Tudo por cumprir

Há quem não viva quarenta anos. Tantos anos como esta espécie de Democracia por cumprir.

Há quem viva o dobro disso e metade, viveu na esperança do fim da ditadura, à espera da Democracia, e outra metade a ver se ela seria, de facto, um regime de justiça equitativa, social, cultural, económica e politicamente (os quatro pilares da Social Democracia lançados por Sá Carneiro em 1974, tinha eu a idade do meu filho mais novo, quinze anos. Vivi esses momentos, do 25 de Abril, com uma alegria...que hoje me entristece recordar).

O nosso regime foi tomado por falsos democratas, interessados em poder pessoal, em vaidade e vacuidades. Interessados num novo controlo do Poder, por um grupo por si dominado. Mário Soares, ao tomar o Poder, enganando a Democracia, e muita gente até fenecerem, instalou um controlo a todos os níveis próximo do antigo regime, vingando-se de Cunhal e de este nunca lhe ter dado espaço na luta contra a ditadura, ou depois, na instalação de um regime novo. Novo, mas podre e muito pobre em verdadeiras liberdades.

Assisti a tudo, bem de perto. Sofri com tudo o que foi acontecendo ao meu país. Quando julgava que alguém um dia podia arredar Soares e o seu grupo totalitário, dei por mim na sua substituição por outro grupo que de melhor tinha nada ou muito pouco. Mudavam apenas os amigos e as redes de tráfico de influências. Podem estar certos de que se tivesse alguma vez acreditado em Soares e na propalada Democracia, propaganda pobre e triste, de quem tudo fizera para controlar a comunicação social e conseguira, durante muitos anos, que se perpetuaram até Sócrates, e as artes, num país que ainda hoje vê a Arte e Cultura como monopólio de uma "Esquerda", outra mentira com mais de duzentos anos...eu te-lo-ia talvez seguido, como se fosse ele o estandarte de uma social democracia, ou uma Democracia com justiça social. Mas essa justiça social nunca existiu em Portugal.

O culminar do que digo está no grupo de empresários que foram singrando em Portugal, todos, sem excepção, os mais destacados, com profundas e nebulosas ligações ao poder político e a interesses que fizeram a nossos fraca economia refém. Mas sempre tivemos muita gente a alertar para tudo isto. E isto, são factos. Para muitos, factor carecem de provas. Mas é falso. As provas, ficam para a polícia e tribunais. Mas os factos existem por si sós. E para os constatar, frequentemente é apenas necessário associar acontecimentos, datas e consequências. Passado, é verdade. Mas conta saber e esgravatar bem, mesmo, para o que ainda vem aí neste parco e talvez muito triste futuro.

Outra facto, este do presente é que estamos metidos com grupos de meninos, por sua vez rodeados de tubarões da manipulação e dos interesses obscuros. Pelo menos nos dois Partidos maiores, pelo menos...

Outro facto, que ainda tantos intentam desmentir é a necessidade de Austeridade. Austeridade, talvez, ou nada, para alguns sectores, para os tais que necessitam de Reformas. Já sabemos. As tais Reformas, sempre necessárias, pelo menos para falarmos delas, mas ninguém sabe como se faz, nem tão pouco, verdadeiramente, porquê.

Rigor, não Austeridade. Rigor devia ter tido Soares, Cavaco, Guterres, Jardim, Sócrates e...Passos Coelho. Nenhum teve e trata-se do dinheiro de Portugal e não do Partido respectivo. Austeridade atinge sempre quem não deve, e empobrece um país já de si muito pobre. Mas há um pormenor interessante, ou dois, que muito contam: Sócrates quis acabar com o que chamava "pessimismo" do PSD e isso...custava muito dinheiro. Como tal, força! Endividou-nos. Fez propaganda com assuntos ridículos e só um ignorante ou um maldoso, ou alguém que se estivesse completamente indiferente, ou não...(daria e dá ainda dinheiro a amigos, outros casos que nunca chegaram a tribunal) se metia numa destas: Biodiesel. E Energia Solar, mas tudo em grande. E Eólica, mas em dimensão gigantesca. Conclusão: temos uma das mais caras energias da Europa, porque começámos uma conversão de fontes energéticas ainda muito incipientes, muito antes de tempo, como se fôssemos uma Suíça ou Noruega, que nem eles nisso se meteram! Mas há quem me diga que sou louco, que não defendo as renováveis...e continuamos a pagar e pagar. Um dia, sim, claro, as energias renováveis serão importantes, hoje...são material de investigação. Para um país com custos energéticos elevados e grande dependência do exterior, factor de competitividade chave, este foi um erro clamoroso, no momento em que se decidiu e avançou. Mas era muito politicamente correcto, tanto quanto incorrecto eu afirmar isto.

Rigor no tratamento dos assuntos do Estado. Nunca deixando que o domínio de tais assuntos ficasse nas mãos de privados sem escrúpulos (que não se medem com a altura a que colocamos o nariz em público, nem na forma cadenciada e circunstancial de dizer...alguma coisa, nomeadamente mentiras e asneiras, vulgo Ricardo Salgado e outros mais. Não ele apenas, não apenas....esperem um pouco mais!).

