Um novo Paradigma para a Democracia (II)

Uma Democracia nascida tarde, numa época em que todos os seus parceiros já viviam em regimes democráticos amadurecidos, com bases culturais sólidas, por comparação com a sociedade pouco informada e com uma cultura muito incipiente, quase exclusiva da classe média e alta, só podia vir a ficar refém de inimigos da mesma.


Portugal viveu quarenta anos de Democracia, com todos os obstáculos que a permitiriam amadurecer ainda presentes ao dia de hoje. A corrupção, organizações secretas ou semi-secretas, sector financeiro, carisma de alguns políticos muito intensificados com todos este sistema e o passado (e presente). Mas é evidente que esta nossa Democracia tem mais "inimigos" que evitam que ela se estabeleça com solidez.

A subalternizarão da sociedade ao poder económico, não regulado, nem pelo mercado, nem por um governo sem interesses conflituosos com ele, tem sido a chave de toda esta captura da Democracia e da Economia em geral.

É este perigoso alicerce da Democracia que é fundamental mudar. Mudar de Paradigma. Para que e Economia não esteja refém de uma oligarquia poderosa e pouco transparente, e o Poder Político em primeira instância, é necessário que as decisões dos órgãos democráticos incidam primordialmente em sectores não económicos, sempre mantendo presente que nenhum regime moderno dispensa uma atenção constante aos agentes da economia e ao crescimento vital do Produto Nacional, base de sustentação já de si insuficiente. Mas cujo ritmo de crescimento tem de ser invertido, e é dos aspectos mais difíceis de intervenção governativa, criada uma situação de austeridade, necessária mas perniciosa, que atirou o país para níveis de poder de compra de uns vinte anos atrás e de investimento também de tempos recuados, ficando bem mais dependente do investimento externo, sem grandes possibilidades de usar um crivo conveniente a um país europeu.

Nos últimos anos foi nosso entendimento que devíamos seguir o rumo que a Europa fosse traçando. Não percebendo que a Europa não tinha ela mesmo, qualquer rumo, mas apenas uma necessidade, pelo lado económico fundamentalmente. Uma necessidade de não deixar perder uma hegemonia já decadente, e uma necessidade de recuperar um lugar no Mundo que outrora tivera, com uma capacidade económica poderosa e competitiva. A ideia de Merkel sobre custos do "Estado Social" expressa bem o rumo que a sua Alemanha quer para toda a Europa: "Somos cerca de 7% da população mundial com um custo em apoios sociais de 50% de todo o Mundo". Pode a Europa estar em excesso, nestes seus apoios sociais, mas não estará mais em défice de apoio, o "resto do mundo"?

O facto é que paralelamente a este "excessivo" Estado social europeu, na perspectiva redutora de Merkel, a desigualdade tem crescido, a diferença de remuneração entre os mais ricos e os mais pobres, ou mesmo a classe média, a caminho da extinção, é cada vez mais assustadora e transforma a visão de Merkel, numa mera impossibilidade. Se a isto adicionarmos o previsível efeito migratório da África sub-shaariana, teremos dentro de anos uma Europa com mais pobres do que os EUA e a própria China. E eu diria que não serão, talvez, necessários vinte anos. O ritmo de empobrecimento generalizado das sociedades europeia ainda não foi reconhecido...mas é assustador.

A descaracterização europeia, tornando-a distante dos seus padrões de outrora, com empobrecimento relativo e absoluto de regiões do sul, e tendendo a alastrar ao centro... é um dos mais relevantes sinais de decadência, à vista, acompanhada e ignorada, com alertas diversos nunca levados em consideração, precisamente porque se tem como base um poder financeiro que já não apresenta a solidez de outros tempos, mas que ilude a degradação económica e social (e cultural) de múltiplas regiões desta grande comunidade de países, onde o sonho nunca se construiu...

A desigualdade, que tem aumentado e continua a crescer é uma autêntica incubadora de oportunismos, um ninho de interesses, que tem sido responsável pela mediocridade generalizada que assistimos na política europeia. É uma incubadora de sistemas corruptos, sem precedentes, em toda a Europa.

Pela minha análise, tenho que a Desigualdade é o factor mais determinante, para uma salvação europeia, e portuguesa (!) que interessa inverter.




 

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