O Navegante

Morris West foi um dos autores de que li mais livros, há muitos anos, pela adolescência. A obra que o tornou famoso foi "As sandálias do pescador". Escreveu ainda mais dois, ou três, livros sobre o Vaticano, a Cúria Romana, tradições que West conhecia bem por ter sido monge.

Escreveu um livro que considero uma obra mediana, mas com alguns aspectos que me deixaram marcas na memória. O Navegante.

A história de um homem que procura uma ilha lendária, onde diziam que os navegadores se dirigiam para os últimos dias da sua vida. A imagem que guardo, distante, era de um fim sereno, quase aprazível, quando se tinha a certeza da vida estar a terminar. Uma viagem calma, num mar imenso até uma ilha que servia de depósito de vidas longas e de segredos nunca contados. 

Era uma escrita sem grande brilho, mas uma história com ingredientes, não totalmente explorados, onde se misturam mistérios ancestrais e a vida moderna, de homens e mulheres que redescobriam o amor e o desamor, a amizade e a vida tribal que nos é contada um tanto superficialmente. 

Jared Diamond, um iminente antropólogo, tem escrito sobre estas civilizações do Pacífico sul e do Índico, sobre sociedades onde observou vestígios de uma vida ancestral tribal, em transformação, com um processo de ocidentalização a decorrer, mas em mistura com tradições e imensos dialectos. Sociedades que deram um salto gigante no tempo, mas ainda guardam muitos dos traços de outrora.

O romance de West lembrou-me este ensaio excelente "O mundo até ontem", fascinante, como todas as obras de Diamond. 

Uma vez por outra, imagino-me assim, a viver distante de todos os meus, numa ilha tranquila, a vender cocktail a turistas, de calça e t-shirt todo o ano, regressando ao meu país de quando em vez, para rever os meus entes próximos, filhos e amigos queridos, mas sempre voltando a um paraíso de silêncios, leituras, passeios, temperaturas amenas, e sem pressões sociais ou outras. Imagino-me, utopicamente, a terminar os meus dias como o navegador, metendo-me numa canoa, num mar pasmado de calma, um espelho do céu, a percorrer as últimas milhas até ao repositório de uma vida. Esperando ali, sozinho, em pensamentos provavelmente confusos, de tudo o que fiz de errado, de tudo o que tentei, do que consegui, e do que nem alguma coisa queria, aguardando, ao ritmo dos dias, pelo último deles.

A imagem pareceu-me a do cemitério ideal, rodeado da beleza de uma ilha distante, de que ninguém sabe o paradeiro.

Devem ser os dias menos esperançosos que me fazem regressar a estas imagens do futuro que não irei ter. Um dia talvez encontre alguém que me queira acompanhar até uma ilha, um Curaçao, Aruba, Belize...para a tranquilidade que este Ocidente turbulento já não me trará. Ou vou apenas sonhando com essa ideia. 

Li, por estes dias, sobre uma forma de meditação, "meditação mente aberta". Nunca me interessei muito por alguma espécie de meditação, mas afinal, ao ler aquilo, percebi que com certa frequência, muitos de nós andamos próximos de o ter feito. Ou passado por um outro estado, não sei se equivalente, mas com capacidade de nos alterar emocionalmente, fornecendo um conhecimento mais próximo do nosso inconsciente, e quase conseguindo identificar essa ponte difícil entre consciente e inconsciente, de que se desconfia vir o nosso controlo mental total. Já sobre yoga, tive curiosidade, mas nunca pratiquei. 

Não sei se algum tipo de meditação, algum exercício de concentração, próximo da conhecida concentração transcendental, que nos permite fazer, estudar, criar algo com o mínimo de esforço, num momento de total exclusão em relação ao meio que nos rodeia, nos permite esse conhecimento da ligação do nosso sistema 1 e 2, inconsciente e consciente, a que chamam Sabedoria. E de que se diz que os monges no Tibete há muito conseguem, sendo que o conhecimento actual das neuro-ciências parece confirmar. 

Mas fascina-me que cada vez estejamos mais próximos deste entendimento do que afinal nos comanda, e comanda o mundo. E que um dia possamos entender o caminho para um melhor controlo das nossas próprias percepções, ideias, conflitos internos, angústias e momentos de realização e sentimento de felicidade. Tal como me fascina a ideia de tentar um dia algum modo de meditação. 

No fundo é essa a imagem que deixa o "Navegante". E ainda podemos adicionar um melhor conhecimento de tudo o que nos antecedeu, pois a nossa mente, a de cada um, tem milhões de anos, muitos mais do que a nossa vida, com todas as marcas deixadas por uma cultura de que conhecemos parte, ou anterior a nós e nos fez assim. Do melhor conhecimento da nossa própria mente, única, mas com muitas semelhanças à de muitos que conhecemos, sendo todos resultados sociais numa mesma cultura, pode surgir um controlo sobre receios, terrores e ansiedades, mas também dos supressores da nossa inteligência, que a teoria da Inteligência Positiva, sucessora da Inteligência Emocional, segundo os seus investigadores, designa de "sabotadores".  O conhecimento desses sabotadores é, de acordo com o seu mentor, uma forma mais rigorosa de avaliação das nossas capacidades mentais, após o descrédito do QI e a evolução do QE (Quociente Emocional). 

Os actuais conhecimentos de neuro-ciências podem trazer-nos uma vida melhor no futuro próximo? Mas talvez nós mesmos, com exercícios de concentração, de alguma meditação, possamos atingir outro conhecimento de nós mesmos. Uma actividade criativa absorvente, ou mesmo uma actividade intelectual exigente, como ler algo de profundo e que demande muita capacidade mental, ou ouvir música tentando perceber a sua construção, o que pode ter inspirado o compositor, as imagens que nos ocorrem e tentar descreve-las, para nós mesmos, podem ser novidades nesse importante conhecimento do que somos e como agimos. Está documentado que a actividade mental intensa pode dar-nos melhor qualidade de vida, com mais saúde e mais longevidade. 

Pelo menos, pode dar-nos mais prazer e já é muito.



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