Rigor na escolha de políticos que nos devem servir. Servir! E não serem servidos. O Resultado, do reivindicado prestígio da classe política é termos um grande bando de interessados no erário público, que se sentam na Assembleia da República, nas suas comissões, nos gabinetes ministeriais, e nos Partidos da Oposição. Tudo "come à mesma mesa" e nós pagamos as compras, num supermercado com preços alemães.

Nunca houve social-democracia em Portugal, e há dias comentei isto, a propósito de um excelente artigo de José Manuel Fernandes, no Observatório. Houve algum teatro sobre uma espécie de social-democracia. Mas essa, tinha de se cumprir, nas vertentes enunciadas por Sá Carneiro. E ficaram de fora quase todas, talvez com um suave aroma à mesma nas áreas da Segurança Social e da Saúde, pois são temas e pastas muito propícias a vantagens eleitorais. Na Cultura, nada. Tudo muito ideologicamente marcado e datado. Em termos de justiça social, ainda que se tivesse criado um SNS dispendioso que muitos gabam, mas o país não comporta, pois da Social-democracia faltou uma Economia justa e social, sem privilégios especiais e favores políticos, mercados mais justos mas provavelmente alguns ainda controlados (não sou partidário da ideia de que os mercados se auto-regulam. Uma outra vergonhosa mentira, para a qual o país onde esta ideia nasceu começa a despertar, EUA). Faltou uma sujeição da Economia e das Finanças à sociedade e às suas necessidades, na Saúde, na Educação, na Cultura e na Justiça, no apoio ao empreendedorismo, numa verdadeira cultura de crédito para as empresas, num país em que até o capital de risco é sustentado em garantias que não se podem dar.

Portugal precisa de uma nova reformulação da Democracia. Entendo que talvez nem a antiga ideologia social-democrata, que se fundava em regime democrático com sólidas preocupações sociais, por insustentabilidade económica, por um lado, e porque o mundo entra em novos paradigmas e muda muito, actualmente, e já mudou antes, deva ser repensada. Talvez tenha de surgir uma nova ideologia, uma nova forma de regime.

Uma revolução silenciosa? Uma revolução nas ideias. Nas atitudes. Os nossos políticos do futuro, de que não consigo neste momento vislumbrar algum dos actuais, a desempenhar um papel num regime renovado, têm de ser humildes na atitude. Para governar não há que ser arrogante e sobranceiro. Essa é atitude de chefe, e precisamos é de líderes. De quem queiramos seguir porque sabemos nos levar um dia a um estado melhor, a uma sociedade que prospera, económica e socialmente, mas também, culturalmente. Nunca chegaremos a um patamar europeu de desenvolvimento com um povo inculto e desinteressado. Temos já evoluído muito, mas essa prioridade não conseguiu o ritmo desejável e necessário que sustente a substituição de pessoas em todos os lugares chave de uma sociedade, quando uns se retiram. Levámos quase quarenta anos para perceber a necessidade de limitar os mandatos municipais. Só isto revela que temos uma sociedade acrítica e muito passiva, por falta de sustentação na informação e cultura.

Por isso defendo que a Saúde e a Segurança Social são as áreas de actuação mais urgentes. Talvez também a Justiça, mas se uma sociedade tiver menos conflito, menos problemas económicos e laborais, menos tensão social e familiar, menos materialismo, a Justiça será menos solicitada. Mas as áreas mais importantes da acção do Estado são a Educação e a Cultura. A diferença entre importante e urgente deve ser estabelecida. Numa Visão para o país que só um homem defendeu e se mantém actual. Depois dele, só os interesses pessoais e de grupos predominaram. Nenhum político mais teve a integridade e humanismo de Sá Carneiro. Uma triste realidade. E isto porque em todos os Partidos se foi barrando a entrada e ascensão de gente assim, íntegra e incorruptível. Que há muita gente assim por aí...

Quarenta anos de Democracia (ou Democracia a meio-gás) . E ainda temos muito por construir. Nós. Portugal consigo mesmo. Pode haver inspiração noutros lados, mas o modelo tem de ser nosso.

Não será necessária uma revolução de rua, ou talvez. Mas acarretaria outros custo e um novo atraso, demasiado pesados para um país com mais de um milhão de pessoas com qualidade sem futuro à vista e muitas mais que essas no limiar da fome e miséria.

É preciso é muita inteligência e saber chegar ao poder nos Partidos com quem de facto possa mudar tudo e apagar da memória esta mediocridade toda. E urge!

No discurso de Gettysburg, Lincoln usou estas célebres palavras, ainda hoje actuais e por cumprir, também por cá:

A "government of the people, by the people, for the people".

Precisamos quem lidere, com humildade mas firmeza, um novo processo, com ideias limpos e descomprometidos em mente. Ao nosso serviço!











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