Livros e nós

Pensei...deixar este espaço em branco, por uns tempos e sumir. Pensei remeter-me a um tempo de ausência, que talvez o cumpra. Porque é apenas preciso. Não de reflexão, mas de ausência, de me retirar da minha presença constante, quando ela possa ser demais, ou quando alguma falta das palavras que por aqui escorrego, dê mais descanso a quem eventualmente leia. A nossa falta é necessária, mais vezes do que talvez quiséssemos. Mas um livro, um livro sem grande significado, mais do que entreter horas e carregar pálpebras até ao seu limite de saturação, um que havia deixado a meio, há uns meses, por ter páginas a mais num conteúdo significativo, empurrou-me para voltar aqui. Já volto a ele.

Somos personagens, como as dos livros, com que os autores, os bons, vertem para nos ensinar, alertar, ou mesmo e só, entreter. Personagens, que as há tão cinzentas, que nem por serem tristes ou alegres, passam a ter cor. Há-as na vida. Vejo-as na política de hoje. Vejo pela Televisão, que me forço a não ligar, cansado de futilidade, que não nos mudam os dias, talvez com a excepção de para pior. Passo a explicar.

Ken Follett é um bem sucedido autor britânico, que consegue andar de linha em linha até perfazer centenas de páginas e não nos deixar encontrar um Sentido. Uma personagem com espinha dorsal, um figurante nos seus livros, de quem possamos repetir uma ideia ou uma frase. Os seus livros entretêm, ponto. A sua trilogia "O Século", acaba de terminar com o volume mais recente "Edge of eternity", que já traduzido para português ("No limiar da Eternidade") nos enche de papel, praticamente sem uma ideia. Há gente, há sentimentos e há muitos acontecimentos. A história percorre o tempo entre as Grandes Guerras Mundiais e o período pós Guerra, até à queda do muro de Berlim. A ideia em si é mirabolante: cinco famílias, de cinco nacionalidades (americana, alemã, russa, inglesa e galesa), percorrem todos estes marcantes períodos da História, envolvidas em tudo o que aconteceu neste mundo ocidental (assassinato de Kennedy e sLuther King incluídos. Nem os Espírito Santo andaram envolvidos em tanto acontecimento de relevo...). Cada volume pesa umas novecentas a mil páginas. Fiquei pelo meio no primeiro deles. Provavelmente irei ler os outros dois. Mas só para confirmar que, passar o tempo a ler Follet ou ver uma telenovela brasileira, pouco difere das antigas fotonovelas de Corin Tellado (era assim que se chamava?). Um vazio. Personagens, e suas famílias, que passam por tanto e não nos deixam nada. Acontecimentos a mais. Ideias a menos.

Comparemos com Robert Musil, com Steinbeck, Hemingway, Faulkner, Eça, Camus, Hesse...Roth. Em todos eles aprendemos e ficam marcas. Com eles, comparamos a vida que vamos conhecendo. Têm cor, têm "alma" (seja o que isso for), têm até cheiro, no que dizem, no que os seus autores nos transmitem. Escolas plenas! Hesse era um poeta maravilhoso. Cada livro nos enche, ainda hoje, de ansiedade (boa) pela densidade de pensamento. Pela ondulada beleza das suas palavras que nos obriga a parar e...fazer essa coisa que dá preguiça e afugenta muita gente. Pensar. E todos os outros e muitos mais.

Como Follett, encontramos tanta coisa por esta vida assim. Entretém, o que nem é mau. Precisamos desse preguiça intelectual. De uma tal ausência, de nós, ou dos outros sobre nós.

No filme que ontem vi no meu canto, "A terceira pessoa" sem grande profundidade, algo havia de transmissão palpável do que pode ser um se humano. O oposto de um livro de Follett. Sem gente cheia, mas cheia de gente vazia. Como na vida.

Ligo a televisão, ou leio algures, ou me dizem...e penso de novo nestes regimes democráticos que temos. Cheios de Folltetts. Personagens sem nada. Saem de cena e nem sentimos que saíram, pois entram e passaram e só criaram espaço. Os nossos políticos, que se entretêm com campanhas e reuniões, com palavras sem uma réstia de inteligência, dessa que Hesse nos transmitiu, profunda e significativa, maçadora para muita gente, marcante para outros, passam...só preenchendo espaços. E pela vida conhecemos tanta alma assim. Todos têm legitimidade e a vida não é feita apenas de intelectualidade e sentido profundo. É também de futilidade. Que por vezes nos descansa. Como de branco se tratasse (sei que o vazio é o negro, a ausência. Mas não gosto de negro...). Espaço vazio. Claro que sim!

Mas as comparações persistem, para além dos momentos de ausência, a nossa e a dos outros para nós, dos nossos retiros, físicos ou de pensamento. Nem se deve cansar o mundo com ideias e grandes causas. Mas elas existem, ou deviam.

E quando lemos Musil, ou Roth, ou vemos um filme de Bergman ou Malick, ouvimos Pink Floyd, The Doors, Puccini, Schubert...ou uma excelente conversa, sentimos muito mais do que preenchimento de espaços, em papel ou pelo ar.

Era este sentido de vida. Que nos meta a caminho de alguma reflexão ou nos ensine, que gostaria de ver nas nossas personagens, nas empresas e na política. De Ken Follett, sempre teremos muito por aí.

Abaixo destas linhas espero deixar...um novo espaço. Vazio. Por enquanto.

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