O Momento Sublime

"Na nossa sociedade, Marcus, os homens que mais admiramos são os que constroem pontes, arranha-céus e impérios. Mas, na verdade, os mais nobres são os que conseguem construir o amor. Na verdade, não há empresa maior nem mais difícil" (Jöel Dicken, in A verdade sobre o caso Harry Quebert).

Na verdade, essa coisa que muitos procuramos, em tanta esquina...a verdade sobre os outros, nós, a vida, a política, a religião, o amor, a amizade, as razões de discussões e de encontros. Na "verdade", tudo se relativiza, quando fazemos coisas, no trabalho, com família e com a nossa pessoa mais querida, por amor, com amor.

Mas ele existe em muito mais assuntos. Ou devia. Far-nos-á falta, quando alguém desaparece prematuramente, como ainda hoje ao ler um amigo, me recordei uma vez mais, da falta dos meus pais. Era uma relação incondicional, era-a apenas porque sim, porque eram pais e eu filho.

Há algo parecido, de envolvimento e de exigência de nós mesmos, efémero mas sublime e que nos faz sentir a superação do que somos. Há quem lhe chame Concentração Transcendental. Momentos incríveis de absoluta paixão, concentração e uso de faculdade mentais nunca noutros momentos experimentado. Quem sentiu, essa auto-superação, entenderá do que falo. É, pode ser, frequente, quando estamos a criar. Uma obra de arte (ainda que sem o reconhecimento colectivo do epíteto, mas esqueçamos o snobismo que as Galerias e correntes artísticas impõem a esse mundo hermético, propositadamente hermético), pode oferecer-nos essa experiência, não direi superior, mas de absorção total das nossas capacidades. Vi-o, com uma das minhas filhas, senti-o. É incrível. É lindo ver.

Nesse momento, o amor, que não o é, faz de nós algo muito superior ao nosso habitual. Concentração Transcendental. Momento de uso da mente, excepcionais e únicos e efémeros. Para tal, há que existir um conjunto de condições. Antes de mais uma paixão por uma coisa, uma tarefa, um hobby, ou mesmo um momento de amor ímpar. Sentirmos que temos mesmo de fazer esse "algo" e que conseguimos reunir tudo em nós, para tal. Ninguém o fará melhor, mas não há sequer vislumbre que qualquer comparação com alguém , ou com alguma coisa. É tudo em valor absoluto, precisamente. O relativo não existe. Depois, a nossa mente entra em câmara fechada. O que nos está à volta desaparece. A mente faz uso de capacidades nunca antes experimentadas. Penso que o Inconsciente "sobe" ao parente pobre da mente consciente.

Com uma tela em branco à frente, já vivi um ou outro desses momentos. Com uma "folha' de papel, ou um espaço em branco num computador, também. Mas não me lembro como comecei. Apenas comecei e não consegui parar. Até...ter achado que estava feito. À minha volta deixou de haver mundo. Já o senti noutros momentos. Mas não para aqui relatar. Já o vi em algumas pessoas. De umas, também não relatarei. Da minha filha, por uma e outra vez, a tocar violino, ou a estudar matemática. Foi incrível e maravilhoso, estar a li e presenciar. Era como ter entrado nessa câmara de vidro transparente em que ela se tinha encerrado, e estar de fora assistir. Nem deu por mim. E teve um desempenho, como se algo de divino, se o divino existe, a tivesse tocado. A mente brotava criação, inspiração e tudo saía sem o mínimo esforço. E é assim que se define esta capacidade especial que todos temos em potencial, mas por muitas razões, muitos de nós não conseguimos viver. Saem as nossas criações, sejam de arte, de ciência ou de paixão com alguém, numa produção sem o mínimo esforço, mas com uma qualidade nunca antes conseguida. Vivê-lo não faz de quem o vive alguém superior, mas alguém com uma sorte fantástica, de ter conseguido canalizar tanta capacidade mental como o mínimo dispêndio de energia e esforço.

É o momento sublime. Acho que já tive a sorte de o experimentar algumas vezes. Vem sem ser solicitado, mas somos nós que criámos as condições para tal. O tal amor de que fala Dicken, no romance que refiro. Não fala de um amor apenas humano, embora pareça. Pode também ser, e pode viver-se em momento de intensa paixão, de intimidade excepcional, difícil de repetir muitas vezes, ou mesmo apenas de comunicação, ainda que à distância, ou presencial, em conversa apenas, quando se sente uma força imparável, impossível de deter. Mas o mesmo se aplica a uma produção pessoal, como antes mencionei. E é também uma outra versão de amor, não por alguém, mas é-o no sentido do empenho e penetração mental, raro e profundo. Indescritível, como podem ver pela dificuldade de o descrever cabalmente.

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