos, de prazeres insuspeitos, de aptidões escondidas, são o melhor, ou das melhoras decisões que algum dia podemos tomar, para mudarmos a nossa vida num sentido novo. Não apenas a nossa fundamental estabilidade emocional mais rica, para a qual um hobby pode ser central, mas também a nossa inteligência redescoberta, seja através de uma actividade física, ou de uma outra mais intelectual, ou mental, de preferência Criativa (com a qual o nosso envolvimento é bem superior, assim como a nossa sensação de satisfação e realização), ter um hobby é hoje bem mais premente do algum dia o foi.



8.7.14

nada de novo na frente ocidental: O Domínio do Ocidente. Ainda?

nada de novo na frente ocidental: O Domínio do Ocidente. Ainda?: Três obras, ou lidas na totalidade ou (ainda) em parte, têm marcado uma parte do que 'vejo' deste Mundo Europeu e Ocidental, onde al...

O Domínio do Ocidente. Ainda?

Três obras, ou lidas na totalidade ou (ainda) em parte, têm marcado uma parte do que 'vejo' deste Mundo Europeu e Ocidental, onde alimentei a minha natureza e inseri numa cultura, que por vezes já nem parece existir.

Ian Morris, O Domínio do Ocidente, Bertrand, Lisboa, 2014.
Jacques Barzun, Da Alvorada à decadência, Gradiva, Lisboa, 2003
Jared Diamond, Collapse, Penguin Books, London, 2005.

Barzun, que já diversas vezes mencionei, escreveu uma obra monumental, que discorre sobre a cultura europeia desde 1500. Uma análise histórico-filosófica, fundamental na compreensão do que fomos e somos.

Diamond, a par de outras obras, como Armas, Germes e Aço, analisa a razão do colapso de várias sociedades, países e culturas, e regiões dentro de países desenvolvidos, como os EUA, por alteração de paradigmas tecnológicos e económicos (perda do domínio do carvão e de alguns minérios, com a quase desertificação de vastas regiões da América).

Morris escreveu uma referência, ao que parece (ainda não lido), construindo um romance, um ensaio histórico e uma análise sócio-económica.

Nada têm a ver uma com outra, estas três obras. Mas podemos 'vê-las', interligadas por uma temática, pautada pelo título de Ian Morris. O meu 'ponto' é um pouco outro, partindo desta mesmo tema, cada dia mais premente, em minha opinião.

Parece ser consensual, entre estes autores e muitos mais, e pensadores anónimos, que há muito a dita Cultura Ocidental pode estar a viver uma crise acentuada. Sobre esta mesma crise, se criou um espaço europeu de trocas económicas, nunca desenvolvido a este nível social, menos ainda cultural. Mas persistem instituições e políticas e políticos, e seguem-lhes, ou mesmo 'orientam-nos' nesta triste caminhada, como tem vindo a ficar evidente, rumo a qualquer coisa, excepto a um futuro de sucesso. Pelo menos sucesso universal, no universo da Europa. São as profundas desigualdades que nos separam hoje, europeus, mais do que nunca, eventualmente. São porventura essas desigualdades, que matarão um dia este dito Projecto, ou Sonho Europeu. Os Americanos já se gabavam há muito do seu Sonho. E não podia a Europa, altiva no seu estático e já anquilosado, talvez anacrónico, domínio. Que domínio algum é já. Mas por falhas graves e enganos de visão.

Vejo, falo e troco opiniões, com quem me mostra todo o seu potencial de inteligência, de experiência, o brilho intenso e profundo no olhar, sinal de uma energia criativa, intelectual ou outra, há muito 'encarcerada'. Nos últimos tempos, muitas são as pessoas que me confirmam o que de há longos anos suspeitava, comparando com povos e países por onde antes me encontrei. Não consigo ver superioridade num alemão, num sueco, num francês, homem ou mulher, seja a dimensão profissional, ou (para mim bem mais significativa) a humana. Pessoas com inteligência a saltar-lhes pelos olhos, dizem-me, sem dizer, que estão ao mesmo nível, ou muito mais acima, em cultura, em capacidades humanas e profissionais, e em ...um aspecto que me marca de forma indelével, emoções inteligentes.

Não consigo assim, entender a razão deste forçar de inferioridade generalizada contra latinos, contra nós portugueses, porque apenas perderam a sua hegemonia tecnológica, económica por consequência, e entraram num ciclo depressivo, ou melhor, numa espiral. Por mim, há muito que me pareceu identificar que quem dominar uma tecnologia, genericamente, ou traduzindo, uma dominante expressão económica, por via de tecnologia proprietária de um país ou cultura (portugueses que dominaram por séculos a navegação, o comércio empático e pacífico, com distintas civilizações, em tão longínquas regiões do globo; ingleses que lideraram a revolução industrial, por via da máquina a vapor e da energia fóssil do carvão, americanos e a sua liderança na informática, a perder-se ou localizar-se noutras regiões onde o custo de produção é a tónica chave).

A tal energia transbordante, hoje um sinal dos novos tempos que se movem e nos dinamizam, devia ser líder, socialmente, economicamente e mesmo a nível micro social. Mesmo nas relações pessoais. Mas pessoas fantásticas continuam a ser relegadas para um plano nada condizente com a sua efectiva capacidade. E nunca tive a negação desta capacidade. Vi sempre, e hoje mais do que nunca, esse brilho incrível e fascinante, sinal de uma inteligência tão mal aproveitada e respeitada.

É o que nos tem feito este absurdo domínio do medíocre, apenas porque tais pessoas, tais sociedades, com mais potencial Conceptual, não se regem por princípios de agressividade interpessoal, mas antes se movem entre nós e pelo Mundo, da forma mais encantadora e harmónica que um Humano deveria justificar, no seu distanciamento do 'animal'.

Fica assim o meu elogio a tantos que hoje andam pelas franjas sociais, ou por lá perto, e ainda assim transferem essa superioridade intelectual a todos nós, em histórias bem contadas, em conversas brilhantes, em olhares incandescentes de intensa actividade interior. Bem acima de tanto medíocre que nos pseudo-lidera. E fica esta marca de uma Cultura que não valoriza os seus, e se deixa encantar por meras razões de economia fria e, desculpem-me, meramente estúpida.

Como pode um Ocidente alguma mais sentir-se dominante, com tanto desbaratar de capital humano superior?

3.7.14

Emoções racionais?

Nós humanos somos um mistério.  
Estamos num café e alguém, en passant, nos toca. Nada dizemos, e nem mostramos reacção muito evidente, mas boa parte do nosso corpo reaje, pelo aprazível, ou pela aversão, consoante a pessoa que nos tocou nos é atraente, ou, pelo contrário, quase sentimos repúdio, se não indiferença. Os sinais são enviados ao cérebro, que toma boa conta deles, regista e armazena, uma entrada mais num vastíssimo banco de dados, de longos e esquecidos anos e sensações. Mas essa tão efémera sensação é logo comparada com todos os dados indênticos, toques, sensações dérmicas, da mais remota data das nosssas vidas. 

É um dos bons exemlos do trabalho do nosso inconsciente. Talvez seja a razão, noutro plano, outras sensações, com uso de outros sentidos, a visão por exemlo, pela qual sentimos aquela empatia especial, a indentificação com aguém remoto, porventura esquecido do consciente, mas ainda assim um quadro agradável que se formou em tempos, já intangível para o consciente (não sei onde fica a 'razão'!, que papel tem essa parte tão erradamente considerada a nobreza da mente?). Uma comparação silenciosa, imperceptível e tão rápida que só um super computador a uçtrapassa, com todas as pessoas que de alguma forma nos foram positivas. O nosso próprio pai? Mãe? Um ou uma colega, ou amigo, amiga, que nos foi querido? Não há, provavelmente forma de o sabermos?

Errado. o nosso poderoso inconsciente sabe, mas não nos deixa ...saber, conscientemente. Ficamos, assim, agarrados a alguém, à imagem que de alguém fazemos e não saberemos racionalizar (estranho agora o uso deste termo, confesso). Para o bem ou para o mal. Pode ser uma imagem negativa, em geral até mais forte. Estas silenciosas 'sensações' (se inconscientes, nem sensações se podem chamar, verdadeiramente), saturam-nos de tal forma num único dia, ou apenas numa fracção dele, de tal jeito que se poderia assimilar a uma passagem de carro a alta por uma ala interminável replecta de estátuas, que não coseguiríamos identificar, e com reptição de percurso, mas em que durante tal percurso uma câmara de elevada sensibilidade registaria em vídeio todas as características de todas e cada uma dessas mesmas estátuas, que depois em câmara lenta poderíamos então reconhecer. 

O mesmo com cheiros, sons de pessoas e sabores de alimentos. 

Isto não evita o trabalho da mente num outro nível, ou camada. Nada nos indica que uma aversão gerada por alguém, não seja um dado inteiramente novo. Tal como uma empatia ou paixão. Embora o tema da paixão possa ser ainda mais enigmático, até os dias de hoje. Os sentimentos profundos e altamente incontroláveis escapam grandemente este tipo de análise, por razões bioquímcas e por introdução de dados novos, não fora cada 'novo' ser humano, alvo de sentimentos desses, um conjunto novo e desconhecido de dados e características. Este o lado mais fantástico da descoberta de um ser humano, por boas razões, ou pelas piores.

As nossas senções deste tipo efémeras e imperceptíveis, não acontecem apenas com outras pessoas, mas inda com objectos, sons, odores. 

Mas é no plano humano que nos deixamos fascinar mais por este iceberg de desconhecido, como sentir algo de muito ou apenas ligeiramente atractivo por alguém, ainda que distante e nunca visto, na verdade. Pode suceder em relação a um político, que está do outro lado do oceano, ou um cientista, e a explicação para a empatia ou aversão não se pode obter tão-só pelo que diz, ou jugamos ter ouvido.

O mistério dos nossos amores e desamores ainda pode estar na Idade Média das neurociências. Mas hoje, como ontem, como há séculos atrás, as nossas estruturas cerebrais, o nosso complexo hormonal, e todo o próprio controlo/ descontrolo desde a percepção à emoção e desta à reacção, fez e fará o seu caminho. Connosco, mas 'sem nós'.